É proibido ensinar. Aprender é vergonha.

Há muito tempo que andava à procura de quem o disesse melhor do que eu alguma vez o conseguiria. E encontrei. No Expresso de sábado passado, Guilherme Valente, o editor da Gradiva, citava o francês Laurent Lafforgue, expulso do Haut Conseil de l’Éducation, por ter afirmado coisas como isto:

«Depois de ter começado a interessar-me seriamente pelo estado da educação no nosso país (…), cheguei à conclusão de que o nosso sistema de ensino público está em vias de destruição total. Esta destruição é o resultado de todas as políticas e de todas as reformas conduzidas por todos os governos a partir dos anos 60. Essas políticas foram desejadas, aprovadas conduzidas e impostas portodas as instâncias dirigentes da Educação Nacional, particularmente pelos famosos especialistas da Educação Nacional, os corpos de inspectores (recrutados entre os docentes mais dóceis e submissos aos dogmas oficiais), as direcções das administrações centrais, as direcções e corpos de formadores das IUFM dominados pelos famosos didactas e outros especialistas das ditas ‘ciências da educação’, pela maioria dos especialistas das comissões de programas, em suma, pelo conjunto da nomenclatura da Educação Nacional. Essas políticas foram inspiradas a todo o sistema por uma ideologia que consiste em não conferir valor ao saber e que quer fazer prioritariamente desempenhar à escola não a instrução e a transmissão do conhecimento, mas outros papéis, na crença imposta em teorias pedagógicas delirantes, no desprezo pelas aprendizagens fundamentais, na rejeição do ensino organizado, explícito e progressivo, no desprezo pelos conhecimentos de base ligados à imposta aprendizagem de conteúdos nebulosos e desproporcionados, na doutrina do aluno ‘no centro do sistema’ e que deve ‘construir ele próprio os seus saberes’. Esta ideologia dominou igualmente as instâncias dirigentes dos sindicatos maioritários (…). Toda esta gente não tem hoje outro objectivo que não seja o de alijar a sua responsabilidade e mascarar por todos os meios a realidade do desastre. Confesso não saber se têm agido de boa-fé, ou se, pelo contrário, não terão organizado deliberadamente a destruição da escola. Também não sei quais de entre eles – uma minoria certamente – não participaram nesta loucura colectiva, nem quais, tendo participado, têm hoje consciência das consequências dramáticas dos erros acumulados desde há dezenas de anos e estarão hoje dispostos a partir numa outra direcção. ‘A priori’, tenho a mais extrema desconfiança relativamente a todos os membros da nomenclatura da Educação Nacional».

[ Leia-se, no Expresso, o artigo todo de Guilherme Valente. Nunca as mãos lhe doam. ]

Também em Portugal é bom tom não ensinar («Somos todos alunos», não é?) e é melhor tom não aprender (exige disciplina, essa coisa chatíssima). De todas as desgraças que a correcção política nos trouxe, esta é a mais desgraçada: porque priva as crianças do direito a desenvolverem-se. E o que sobra… é essa prática contentinha do professor que nada exige e nada ensina, porque poderia ser acusado de querer ensinar. Sobram essas pedagogias «delirantes», esses «conteúdos nebulosos», essa «loucura colectiva» dos senhores pedagogos e seus chefes, para quem tudo está sempre muito bem, porque até a sugestão do mais parvo dos néscios é… aproveitável. Isto é uma mentalidade de Esquerda? Receio que sim, e desta Esquerda me envergonho.

Somos poucos os que não temos vergonha de ensinar. Mas, quem sabe, atingiremos alguns que não tenham medo de aprender. Eles são a reserva do futuro.

64 thoughts on “É proibido ensinar. Aprender é vergonha.”

  1. Francamente, nunca consegui entender este pessimismo que anda sempre de braço dado com o faduncho “Antigamente é que se aprendia a sério”. Eu fiz parte do secundário ainda antes do 25 de Abril e acompanho agora uma filha que o termina. Não estou bem a ver onde está essa nebulosidade nem esse défice todo: em várias matérias ela já domina conhecimentos que eu nunca tive no liceu, os seus professores não me parecem nada permissivos e ela sente na pele como a exigência na avaliação é tenaz.
    Não sei se os franceses andam mais à nora que nós; mas não estou de todo a ver o que é que isso tem a ver com esquerda ou direita. Vão espreitar as filosofias didácticas americanas, que, ao que parece, produzem tanto génio e tanta malta carregada de espírito prático — não me parece que encontrem os mestres-escola de antanho, agarrados à “Cartilha Maternal” e à disciplina da régua…

  2. Muito bem. Apoiado a 100%. O diagonóstico francês aplica-se como uma luva a Portugal. Os erros e os “mestres” são os mesmos. As escolas de ciências de educação deviam ser fechadas e os “doutores” do eduquês despedidos sumariamente. A Europa (ou parte desta) que foi atingida por esta praga da educação pós-moderna e serôdiamente soixante-huitarde está a perder a competição com as potências asiáticas (e até as do leste europeu, onde a moda não chegou), onde os níveis de exigência do ensino são altíssimos. E isto apesar de gastarmos biliões com a educação. Os energúmenos do eduquês encarregam-se de destruir alegremente o futuro do país… Até quando ?

  3. Luís, constato duas coisas:

    Primeiro, que a tua filha, e tu agora por acréscimo, têm uma sorte invejável. Escaparam às garras da máfia eduquesa. Folgo por vocês.

    Segundo, que não pode falar-se nas vantagens da disciplina («tenaz», olha lá… eu nem fui tão longe) sem que logo se nos apode de defensores da «cartilha maternal» e da «disciplina da régua». É desesperante. Mas nisso não és o único. Nem és o pior.

  4. A escola pública portuguesa é a escola da fraternidade porque acolhe e protege o cego e o iluminado, o branco e o preto, o coxo e o bailarino, o católico e os outros, e isso, já se sabe, incomoda muita gente. E nunca será perfeita, ou não seja ela própria uma utopia.

