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Diálogo loco entre Don Quijote y Sancho Panza

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Después de haber leído una carta de Fernando Venancio a José Saramago

– Sancho, hace falta que vayamos a Portugal.
– Señor mío, yo creía que jamás habríamos de salir de Castilla…
– ¿Porqué lo piensas? Si acaso piensas…
– Pues ¿cómo vamos allá? Nuestros animales, estas almas de Dios, no podrán llegar tan lejos.
– Eso será tu burro que no lo puede.
– Si mi señor llama burro a mi borriquillo, yo llamaré caballo a su Rocinante.
– Si llamas borriquillo a ese montón de huesos…
– Más grande es el montón donde mi señor pone el agujero donde terminan sus gloriosas espaldas.
– Que nunca jamás un enemigo ha visto, fíjate bien.
– Pero ¿porqué Portugal?
– Porque, en lucha por nuestro glorioso rey Felipe II, allí estuvo nuestro creador.
– ¿El mismo Dios habrá combatido por nosotros?
– ¡No hagas el tonto!
– No hace falta. Pues si mi señor dice que lo soy…
– Hablo de don Miguel de Cervantes Saavedra.
– Y después a lo mejor querrá irse también a Nápoles, a Venecia, a Chipre… lo que sea…
– ¡Ni pensarlo! Yo no quiero más que hacer peregrinación a Aziñaga, la tierra de un gran español que el mundo no conoce todavía.
– ¿Quién es la criatura?
– Un genial escritor, más que don Miguel. Dicen que si se lleva unos veinte años más viviendo en Lanzarote acabará hablando castellano mejor que nuestro rey Felipe III.
– Pues no le hacía falta ir para en medio de los guanches. Dicen que ahora se enseña el castellano en Portugal más que el francés.
– No pienses que será por amor de España. Es para que se cumpla mejor el problema de las estadísticas del gobierno. El castellano como segunda lengua extranjera dará más altas clasificaciones a los chiquitos. Y, además, les hace falta para comprender la Barca del Infierno.
– ¿Qué es eso? ¿Portugal está así de mal?
– ¡Come hierbas, Pancho!
DANIEL DE SÁDaniel de Sá (São Miguel, 1944) é romancista, contista e ensaísta.

Perguntas sem resposta

Hoje acordou cedo o viajante, que tem as horas contadas. Esperam-no ao fim da tarde os cavalinhos rupestres no baixo Côa, há que meter pés ao caminho, que há-de ser longo. Já se despediu das muralhas da cidade, já deixou para trás a porta do Carvalho, já segue para norte pela estrada da Meda. Para trás ficou também a capela de Santa Luzia que não pôde visitar, tão fechada que estava debaixo do seu arco românico.

O bairro da mesma santa, estendido pelo arrabalde que se dispersa na encosta, é uma pequena parte da cidade moderna. Mas não há ponto cardeal que a febre da construção tenha poupado. O viajante perdeu-se ontem à noite nos dilatados subúrbios e não pode imaginar donde vem tanta gente habitar estas casas. Por força haverá muitas vazias, que todos os munícipes concentrados aqui não haviam de chegar para as ocupar. Mas a perplexidade do viajante é sem motivo. Havendo dispersas no país inteiro meio milhão de casas devolutas, sempre uma parte caberia à cidade, a menos que houvesse um milagre qualquer. A especulação imobiliária fez-se galinha de ovos doirados há uns anos, não há terra em que o betão e uma ideia peregrina de progresso não andem de braço dado. Os construtores trocam as leis e os planos por peitas e ganhuças, os edis fazem o mesmo por taxas e derramas, e os governos, sobre todos, abdicam do país por impostos e sisas. Os banqueiros multiplicam capitais, como é da sua função. E alguém há-de pagar um dia esta factura, se não estiver já hoje a pagamento.

