No dia 4 do corrente, às 9:34 da matina, este blogue recebeu do YouTube o aviso de terem sido removidos 5 vídeos do seu canal Aspirina B por violação dos direitos de autor. Mais se informava de ter sido a 1ª advertência registada e que não se deviam carregar mais vídeos susceptíveis de gerar novas advertências pois tal levaria à desactivação da conta. 6 minutos depois, às 9:40, o YouTube enviou novo aviso, agora relativo a 8 vídeos, os mesmos 5 já supostamente removidos com a 1ª advertência mais 3. No texto lia-se que se estava perante a 2ª advertência e que uma 3ª os levaria a desactivar a conta. 13 minutos depois, às 9:53, o YouTube informou que a conta foi desactivada por se ter atingido as 3 advertências. A listagem dos vídeos em causa correspondia aos 8 supostamente removidos nas advertências anteriores mais 3. Passados 5 minutos, às 9:58, repetiu-se o anúncio da desactivação da conta, listando-se os 11 vídeos referidos no aviso anterior mais 1. Finalmente, às 11:20 do mesmo dia, o YouTube voltou a informar que a conta tinha sido desactivada por se terem atingido 3 ou mais advertências por violação dos direitos de autor, apresentando-se uma lista de 13 vídeos, os 12 do aviso anterior mais 1.
Nesse canal estavam uns 30 vídeos com fragmentos de programas da SIC, TVI, RTP e Canal Parlamento. Correspondia a uma coleção começada em 2010 ou 2011 e os números da sua popularidade eram residuais, a enorme maioria com pouquíssimas centenas no contador. O mais popular, acima das 20 mil visualizações, mostrava um excerto de dois minutos com Miguel Sousa Tavares a cascar no Ministério Público a propósito das buscas no Ministério das Finanças, em 2018, relacionadas com bilhetes para um jogo do Benfica. Ou seja, não se reproduziam programas completos nesse canal e ele em nada prejudicava os propósitos comerciais dos canais televisivos detentores dos direitos autorais das migalhas ali reunidas. Aliás, a existir algum efeito mediático tangível para os interesses das estações de televisão em causa, ele seria benéfico pois poderia suscitar notoriedade para os programas e respectivas personalidades na meia dúzia de gatos pingados que subscrevia a coisa (não chegavam a 300, se bem me lembro).
Da parte do YouTube, o processo é automático e implacável. Não se aceitam reclamações após se atingir a 3ª advertência, nem sequer se responde aos contactos, o que faz sentido quando as regras são cumpridas dentro da sua lógica pedagógica. O YouTube chega a fornecer material didáctico a respeito dos direitos de autor juntamente com a 1ª advertência, apelando a que se faça um mini-curso com vista a evitar a eventual perda da conta e de todos os seus conteúdos e registos. Porém, tal deixa de fazer sentido quando se usam as regras para provocar um dano irreversível, como é aqui o caso. Não existiu nenhuma nova publicação após o aviso inicial e a conta foi anulada em 20 minutos. Quer isto dizer que a intenção não remetia para qualquer preocupação com os direitos de autor de alguns vídeos, pois se assim fosse eles teriam aparecido todos listados na 1ª advertência e o caso ficaria resolvido com a sua remoção, sem ser preciso levar à desactivação do canal. Pelo contrário, quem levou a cabo esta operação chegou ao ponto de ter feito 6 queixas antes do almoço, diferentes entre si para que cada uma entrasse no sistema sem parecer uma repetição. Ironicamente, o agente deste triunfo deve ter ficado desesperado com a demora em ver a conta a desaparecer do seu monitor, continuando a disparar sobre o que já era um cadáver digital.
Ora, quem foi o artista? Algum bacano a trabalhar numa parda entidade: GEDIPE – Associação para a Gestão Coletiva de Direitos de Autor e de Produtores Cinematográficos e Audiovisuais. E que gente é esta? Não faço ideia mas os Órgãos Sociais revelam quem é que manda nos amanuenses da casa. Pois bem, por que caralho haveria o GEDIPE de gastar o seu tempo, electricidade e teclado com um blogue (ahahahahah) situado nos fundilhos da Internet? Está em curso uma cruzada contra vídeos de segundos ou poucos minutos que não passam de um minúsculo e irrelevante memorial da nossa política-espectáculo? Ou há mesmo muito pouco, quase nada, para fazer no GEDIPE e eles precisam destas excitações bizarras para aguentarem o spleen? Pedindo emprestada a navalha a Ockham, a explicação mais simples remete antes para um passarão qualquer com poder suficiente para pôr o GEDIPE a mostrar serviço a quem paga as contas. Por exemplo, um passarão que tenha lido o texto publicado no tal dia 4 Novembro, 23 minutos antes do início do bombardeamento: Tens ódio para vender? Há quem pague muito bem por ele. É uma hipótese, claro. Acontece é ser a melhor à disposição.
Donde, respondendo ao título, ninguém de ninguém tem medo, pá. A influência do Aspirina B nos acontecimentos que moldam a política nacional é análoga à influência do ressonar de um grilo em Alpiarça no trânsito de Plutão à volta do Sol. Já a influência deste pardieiro no GEDIPE, e em quem se lembrou do castigo aplicado, fica como uma caricata ilustração da mesquinhez e ódio dos pulhas.