  5. Há, realmente, grandes problemas na administração do ensino, em particular na transmissão de conhecimentos fundamentais, em França. Muitos “pedagogos” têm cometido erros de palmatória e sobretudo no ensino elementar. Mas isso ressente-se nos estabelecimentos de ensino dos bairros mais desfavorecidos. Podem crer, que de uma maneira geral, o ensino têm um nível invejável, mesmo para nós. As reformas de que o nosso ensino precisa, não são comparáveis ao que se observa em França, podemos, no entanto, tirar algumas lições do que lá se passa, para não continuarmos a praticar “pedagogia” de super-mercado ou de fast-food. Estou de acordo com o que diz o senhor do “eduquês”, aprender, como, educar, não é, naturalmente, um acto voluntário para qualquer criança. Como diz o ditado, de pequenino é que se torce o pepino, sem isso, só incapacidade de evoluir, iletrismo, exclusão e tudo o que se segue…

  6. Sílvia, deixe-se de baboseiras pós-modernas. O problema não é que todos entrem na escola (isso é inevitável e até desejável, no mundo de amanhã os operários têm que ser quase engenheiros…). O problema é que, entrando todos, se elimine a busca da excelência, e se nivele tudo por baixo. Para isso, mais valia a escolinha de 3ª classe de Salazar, porque embora medíocre era muito barata. Agora, pagar biliões, que chegariam para ter um sistema educativo altamente eficiente e competitivo, e só ter, por preconceitos facilitistas de pedagogos irresponsáveis e anti-patriotas, como resultado a mediocridade…

    Vejam como é a educação no Japão, Coreia do Sul e China… Completamente o oposto da nossa. Não há tolerância para com a mediocridade. Até qualquer criança ucraniana que venha para as nossas escolas passa a ser logo a melhor da classe, mesmo com a dificuldade da língua ! O ME devia ser limpo de toda a escumalha eduquesa…

  7. Aos poucos, começam a questionar-se os bonzos do eduquês. AInda falta levar ao pelourinho da crítica pública, Marçal Grilo, Roberto Carneiro e sobretudo, a inefável Benavente.

    Esses carrascos do nosso ensino público ( e particular) destes últimos vinte anos, prejudicaram-nos, a meu ver, mais do que todos os ministros das finanças juntos e por atacado.

    AInda hoje ouvi na TSF mencionar que da formação profissional ( bem sei que não é a mesma coisa, mas é um ersatz do ensino técnico-profissional que não há como devia e dantes existia)existente e promovida intensivamente pelo IEFP, só um terço dos formandos arranja emprego a seguir aos cursos de formação profissional. Desse terço, 40% acha que a formação nada adiantou para conseguirem o emprego…

    Acabe-se com estas palhaçadas e invista-se o dinheiro na reposição do velho sistema de escolas comerciais e indistriais com professores competentes e que ensinavam artes e ofícios como deve ser.
    Ainda hoje, muito contabilista que anda por aí, aprendeu os segredos do POC nas carteiras da Escola Comercial. Muito electricista com empresa montada e muito técnico engenheiro, aprenderam aí o básico e o fundamental para a vida.

    Que o diga um Narciso Miranda, por exemplo…e que não sendo exemplo, aí aproveitou o exemplo da boa formação que se dava.

    Não é por nostalgia que falo. É por ver a desgraça, digo, a tragédia em que se transformou o nosso ensino técnico-profissional. E não foi por falta de dinheiro…

  8. Eu não sei bem o que se passa em França e quais as semelhanças com o que se passa em Portugal. Fiquei a saber mais ou menos o mesmo com este post. O que sei, por conhecimento directo, é que as crianças saem agora da escola a saber mais, com o tal “eduquês” de tão má fama, do que antigamente, sem o eduquês. O problema é o que fazer depois com o que sabem, mas isso respeita à eventual desadequação do ensino ao mercado de trabalho, problema um pouco diferente. Antigamente, ter boa caligrafia e saber as linhas dos caminhos de ferro, era já uma garantia de um razoável emprego. Agora, melhor seria se treinassem todas as crianças para serem atendedoras de telefone em call centers, ou lhes ensinassem técnicas básicas de reprsentação para telenovelas.

  9. Caro Euroliberal,
    e quem lhe disse que a escola pública portuguesa exclui a possibilidade da excelência e nivela tudo por baixo? Não se esqueça de que esta escola é o reflexo da nossa sociedade e esta ainda tem muito que pedalar para chegar ao cimo da montanha.
    Ainda bem que a educação administrada no Japão, Coreia do Sul e China é completamente oposta da nossa, por mil e uma razões.
    Já agora, diga-me lá, para que serve o produto da educação dos nossos jovens? Quem são os consumidores desse produto?

  10. Sílvia: a globalização faz acelerar dramaticamente a competetividade dos sistemas de ensino. E há países “pobres” como a India (1 bilião de habitantes, ou mil milhões…) que têm níveis extraordinários na produção de quadros superqualificados. Além de utilisar esses quadros no seu crescimento meteórico, a India exporta anualmente dezenas de milhares de engenheiros informáticos ou de biotecnologia, físicos, etc. para a Europa e EUA. As industrias que nos interessam (as de alto valor acrescentado) vão para a Irlanda e Finlândia, APENAS por causa do elevadíssimo nível da mão de obra e quadros locais. Porque nesses países não há nem houve empatas eduqueses… Apenas profissionais altamente qualificados que sabem do que ensinam, e não se limitam a supostamente “saber ensinar” coisa nenhuma. Não adianta compararmos-nos com o que havia ontem, temos de nos comparar com os nossos concorrentes de hoje. E os níveis de português (já não se lêem nas aulas os Lusíadas nem Gil Vicente, mas notícias de jornais !!!) e matemática são hoje aflitivos ! Ainda bem que somos diferentes da China e Japão ? Bom, se você quiser que toda a nossa indústria se desloque para esses países…

    Há 40 anos, na 3ª classe já quase não se davam erros no ditado diário… Quem tivesse 4 ou mais erros levava reguadas, e em cada dia não havia mais de 2 ou 3 (em turmas de 40) a irem ao castigo… Hoje há milhares de universitários que escrevem “à” em vez de “há”…

  11. Escola da fraternidade??
    AhAHAh…Não consigo parar de rir… Esta foi a melhor piada do dia, se bem que o dia ainda tem muito que andar.