O viajante vai ficando cansado destes embates com a realidade, sempre espessa e concreta e angulosa. Ouriçada de esquinas afiladas, que deixam feridas nas mãos. O que dava jeito a este viajante era acreditar em trovas e refugiar-se nelas, se para consolo de almas foram inventadas. Mas não tem ele essa sorte. Há-de parecer que anda à procura de quebra-cabeças e não é verdade. São os quebra-cabeças que vêm ter com ele. Parou aqui à saída, para ver as instalações do mercado dos gados, sem sinais de ocupação há muito tempo. Num lugar de ruralidades dominantes é sempre um gosto vê-las, mesmo assim vazias, que já estarão à espera se um dia o gado voltar. Mas não estão sós no desamparo, pois logo ali à direita, espraiados no vale, andam vinte hectares de pomar abandonados. O viajante pára o carro num caminho de saibro, pula uma parede a observar melhor. O matagal pagão assoberbou as árvores, que lá vão resistindo aos gritos pela encosta. Algumas já secaram, outras lambeu-as o fogo, muitas granjearam frutos enfezados que tornaram à braveza natural. Na vastidão da tapada ficou a branquejar uma inútil estação de tratamento.

Umas vezes protesta o viajante contra a própria ignorância e falta de entendimento. Outras muito suspeita que dez cursos de economia não haviam de chegar para lhe tornar compreensível este mundo. Dá consigo a perguntar o que o faz correr assim, andar por montes ardidos, e pomares abandonados, e terras adormecidas donde a vida desertou. Vinha à procura dum país, a ver se lhe encontrava ao menos as raízes, e só esbarra em perguntas que lhe ficam sem resposta. Anda por ali a restolhar no capim, a tropeçar em antigas tubagens de rega, a arranhar-se nos silvedos. Abre os braços à carícia do sol, oferece o peito ao ar de vidro da manhã, e com tanto se dará por satisfeito. É um tolo, este viajante, a querer entender o mundo. Deu com a fronteira da parede, esbarrondou umas pedras, saltou para a carreteira e foi-se embora.

Jorge Carvalheira

Um inesperado poema de António Lopes Ribeiro

A livraria-alfarrabista «1870» (ali à Praça das Flores) proporcionou-me o encontro com um livro no mínimo curioso: trata-se da reunião em volume das crónicas que António Lopes Ribeiro publicou a partir de Abril de 1963 no jornal O Primeiro de Janeiro do Porto.

Para quem tenha a memória apenas do apresentador do «Museu de Cinema» ao lado do inefável António Melo e do seu sumido «boa nôte», não deixa de ser uma surpresa este poema sobre um menor atropelado no seguimento de opiniões sobre a nossa civilização perfeitamente actuais, passados 44 anos: «No Domingo de Páscoa registou-se maior número de mortos e feridos nas estradas de França do que nas cidades violentadas a ferro e fogo de Argel e de Orão. O automóvel bateu aos pontos o terrorismo. Sem falar nas corridas de morte com automóvel nos países que proíbem as corridas de touros. Um carro marra muito mais do que um Miura ou um Palha mas as sociedades protectoras dos animais não querem saber da sorte do bicho homem.»

Mas vamos ao poema «Menor atropelado»:

Ia a correr atrás de um arco
(Corria como ninguém!)
Na véspera andara de barco
E levara um sopapo da mãe.

Agora, jaz estendido
Naquela curva da estrada
Tens os bracitos ao comprido
E a cabeça esmigalhada.

Que foi? Foi um automóvel
Que passou em correria
Ele é que já não corre; jaz imóvel
(Padre nosso, Ave Maria…)

O condutor deu um grito
Ele – não soltou um ai
(Vai ser o bom e o bonito
Quando disserem ao pai)

Nossa Senhora nos valha!
Pois não tinha anjo da guarda?

Antes fosse de um tiro de espingarda
Mais tarde para ganhar uma medalha.

recolhido por José do Carmo Francisco

A cidade sem monumentos

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Sempre dormi descansado sabendo não estar o meu sono rodeado de monumentos. Sim, porque os monumentos são um peso. Não estou a referir-me a esse peso, leitor, mas também não o subestimo, descanse.

