A crueldade dos inúteis

"Pessoalmente, estranhei aquela crispação toda que se verificou antes, durante e depois do debate vindo de alguém que reconheceu muitas vezes a forma como o PCP esteve nesta fase da vida política", afirma Jerónimo de Sousa, acrescentando: "Não fui capaz de perceber. Podia ter sido uma noite mal dormida, ou outra coisa qualquer".


Fonte

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O XXII Governo Constitucional de Portugal tomou posse no dia 26 de Outubro de 2019. Dois meses depois, anunciaram-se os primeiros casos de infecção humana por SARS-CoV-2 na China. Três meses depois, era claro que uma pandemia estava em curso. Quatro meses depois, esperava-se a qualquer momento a confirmação do primeiro caso de infecção em Portugal. Cinco meses depois, é declarado o estado de emergência em todo o País e entra-se num confinamento radical, sem memória viva de situação remotamente parecida. Em todo o Mundo, tiveram de se improvisar soluções de políticas públicas num quadro de incerteza absoluta face a uma doença para a qual o organismo humano não tinha defesas e a medicina não tinha terapias nem conhecimento suficiente. A 27 de Setembro de 2021, o Parlamento chumbou o Orçamento de Estado para 2022 na generalidade, algo que nunca antes na história da democracia tinha acontecido. Entretanto, a pandemia continua. As suas consequências na saúde pública, na economia e na qualidade de vida dos portugueses também.

Não se conhecem relatos das experiências pessoais dos governantes e demais autoridades de saúde durante estes dois anos. Não sabemos como é que a pandemia alterou as suas rotinas, a sua energia, a sua saúde física e mental; assim como das suas famílias. Ignoramos o que é meter comida no bucho ou ir para a cama sob o peso e a lâmina da obrigação de ter de decidir em questões onde há milhões de vidas em risco (incluindo a própria e as do seu círculo íntimo), onde toda a população está a sofrer por tempo indeterminado e com efeitos sociais e económicos devastadores e imprevisíveis, e onde os próprios especialistas da ciência e da saúde não conseguem chegar a consensos. De vez em quando, vimos reacções emocionais em eventos públicos daqueles mais expostos política e mediaticamente. Mas não tivemos acesso a relatos descritivos, detalhados e compreensivos da sua vivência. É como se não tivessem vida interior, existência privada, dimensão humilde. Como se fossem máquinas, estátuas, anjos ou demónios. Os jornalistas e os adversários políticos continuaram a desumanizar os governantes – apesar da pandemia, apesar de não quererem estar no seu lugar.

BE e PCP decidiram que a calamidade era óptima para derrubar socialistas, por isso votaram ao lado do PSD, CDS, IL e Chega. Atingiram esse desejado objectivo sem sequer admitirem a discussão na especialidade das propostas orçamentais. Propostas que incluíam vários dos seus requisitos aceites na negociação, formando o Orçamento mais à esquerda já levado a votação. Os argumentos que apresentam para o recusar são um insulto à nossa inteligência, uma obscena e repugnante exibição de hipocrisia. Mas quando, e de imediato após a criação da absurda crise política, se abraçaram no tiro ao Costa, berrando com maus fígados ser ele o solitário culpado das eleições por ter uma obsessão pela maioria absoluta, isso é uma cruel ofensa. Esse discurso só consegue sair das suas bocas se abandonarem a racionalidade e a decência e fizerem de António Costa um monstro. Um monstro e um burro, pois, para além das exigências pessoais incalculáveis que a governação em pandemia implica, a “esquerda pura e verdadeira” garante que ele ainda quis pôr o cargo em risco e acrescentar aos seus dias a preparação em cima do joelho de uma campanha eleitoral onde só uma previsão é fatal: o crescimento do número de deputados que têm orgulho no salazarismo e ódio ao 25 de Abril.

Jerónimo, não foi só uma noite mal dormida. Tens de olhar para o calendário e fazer melhor as contas.