  12. Caro José,
    existem escolas profissionais por todo o país e cursos tecnológicos em todas as escolas secundárias, mas acontece que a grande maioria dos nossos alunos, digo, pais dos nossos alunos, só pensam
    na licenciatura, mesmo que
    esta resulte da sorte de um qualquer sorteio da farinha Amparo.
    Quanto à nostalgia do passado, caro José, o melhor é esquecer, porque para melhor não é com certeza, e para pior já basta assim…

  13. Ana Cotter, eu conheci a escola pública e privada da ditadura. Tenho memória e sei avaliar a diferença. E depois há muitas maneiras de estar na escola. Eu, por exemplo, gosto de ensinar na escola pública e ainda me pagam por cima…

  14. Eu sei que esse discurso sobre a educação está na moda, tem profetas a esmo: Bonifácios, Cratos e Valente, mas tende a escamotear algumas coisas essenciais: é diferente ensinar dois milhões, em vez de dez mil pessoas. Até porque esses dois milhões têm famílias que nunca foram escolarizadas, e,muitas vezes, nem sequer têm um livro.

  15. Nuno: então como explica o sucesso das políticas educativas da India (1 bilião de hab.), China (1,3) etc. ? A quantidade não impõe necessariamente a mediocridade. O que impõe a mediocridade é a mentalidade e as pseudo-pedagogias eduquesas ! Coitadinhas das criancinhas, não podem levar notas negativas nem chumbar, porque iam ficar traumatizadas e a escola deve ser sobretudo lúdica (uma bandalheira, leia-se), não é ?

  16. Euroliberal: a educação, afinal, destina-se para quê e para quem? Será que o mais importante na educação é formar recursos para sustentabilizar um sistema económico? Será que a educação serve apenas para desenvolver competências no saber fazer? E o saber ser? E o Homem?
    Às vezes, parece que vivemos num país da América Latina em vias de desenvolvimento…

  17. “Até porque esses dois milhões têm famílias que nunca foram escolarizadas, e,muitas vezes, nem sequer têm um livro.” diz NRA

    Pois, como Cavaco e Belmiro, para citar apenas os 2 portugueses com mais sucesso na política e na carreira empresarial, respectivamente. Cavaco andou na Escola Comercial antes de ir para o ISCEF. Belmiro, do Marco de Canavezes, precisou de uma bolsa da Gulbenkian para ir frequentar o liceu Alexandre Herculano no Porto…

    O que querem os Cavacos e Belmiros de hoje ? Terem de qualquer maneira um canudo que não vale nada no mercado, ou um canudo “de fasquia alta” (isto é, que não se abaixa para “compensar” os mais desfavorecidos) que lhes permitirá estudarem arduamente e lhes abrirá a porta do sucesso ?

    Abaixar os níveis de exigência em relação aos estudantes desfavorecidos só desfavorece estes. Porque os ricos, se tiverem canudos desvalorizados pela bandalheira eduquesa, terão sempre bons empregos através de cunhas. Mas os “belmiros” e “cavacos” se não tiverem um canudo bem cotado no mercado (por ausência de delírios pedagógicos e “lúdicos”)… ficam a ver navios…

  18. Compreende-se a confusão pedagógica motivada pela “súbita” liberdade de reorganização do sistema, em 75, e nos anos que lhe seguiram. Compreende-se que durante a década de noventa a pedagogia se tenha centrado obsessivamente no problema do chamado “insucesso escolar”, e no consequente problema da “inclusão”. Não acredito que a ma-fé esteja presente nas sras benaventes e afins. Mas a verdade é que o sr. josé e o sr. venâncio e o sr. euroliberal muito se indignam e pouco sugerem como solução. Porque o verdadeiro problema está no que fazer às crianças com o pós-moderno problema das dificuldades de aprendizagem onde cabe tudo, desde as verdadeiras afasias aos maus tratos juvenis. A sr. nogueira pinto, por exemplo, sugeria que fossem simplesmente postas fora da escola uma vez ultrapassado o limite de reprovações. Política de exclusão? Politicamente incorrecto? É por aí que querem seguir? Porque dizer que o problema está nas reestruturações curriculares, nos “conteúdos nebulosos” não é nada. Quanto ao alargamento das competências da escola, à tendência para entender a escola como substituta do exercício parental, isso sim leva-nos a uma discussão produtiva. Porque afinal, a parentalidade também é passível de avaliação,
    ou não?

  19. “Será que o mais importante na educação é formar recursos para sustentabilizar um sistema económico? Será que a educação serve apenas para desenvolver competências no saber fazer? E o saber ser? E o Homem?” exclama a eduquesa Sílvia…

    O delírio eduquês em todo o seu esplendor…

    Quer você dizer que Belmiro e Cavaco não “sabem ser” ? Que não são “Homens” ?

    Quer dizer que para “saber ser” e “ser Homem” devem dar-se muitos erros de português, nunca ter lido os Lusíadas, Auto da Barca e Maias (proscritos pelos talibans eduqueses), marimbar-se para a matemática, informática e inglês ?

    Desde quando é que um burro (homo eduquensis) “sabe ser” e “é Homem” ?

    UM BURRO É UM BURRO. MAINADA ! E UM EDUQUÊS É NECESSARIAMENTE UM BURRO !

  20. Sim, Anónimo, o desempenho dos pais na educação dos filhos também deveria ser avaliada. E o resultado deveria ser apresentado em “carne viva” para que os pais consigam, assim, adquirir o conhecimento próprio e, com ele, seguir em frente, com verdadeira humildade.

  21. “é diferente ensinar dois milhões, em vez de dez mil pessoas”

    Claro que é diferente.
    Para colmatar essa diferença enorme é que se aderiu à CEE-UE-CE! Ou teria sido mesmo só para “sacar” as massas, como se dava a entender no discurso oficial do tempo cavaquista?!!

    É que parece ter sido esse o único resultado visível, para além das estradas que se podem ver e que são importantes…mas já em 1972 havia um plano rodoviário que as previa. E muitas delas bem antes do prazo em que foram construídas. Há documentos que o atestam.

    Para além disso, o caso da Irlanda deveria fazer pensar os adeptos do patobravismo. Mas não faz, porque isso significaria terem de abandonar paradigmas enquistados. E como se provou em 1989, os muros caem por dentro, mas antes é preciso muita força do lado de fora.