Sempre tinha ouvido dizer que Amsterdão era ‘uma cidade sem monumentos’. Acreditei e assenti. Com efeito, chega-se a Bruxelas e sente-se um gajo pequeno. Chega-se a Paris e sente-se esmagado. A Londres e olha-se à volta onde-é-que-eu-fiquei. E mesmo Lisboa… Bom.

Pois acabou-se a tranquilidade. Li ontem no friso publicitário dum eléctrico que a minha cidade conta 7650 monumentos. Levou algum tempo a perceber o que lia, depois procurei algures uma vírgula (as décimas ou centésimas seriam o mais criativo), mas não. Eu tinha visto bem.

Amanhã volto ao centro, onde trabalho (alguém falou em férias?), e vou procurar. Sou capaz de dar por lá com algum monumento, escondido nesse espaço urbano que, até hoje, eu sempre pensara construído «à escala humana». Vou-me sentir pequeno, isso é de prever. Se de mim sobrar alguma coisa pensante, direi o que se conseguir. Se não, já sabem.

Fernando Venâncio no «Retrato de Portugal»

Ainda não foi publicado mas eu tive acesso antecipado ao livro Retrato de Portugal. Com o subtítulo de «Factos e Documentos», editado pelo Círculo de Leitores e coordenado por António Reis, este volume de 350 páginas será editado em português e em inglês, sendo apoiado pelo Instituto Camões e pela Presidência (portuguesa) do Conselho da União Europeia.

Os capítulos são: O Estado, a sociedade, o território, a língua portuguesa, a comunicação social, a sociedade do conhecimento e da informação, o desporto, o ambiente, a economia, a educação, o património cultural, a literatura, a arquitectura, as artes visuais, as artes do espectáculo, o cinema, o design e a moda. Basta uma rápida olhadela pelos nomes dos colaboradores e colaboradoras (uma delas é a inefável Maria de Lurdes Rodrigues) para se perceber que é o olhar totalmente «pê yes» que formula este retrato de Portugal.

Mas a mim em particular interessou-me o capítulo respeitante à Literatura, assinado por Fernando Pinto do Amaral. Lá aparece Fernando Venâncio «encaixotado» entre Catarina Fonseca e Miguel Esteves Cardoso. A primeira tem uma «fértil imaginação romanesca» e o seguindo tem um «humor corrosivo». Quanto a Fernando Venâncio cabe-lhe o espaço catalogador de «inspiração subtilmente queirosiana». Motivo de orgulho para o «aspirinab» penso eu. Por isso aqui divulgo esta notícia. Porque as notícias não devem ficar fechadas nas gavetas das secretárias. E se os blogs são os descendentes das tertúlias aqui fica matéria para animada conversa de tertúlia.

José do Carmo Francisco

Paulo Bragança

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Chamar-lhe pura é pecar mas por defeito
A tua voz é (ela mesma) a nossa origem
Há um país, uma nação dentro do peito
Estar a ouvir é estar à beira da vertigem

Há uma luz que se prolonga na extensão
Há uma viagem a fazer dentro da voz
Ouvir-te é ser o destino de uma oração
A ligar de novo quem se julgava a sós

Chamar-lhe pura é pecar mas por defeito
A tua voz é a que sabe juntar água e terra
Cantas e és o rio que fugiu já do seu leito
À procura de novos campos para a guerra

Quando tu cantas não há águas paradas
Na terra fértil da humidade, teu terreno
E há uma guerra, batalhas, emboscadas
Lá onde chega a tua voz e o teu veneno

José do Carmo Francisco

Vale o desvio

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Quem, descendo o mapa, vai para Monte Gordo, ou para toda a metade leste do Algarve, pode deixar a auto-estrada e ir conhecer mais um recanto do país: Mértola, o maior museu do Alentejo. Ali o espera, há bem dez séculos, uma das maravilhas de Portugal.

