Arquivo da Categoria: Valupi

Dominguice

O que é um “bom Natal”? O que é um “bom trabalho”? O que é um “bom filme”? Vivendo em sociedade, arriscamo-nos a ouvir estes votos amiúde. A sua ubiquidade, porém, nasce da sua vacuidade. Ninguém sabe o que seja um bom Natal, um bom trabalho ou um bom filme. E se tentarmos discutir o assunto, começando por questionar qual o interesse nesses desfechos entre tantos outros tão mais interessantes e valiosos para as mesmas experiências, seremos corridos com recurso ao “é o que te der prazer” ou a silêncios.

Um filme que não seja cinema é apenas chachada. Um trabalho que não seja apaixonante é apenas servidão. Um Natal que não seja feliz é apenas comezaina.

Crimes ultra-invisíveis nem sequer precisam de factos

No despacho final das PPP, o MP diz que houve crimes que prescreveram porque não houve tempo para investigar. Isto é normal?
Não vou falar no caso concreto, mas temos de pensar na questão de fundo: quais eram os factos? Não eram factos comuns. Não era a investigação de um assalto ou homicídio, não havia confissões, sangue na faca, prova pessoal. É um processo de elevado teor técnico, a exigir equipas multidisciplinares, muitos recursos técnicos e, porventura, não terá sido possível providenciar isso em tempo útil.

Os portugueses devem conformar-se com este tipo de situações?
Não, devem reflectir sobre estes acontecimentos e exigir que não voltem a acontecer. Não devemos ser fatalistas e ficar parados a um canto a chorar. Devemos pensar, analisar e compreender as razões. Estamos a falar de fenómenos altamente opacos e com cobertura legal aparente. No sector empresarial estatal, temos uma realidade vestida por contratos legais e tudo isso deve ser desmontado porque por detrás da legalidade existem as práticas desviantes. Não estamos a falar de coisas normais, mas de uma realidade ultra-opaca e ultra-invisível. E quando o sistema legal não tem nenhuma compensação para quem colabore na descoberta da verdade, ainda mais difícil se torna a detecção desses factos.


Maria José Morgado: “Cultura de impunidade, nepotismo e amiguismo tem feito de Portugal um país pobre e atrasado”

Tenho a certeza absoluta de que Maria José Morgado não representa o pior material humano que existe na Justiça portuguesa. É até altamente provável que represente a enorme maioria nisto de, com as melhores intenções, achar que pode contribuir para a cultura da calúnia e da conspiração.

Como o trecho citado mostra, ela está a tecer considerandos sobre um caso judicial onde, após 11 anos de investigação (com buscas e todo o tipo de devassas à privacidade dos arguidos), não se encontrou o mínimo vestígio de corrupção nem de ganhos financeiros, patrimoniais ou outros que pudessem ser correlacionados com as PPP. Apesar disso, opta por espalhar a suspeição de culpabilidade generalizada para cima dos cidadãos na berlinda.

No fundo, a tese da ilustre senhora é a de que primeiro está o crime, os factos vêm depois – ou não vêm, acaba por ser indiferente porque o crime já foi estabelecido à partida. E ela, repito, não representa o pior material humano que existe na Justiça portuguesa. Tenho a certeza absoluta.

Exactissimamente

Num mundo perfeito, não haveria uma única pessoa disposta a dar pontapés no Estado de direito. No mundo real, exige-se a quem quer ser primeiro-ministro sentido de Estado. Vem isto a propósito de Rui Rio, presidente do maior partido da oposição, ter comentado as conferências de imprensa da PJ sobre a captura de João Rendeiro desta forma: “Pelos vistos, o azar de João Rendeiro foi haver eleições em janeiro.” Não foi André Ventura que escreveu isto, foi Rui Rio. O presidente do PSD inaugurou o tema que desconhecíamos, o da eventual partidarização da PJ, imagine-se, porque a PJ fez o que lhe competia, merecendo o aplauso do país e esta reação de Rio digna de aplauso de um Bolsonaro. A atitude do presidente do PSD é assustadoramente reveladora do perfil de primeiro-ministro que imagina normal, um perfil que nos ofende enquanto comunidade e um perfil que embaraça quem quer substituir António Costa. Depois das declarações aqui transcritas seria justo perguntar a Rui Rio se vê na decretação da prisão domiciliária para Manuel Pinho uma manobra eleitoral para prejudicar o PS. A questão que se coloca é de percebermos que quem quer servir a coisa pública tem de debater os problemas da justiça com seriedade e serenidade, dirigindo-se a um país de cidadãos adultos e racionais, ao invés de procurar explorar ressentimentos e o divórcio entre o Estado e cada um de nós.