  22. O que se ensina na escola primária /básica ( outra característica interessante é a adaptação dos novos termos que designam realidades e profissões, pela novilíngua eduquesa), devia ser o fundamental.
    Há quem diga, dissesse e tornasse a dizer ao longo de anos e anos que era aí que o esforço financeiro deveria ter começado.
    Alguns acreditaram. Mas não se chamavam Benaventes, Grilos ou Carneiros. Estes, repetiram outras noções com discurso fluente e encantatório.
    Resultado: a maioria seguiu o discurso da sereia.

  23. Para o anónimo da “exclusão”:

    Um cábula que chumba 2, 3 e mais vezes numa disciplina e é expulso do ensino, não é excluído. EXCLUÍU-SE, o que é totalmente diferente. Se a escola incute nos alunos a irresponsabilidade e a vitimização permanentes, então já falhou completamente a sua missão e mais vale fechar. Porque não está a formar para a vida, está a formar FALHADOS ! Se o burro chumba reiteradamente e prescreve, sai da escola e o problema é dele e só dele ! Cada um é livre e decide soberanamente o seu destino. A sociedade limita-se a dar oportunidades a todos. Mas não tem culpa do mau uso dessas oportunidades por alguns. Não é sua função arrastar às costas pesos mortos e inúteis indefinidamente. E depois, não é tragédia nenhuma sair da escola por insucesso escolar. Talvez a vocação esteja noutro lado. E também são precisos cavadores de batatas e colectores de lixo…

    A escola deve incutir valores: responsabilidade, honestidade, capacidade de luta e adaptação.

    Não, como defende a mafia eduquesa, desresponsabilizar a juventude, amolecer a sua capacidade de luta, inocular-lhe o relativismo e niilismo morais, transformá-la em viveiro de anti-sociais nevróticos e adolescentes retardados incapazes de serem úteis a si e à sociedade.

  24. Além disso, haverá sempre quem defenda os programas, ideias e conceitos que foram fazendo escola nos programas oficiais.
    Defenderão- e com argumentos insindicáveis. Tal como na política económica ou no sistema de justiça, as realidades são demasiado complexas para poderem ser explicadas a contento e se torne possível a demonstração dos erros de modo notório e que todos entendam.

    Assim, quem discorda do eduquês, tende a retomar os conceitos passados e que então deram resultados.
    Estes, definitivamente, não deram.
    Logo, pela lógica simples e da experiência comum, não prestam.
    No Evangelho se escreve que a árvore se conhece pelos seus frutos.

    Os frutos desta árvore educativa que esses senhores e senhoras plantaram, são fracos,pouco nutritivos e nem têm sabor. Mas alguns estão bem envernizados e parecem deliciosos.

    É esse o problema, parece-me cara Sílvia.

  25. Também se torna evidente, para quem quiser ver, que se uma criança não tem tempo para aprender, por causa de múltiplos factores que dantes nem existiam ( tv com telenovelas da TVI a todas as horas, sem qualquer problema, pro exemplo); ou a falta de tempo dos pais para acompanharem o estudo necessário dos alunos; ou o ritmo de vida que se escolheu ou foi possível arranjar, então, o problema já não é apenas dos Grilos e Benaventes, mas de todo um sistema que falhou.

  26. Era tão bom se não trocássemos nenhuma ideia sobre o assunto…»

    O seguinte texto foi lido por uma amiga minha, professora de Português, na reunião do grupo da disciplina realizada esta semana.
    A professora XXXX informa que prevê que no final deste segundo período se registe um acréscimo no número de níveis inferiores a três nas turmas do oitavo ano que lecciona. Tal ocorrência deve-se ao facto de os alunos não terem acompanhado o aumento da quantidade e da complexidade dos conteúdos de Funcionamento da Língua com uma imprescindível intensificação do estudo, apesar de terem sido constantemente alertados para essa necessidade e de terem realizado fichas de avaliação suplementares. A professora constata que os alunos aderem entusiasticamente às actividades de aprendizagem dos conteúdos de Funcionamento da Língua desenvolvidas nas aulas. Porém, tratando-se de conteúdos tão exigentes do ponto de vista da memorização e da compreensão, necessitam, incontornavelmente, de aturado estudo individual com vista à cimentação dos conhecimentos e à sua passagem à memória de longo prazo. Ora, estes alunos foram educados num paradigma pedagógico-didáctico que desvaloriza, quando não proscreve explicitamente, a repetição como componente inalienável da consolidação e, portanto, da memorização. De modo que, perante conteúdos impossíveis de apreender de relance, rapidamente e sem esforço, os alunos soçobram, independentemente da entrega apaixonada do professor e do gosto e da motivação que manifestam na realização das actividades na aula. Na verdade, por não terem treinado de modo sistemático, frequente e progressivo a memorização, agora não possuem esquemas mnemónicos, nem capacidade de concentração e de esforço demorado, competências essenciais para a aprendizagem. Uma prova da veracidade deste lamentável facto é-nos dada, precisamente, pelos alunos que têm sucesso, apesar deste sistema, na prática, desvalorizador do conhecimento. Esses alunos desenvolveram esquemas de autodefesa, não desprezando a aquisição de hábitos pessoais e intransmissíveis de aprendizagem, ainda que contrários ao prazer imediato que certamente também apreciam. E assim, para passarem além do Bojador que é a Gramática, não se importam de passar além da dor.É certamente significativo o facto de que, num grupo de mais oito pessoas presentes, apenas duas secundaram o diagnóstico e as preocupações daí decorrentes. As restantes demonstraram, pelo contrário, incómodo (se não enfado) por a questão ser sequer abordada; tal incómodo ou enfado não foi, no entanto, verbalizado, certamente devido aos reconhecidos mérito e competência da professora minha amiga, e ao ascendente daí resultante — ascendente que, para nossa desgraça, não se traduz no desejo de emulação por parte dos professores em causa, mas tão-só num estratégico silêncio.

    Keep smiling and hope it will go away… It won’t — but anyway.

    Texto roubado ao blog “não tenho vida para isto” de Fernando Gouveia – 29/03/2006 – http://www.ntvpi.blogspot.com

    Este post despertou-me a atenção depois de ter lido “o meu candidato a ministro da educação”, de Valupi – 17/07/2006.

  27. luísa:

    Basta ler o seu comentário, para perceber que sabe escrever correctamente e de modo a que toda a gente percebe o que pretende dizer e significar ( termo maldito, mas que uso de propósito).

