Dias solarengos

Na TSF, um locutor (jornalista?) abriu o noticiário das 8 e 30 da manhã dizendo que este era um dia pouco solarengo. Depois fez umas referências obscuras à meteorologia, para concluir, já animado, que os próximos dias seriam mais solarengos. Como se trata da TSF, a notícia parece-me credível. Mesmo assim, não consegui evitar o rapto para uma funesta nostalgia. É que eu nunca tive um dia solarengo na vida. Nem um. E não acredito que venha a ter. Será, a essa luz, uma existência cinzenta.

41 thoughts on “Dias solarengos”

  1. Sr. Soalheiro,

    Terias tido muitos, se as putas puristas portuguesas palradoras como tu tivessem tido o cuidado há muitos anos de botarem isso nos dicionários. Em vez disso, acham elas muito mais agradável e instrutivo ter estas discussões de angústia linguareira para enriquecer o folclore.

    Vai mas é dizer à Soledade por que é que concordaste com o marranito do João Pedro e agora metes o rabo de fora para não dares cabo do teu sonho de um dia vires a ser maire de barcelos.

  2. Infelizmente vemos e ouvimos, e em órgãos da comunicação social, o termo “Solarengo” atribuido ao tempo.
    É pena que o nosso português ande assim tão abandalhado por mãos em que tal não deveria ser admissível.

  3. o erro está tão disseminado que até há quem pense que é questão de purismo! chegamos a ter a piada do anúncio «T2, muito solarengo»…

  4. Valupi,

    Metido dois palmos pelo chão abaixo, confesso que já cometi igual indecência, e foi aqui no Aspirina. Uma alma bondosa alertou-me, estou-lhe grato a vida inteira.

    Grave? Gravíssimo. Estou corado, não imaginas. Mas curado também.

  5. LUZ DO SOL, LUZ DA RAZÃO

    (Resposta à poesia de João de Deus, Luz da fé)

    Tu, sol, é que me alegras!
    A mim e ao mundo. A mim…
    Que eu não sou mais que o mundo,
    Nem mais que o céu sem fim…

    Nem fecho os olhos baços
    Só porque os fere a luz…
    Ergo-os acima – e embora
    Cegue, recebo-a a flux!

    Crepúsculos são sonhos…
    E sonhos é morrer…
    Sonhar é para a noite:
    Mas, para o dia, ver!

    Sim, ver com os olhos ambos,
    Com ambos devassar
    Os astros n’essa altura,
    E os deuses sobre o altar!

    Ver onde os pés firmamos,
    E erguemos nossas mãos!
    E quer nos montes altos,
    Quer nos terrenos chãos,

    É sempre amiga a terra
    E é sempre bom viver,
    Se a terra à luz da aurora
    E a vida ao amor se erguer!

    Em toda a parte as ondas
    D’esse infinito mar,
    Por mais que andemos longe,
    Nos podem embalar!

    Em toda a parte o peito
    Sente brotar a flux,
    E sempre e à farta, a vida…
    Vida – calor e luz!

    Nos seixos d’essas praias,
    Se o sol lá lhes bater,
    N’um átomo de areia,
    Deus pode aparecer!

    Bata-lhe o sol de chapa,
    E um deus se vê também
    No pó, tornado um astro
    Como esses que o céu tem!

    Desprezos para a terra?!
    Também a terra é céu!
    Também no céu a impele
    O amor que a suspendeu…

    E quem lá d’esse espaço
    Brilhar ao longe a vir
    Dirá que é paraíso
    E um éden a sorrir!

    Em baixo! O que é em baixo?
    Em baixo estar que tem?
    Ninguém à eterna sombra
    Nos condenou! ninguém!

    Se até nos surdos antros,
    Nas covas dos chacais,
    Penetra o sol, vestindo-os
    Com raios triunfais

    Se ao céu até se viram
    As bocas dos vulcões…
    E têm os próprios cegos
    Um céu… nos corações!

    Não! não há céu e inferno:
    Divino é quanto é!
    Para que a rocha brilhe,
    Basta que o sol lhe dê…

    Basta que o sol lhe beije
    As chagas que ela tem,
    E a morta d’essa altura,
    A lua, é sol também!

    E as trevas da nossa alma,
    A nossa cerração,
    Oh! como se desbarata
    A aurora da razão!

    Mas se a razão, surgindo,
    Nossa alma esclareceu,
    Também tu, sol, no espaço
    Surges, razão do céu…

    Por isso é que me alegras,
    Ó luz, o coração!
    Por isso vos estimo…
    Tu, sol, e tu, razão!

    1865.

    Antero de Quental

  6. Nuno Seabra Inteligente,

    Descobriste a América e se calhar o pirelióforo e(digo eu) um soalheiro é um gajo que conserta soalhos. Duas descobertas num dia não é nada mau….

  7. Sertorius, tens de vir cá mais vezes pôr ordem na casa. Para quando o teu dicionário alternativo, edição conjunta com a amiga Soledade?
    __

    Anonymous, dias soalheiros já tive, com certeza. E com certeza que tenho. E espero continuar a ter, com certeza que espero.
    __

    Fernando, vergonha não é errar. É esconder. Estás tu, pois, muito bem.
    __

    Mao, excelente recordação dessa luz cheia de sombras.

