Começa o ano com isto

A ideia de que as plantas são reservatórios de água, e que a rara chuva pode ser um bónus aquífero, enche-nos de esperança líquida e translúcida. Milhares de milhões de anos de engenharia biológica ainda sem paralelo tecnológico (com a fotossíntese no topo da sofisticação química e quântica) estão à disposição da nossa estupidez.

O conceito de ecossistema está em vias de entrar na racionalidade política, a qual tem sido marcada pela inteligência do mecanicismo. Temos escolhido políticos que prometem pôr o Estado e/ou a sociedade a “funcionar”. A maior parte não acredita no que promete mas alguns malucos levam essa megalomania demente a sério e provocam desastres ou ficam perigosos. Já na inteligência do ecossistema, o que está em causa é ligar simbioticamente o Estado e a sociedade. Ligar os diferentes e díspares elementos do todo humano numa organização onde convivamos com trocas que geram alimento recíproco.

Daí este vídeo, por exemplo entre milhares ou milhões de outros congéneres, também poder ser visto como uma semente política que nos permitirá tentar transformar desertos cívicos em florestas de segurança, dignidade e liberdade. Sem extremos, fazendo de cada ligação um centro tão importante como qualquer outro para a nossa “casa”.

20 thoughts on “Começa o ano com isto”

  1. A minha costela alentejana adora pão. E adora até o pão que ainda pão não é. Em tempo de ceifa, num hábito partilhado por muitos, costumava colher espigas ainda por ceifar, esfarelá-las com as mãos, separar os grãos de trigo da casca e comê-los assim mesmo, crus. Uma maravilha! Em casa dos meus tios, no Alentejo, em dia de cozer pão, não perdia a fase de amassar e tender, para “roubar” bocados de massa antes de ir ao forno, cruazinha da Silva, com os quais me empanturrava gostosamente. Em Lisboa, quando, em criança, chegava das aulas para almoçar, ia à cozinha e enchia a barriga de massa crua em pacote, fosse em esparguete, em ‘estrelinhas’, em ‘letras’ ou o que calhasse estar no armário. Quando vinha o almoço propriamente dito, tinha muitas vezes a minha mãe a chatear-me a cabeça, com toda a razão, pois a pança cheia de massa não deixava espaço para mais nada e queixava-me de que não tinha fome.

    Quando, tanto quanto me lembro no princípio dos anos 80, a macrobiótica teve uma difusão explosiva em Portugal, a costela alentejana não podia deixar de me atrair para uma alimentação cuja base são os cereais integrais. Havia inúmeros restaurantes de macrobiótica em Lisboa, de que hoje quase nada sobra, e um dia descobri um em Cascais. Chamava-se Ignoramus e tinha sido “inventado” por dois irmãos, o João e o Carlos, putos de vinte e poucos anos “retornados” de Angola (Lobito). As aspas justificam-se pelo facto de serem ambos nados e criados lá, pelo que, quando vieram para cá, não retornaram a nada, antes chegaram a uma terra que lhes era estranha, vítimas colaterais de sacanices colonialistas com as quais, do que deles conheci, não tinham nada a ver. Eram tipos curiosos, ao ponto de o interesse pela macrobiótica lhes ter surgido, inimaginavelmente, ainda em Angola, onde já a praticavam. Empreendedores natos, criaram o restaurante Ignoramus e mais tarde começaram também a fabricar e comercializar vários tipos de produtos ligados à chamada “alimentação natural”. A marca Ignoramus ainda existe, mas já não é deles. Venderam-na e reformaram-se. Entretanto, a macrobiótica a sério foi desaparecendo e hoje quase nada resta (não me falem em Celeiro). Pratico-a ainda parcialmente, instintivamente, mas sectarismo nunca foi a minha praia, seja em que departamento for, e gostar de macrobiótica não implica qualquer contencioso com uma bela duma piza com tudo ou quase tudo, um ainda mais belo robalo grelhado, umas belíssimas bejecas com tremoços, uma caixa inteirinha de gelados de chocolate ‘Intense Dark’ de uma só vez ou uma cintilante mousse do mesmo manjar de perdição.