    Nem todo o eduquesado, escreve assim…

  28. E…nem de propósito. Acabei de comprar o último número da revista francesa Capital. Muito por causa de um artigo que vinha anunciado na capa: “Le bêtisier de l´éducation national”.
    Estava agora mesmoa folhear, enquanto faço outras coisas ( como ler aqui e escreve acolá e ainda atender ali) e descubro o artigo na net.

    Está AQUI“>http://www.capital.fr./magazine/Default.asp?revue=CCA&numero=175&numarticle=56790″>AQUI

    Leitura muito proveitosa e que Nuno Crato não desdenharia.

  29. Caros concomentadores,

    Já começaram a perceber porque é que a Justiça no nosso país é tããão leeenta?

  30. Caro Euroliberal,
    As nossas criancinhas não são passadas quase administrativamente, para não ficarem traumatizadas, elas são passadas, para serem corridas do sistema de ensino e isso não sobrecarregar o erário público. O Estado finge que permite aos pobrezinhos terem hipóteses, com o ensino obrigatório, mas como isso é caro, dá ordens aos professores para os passar. É sabido que os professores são obrigados a justificar o “excesso” de negativas numa turma .
    Não conheço o sistema de ensino indiano e chinês, mas desconfio que se mede o sucesso deles, pelos percentualmente poucos cérebros exportados, o que seria como cantar loas ao nosso ensino devido aos cientistas portugueses que estão no estrangeiro. O que eu digo, e repito, é que a massificação do ensino exige uma política de ensino com apoios diferenciados que não se esgota no manter dos critérios de exigência. Um filho de um professor catedrático tem mais apoios sociais e capitais familiares do que um filho de um agricultor das berças. Ora o nosso sistema é mentiroso: concebe programas fictícios que nunca são cumpridos, dando vantagem à aqueles que podem compensar essa mentira em casa, e não tem em conta as diferenças daqueles que aprendem.

  31. carlos santos:

    Tem razão. Mas não é por minha causa, certamente. Quase tudo em dia, meu caro…
    A verdade é que preciso destas sabatinas tertulianas, para carburar melhor.

    A propósito de produtividade: já alguém se perguntou algo a esse propósito, mas sobre os professores?

  32. Fernando,

    Citei precisamente esses adereços vetustos à laia de contraste exagerado. Mas reparo que ainda ninguém aqui repôs o bom senso, enunciando as excelentes medidas que erradicariam o malvado e tão na moda “eduquês”.
    É o costume em tantos campos em Portugal: berrar contra a “choldra” é actividade querida de milhares; anunciar propostas concretas é que parece mais difícil.

  33. As propostas concretas encontram-se na antítese do sistema proposto.

    1. Investimento maciço na educação primária ( começando logo por repôr o nome antigo, como símbolo de mudança).

    2.Reposição do modelo de ensino técnico nos moldes antigos, aproveitando as potencialidades actuais.

    3.Assegurar um tempo mínimo para estudo dos alunos. Todos os alunos, do primário ao secundário.

    Estas ideias são simples, talvez simplistas, mas como dizia o comentador citado pela luisa, “Keep smiling and hope it will go away… It won’t — but anyway.”

  34. José,

    Quanto ao ensino técnico, nada sei. Mas estou capaz de garantir que o ensino primário que foi ministrado aos meus filhos é muito mais funcional, prático e abrangente do que aquele que eu recebi. Decorava linhas de caminho de ferro em Portugal e nas colónias de então, nomes de ossos e mil e uma outras peças de briqueabraque cultural. Não me parece coisa a ressuscitar… Quanto a entregar mais dinheiro ao ensino, mormente a este nível, boa ideia será, mas será realizável nos dias de aperto que correm?
    Quanto ao tempo mínimo de estudo, só por si, não seria garantia de maior absorção de conhecimentos. E não esqueça que já todos os miúdos levam com cargas insanas de trabalhos para casa, que os obrigam a estudar diariamente.

  35. Luis Rainha: aqui vai uma proposta decente para a resolução do problema da “choldra”.
    1. Enviar o pessoal das “Porcalhotas” e das berças para o Afeganistão e Iraque, em missão de Pax;
    2. Recortar o solo nacional do resto da Península Ibérica;
    3.Transformar o país numa jangada de troncos de eucaliptos chamuscados, mas navegável;
    4. Arrumar, num só pacote, as cabeças bem pensantes do burgo lisboeta;
    5. Despachar a jangada e o pacote, só com bilhete de ida, para o Japão.
    Adenda: Os Cavacos podem emigrar para Angola e os Belmiros para o Brasil.
    Comentário: a generosidade portuguesa contribuirá definitivamente para a ampliação territorial do Japão.

  36. Sinceramente, acho que os meus caros amigos concedem demasiada importância ao meio escolar, designadamente à capacidade transformadora – ou porque não dizê-lo – redentora (!) da veneranda instrução académica (pública ou privada). As competências, os interesses, a criatividade, a leitura, a curiosidade crítica, ou se formam desde tenra idade no meio familiar, com naturalidade e por mimetismo do comportamento e dos interesses dos pais, ou já não há grande remédio…

  37. Em poucos comentários se podem ler as diversas concepções que perpassam por cada um de nós, quanto ao “modelo” de ensino.

    O que significa esta “diversidade”?

    Quanto a mim, uma coisa também simples: ninguém tem a chave da razão, nesta matéria.
    E portanto, se assim é, porque não dar razão a quem já a teve, um dia?!

    O ensino primário de antanho era melhor, no sentido de mais bem estruturado ( palavra maldita) do que hoje. Basta falar com alguém que hoje tenha mais de setenta anos e tenha frequentado a escola primária para ficar a saber que essa pessoa aprendeu – e bem!- gramática, aritmética,geografia e história.
    Parece-me que não há volta a dar-lhe.

    E também concordo com o facto de os manuais escolares actuais serem bem feitos e melhores do que antigamente.
    Então, o que é que falha?

    Quanto a mim, falha a transmissão de conhecimentos, pois os professores não estão tão bem preparados como dantes estavam. Falha a capacidade dos pais das crianças poderem acompanhar os filhos noe studo intensivo e diário.
    Não basta que as crianças levem trabalhos para casa…

  38. Gibel,

    O meio familiar pode ser determinante. Pode. Mas nem sempre se tem sorte. Nem sempre há, aos cinco ou aos dez anos, o livro exacto, o filme exacto, a viagem exacta, o interlocutor exacto.