O autor do «post» é, concedamos, suspeitíssimo. Calhou-lhe nascer lá. Mas vá, você mesmo, tirar teimas.

A deusa em Monte Gordo

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Paulo Moura é, decididamente, um grande talento da história breve. Uma delícia, lê-lo ao domingo
no Público. Hoje, o episódio leva-nos ao algarvio Monte Gordo (que ele grafa estranhamente «Montegordo»), em 1963, quando Ingrid Bergman aí apareceu em biquíni e foi multada pelo
cabo-de-mar.

Há – há sempre, num grande escritor – alguma efabulação à mistura. Há, também, algum exagero nas cores negras do Portugal da época. Paulo Moura nunca o conheceu, e só o entende como tragédia da manhã à noite.

Mas é um raro prazer lê-lo. Ao magnífico criador de cenários.

Dê-lhes rijo, Arquitecto!

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Hoje, no «Sol», escreve José António Saraiva, o director, a propósito do Iberismo
e de Saramago:

«A classe média portuguesa olha para o enorme desenvolvimento que a
Espanha registou nas últimas décadas, compara-o com o marasmo português
e conclui: integrados na Espanha seríamos mais prósperos, mais ricos e
mais felizes.
Ora, é uma ilusão pensar assim.
Basta olhar para o que aconteceu em muitas empresas portuguesas que
foram compradas por espanhóis: a investigação deixou de ser feita em
Portugal e passou a ser feita em Espanha, os quadros superiores
portugueses foram substituídos por espanhóis nos lugares-chave, os
portugueses ficaram em posição subalterna e acabaram por se sentir
estranhos no seu próprio país.»

«Quando Saramago disse que a integração na Espanha é inevitável,
estava implicitamente a dizer que os portugueses não têm vontade de
continuar a ser independentes (ao contrário dos bascos ou dos catalães,
que no próprio dia em que o franquismo caiu ressuscitaram os seus
valores).
Portugal poderá perder a independência.
Mas só se os portugueses quiserem.
Daí que a posição mole, distraída, desinteressada, capitulacionista
ou abertamente anti-nacionalista da esquerda portuguesa seja um mau
sinal.»

Com um obrigado ao Carlos Luna.

«A Profecia de Saramago»

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No COURRIER INTERNACIONAL de hoje, o director Fernando Madrinha
publica o seguinte comentário.

«Ainda há pouco tivemos um ministro, por sinal com origem ideológica
idêntica à de José Saramago, a proclamar o seu iberismo. Agora, veio o
Nobel da Literatura profetizar, não pretendendo armar-se em profeta, que
Portugal acabará por integrar-se na Espanha. E que esta,
«provavelmente», pssará a chamar-se Iberia, como a companhia de aviação.
Saramago não explica como ocorrerá a integração – se por imposição de
Madrid, se a pedido dos portugueses, se por consenso ou osmose – mas,
interrogado sobre se Portugal passaria a ser uma província de Espanha,
responde: «Seria isso». Não precisa, pois, de dizer mais nada.

«Por natureza e definição, os profetas vêem mais longe do que o comum
dos mortais. Mas também acontece enganarem-se, ou, pelo menos, nunca
serem compreendidos. Pode ser o caso do nosso admirado Nobel. De
qualquer modo, esta não é a primeira ocasião, nem será a última,
decerto, que ele desce ao povoado, lança a sua provocaçãozita e deixa os
jornais a discuti-la, enquanto se recolhe ao sossego de Lanzarote,
talvez sorrindo de sarcasmo no seu íntimo. Ou de satisfação por ter-se
colocado outra vez no centro de uma polémica, ele que aprecia polémicas
e tem lucrado com elas – desde a censura de Sousa Lara, em que foi
vítima, até ao «Ensaio sobre a Lucidez», em que foi agente provocador.
Desta vez, houve em Espanha e noutros países até, quem se associasse à
discussão. Mas ninguém, por acaso, veio corroborar a sua leitura,
aplaudir a sua visão, concordar com o seu «projecto». Pior: ninguém o
levou muito a sério nem à sua profecia, o que não é bom para um grande
escritor que costuma gerir tão bem as suas intervenções e a sua imagem.