    Tanta conversa para dizer o quê? Eu ospilico. A macrobiótica esteve, nos seus primeiros passos em Portugal, muito ligada a malta com preocupações ambientais, ecológicas, nomeadamente a chamada agricultura biológica, sem utilização de químicos. Tal como agora, vivia eu e trabalhava nessa época em Lisboa, mas a fome de mar ‘obrigava-me’ a tirar o passe de comboio e a fugir para Cascais, Raso e Guincho quase todas as duas folgas semanais. Por vezes levava a bicicleta no comboio e chegava a ir até ao cabo da Roca. No Ignoramus, onde comia quase sempre nessas duas folgas, tinha-se criado uma espécie de tertúlia, dinamizada pelos dois irmãos, onde as referidas preocupações ambientais, a agricultura biológica e alternativas prá frentex de todo o tipo eram entusiasticamente discutidas. O nome Ignoramus não podia ser mais adequado, pois o enorme entusiasmo e boa vontade eram decididamente insuficientes para colmatar a igualmente enorme ignorância em que chapinhávamos e nos entusiasmávamos. Mas éramos pioneiros, caraças! Ainda a Greta não andava sequer a saltitar, em projecto de gente, de um tomate para o outro do paizinho!

    Nessa tertúlia participava por vezes um ricaço de Cascais que curara algumas maleitas de que padecia com a saudável alimentação macrobiótica que mamava no Ignoramus, o que o levara a comungar de algum do nosso entusiasmo. Esse ricaço tinha propriedades em vários pontos do concelho, nomeadamente um terreno de um ou dois hectares, coberto de mato, na Quinta da Marinha. Ouvindo as nossas entusiásticas e ignorantes discussões sobre agricultura biológica, propôs-nos um dia a utilização experimental desse terreno na experiência que melhor nos aprouvesse. E assim foi. Devorámos muito do que na época havia de literatura sobre o assunto e, atendendo às características do terreno, decidimo-nos por um método. Chamava-se Método Pain e fora criado por um tal Monsieur Pain não sei das quantas, ou não sei das quantas Pain, um franciú que vivia numa zona montanhosa e agreste de França, onde os ventos fortes secavam rapidamente a humidade resultante da pouca chuva que caía, tornando os terrenos áridos e pouco propícios à agricultura. Perdi horas, dias e semanas a traduzir e dactilografar o livrinho de Monsieur Pain e distribuímos cópias pelos agricultores de aviário que éramos todos. Uma das minhas tristezas é não fazer a menor ideia de onde pára a minha cópia e, da última vez que falei com o João e o Carlos, também eles não sabiam das suas.

    O Método Pain consistia em aproveitar e triturar mato rasteiro, característico da zona para a qual foi pensado, e espalhar o produto triturado pelo terreno a cultivar. Essa cobertura, na qual se faziam uns buraquinhos para permitir o crescimento das plantinhas, protegia os solos da agressão dos ventos, protegia as plantinhas na sua fase inicial, mais frágil, e, simultaneamente, dificultava a evaporação, mantendo uma preciosa humidade necessária ao seu crescimento. Vejo hoje, em canteiros de plantas de jardins públicos, uma cobertura de aparas de casca de pinheiro que julgo terá exactamente o mesmo objectivo.