    A escola é feita para ser tudo isso. Para despertar, e alimentar, a curiosidade, para dar forma à capacidade expressiva, para acumular conhecimentos, não decerto o das linhas de comboio, mas por exemplo uma breve história das vias de comunicação em Portugal, desde as vias romanas até às autoestradas cavaquistas.

    Há lá coisa que as crianças ouçam mais avidamente, e que mais lhes desenvolva a orientação neste mundo, do que as histórias da História.

    Sim, porque não reinventar, com os meios e a visão de hoje, o mestre-escola?

  39. Se as nossas crianças e jovens encontrarem, no seu percurso escolar, afectividade, bons modelos e identificação com as práticas dos seus educadores, eu acho que 2/3 do problema da educação fica resolvido.
    A relação professor/aluno na sala de aula é fundamental para o sucesso do ensino/aprendizagem e, para isso, o professor precisa de também ser actor, no sentido pedagógico, de forma a poder despertar e desenvolver a chama da curiosidade pelo saber. Eu acho que motivar os alunos a aprender é um acto de amor. E nem todos estão vocacionados para dar, mas antes a trocar, num toma lá, dá cá, imposto pelas circunstâncias da vidinha de cada um.
    Leiam “O Diário” de Sebastião da Gama e depois digam-me alguma coisa.

  40. «Sim, porque não reinventar, com os meios e a visão de hoje, o mestre-escola?»

    era bom, era… mas a natureza tem horror ao vazio. Primeiro seria preciso exterminar o que está à vista. O “eduquês” que existe pela Europa fora mas que por já cá ganhou direito a causa e a bandeira.

    Um erro ou uma pedagogia errada ainda se emenda, uma ideologia enquistada e muitas carreiras, é praticamente impossível

  41. LR: Nada mais errado. Este assunto já foi discutido no BdEII e Klepsydra. Todos os que pareciam saber alguma coisa sobre educação em portugal concordariam com este ponto de vista. As ditas ciências da educação é uma praga que corroi a qualidade de ensino.

    Euroliberal: D’accord.

    Sílvia: Nem você tem noção do que quer dizer com “será sempre uma utopia”. O que não é utopia é o ensino do Português e da Matemática ser pior hoje em dia.

    E-konoklasta: Há muito a aprender com França. Portugal é uma imitação de França (no que respeita à Educação), portanto convém saber o que vamos imitar a seguir.

    José: Até estava a gostar do seu comentário, até que mencionou Narciso Miranda; um primata que nem sabe falar.

    Caramelo: Por vezes, quando não se sabe nada, é melhor não comentar…

    Sílvia: Muito para pedalar? Então, na sua linguagem, a Escola já tropeçou muitas vezes, ficando para trás…

    Euroliberal: Esse exemplo de notícias do jornal é, infelizmente, verdade. O nível dos textos tem descido de forma notória desde há vinte anos para cá.

    (…) Perdi a paciência para o resto.

    Luís Raínha: As propostas foram apresentadas no seu antigo blogue na “famosa” série de posts que se iniciaram citando um post meu. O problema não é os portugueses não apresentarem propostas, mas antes terem memória curta…

  42. Pergunta o José:
    “Então, o que é que falha?
    Depois responde:
    “Quanto a mim, falha a transmissão de conhecimentos, pois os professores não estão tão bem preparados como dantes estavam.”
    É essa a questão josé.

  43. “(…) Será que a educação serve apenas para desenvolver competências no saber fazer? E o saber ser? E o Homem?
    Às vezes, parece que vivemos num país da América Latina em vias de desenvolvimento…”

    Cara Sílvia,
    quanto ao saber ser e ao Homem, ensino-os eu mesma, orgulhosamente, à minha cria. Por tê-la colocado no mundo é o mínimo privilégio que exijo, o de ensinar a ela meus valores. Quanto à América Latina, ao que parece a senhora supõe que o tal ensino de técnicas para suporte do sistema econômico é que a tem mantido atrasada… É muito engraçado. O que mantém a AL no buraco onde está é precisamente o discurso oficial (e muito moderno e charmoso) “pró ser e pró Homem”, que acaba por não ensinar nem o ser, nem o homem, já que nada se substitui à família, e muito menos a matemática, a gramática, a história ou como consertar corretamente um fogão.

  44. A culpa é de todos menos dos professores, não é, FV?! Porque, como tb é evidente, são os os outros que dão aulas?! E menos ainda dos professores universitários, é claro?! Que é gente de «muitos estudos» e não apenas de «alguns estudos», como a classe média que lê este blogue. Haja paciência, FV! Haja, paciência!

  45. Calma, Politikos, calma. Não é por haver uma máfia eduquesa que todos os outros são santos. Veja-me lá essa lógica.

    Há-de haver professores deploráveis, senão a máfia não se aguentava tanto. E, quanto a universidades, podemos ser sucintos: há nelas um excesso de gente incompetente para transmitir conhecimentos. Alguns são óptimos investigadores, isso sim. Mas a universidade, decerto a portuguesa, teve sempre pouca coragem para ser exigente com os seus ensinantes.

    Se está particularmente interessado no meio universitário, leia o romance O PROFESSOR SENTADO, de Carlos Ceia, e divirta-se.

  46. Meus senhores, estão todos enganados. O que precisamos é de algumas disciplinas novas como por exemplo, ganadaria extensiva, tecnologia dos curtumes, micologia prática, caça a laço… porque serão esses os conhecimentos de que precisaremos no dia em que os camiões deixarem de chegar ao Continente.
    Oxalá eu me engane, e os tais camiões nunca parem, mas tendo conhecido um país em que para fazer 300 km se levavam 6 horitas bem contadas, mais o almoço ou o jantar, com poucas estradas e muitas árvores, e vendo o país que agora é, com muitas estradas e quase sem árvores, pergunto-me onde é que esta obsessão dos economistas – esses sábios para quem todos os recursos são infinitos excepto um, o dinheiro – pelo crescimento contínuo, sem o qual estamos de tanga, à beira do abismo, etc, nos vai levar. E como, que eu saiba, a superfície do planeta e os seus recursos não estão em expansão e os economistas sim, parece-me, por uma questão de simples aritmética para a compreensão da qual não é precisa sequer a escola básica, que o aumento dos últimos e o decréscimo dos dois primeiros é insustentável.
    Pergunto-me, portanto, para que serve uma escola que tem como finalidade produzir actores para os papéis da tragicomédia do crescimento contínuo, quando, ainda por cima, a peça tem cada vez mais personagens virtuais, autómatos.