«Provocação ou «marketing» editorial, talvez ambas as coisas, estas
proclamações iberistas são daninhas e indesejáveis. Não por se recear
que alastrem ou desanimem os concidadãos mais duvidosos do seu
patriotismo, que sempre existiram. Apenas porque induzem em erro aqueles
que, não conhecendo os portugueses, passem a vê-los com o olhar
distorcido do Nobel; porque só ajudam a engordar o vírus da desconfiança
na relação entre os dois povos; e ainda porque, podendo promovê-lo e aos
seus livros em Espanha, rebaixam e diminuem muito o escritor em
Portugal. É pena, por Saramago. E muito triste que o nosso autor mais
celebrado seja tão azedo e displicente para com o país onde nasceu, a
ponto de não lhe importar que ele desapareça como Estado independente.»

Com um obrigado a Carlos Luna.

Os corvos de Blackheath Park

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Pelas cinco da tarde, quando a longa fila de carrinhos de bebé se dirige do portão do Greenwich Park para o interior do Bairro de Blackheath, uma nuvem de corvos vem colocar o negro nas margens do pequeno lago. É o mesmo negro das burcas de Hyde Park sempre em grupo e sempre seguidas por um homem discreto e silencioso mas presente. Ao mesmo tempo, no Museu da Cidade, ali paredes-meias com a Catedral de São Paulo, dois brasileiros começam a fechar o café e a arrumar as cadeiras. Mesmo ao lado, numa sala do Museu, repousa numa bancada o livro gigante com as biografias inacabadas de todos os mortos do dia 11 de Julho de 2005.

Duas semanas antes o meu filho passou durante cinco dias por aquela mesma escada da estação de King´s Cross àquela mesma hora. Foi quando frequentou a British Library à procura de elementos sobre o Marquês de Alorna (vice-rei da Índia) para a sua tese de mestrado. Embora não pareça, o sorriso do primeiro-ministro que decidiu a invasão do Iraque em função de uma mentira fabricada (armas de destruição massiva) é tão negro como os corvos de Blackheath Park. E tão negro como as burcas de Hyde Park. E como o livro do Museu da Cidade, cheio de biografias inacabadas de jovens que não queriam morrer.

Quando os dois brasileiros fecham o café e arrumam as cadeiras, quando os visitantes começam a sair, o livro dos mortos fica imóvel sobre a sua bancada na sala cheia de silêncio. Tão imóvel como os mortos que eram jovens e não queriam morrer naquela escada da estação de King´s Cross, naquela amanhã de Julho.

José do Carmo Francisco

Conversa de café

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«O homem, pá, tem gosto naquilo. O gajo anterior também, claro. Mas tinha de dizer isso prá gente ver. Este, não. Entra pelos olhos que ele grama o ofício. Se calhar é até por isso que se
vai saindo… bom, assim. Tás a ver?».

Depois de ter visto a entrevista na Sic.

A pedido de várias famílias, foi-se ouvir melhor o registo. Mas as conversas de café são muito enigmáticas.

