Catarina Martins mostrou no debate com António Costa que é um dos melhores políticos em actividade, sendo rápida e eficaz a argumentar ao vivo pois revela conhecimento e convicção. Como mulher, tem o ónus de estar obrigada a superar preconceitos de género ligados à psicologia e simbólica da autoridade antes de captar a atenção para a propaganda. Sendo uma batalha perdida, posto que não há forma de vencer esse inimigo antropológico que só a História derrotará, é objectivo reconhecer que a sua pessoa pública e mediática transmite confiança como líder do BE. Mas tal será suficiente para fazer crescer o Bloco? Não, afiançam os meus neurónios.
O seu talento para controlar a pose e dramatizar a oratória corresponde simultaneamente a um limite comunicativo. Essa competência traz associada uma percepção de artificialismo. Sentimos que ela se sente num palco. E isso distrai-nos e irrita-nos, tal como acontece quando um qualquer actor exagera na representação, assim destruindo a ilusão ficcional e levando-nos para fora do mundo da narrativa. O simétrico também não é aconselhável num político, isso de aparecer ao público no desleixo da pose “natural”, como Rui Rio está a exibir por razões várias (e nenhuma boa). O indicado é o terreno onde Costa consegue unir o decoro com a veracidade, transmitindo segurança profissional e liderança autêntica.
Provando que esta opinião não é um argumento misógino ou machista encapotado, avanço já com a Mariana Mortágua. Acho que ela está destinada a liderar o BE e não vai ter esta limitação da Catarina Martins porque a sua pose é invariavelmente carismática. Há uma coerência interna, uma “alma”, que se constitui como força irradiante. Donde, não precisa de gritar para se fazer ouvir. Poderá servir-se dessa condição para amplificar as mensagens do Bloco e levar o partido para onde quiser.
Outro limite da Catarina Martins registado neste debate transcende a sua figura e remete para o colectivo. Enquanto a imprensa em manada se besuntou com o mel e o fel, frase que ilumina a duplicidade hipócrita dos bloquistas mas que não tem qualquer novidade, o que Costa vocalizou de mais importante para quem estiver indeciso entre o PS e o BE foi outra coisa. Esta:
«Faço a justiça de reconhecer à Catarina Martins que só soma o seu voto à direita e à extrema-direita para chumbar o Orçamento do PS mas não é capaz de juntar o seu voto à direita e à extrema-direita para aprovar um Orçamento alternativo ao PS. Portanto, aquilo que votam não é para avançar, é para parar. E o País não pode parar, o País tem que avançar.»
Este é o bloqueio do Bloco, incapaz de ser Governo e disposto a impedir que o PS governe. Catarina Martins não respondeu à evidência de serem um tronco na engrenagem da democracia e da esquerda, mergulhados como estão em sectarismo. Enquanto os comunistas acham que são diferentes dos socialistas e dos bloquistas, e durante décadas esse tribalismo justificou o bloqueio partidário à esquerda, os bloquistas acham que são melhores do que ambos, socialistas e comunistas. Levados ao colo pela comunicação social, fantasiam-se como sendo muito mais importantes do que a sua representação eleitoral atesta e a realidade sociológica admite. Daí António Costa, que esteve impecável na estratégia e no desempenho neste debate, ter igualmente deixado o repto aos votantes no BE em 2019: Valeu a pena? É para continuar? Esta arrogância disfuncional serve os vossos interesses?
As eleições vão servir para responder a essa e outras questões.