  47. Numa sociedade, que cada vez menos pode propor trabalho (meio de subsistência, direito humano) de acordo com a formação dos seus “cidadãos”, incapazes de rebelar-se.
    Estaremos sempre certos se apostarmos na sólida aquisição de conhecimentos fundamentais, no desenvolvimento da curiosidade e da inventividade, ou criatividade se se quiser. Fazer cabeças bem feitas em vez de cabeças cheias de tralha ou ocas de todo. Que as empresas não criem os postos de trabalhos necessários, ou se desloquem para a Conchinchina, hoje em dia, mesmo para se ser vigarista ou bandido, é necessário ter um bom nível de instrução e de educação… veja-se a criminalidade de colarinho branco, dá mais que as prestações sociais e de desemprego…

  48. “Após ter arrancado o aluno às suas pulsões de vida, o sistema educativo passa a empanturrá-lo artificialmente, com vista a conduzi-lo ao mercado de trabalho, onde há-de continuar a recitar até à náusea o refrão aprendido nos verdes anos: que ganhe o melhor!
    Mas ganhe o quê? Mais inteligência sensível, mais afeição, mais serenidade, mais lucidez sobre si mesmo e sobre as circunstâncias, mais meios de agir sobre a sua própria existência, mais criatividade? Não senhor! Mais dinheiro e mais poder, num universo qu deteriorou o dinheiro e o poder à força de por eles ser deteriorado.”
    Aviso aos alunos do básico e do secundário, Raoul Vaneigem,Antígona,Lisboa, 1996, pág.35

  49. Politikos:

    A culpa não é simplesmente «dos professores». Como discutido no BdEII uma grande parte da «culpa» é das pessoas responsáveis pelos programas e dos professores universitários do ramo das ciências da educação.

    Carlos Silva:

    A humildade é uma questão de estilo. Preocupo-me mais com os factos. E o facto é que o ensino está pior. Claro que logo vai ouvir pessoas a criticar quem diz que “o antigamente é que era bom”. Pede-se para fundamentar a crítica a essas pessoas. Dizem que hoje em dia há mais licenciados, etc. Que o ensino está melhor por isso. Nada mais disparatado. É óbvio que antigamente não havia acesso à educação para todos. A questão hoje em dia não é tanto do acesso (que é quase universal) mas da qualidade. E esta tem diminuido nas disciplinas principais nos últimos vinte anos (nas outras não tenho estado atento, mas as ciências de educação devem-nas ter influenciado de igual forma).

  50. Fernando Venâncio: Essa nota relativamente ao Ensino Superior é verdadeira e a consequência é o elevado número de maus “ensinantes”, como você lhe chama. O Ensino Superior, de forma contrária à generalidade das universidades estrangeiras, não acompanhou os Centros de Investigação. Estes últimos melhoraram muito nos últimos 20 anos, enquanto que o ensino, nas faculdades que os suportam, ficou em estado de águas paradas.

  51. Neste momento julgo ter-vos compreendido, a si, random, e ao meu censor. Já enfiei a viola no saco, aceitem ambos as minhas desculpas.

  52. Entrar no fim é que sabe bem porque agora pelo menos já ninguem precisa de chapéu de chuva.

    E, para começar, vai uma proposta de louvorzito registado para o Euroliberal, o símio que roubou uma cimitarra ao miralmuminim de Marco de Canavezes e chega aqui com “mainadas” rascas a querer passar atestados de óbito aos sonhos e direitos dos filhos dos pobres a uma educação decente? Granted.

    A sobrevivência do mais forte, na educação e comércio de laranjas, lema de muitas aplicações na selva euroliberalesca de deitar um olho à humanidade rastejante, assenta, pois então, como uma luva no lombo largo do senhor Europorranenhuma. Tudo vai bem vertiginosamente à medida que as suas certezas pingam. E se não fosse, teriamos aqui à mão uma espécie de pau de cabeleira ou claquista, chamem-no do que quizerem que a mim não me fere, um tal monsieur De Random, que nunca se cansa de estar de acordo com o tresloucado comentador, nem mesmo quando o dito tem a ousadia de cagar “excentricidades” provocatórias como aquela de nos anunciar outro dia que vai haver mais 9-11s se o imperialismo americano não se portar na linha. Casem-se estas análises do Europorranenhuma com os podres que ele vê na educação e depois digam-me lá se há alguma diferença entre isso e o estado em que uma banana fica depois dum camião lhe passar por cima. Se encontrarem alguma diferença postem aqui na volta do correio.

    E mudando de pessoa. O Fernando tem alguma razão naquilo que disse ou do que não disse mas disseram por ele. É uma reacção natural. Basta ler os jornais depois de cuidadosamente expurgarmos as propagandas descaradas. As coisas não andam bem no campo da educação. Ponto final. Mas nem o Fernando nem ninguém, se bem li, se debruçou sobre as iniquidades demo-capitalistas nesta área, nomeadamente sobre o papel da educação privada paga pelos pais mais endinheirados, as flores do sistema, os felizes e tradicionais dez por cento. Pense-se nas grandes vantagens do filho da operária da fábrica de biscoitos que compete com outro menino que aprendeu a soletrar aos quatros anos porque o seu papá juristão também era uma pessoa muito inteligente. Terá isto alguma influência no estado das coisas condenáveis? Eu estou em crer que sim.

    Um aspecto ainda mais alarmante, quiça duro de roer para as maiorias que andam a boiar à deriva no lago dos cisnes de pescoço alto, é o de sabermos o que é que no meio disto tudo poderá não ser produto de meras incompetências profissionais ou falhanços de programas partidários.. Haverá ou não razão para pensarmos que pelo menos em parte muitos destes descalabros nas fainas pedagógicas são cuidadosamente provocados e planeados de acordo com certas agendas globalistas? O mal é europeu, se não for universal, transversal e longitudinal. Coincidência ou transparência?