A pista da ilha Caravela

Aqui há trinta anos, no dia em que os ecos da mudança começaram a alastrar pela Guiné adentro, numa espécie de maré enchente que as notícias da BBC traziam lá de longe, logo um vento de esperança agitou os corações cansados daquela gente toda. Pois se é da liberdade que estamos a falar, quem é que vai agora chegar fogo às peças e aos canhões? Parecia pertinente a questão.
Já há muito tempo que nada se mexia no teatro, a não ser os aviões e os caranguejos cegos, que trotavam nas bolanhas durante a maré vaza. Mesmo assim, eram sempre com pezinhos de lã que o faziam, não fosse algum diabo tecê-las. E demónios tecedores era o que não faltava, a animar aquela paisagem. Que o diga o Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, que tinha na secretária da Avenida da Liberdade nove requerimentos de pilotos aviadores, a pedirem dispensa de o ser. Aguardavam punição exemplar.
E foi assim, lembro-me como se fosse ontem, que o último bombardeamento aéreo aconteceu ao final da manhã do dia 9 de Maio. Lá fomos em voo rasante até ao objectivo, a encaixar na coluna a pancadaria inclemente da turbulência, seguia eu a asa do coronel comandante, um velho homem excelente, com o rabo mais calejado que um chimpanzé do mato. Do objectivo ergueram-se três cogumelos de fumarada negra. E depois disso não se voltou a ouvir por ali o estrondear dos canhões do império, suponho que se calaram de cansaço. Ou de velhice.
O tempo trouxe, aos poucos, a confirmação do que se vinha cogitando. Pois se é da liberdade que estamos a falar, quem vai agora chegar fogo às peças e aos canhões? E viu-se claramente que a guerra era acabada, quando começaram a passar ao largo, de gurupés apontado a casa, rebanhos de caravelas roídas pelos búzios, a adornar de fantasmas de almirantes de barbas e conquistadores zarolhos, de destroços de piratas e negreiros, de missionários comidos pelos cafres, de donatários cúpidos, de exploradores de sertões, e dos vagamundos de que falavam os livros antigos. Perante tais evidências não havia que duvidar, a guerra era passado.
De forma que alguém começou a pensar no melhor modo de trazer para casa os aviões, nem todos eram sucata centenária. Maneira expedita era fazê-lo saltitando, África acima, com a primeira escala na ilha do Sal. Quem dobrara, descendo, tantos bojadores, melhor os dobraria, já subindo. O problema eram as oitocentas milhas sobre o mar, e a garantia de passar por cima delas sem molhar os pés. De modo que se resolveu tirar a coisa a limpo, e fazer o teste definitivo da autonomia dos aviões, com carga máxima de combustível, à máxima altitude utilizável, que eram treze mil e quinhentos metros.
E lá fui eu atrás do coronel comandante, o tal velho homem excelente de quem já se falou. Parecíamos dois sísifos condenados, até chegar aos quarenta mil pés. E por lá andámos a desenhar no ar triângulos minúsculos, a tropeçar em fronteiras, ainda agora esbarrámos no Senegal e já estamos à vertical da linha de Conakri, só o vasto mar dos Bijagós é que nos dava um pouco mais de folga.
Gorou-se, porém, a prova real do exercício. Pois que, a dada altura, sobressaltaram o chefe as estranhas cabriolas que o meu avião se pôs a desenhar. Desabituado de tamanhas alturas, o regulador automático começara a cortar-me o oxigénio da máscara. Como se nada fosse comigo, eu fui perdendo o controle do avião, mais tarde era a visão que já me ia falecendo. E foi o grande saber do velho comandante que o levou a colar-se atrás de mim, a ditar-me procedimentos que eu reproduzia em gestos desconexos, a conduzir-me à entrada da pista que eu já não descortinava, e a mandar-me despejar no asfalto a passarola, que acabou rebocada à mão para o estacionamento.
Tínhamos passado entretanto sobre a ilha Caravela, a norte dos Bijagós, naquele estranho exercício de bilhar às três tabelas. E eu tinha visto, no meio duma vastidão de coqueiros, uma enorme faixa de macadame, que me pareceu uma pista de aviões. Algum tempo mais tarde, pois que o tempo disponível tinha passado a ser muito, consegui o acordo dum piloto de helicópteros para o passeio turístico. Levámos connosco um jovem alferes médico, aterrámos numa praia semeada de bolas de nafta escura, e logo um grupo de negras primitivas apareceu a saudar-nos, entre risadas tímidas. Vestiam tangas de ráfia pré-históricas, que eu só conhecia das gravuras da etnografia ultramarina, e ali mesmo nos deram a admirar os peitos do império, assim abertamente expostos à carícia do sol, um deles apresentava um nódulo visível, que o jovem médico logo aproveitou para diagnosticar. E a pista enorme lá estava, enigma rectilíneo e vastíssimo, o piso ainda irregular, de macadame não compactado.
Ficou-me sempre vivo este mistério, que não se decifrou em trinta anos. Nunca ouvi uma palavra sobre ela. E a minha primeira explicação foi que um governador previdente pensou nela como garantia de retaguarda. Viessem as tropas a ser empurradas para o mar, às mãos do inimigo ou às dos políticos dementes de Lisboa, e ali achariam refúgio seguro.
Até que tropecei há tempos na chave do enigma, quando vi num jornal um par de onagros bem falantes, a escoicinhar contra a descolonização criminosa. Se colónias ainda houvesse, compravam eles por bom preço umas divisas de furriel amanuense, para não irem comandar em Madina do Boé uma companhia de atiradores. E pois que colónias já não há, por força as retomarão, para virem depois a descolonizá-las sem crime.
São os pais da Pátria em versão pós-moderna. E já têm na ilha Caravela uma testa de ponte. A Pátria, essa, está ansiosa por lhes inscrever o nome na parede do forte do Bom Sucesso, ali ao lado da Torre de Belém. Sendo para quem é, há-de arranjar-se um espaço disponível. Talvez assim, calados os canhões, se venham a calar, também, as bestas.