    O nosso problema de agricultores de aviário (um de muitos) era que, no aviário inteiro, havia apenas um que tinha carro e outro uma motorizada. Os restantes, eu incluído, limitavam-se a dar corda aos sapatos, durante mais de uma hora, sempre que era altura de tratar do latifúndio. Adquirimos enxadas e outras ferramentas e, durante dias, demos cabo do mato todo, que juntámos em três ou quatro pilhas enormes. Primeiro problema: como triturar e esfanicar aquela merda toda? Ninguém fazia a mínima ideia. Haveria certamente máquinas para isso, mas não as tínhamos, nem dinheiro para as comprar. O que fazer?, como questionaria o saudoso burocrata Vladimir Ilitch Ulianov. Desenrascanço tuga: mandámos o Método Pain às urtigas, comprámos umas dúzias de castanhas e umas garrafas de jeropiga, juntámos o aviário todo, agricultores e agricultoras, à volta de uma das pilhas de mato, pegámos-lhe fogo e, quando a pilha era quase só brasas, começámos a deitar para lá as castanhas. Óptima ideia? Nem por isso. Ao fim de alguns minutos, vimo-nos subitamente sob fogo cerrado, projécteis rasavam-nos a cabeça e cada um fugia para seu lado. Era a vingança… das castanhas! Sim, meus e minhas, porque não era apenas como agricultores que éramos de aviário. Como assadores de castanhas éramos ainda piores e não sabíamos que, antes de as pôr ao lume, era preciso fazer-lhes um corte na casca. Sem corte, o ar entre a casca e a parte comestível aquece e dilata. Na ausência de corte, e não tendo o ar dilatado por onde fugir, a castanha transforma-se em granada e explode. Mas aprendemos rapidamente e só se desperdiçou a primeira dúzia. Depois, foi só encher a barriga, de castanhas e jeropiga.

    Dias depois, começámos a sachar o terreno, fizemos uns regos bué de estilosos e, para início da aventura, decidimos semear ervilhas. Alguns dias de cu para o ar e, depois de esperarmos algum tempo que as chuvas fizessem o seu trabalho, uma greve! Não das chuvas, mas das ervilhas. Em talvez meio hectare de ervilhas semeadas, nasceu UMA! UMA ÚNICA ERVILHEIRA, companheiros e companheiras! Ainda arranjámos coragem para tentar um canteiro de nabos, coisa pequena, um quadrado com cinco metros de lado, aproximadamente. Escusado será dizer que os únicos nabos viáveis continuámos a ser nós. No material de apoio consultado (no aviário até havia um ‘Borda d’Água’) tínhamos ‘aprendido’, julgávamos nós, as alturas adequadas para a sementeira e para a monda. Calhou-me a mim esta segunda e abençoada tarefa. Lembro-me de lá ter ido a cavalo na motorizada emprestada do meu companheiro privilegiado, com um sachito e uma ferramenta pequena de que não lembro o nome na mochila. Lá chegado, os olhos e a alma deliciaram-se com os 25 m2 resplandecentes, vibrantes de vida e de verdura! O problema? Olhei para aquela merda toda e, por mais que virasse o cu para o ar, por mais voltas que desse à cabeça e revirasse os olhos, não consegui perceber que parte da luxuriante folhagem era rama de nabos, a preservar, e qual pertencia a ervas daninhas, a eliminar. Portantes, foi esse o tiro de misericórdia na nossa aventura agricultosa. Metemos o rabo entre as pernas e continuámos a fazer aquilo que todos sabíamos fazer bem: comer a comidinha cultivada e produzida por quem sabe.

  2. que fresquinho na minha cabeça: o cruzamento do modelo económico de Heckscher-Ohlin, onde a abundância dos factores de produção é rainha, com o conceito do sustentável plantador de abóboras. é uma espécie de guardador de águas e de sonhos. adorei.

  3. mas espero sinceramente que política e políticos se mantenham bem afastados de tudo isto , para não montarem um circo à volta disto e para não estragarem tudo , como vêm fazendo desde sempre. são coisas demasiado importantes para ficarem ao alcance desses desgraçados com ganancia de poder.

  4. a política : ver o costa a querer roubar votos ao chega e ao berloque com leite e mel de montes de dinheiro para um cheirinho de trabalho ( quê , 30 horas/semana não será ainda muito ? olha o burnout , tanto trabalho mata ) , é deprimente. populista são todos , como podem ver , não são só os extremos.