    É pena o Luis Rainha pensar da maneira que pensa sobre esta matéria. Oh well, as pessoas também não podem esbanjar quilate em todas as disciplinas. A teoria, equitativamente dispersa entre a esquerda e a direita, de que a dedicação e o esforço mais tarde ou mais cedo compensarão os que a ela aderirem sem fazerem perguntas, nunca me ajudou a entrar em relações amistosas com aqueles que rebentaram com os coirões um vida inteira e nunca passaram da cepa torta.

  53. Caro Anónimo,

    It’s funny ter escrito um comentário a “descascar” uma tal banana (usando a sua linguagem) e não ter contribuido, nem com um cêntimo, para o debate em causa.

    Desviar atenções é mais fácil. Oh well, e então fala-se do 11/9 e de conspirações globais.

    Por que raio estou a escrever tugainglês?
    Oh shit…

  54. Carlos Silva:

    Tanta humildade é excessivo. Eu mesmo fui humilde neste debate (o da educação) no BdEII com o resultado que se sabe. Por vezes, mais vale ser-se duro para com quem fala do que não sabe. Eu quando não sei calo-me. E por isso ando muitas vezes calado. Era bom que as pessoas procedessem sempre assim. Evitaria-se muita confusão.

  55. Excelentíssimos senhores, alto aí e pára o baile, que tudo o que é demais parece mal! Sobretudo parece mal gastar tanto latim a repetir o que já foi dito mil vezes em vão. Só pode ser um exercício de desobriga de consciência. Está de acordo com a quadra, mas não deixa de ser uma vilania.
    Deixem-se por isso de gestos de virgens ofendidas, como se fosse cair o carmo e a trindade, como se a tragédia da educação nacional fosse algo de surpreendente, de inesperado e único. É que a pátria inteira é feita de gestos tais há muitos anos, mas os senhores não querem saber disso, porque todos nós assobiamos para o ar e não queremos ver isso, porque é demasiado mau de ver, e porque nos fizeram assim.
    Os senhores são cidadãos dum país que já tinha dignidade e alma, num tempo em que suecos, helvétivos, finlândios e dinamarcos ainda não tinham saltado a cancela do curral da barbárie. No tempo do rei Dinis os portugueses arroteavam terras, afiavam as lanças, construíam castelos e não se queixavam de ser pobres.
    Os senhores pertencem a um povo que um dia foi levado para a Índia “ao cheiro desta canela”, ao serviço de interesses que nunca foram os dele, mas que por lá ficou até hoje.
    Os senhores viram este povo gastar 500 anos a fazer filhos às pretas debaixo do embondeiro exactamente como os cafres, a merecer o estatudo de cafre da Europa, exactamente como se cafre fosse. Isto enquanto a Europa ia à escola e à oficina, e experimentava, e inventava, e progredia.
    Os senhores viram este povo, ao longo de séculos, ser conduzido por elites crapulosas que sempre o cavalgaram com desprezo, e como alimento da barriga só lhe serviram mitos de fumo e nevoeiro. Os senhores viram o que foi feito de tanta riqueza que chegou nas caravelas, e puderam ver já que o mesmo destino tiveram os fundos que vieram da Europa, sem proveito nenhum para o país. Os senhores viram este povo, no séc.XIX, no tristíssimo papel do urso de feira, governado por estrangeiros, comido vivo por ingleses e outros filhos da puta civilizados, tentando apenas e sempre sobreviver à miséria.
    Os senhores viram este povo a pagar as facturas da ìndia em La Lys, viram-no a pagar as facturas do império na guerra das colónias, viram-no a fugir da fome, a salto, para a Europa, aos milhões, com a alma atulhada de mitos heróicos e putrefactos. Os senhores viram este povo a meter à força na cabeça que o ponto mais alto da pátria era o pico do Ramelau, na parte leste da ilha de Timor.
    Os senhores viram este povo um dia fazer em desespero as atrasadas contas com a história e tomar o freio nos dentes. Tão bem tomado ele foi, e tão grande era a culpa histórica, que a clique dos poderosos, dos inteligentes, dos cosmopolitas, fugiu toda para o Brasil e ainda hoje não anda muito à vontade por aí. Tão bem tomado ele foi que o Moreira Baptista se borrou pelas calças abaixo no quartel do Carmo. Os senhores viram este povo voltar a casa, depois de 500 anos de forrobodó, e encontrar a casa em ruínas e a horta por cavar. E viram como, em oportuna manobra de recurso, este povo foi levado a integrar-se na Europa, que era afinal a sua terra, mas onde não teria lugar sem sofrer uma aturada catequese.
    Depois disso o que fizeram os senhores, o que fizemos nós todos, o que fez este povo de si mesmo, da vida, da liberdade que tinha? O que fizemos da pouca indústria, o que fizemos das pescas, o que fizemos da agricultura, o que fizemos da justiça, o que fizemos da saúde, o que fizemos do dinheiro alemão, o que fizemos nós da educação?
    Pois fizemos o que somos capazes de fazer. Pusemos tudo num pandemónio, levámos a banca à glória, porque desde a Índia (de Ceuta?) havíamos trocado uma boa capa por um mau capelo.
    Somos óptimos, individualmente, e a trabalhar sob um capataz alemão. Colectivamente, não sabemos governar-nos, não temos capacidade para gerar uma elite que nos dirija. Somos desorganizados, corruptos, irresponsáveis, infantis, cafres, cafres, cafres. Os espanhóis viram-se livres da gangrena imperial, que também os aniquilou, há 100 anos. Nós apenas ontem. É o tempo que nos falta, para atingir a modernidade.
    E o que fizemos nós da educação? Entregámo-la ao “génio” do PPD durante mais de 20 anos consecutivos. Demos-lhe o Deus Pinheiro, e a Manuela Leite, e um tal Couto dos Santos, e outros tantos. Demos-lhe a Weltanschauung do Cavaco, e demos-lhe o Roberto Carneiro, que talvez soubesse o que fazia e por isso mesmo se demitiu. Só nos faltou dar-lhe o saber do Dias Loureiro, porque esse fazia falta na polícia. E a subtilieza de catrapilo do Jorge Coelho, atarefado a construir o túnel por baixo da Serra da Estrela.
    Agora, 1200 criancinhas por ano vão aos fagotes à professora na sala de aula. E nós queixamo-nos de quê?

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