Jorge Carvalheira

Pungentómetro

A Valupi

Muito antes de procurar, num texto, o que lá não está, é obrigatório ler nele o que lá está. Explicitamente.
Invadi-lo de subjectividade é enviesá-lo. É abusá-lo. É ver nele um outro que não existe.
A contenção e o pudor dum texto fazem-no contido e recatado. Pode ser belíssimo, carregado de intenção, mas não é pungente.
Só ao autor cabe medir a pungência que quer presente na obra. Por isso não há pungentómetros
no mercado. Tudo o resto são oportunismos de leitor.

Jorge Carvalheira

Mastrados

A senhora mastrada é mulher do senhor Roxo e tem um sindicato. Mal se lhe compreende um homem desta cor, talvez por isso tenha um sindicato. Mas adiante.
O senhor Roxo está em prisão preventiva, será por muito ir à missa, um dia algum juiz decidirá. O facto é que, sendo a mulher do Roxo, a senhora mastrada teve em casa um mandato de busca, que um desembargador qualquer determinou. Do desembargador não sabemos mais nada. Apenas que desembarga e determina mandatos, o que já não é pouco. E os oficiais lá foram.
A senhora mastrada concedeu ser mulher do senhor Roxo, e até lhes mostrou o sindicato que lá tinha. Mas não era bem isso que eles queriam saber. Porém do que buscaram não se falará aqui, por estar em segredo de justiça.
Sucede, porém, que a senhora mastrada, ou por ter um sindicato, ou por ser mulher do Roxo, não pode sofrer em casa um mandato qualquer, assim do pé para a mão. Mormente sem a presença dum mastrado do conselho superior, capaz de validar-lhe a diligência. A ver se os oficiais dão o bom dia, ou se pedem licença para revistar a alcova, ou desencravar à senhora mastrada uma gaveta renitente.
Sucedeu não estar presente o tal mastrado. Que o desembargador mandante do mandato se esqueceu de avisar o conselho superior das intenções da busca. E assim foi anulada a diligência, não por quaisquer razões substantivas, que se guardam em segredo de justiça, mas por este claro e insuportável vício da falta de memória dum desembargador. Até os códigos ficavam a sangrar, se alguma coisa transitasse em julgado.
Quando eu for grande, já sei o que fazer. Poderei dispensar um senhor Roxo, mas não vou abdicar de ser mastrado, e ter um sindicato. E hei-de aconselhar os meus vizinhos todos a esfolharem os códigos e a fazerem-se juízes. Ou até desembargadores, a ver se desembargam isto tudo.