  8. Caro Sertorius,

    observo que tem uma simpatia muito soalheira, no entanto agradeço-lhe a informação que me dá.
    Relativamente à América, não tive o prazer de nascer a tempo de poder participar nesse evento.
    Quando a pirelióforo, homessa!, chame-me inteligente se bem lhe agrada mas são se atreva a chamar-me de culto, pois desconhecia totalmente esse instrumento da física.
    Cumprimentos.

  9. Valupi,
    o lugar mais obscuro é sempre debaixo da lâmpada, como diz e muito bem o provérbio oriental. Talvez a existência cinzenta a que se refere (a sua) seja uma sequência de dias solarengos ofuscados por um luminoso nevoeiro. E que melhor sítio para guardar o sol do que embrulhado na cortina que transforma os corpos em sombras?

  10. Belle, constato que admites na minha vida uma sequência de dias solarengos. Comove-me esse delírio. Já agora, onde poderei encontrar a cortina das umbras?

  11. Não é para chatear, mas a apresentadora da TVI prometeu hoje, de novo, para o Sul, esta coisa: um «dia solarengo».

    Mandem um bocadinho.

  12. Valupi,
    O que os sábios aconselham é que se comece pelo mais próximo. Parece fácil, mas nem sempre é. Talvez essa cortina, essencial para o desvelamento do ser e do sol, seja a última imagem que os seus olhos registam, antes de se fecharem. E a ter uma cor, imagino que seja da cor do sol. Do sol quando parte, ao cair da tarde, esvoaçante, em busca da sombra.

  13. Fernando, talvez eles tenham razão. É que cada vez são mais.
    __

    Belle, essa do sol ir à procura da sombra, ao cair da tarde, passou-se nalgum solar? Ou num solário?

  14. Primito: e já sabes que sou all for that in the linguistic related arena. O caso é bem curioso: a palavra primitiva (sol) que deu origem ao substantivo derivado (solar) ressurge semanticamente no adjectivo «solarengo». É um delize morfo-semântico bem engraçado.

  15. Pois aparece, primo. É por isso que se dá a substituição no uso inculto. Daqui até à regressão etimológica, é só um raio de sol.

  16. “Fernando, talvez eles tenham razão. É que cada vez são mais.”

    Ai do linguista que queira ensinar seja o que for no campo da ortografia. Arrisca-se a ver a coisa referendada.

  17. Regressão ao macaco é a vossa. Desde quando é que solar vem de sol? vem do solo- o solar com o piso térreio- a loja- a loggia, seus nabecos.

  18. Primo, andas-me a enganar com as etimologias. E logo num assunto tão chão. Depois dá nisto, apanhamos tau-tau de eruditos assanhados. Vou-me queixar ao José Pedro Machado. Mas lá que continuamos a um raio de sol da regressão, isso não se pode negar.

  19. Valupi,

    José Pedro Machado, de uma nuvenzinha, observa. E sorri. Mas deixou cá uns bons no ofício. Anónimos, estes. Excesso de modéstia.

  20. Fernando, muito sorri quem tem o bichinho das etimologias. A minha experiência como o Zé Pedro, porém, tem uma faceta ingrata, pois o desejo é sempre o de chegar ao indo-europeu. E adiante, claro, até às portas do enigma maior.

  21. “Desde quando é que solar vem de sol? vem do solo- o solar com o piso térreio- a loja- a loggia, seus nabecos.”

    Não sei se percebi bem.

    A passagem que cito quer dizer que a palavra “solar” na expressão “raio solar” tem a mesma origem etimológica que a palavra “solo”?

  22. Valupi,

    Só um, bom, um raio de sol para lá do indo-europeu. Sabes que a palavra para «água» é, provavelmente, anterior a ele?

    A comparação faz-se com o nosso «aqua», com o «water/Wasser» germânico, com o «voda» russo (até aqui tudo muito indo-europeu) e com o «wad» (uéd) árabe, relacionado, este, com o nosso «vau», sítio (na água…) onde se pode passar.

    De resto (cá vem a autobiografia), quando penso num vau, penso sempre num a sul de Mértola, no Wadiana, também chamado Guadiana. Por causa dele, têm os ‘gasolinas’ a caminho do Algarve que esperar a maré cheia.

    Maré cheia? Num rio? A 60 km da foz?

    Isso já são enigmas a mais num só dia.

  23. Ora aí está um refrescante raio de sol, Fernando. Não conhecia esse rio linguístico. Mas fascinei-me, algures no tempo, com a descoberta de que as nomenclaturas do divino (como “Zeus”, por exemplo), nas línguas ocidentais, remetiam para o indo-europeu onde designavam o “dia”, a “luz”. O Sol, pois.

  24. Luís, “raio solar” remete para a fonte, o Sol ou um sol.

    Já em solarengo (adjectivo) ou apenas solar (substantivo), como qualquer comum dicionário atesta, “solar” remete para “solu” ou “solum”, donde vem o português “solo”.

    Fica, entretanto, uma saborosa pergunta: como se gera, etimologicamente, “solu”?

  25. solus (só)
    salus (saudável; salvo)
    solum (fundamento; solo; terra)
    sol (sol)

    vem tudo do étimo indo-europeu “sol” – o todo, o uno.(daí, v.g. a raíz da palavra inglesa “whole”)

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