Isabel Moreira

Quanto é que Balsemão paga a esta profissional?

«Há outra ligação que muita gente também fez logo, com a tentativa de obnubilar, de escamotear, de encobrir o escândalo que é o da prescrição dos crimes envolvidos nas PPP, com três ministros também de Sócrates. E hoje eles até se apresentam como vítimas por terem tido os seus nomes associados aos crimes e afinal não terem sido julgados e não terem sido ilibados da... Mas a verdade é que quem fica cá com a factura dos três mil milhões, fora aquilo que... somos nós todos portugueses, não é?...»

Ana Gomes

Apesar do palavrório sair-lhe trôpego é possível perceber o que esta caluniadora profissional quer dizer. E que é isto: “nós todos portugueses“, por causa de “três mil milhões” que a própria não faz ideia a que respeitam mas que pretende criminalizar politicamente, devíamos exigir a condenação de “três ministros também de Sócrates” à pala de “crimes” que tribunal algum ainda declarou existirem.

A calúnia profissional é um nicho de mercado altamente bem pago neste nível de vedetismo. E não custa nada a despachar, bastam uns minutos de pulhice semanal para ir enchendo o bolso.

Começa a semana com isto

Mari Ruti on Lack, Love, and Psychoanalysis

Que melhor para esta semana de chuva, culminando num Natal molhado (pun intended), do que recebermos uma introdução a Lacan que nos deixa com a estouvada crença de termos entendido o essencial do seu pensamento? Esse milagre deve-se a Mari Ruti, a qual cria dependência oral na assistência assim que começa a falar. Com a sua energia, a sua alegria, a tradição filosófica – de Platão a Žižek e passando por Kant, Nietsche e Heidegger – é servida numa versão popular que consegue o raríssimo feito de continuar a ser sapientemente autêntica.

A última parte da conversa, onde discorre acerca do amor, é imperdível. Não por ser a verdade sobre o assunto, para longe vá o agouro, mas por ser maxi-hiper-ultra-romântico. Deliciosa ironia onde os platónicos são os últimos a gargalhar.

Revolution through evolution

Stress, by itself, can lead to excessive drinking in women but not men
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Intense meditation brings robust immune system activation
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A diet rich in plant-based products reduces the risk of cognitive impairment in the elderly
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Personality traits predict performance differently across different jobs
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How a fly’s brain calculates its position in space
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Europe’s earliest female infant burial reveals a Mesolithic society that honored its youngest members
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Moral echo chambers on social media could boost radicalization, study finds
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Dominguice

Idealmente, a democracia é o regime que mais inteligência pode introduzir no sistema político graças à liberdade concedida para se apresentarem propostas alternativas de governo. Nesta aspiração, haveria um nivelamento por cima, onde os eleitores poderiam escolher os candidatos e as ideias que lhes parecessem melhores na comparação com a concorrência. Empiricamente, a democracia é o pior regime à excepção de todos os outros por causa da liberdade, a qual é aproveitada para introduzir disfunções várias no sistema político. Nesta realidade, há um nivelamento por baixo, onde a generalidade dos eleitores são enganados e preferem o engano, abdicando de pensar, sequer conhecer, as propostas da concorrência à sua afinidade tribal ou emocional.

Mais importante do que a ideologia e o programa num qualquer candidato político, à presidência da República ou à junta de freguesia, é constatar o seguinte: serve-se das técnicas da estupidificação ou dos instrumentos do pensamento crítico?

Chega-lhe!

«Como partido do sistema que é, o PS sempre fará tudo para que o sistema, que se tem vindo a enquistar de forma preocupante, permaneça imutável e para que, dessa forma, continue a servir com fiel eficácia um aparelho socialista, que tanto se tem esforçado pela sua sobrevivência.»