Jorge Carvalheira

Este avisa. É amigo

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Na caixa de comentários da «Carta Aberta a José Saramago», a conversa continua. A última intervenção do comentador «MIRO» é do maior interesse. Dela destacamos:

«Acho que os iberistas portugueses têm uma visão muito idílica das Autonomias espanholas. Saiba você que as autonomias não têm direito de se separar do Estado, nem de chegar acordos com outros Estados, nem sequer de se unir a outras Autonomias. Saiba que nas ordenanças militares espanholas, fruto do fascismo, existe uma clausula chamada “supuesto anticonstitucional máximo”, que vem dizer que se houver o risco de que qualquer pedaço de Espanha, qualquer, se separa-se da Espanha, o exército estaria legitimado para evita-lo, desobedecendo incluso a ordens do presidente e do parlamento. Saiba também, questão esta não trivial, que a mais alta autoridade militar é o Rei.

«Para além disso, o peso relativo dos partidos nacionalistas “periféricos” no Governo no Estado está também claramente sobrevalorizado em Portugal. De facto, o PP espanhol tem intenção de rematar de vez com a influência das forças “minoritárias” instaurando um sistema a dupla volta, como o francês. Se o tal projecto chegar a se consumar, e chegará, tão logo como o PP obtiver uma maioria absoluta, o peso político duma hipotética Comunidade Autónoma de Portugal (CAP) no Reino de Espanha seria zero. Aí Portugal diria, não, não, assim não jogo, voltamos ao de antes, e o exército espanhol teria o direito de intervir unilateralmente sem escutar o Parlamento para evitar a ruptura da “pátria”.»

MIRO

Leia mais aqui.

Fala do roupeiro Vítor Sério em 1997

Sou eu que tenho a chave deste espaço
Onde guardo os sonhos mais fagueiros
De quem faz desta equipa um abraço
Num mundo de caminhos traiçoeiros

Nas vitórias o vendaval é de euforia
Nas derrotas chuva de palavras feias
Custam como o duche de água fria
Ao lado das camisolas e das meias

Pela minha parte tenho a psicologia
Do resgate da sua tristeza neste lugar
Lembrando que amanhã é outro dia
E no sábado há outro jogo para jogar

Depois é um quadrado de marmelada
À espera que ele vá activar a insulina
Para que a equipa não fique cansada
E viva os sonhos fechados na cabina

José do Carmo Francisco

Às portas de Beirute

Sob um céu sem cor onde o anil
se perde a procurar-se entre o assombro
e a terra chora o pão que aborta em sangue
na boca onde resistem orações
as crianças adormecem de mãos dadas.

Sem o sono sereno dos infantes
mas sim o dos horrores que as acalentam
pelas noites de gritos e destroços
das cidades fantasmas e dementes.

As crianças que juntas desconhecem
os brinquedos e as princesas dos castelos
mas que trocam entre si a descoberta
do fel que veste os corpos combatentes.

As crianças proibidas de sonhar
o longínquo retiro das estrelas
não o das balas que os corpos arrefecem
e colocam nos seus olhos as respostas
às perguntas que não sabem soletrar.

As crianças que respiram os segundos
no choro sufocado do seu medo
como se a dor infligida resgatasse
das horas o pavor do fumo espesso.

As crianças que juntas aguardam
não a dança do vento nos trigais
nem o perfume que se oferece nos lilases
mas apenas a certeza de acordarem
a madrugada que não sabem se amanhece.

As crianças que nascem e decoram
as partículas do lume e a silhueta
das aves de aço que silvam nos espaços
sobre os seus ninhos de mortos e de escombros.

As crianças condenadas que contestam
braços pendentes e lágrimas no rosto
que se fale de paz e que no Mundo
sob o peso deposto nos seus ombros
o Homem se recuse a ser poeta
quando todas as crianças são poemas.

Soledade Martinho Costa