«Postulado: em 2015 um PS em maioria absoluta não tinha aplicado mais de metade das medidas contra a austeridade que vieram a acontecer com a "geringonça".
Alguém tem coragem de desmentir esta afirmação?...
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É, até, bastante melhor ter governos estáveis mas pressionados no parlamento por não terem maioria do que arrogantes governos "absolutistas", autossuficientes, autocomplacentes e autistas para o país.
Postulado: eleições antecipadas não são, em si, um problema para Portugal, mas se daí resultar uma maioria absoluta, então o país defrontará uma tragédia.»
Portugal aguenta uma maioria absoluta?
Pedro Tadeu é um jornalista comunista que usa o seu espaço de opinião para defender os interesses do PCP. É o que neste texto acima citado faz, alinhando com a estratégia de agitar o papão da “maioria absoluta” para tentar segurar o núcleo eleitoral mais sectário que vota à esquerda do PS. Todavia, o seu exercício apresenta uma utilidade involuntária: ao lhe ter dado uma forma demonstrativa, correndo o risco de ser claro na argumentação (vide o postulado inicial), o autor deixa exposta a falácia a que se agarram.
Primeiro contra-postulado: ninguém sabe o que um Governo PS teria feito com uma maioria absoluta a partir de 2015.
Segundo contra-postulado: um Governo PS de maioria absoluta a partir de 2015 não teria aplicado “mais de metade das medidas contra a austeridade” que acordou com PCP e BE, parece altamente provável, mas tal não permite concluir que não tivesse tomado outras medidas, com diferentes graus ou modos alternativos, que igualmente fossem contra a austeridade, quiçá até podendo ir mais longe nalguns aspectos.
Terceiro contra-postulado: se o PCP decidiu viabilizar um Governo minoritário ao longo de 6 anos por este aceitar anualmente aplicar novas “medidas contra a austeridade”, ter em 2021 decidido inviabilizar um Governo disposto a continuar a aplicar anualmente “medidas contra a austeridade”, ou medidas que melhoram a vida das populações mais carenciadas e da classe média, fica como uma antinomia incompreensível e contrária aos interesses do “povo” que os comunistas alegam defender.
Os políticos e comentadores que surgem a falar em nome ou a favor do PCP e do BE parecem miúdos mimados e mentirosos que atacam disfuncionalmente as figuras parentais. As razões invocadas para chumbarem um Orçamento de um Governo socialista que continha medidas por eles próprios exigidas são um lençol de hipocrisias inanes. Os actos continuam a falar mais alto do que o paleio, e esta história de terem mandado ao chão a sopa e o bife porque lhes recusaram uma fatia de bolo é o único materialismo dialéctico que fica do episódio.
Pedro Tadeu carimba como “tragédia” uma maioria absoluta do PS. Tragédia, não faz por menos no seu afã apocalíptico de pregar aos convertidos. Deixa-nos curiosos: se um Governo de Costa com maioria absoluta é uma tragédia, como é que este escriba terá adjectivado as maiorias absolutas de Cavaco ou aquela que levou Passos e Portas para São Bento? Foi o Holocausto, ou ainda pior?
Mas há uma tragédia no seu horizonte, vai sem discussão. É o que tal representaria para o PCP, a prova do seu irremediável e acelerado desaparecimento. O que, a acontecer, faria todo o sentido. Quem pede Governos minoritários e depois os derruba, só para prejudicar os cidadãos e favorecer a direita decadente mesmo quando o Governo negoceia, não parece ser patriótico nem de esquerda.