  5. Yo :
    Conhece a frase de John Maynard Keynes, em 1929, quando depois de dominar a Grande Depressão dos USA, afirmou que dado o desenvolvimento da Ciência e da Técnica naquele tempo, o seu filho ,na altura menor, quando adulto, não necessitaria de trabalhar,por semana, mais de 20 horas!
    Como o gênio Keynes ficaria revoltado,e furioso, se voltasse agora a este mundo de exploração !

  6. começou a plantar ervilhas para dar uso ao cérebro, agora planta fardos de palha no aspirina por amor à inteligência e diz kédesquerda, se calhar tamém já foi seminarista kmó aldrabé ventrollas.

  7. Belo testemhunho, Camacho,
    Aos historiadores de causalidade de políticas públicas ou da falta delas um desafio: Quantos trituradores de mato existiam em 2015 no país em que ardeu 1 milhão de hectares, nos 5 anos seguintes?

  8. o ideal , Samuel , e o realista e o exequível pelo governo , seria avançar com a descida de impostos em bens de primeira necessidade como electricidade , gasolina , gás , e outras minas de ouro para o estado , de modo a deixarmos de pagar os preços mais altos da europa ; avançar com a anulação da bestialidade da vóvó manela , pagar imposto pela habitação onde se reside , o tal imi ; e tentar , mas a sério aumentar a eficácia e produtividade dos funcionários públicos de modo a que todas as inovações tecnológicas introduzidas se traduzam numa diminuição dos mesmos ( é um mistério como é que o Estado nos põe a fazer serviços que eram garantidos pelo pessoal , como no fisco, e como toda a tecnologia introduzida não resulta numa clara diminuição de gentinha a passear nos corredores como acontece em todas as empresas ; por último , calhava bem a promessa de não mais salvarem coisas como a TAP apenas para garantirem empregos para os si próprios quando saírem da politica e para a família e amigos nessas estruturas decadentes e insolventes. ficávamos com uma batelada de rendimento disponível , tanto empresas como particulares , o estado é que ficava com menos e a malta que vive dele prefere prometer barbaridades. eles comem tudo e não deixam nada.

    de momento é tudo…-:)

  9. podemos acrescentar que ao mesmo tempo que a habitação própria deixa de pagar imi , comecem a pagar imi os imóveis que pertencem às carteiras da banca , vendiam-nos muito mais barato porque teriam interesse em despachá-los ,o que era muito bom para nós . e a banca merece todas as maldades que lhe façam posto que não têm qualquer tipo de escrúpulos e usa truques sujos constantememte , como deixar poucos atms pelas ruas e os que há sem dinheiro , de modo a obrigar a usar meios electrónicos de pagamento e receberem comissão sem fazer nenhum.

  10. Só o facto de de vivermos num país de cornos mansos explica a impunidade da vacinação assassina das crianças, que decorre sem que surjam iniciativas de resistência.
    É escusado sonhar a divulgação dos números tabu, ocultos sob o maior dos silêncios: quantas pessoas morreram vítimas da injeção das vacinas assassinas, qual o nível de disseminação dos implantes neuronais e qual o nível de expansão da rede 5 G. Não sabemos porque não querem que se saiba.

  11. A paranoica anti-vacinal yo é um exemplar representativo do “ecologismo alternativo”, radical na rejeição da ciência e da tecnologia.
    Enraizado na tradição do esoterismo ocidental, esse “ecologismo alternativo” tem fundamentos anti-científicos e irracionais que se traduzem em postulados reacionários, tantas vezes disfarçados de pseudo-ciência …. perfumada de “New Age”.

  12. Amigo Lucas, tu no teu cristianismo e eu no meu ateísmo temos uma coisa em comum: ambos gostamos de pessoas e ambos gostamos de gostar de pessoas. E ambos nos consolamos com o privilégio que é saber que há milhões de pessoas gostáveis por quem gosta de pessoas e gosta de gostar de pessoas, e que a imensa maioria da humanidade é constituída por pessoas assim. Dito isto, confesso que, na parte que me toca, encalho ocasionalmente em pessoas detestáveis, ou desprezíveis, ou as duas ao mesmo tempo, e não faço o mínimo esforço para gostar delas. São uma ultraminoria, felizmente, ainda que façam tudo e mais um par de botas para chatear como multidão. Despejado o intróito, e à boleia do comentário anterior, passo a apresentar-te uma dessas pessoas gostáveis, extremamente gostáveis, que somarias sem hesitar às muitas de quem já gostas.