Fonte

Na opinião de Poiares Maduro

Miguel Poiares Maduro - [Rui Rio] critica aquilo, sim, que é infelizmente uma cultura política em Portugal, muito dominante, partilhada durante muito tempo por ambos os partidos mas mais pelo Partido Socialista do que pelo PSD, na verdade. Uma cultura de excessiva proximidade ao poder judicial, e muitas vezes tentativas de controle do poder judicial. E, nesse sentido, acho que seria mau para o PSD se o PSD abdicasse daquilo que é um activo seu, politicamente, que é aquele de ter sido um partido que mostrou muito mais capacidade de defender essa separação clara do poder político do poder judicial do que o Partido Socialista, na minha opinião, o fez.

Fonte – minuto 5:49

Este Maduro passa por ser um dos melhores quadros sociais-democratas, supostamente trazendo intelectualidade cosmopolita para a terrinha, e sendo um legítimo candidato a presidente do PSD dentro de 10 anos. Promessa de renovo no laranjal? Nada disso, pá. Aqui o temos a cavalgar a estratégia da calúnia e a retórica do ódio, dizendo que os socialistas pretendem dominar as instituições judiciais para obter protecção e ganhos políticos, enquanto no PSD se defende a pureza da República e a integridade do Estado de direito, acrescenta.

Podemos saltar por cima da ausência no seu discurso de qualquer facto, sequer de meia vogal, donde pudéssemos extrair uma qualquer informação para ficarmos a saber do que fala. Porque ele não fala de nada que tenha relação com a realidade. A realidade é precisamente ao contrário, com a direita não só a usar a Justiça para fins políticos onde o PS é um alvo a criminalizar como a permitir-se perseguir os magistrados que resistam às golpadas – casos de Pinto Monteiro, Noronha do Nascimento e Ivo Rosa. O descoco e impudência é tão grande que vimos Cavaco Silva e Passos Coelho em campanha contra Marcelo e Costa por estes não aceitarem a duplicação do mandato da comissária política Joana Marques Vidal.

Mas se do Poiares Maduro nada há então a esperar que remeta para a decência e para os valores fundantes da Constituição, os problemas resultantes do que disse num canal de televisão estatal atingem a jornalista ao seu lado e o comentador à sua frente. Os quais ficaram calados depois de ouvirem a bojarda de ser o PS um partido antidemocrático, uma força de perversão gravíssima da vida em comunidade. A mensagem não foi explicitamente directa como a traduzo na frase anterior mas essa mesmíssima ideia fica indelevelmente implícita nas suas sonsas e trôpegas palavras. Não se pode negar, caso haja vestígios de honestidade intelectual na mioleira, que o fulano quis deixar uma imagem maniqueísta onde os socialistas eram demoníacos na sua relação com a Justiça e os sociais-democratas uns anjinhos. Que podemos concluir, relativamente à idoneidade da jornalista e à responsabilidade do comentador, face à sua ausência de reacção?

Contudo, o maior problema nem é o que os três indivíduos disseram ou deixaram por dizer na ocasião. O que se espalha profundamente corrosivo e tóxico com este episódio, por ser uma cópia de milhares de outros ao longo dos anos, é a normalização da impotência cívica. No fundo, Maduro e compadres que tais, o que estas figuras com exposição e influência mediática intentam quando caluniam em grau máximo o adversário é que ele apareça como inimigo. E aparecendo como inimigo passa a ser possível abusar de todos os poderes para o atacar pois, lá está, justifica-se recorrer a qualquer forma de defesa para eliminar o inimigo, o monstro, o Diabo. A audiência, que não tem forma de validar ou invalidar a acusação pois nada nela existe de tangível, entende pelo menos que está em curso uma guerra civil onde a própria Justiça é um campo de batalha. E, portanto, por sentir-se incapaz de participar na violência em curso, afasta-se da cidade esfomeando a sua inteligência, atrofiando a sua coragem e aprisionando a sua liberdade.

Folgam os pulhas, ocupando a ágora.

Começa a semana com isto

«A dilettante is one who takes himself more seriously than his work; and doctrinaires enamoured of their theories or ingenious ideas are dilettanti in public affairs. On the contrary, the historical approach is intellectually humble; the aim is to comprehend situations, to study trends, to discover how things work: and the crowning attainment of historical study is a historical sense - an intuitive understanding of how things do not happen (how they did happen is a matter of specific knowledge.)»

