Mastrados

A senhora mastrada é mulher do senhor Roxo e tem um sindicato. Mal se lhe compreende um homem desta cor, talvez por isso tenha um sindicato. Mas adiante.
O senhor Roxo está em prisão preventiva, será por muito ir à missa, um dia algum juiz decidirá. O facto é que, sendo a mulher do Roxo, a senhora mastrada teve em casa um mandato de busca, que um desembargador qualquer determinou. Do desembargador não sabemos mais nada. Apenas que desembarga e determina mandatos, o que já não é pouco. E os oficiais lá foram.
A senhora mastrada concedeu ser mulher do senhor Roxo, e até lhes mostrou o sindicato que lá tinha. Mas não era bem isso que eles queriam saber. Porém do que buscaram não se falará aqui, por estar em segredo de justiça.
Sucede, porém, que a senhora mastrada, ou por ter um sindicato, ou por ser mulher do Roxo, não pode sofrer em casa um mandato qualquer, assim do pé para a mão. Mormente sem a presença dum mastrado do conselho superior, capaz de validar-lhe a diligência. A ver se os oficiais dão o bom dia, ou se pedem licença para revistar a alcova, ou desencravar à senhora mastrada uma gaveta renitente.
Sucedeu não estar presente o tal mastrado. Que o desembargador mandante do mandato se esqueceu de avisar o conselho superior das intenções da busca. E assim foi anulada a diligência, não por quaisquer razões substantivas, que se guardam em segredo de justiça, mas por este claro e insuportável vício da falta de memória dum desembargador. Até os códigos ficavam a sangrar, se alguma coisa transitasse em julgado.
Quando eu for grande, já sei o que fazer. Poderei dispensar um senhor Roxo, mas não vou abdicar de ser mastrado, e ter um sindicato. E hei-de aconselhar os meus vizinhos todos a esfolharem os códigos e a fazerem-se juízes. Ou até desembargadores, a ver se desembargam isto tudo.

Jorge Carvalheira

2 thoughts on “Mastrados”

  1. Já que estamos numa de português, o que os desembardagores passam são mandados e não mandatos, que esses são detidos pelos eleitos

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