    O Ignoramus era uma casinha pequena perto do topo de uma rua estreitinha de que não lembro o nome. Julgo que desaguava na baía de Cascais ou era paralela a outra que lá ia dar. Era, como as outras ao lado e em frente, uma casita de piso térreo, o chão um pouco elevado em relação à rua e dois ou três degraus, na dita rua, para lá entrar. Do que me lembro, tinha apenas uma divisão, casa de banho e cozinha. Seria, provavelmente, uma antiga casa de pescadores, ou talvez um armazém para guardar apetrechos de pesca. Dos dois irmãos inventores do estaminé, o João era casado e o Carlos tinha, enquanto por lá andei, uma namorada linda, por fora e por dentro, era uma maravilha vê-los juntos. No início eram eles os quatro que faziam tudo: cozinhavam (muitas vezes inventavam), limpavam, lavavam, etceteritavam. Para folgarem um pouco as costas, julgo eu, contrataram a dada altura um tipo também angolano, preto ele, brancos eles, a mim parecia-me apenas mais um irmão, ou primo, vá lá.

    A honestidade que tentavam imprimir à aventura levou-os a procurar fornecedores que respeitassem regras mínimas naquilo que produziam, nomeadamente a não utilização de adubos químicos ou pesticidas no cultivo de vegetais e cereais. Com esse espírito, compravam o arroz integral, uma das bases da macrobiótica, a um agricultor que respeitava escrupulosamente essas regras, julgo que da zona de Alcácer do Sal.

    Resultado: um dia descobriram que dezenas de quilos de arroz integral que tinham armazenados estavam completamente infestados por gorgulho, empanturrando-se, felizes da vida, no arrozinho sem pesticidas. É desagradável comer arroz misturado com aqueles bichinhos pretos, ainda que isso não faça mal a ninguém. Os bichinhos são secos e estaladiços, aquilo era só uma forma diferente de proteína. O arroz branco é apenas hidrato de carbono, o integral tem alguma proteína e um pouco de lípidos, poderia dizer-se que o gorgulho era apenas um abençoado enriquecimento proteico. Mas é claro que isso não seria bom cartaz publicitário. Há sempre uns clientes mais esquisitos e o fecho do estaminé estaria garantido, em três tempos.

    Assim, a solução era fazer desaparecer o gorgulho, já que o arroz, depois de expurgado, era perfeitamente comestível e o sabor não se alterava, era apenas um pouco mais “leve”… por causa dos buracos. Como fazê-lo? Fácil. Despejámos os sacos de arroz em alguidares de plástico e levámo-los para a rua, para o sol. Todos os comensais habituais, mais amigos do que comensais, colaboraram. Alguém tinha ensinado a técnica ao João e ao Carlos e a eficácia ultrapassou tudo o que esperávamos. Mal púnhamos o arroz ao sol, era ver milhares e milhares de gorgulhos a correr para fora dos bagos de arroz, a amarinhar pelos alguidares acima e a pirar-se para a primeira sombra que encontavam à velocidade da luz, alguns, demasiado rápidos, até para dentro da nossa roupa.