Lewis Namier_Personalities and Powers

Revolution through evolution

A daily dose of yogurt could be the go-to food to manage high blood pressure
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We prefer farmed salmon – as long as we don’t know what we’re eating
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Minimal effort required: A ten-minute run can boost brain processing
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Toys prove to be better investment than gold, art, and financial securities
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Face masks help jurors tell lies from truth
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The Tipping Point for Legislative Polarization
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Whether people inform themselves or remain ignorant is due to three factors
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Dominguice

Numa República, num Estado de direito, quem conseguir usar a Justiça para obter vantagens políticas tem uma posição de força que dinheiro nenhum pode comprar. Se a isto juntarmos o controlo dos principais meios de comunicação social, então a superioridade fica blindada, pode estender-se no tempo indefinidamente.

E porque é que a situação se mantém sem um vagido de escândalo? Porque muitos não pensam, muitos não ousam, e os restantes comem da mesma gamela.

O “fim da impunidade” continua a espalhar alegrias

“Aleluia! A malta de Mação não perdoa”, escreveu, em 2014, Duarte Marques quando soube que Sócrates tinha sido detido. A alegria extasiante justificava-se porque os verdadeiros socráticos são tipos como este cromo, seres para quem Sócrates é uma fonte de transes espirituais e arroubos místicos. O mesmo fervor religioso terá sentido quando engavetaram Vara sem provas, e da mesma beatitude está agora inundado depois de lhe ter chegado a boa nova da acusação a Paulo Campos, ódio de estimação dos ranhosos.

É uma acusação que levou 10 anos a engendrar. Nos próximos dias ficaremos a saber quais os factos na berlinda e as possíveis interpretações jurídicas dos mesmos. Por agora, há que responder à pergunta: que andou o Ministério Público a fazer durante 10 anos? Uma resposta inevitável é esta: andou a ilibar os Governos de Sócrates de uma das mais obsessivas e adoradas patranhas agitadas na direita decadente e na indústria da calúnia, a de que as Parcerias Público-Privadas rodoviárias tinham sido um bacanal de corrupção. Basta nomear um dos profissionais desta pulhice, José Gomes Ferreira, para ilustrar o que está em causa. Ora, a investigação não encontrou um cêntimo ilícito à pala do alcatrão, levando a que Mário Lino, António Mendonça e Fernando Teixeira dos Santos não fossem acusados. Precisavam de gastar uma década para chegar a esse resultado? Não, claro que não, mas para quê ter pressa quando se está a coagir e a emporcalhar alvos valiosos?

A acusação é pífia, uma farsa. Na prática, assume-se como tentativa explícita de criminalização de um Governo socialista pelas suas políticas, o tal sonho húmido dos cavaquistas e passistas. Contudo, o seu efeito tem o propósito e a eficácia das restantes golpadas onde a judicialização da política é a arma mais poderosa da direita contra o PS. Por isso esta é outra vez uma acusação lançada em cima de eleições legislativas, oferecendo aos impérios de comunicação direitolas munição para fazerem fogo à vontade.

Desde 2008, quando Cavaco se deixou convencer a perverter a sua função presidencial, que existe uma vingança da oligarquia contra aqueles que não tiveram medo dela. O que é curioso, ou então vexante, é constatar a cumplicidade da sociedade, onde se inclui toda a esquerda e o próprio PS, com a vendeta em curso – a qual arrastou a Justiça para a infâmia e o crime.

Aleluia, irmãos.

A esquerda dos fanáticos e imbecis

"Escusam de vir com choradinhos e lamentos, porque o país vai para eleições escusadas e acusaram os outros de irresponsabilidade. Se vai para eleições, foi porque o PS e o Presidente da República assim o quiseram, cada qual por razões diferentes, mas com o objetivo comum de afastar o PCP e o PEV da intervenção política e da ação que vinham exercendo em defesa dos interesses populares e abrir as portas à cooperação entre PS e PSD para assegurar o futuro da política de direita, que no essencial os une", declarou Jerónimo de Sousa.

Fonte

"Eu diria: quem não quer premiar a arrogância de António Costa, que quis ir a eleições para ter uma maioria absoluta, sabe que conta com o Bloco de Esquerda para todas as soluções que contam na vida das pessoas e que o Bloco de Esquerda como terceira força política é essa garantia", apelou.

Fonte

A esquerda à esquerda do PS tem uma cassete em que a política fica reduzida a uma fotonovela onde Costa é o Diabo. O tal demónio que levou ao Parlamento um Orçamento com múltiplas propostas do BE e do PCP. Algumas integralmente, outras aproximadamente, fazendo desse documento o Orçamento mais à esquerda alguma vez sujeito a votação. Orçamento chumbado num dos episódios mais irracionais, ou niilistas, da história da democracia portuguesa.

Só fanáticos e imbecis irão votar nestes sectários.

A carne de Nuno Santos

O limite de 120 km/h nas auto-estradas existe para se protegerem peões que atravessem essas vias? A quase totalidade dos atropelamentos, ou a maioria, ou um número significativo, ocorre nas auto-estradas ou nas vias rápidas? A condução pela faixa da esquerda quando há sinalização de intervenções na berma da auto-estrada é uma opção mais arriscada do que a de conduzir pela faixa da direita? É possível estabelecer a velocidade máxima em que o acidente que vitimou Nuno Santos não tivesse acontecido ou não tivesse sido letal? Desde o 25 de Abril, algum ministro e/ou Presidente da República foi transportado em carros oficiais que nunca ultrapassaram os 120 km/h nas auto-estradas durante o seu mandato ou mandatos? As viaturas da PSP, GNR e Judiciária, quando em perseguição de outras viaturas suspeitas, devem inibir-se de ultrapassar os 120 km/h nas auto-estradas? As ambulâncias em serviço de urgência devem inibir-se de ultrapassar os 120 km/h nas auto-estradas? Os carros dos bombeiros a caminho de um incêndio devem inibir-se de ultrapassar os 120 km/h nas auto-estradas? Portugal deve ser o único país no Mundo onde os governantes e estadistas estrangeiros, entre outras personalidades VIP, se limitem aos 120 km/h quando sejam conduzidos em auto-estradas? Os alemães, que permitem a condução sem limite de velocidade em certos troços das suas auto-estradas, são um povo completamente irresponsável que procura assassinar os peões que gostam, ou precisam, de atravessar auto-estradas?

A resposta a estas perguntas tontas, e a outras tantas que ficaram na gaveta, é “Não, foda-se, larga o vinho.” A velocidade máxima dos 120 km/h é uma herança de 1976 e nada teve a ver com a segurança automóvel, muito menos com a problemática dos atropelamentos. Nasceu das crises petrolíferas do início dos anos 70, limitando-se a velocidade máxima fora das localidades para limitar o consumo de combustível. Claro que se pode correlacionar esse limite com a dimensão da segurança rodoviária mas tal nexo fica cada vez mais absurdo a cada ano que passa. Porque a cada ano que passa aumenta a gigantesca distância entre as condições de segurança dos veículos dos anos 70 com as funcionalidades das sofisticadas máquinas computorizadas ao dispor dos condutores do século XXI. É por isso que todos sabemos ser o limite dos 120 km/h nas cada vez melhores auto-estradas um anacronismo absurdo face à realidade da experiência de condução.

Eduardo Cabrita poderia, eventualmente (algo ainda a esclarecer face ao protocolo de segurança a que estava sujeito), ter decidido que nunca viajaria acima dos 120 hm/h em carros do Estado que o transportassem nas auto-estradas. Sim, podia. Mas se tivesse tomado essa decisão tal não passaria de uma excentricidade absolutamente irrelevante fosse para o que fosse com interesse político, social ou outro. Daí não viria qualquer exemplo que a sociedade quisesse seguir, ninguém de ninguém abdicaria de conduzir acima dos 120 km/h nas auto-estradas pois tal comportamento é lógico e benéfico. E ainda mais lógico e benéfico é o transporte de governantes e outras personalidades notáveis para lá do limite de velocidade máximo porque, diz-nos a evidência da estatística, é preciso esperar muitas e muitas décadas para se registar um acidente – de qualquer tipo – nessas viagens.

Toda gente sabe isto, é básico. Caso se pretendesse tirar algum tipo de ilação do episódio onde um trabalhador foi colhido por um carro do Estado em excesso de velocidade numa auto-estrada, a discussão estaria a ser feita à volta das alterações legislativas, ou regulamentares, que fossem apropriadas. Mas não é isso que se pretende pois essa alteração daria origem a uma gargalhada internacional. A única coisa que se quer neste espectáculo de ódio insano é destruir moralmente Eduardo Cabrita para assim atingir António Costa, o Governo e o PS. A vida perdida de uma pessoa, e as consequências para a sua família e amigos, não passa de carne para o canhão da pulharia.