    Passada a surpresa inicial com a rapidez do resultado, o que é que eu fiz, ou fazi, que foi o que fizemos quase todos? Elementar, meu caro Lucas. O gorgulho é um bichinho seco, a gente esmigalha-os e aquilo é só casquinha, fica uma espécie de areia entre os dedos, que se sacode com facilidade. Portantes, à medida que aquele exército de milhares de bichinhos pretos, qual carga de infantaria, amarinhava pelo alguidar acima a uma velocidade que me surpreendeu, o teu amigo Joaquim Camacho entrou em frenesim genocida. Passava os dedos pelas paredes do alguidar e depois esfregava as mãos uma na outra, remetendo-os instantaneamente para o Além. O que eu fui fazer! Em segundos, tinha o Carlos ao pé de mim, implorando-me, e ao resto da quadrilha genocida, que parássemos com a mortandade. Está bem que os bicharocos não convidados lhe tinham causado grande prejuízo e quase lhe estragavam o negócio, mas, dizia ele, estavam apenas a fazer aquilo para que tinham nascido. Eram uma forma de vida, pela vida faziam, e depois de abandonarem o arroz nenhum mal nos podiam causar. Estávamos no direito de nos vermos livres deles, mas matá-los? Não senhor, devíamos dar-lhes uma oportunidade de sobrevivência, se o conseguissem.

    E lá foram eles, rua abaixo e rua acima, só não a negrejando porque negra era ela já do alcatrão, em busca do seu lugar… à sombra. É claro que 99,99% morreram certamente pouco depois, uma ínfima minoria de sortudos terá encontrado um ou outro bago de arroz para infestar, mas isso é apenas o universo a trabalhar, a natureza e a natureza das coisas a funcionar.

    Julgo que o Carlos era católico, mas tinha uma enorme costela budista e o budismo era tópico frequente das conversas no Ignoramus. Essa costela era, aliás, característica de muita gente que partilhava a “onda” macrobiótica. A diferença é que o Carlos era honesto e consequente. Assimilava, como homem bom que era, o que de bom intuía nas pregações de filosofias e religiões várias, adoptava e levava a sério tudo o que sentia como bons princípios. É impossível não gostar de uma pessoa assim.

  13. o germicídio de cascais e a sonsice do (g)orgulho russo para se colar ao maior distribuidor nacional de produtos macrobióticos.
    no próximo episódio o papa francisco e dalai-lama fazem uma geringonça católico-budista para encher
    o celeiro de gorgulho.
    é impossível não gostar de uma pessoa assim.

  14. o importador de (g)orgulho russo para os estados unidos acaba de felicitar o líder espiritual pela salame filosófico & religioso inspirador dos homens de bons princípios nas próximas cruzadas de contaminação para salvação mundial.

  15. Porcalhatz javardão, amorzinho querido! Essa coisa de “maior distribuidor nacional de produtos macrobióticos” deve ser coisa bué de importante, imagino eu! Diz-me tu, que eu não sei, mas só a hipótese deixa-me todo molhadinho. Caraças, o trabalho que eu te dou, bacorinho googlador! És um amor! Como híbrido de porco e burro que és, vejo também que a metade asinina enche a barriga até às amígdalas… perdão, até às orelhas com os meus generosos fardos de palha. Pôcera, amorzinho, é que quando confessas que chegaste às ervilhas estás a informar o pardieiro que já tinhas mamado o fardo quase todo, até à última palhinha! E ainda te queixas? Porra, além de ingrato, és mesmo um burro do caralho!

  16. “Essa coisa de “maior distribuidor nacional de produtos macrobióticos” deve ser coisa bué de importante, imagino eu!”

    pra ti deve ser, se não fosse nem tinhas metido o nome da empresa. na volta fizeste a revisão dos catálogos, pagaram-te com pacotes de gorgulho e agora temos de gramar as aventuras do kim karunchov no país dos xilófagos.

  17. Bacorinho, o José do Carmo Francisco manda dizer que comprou umas luvas bué da coiso e tal e tal e coiso, para te meter o dedo no cu a ver se tens ovo, mariconço.

  18. Bacorinho rechonchudo, amorzinho! O que falta agora saber, burrico infantilóide, é com que refresco da marca a Xylophene te paga a publicidade. Seja ele qual for, sugiro que o bebas todinho, até à última gota. Nunca mais terás uma indigestão. Aliás, nunca mais terás digestão nenhuma. Livras-te da azia crónica e o pardieiro livra-se de ti.

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