27 thoughts on “A crueldade dos inúteis”

  1. Claro que nem o Jerónimo nem a Catarina farão melhor as contas que eles próprios de propósito querem erradas, para se limparem. E o país vai voltar à escala zero ou pior, com uma geringonça de esquerda ou de direita, algo desavindas, ou um governo de esquerda ou de direta, minoritário, às aranhas. Oxalá eu esteja errado.

  2. pois se o meu feitiço correr fantasticamente bem, o meu feitiço do quero, posso e mando, a democracia ficará mais saudável do que nunca e Costa terá a maioria absoluta. os cães de caça só caçam porque lhes dão fome – andam com fome de desnível e baixaria, que é o que Costa não lhes dá. Costa tem tido muito mais e melhor para fazer: tratar de nós. Costa é, no seio da liberdade, um grande Português.

  3. Também alinho pela maioria absoluta do PS, mas receio bem que uma parte do eleitorado não acorde para a utilidade e que venha a acontecer o que presumi acima. É lamentável, mas uma parte da nossa esquerda, PCP e BE, têm actuado de uma maneira que envergonha quem é de esquerda. Eles, e a pandemia, naturalmente, são os mais responsáveis pela crise porque temos vindo a passar.

  4. Olha a noticia.
    Os autarcas querem fazer um apartheid sanitário nas eleições. Mesas de voto só para infectados ( mas sem sintomas, claro).
    Olha o título.
    A crueldade dos inúteis.
    Conclusão.
    Continuem a discutir o sexo dos anjos e quando tiverem com uma ditadura nos cornos depois venham para aqui chamar nomes aos outros meninos.

  5. O PCP já nem faz campanha eleitoral! Não liga nada às eleições. Querem a rua, querem revisitar o passado. O comité central obrigou jeronimo a votar contra para matar saudades do PREC.

  6. Avante por António Costa: ainda há um país atrás de Portugal na cauda da Europa, não deixem que isso continue!

  7. O mais importante não é estar à frente ou atrás deste ou daquele, disto ou daquilo, mas sim o nivel de vida do país, do seu povo, se é positivo ou negativo, se é bom ou mau, se é suficiente ou apenas sofrível. Não nos preocupemos com a posição, no topo ou na cauda da Europa. Quem tem melhor sol do que nós? Quem tem resistido melhor à pandemia do que nós? Quem tem melhores vinhos, melhores queijos, melhores praias do que nós? E já agora, quem tem o melhor futebolista (pelo menos até ao ano passado)? E já tivemos os melhores maratonistas olímpicos. Enfim, não nos diminuemos!

  8. Da crueldade de inúteis está o mundo cheio. Provam-no certos espíritos comprovadamente inúteis na crueldade, não raras vezes disfarçada sob as vestes dum progressismo intelectual hipócrita.
    Temos neste blog um exemplo de eleição: o comentador conhecido sob o nome de mula russa. Personagem de ódios tenazes, como sabemos. Havendo um que se destaca na sua virulência obsessiva e intensidade emocional particular: o ódio a Israel, e, por inerência, o ódio aos judeus.
    Já não constitui surpresa que a mula russa é hoje megafone alter-mundialista do anti-imperialismo unívoco e do anti-sionismo radical.
    Sendo tributário do ultra-esquerdismo negacionista (que, recorde-se, vulgariza a classificação de Israel como Estado racista, colonialista e impostor da Shoah), o discurso da mula russa converge, no essencial, com o discurso neo-nazi, geminados os dois nesse anti-sionismo visceral que constitui autêntico buraco negro da inteligência de muitos.
    Em suma: temos um anti-semita contemporâneo convertido em anti-sionista. Um pseudo-intelectual que reatualiza os velhos argumentos discursivos de demonização dos judeus, propondo como dogma a inversão do papel histórico deste povo: de vítima, o judeu passou a ser o assassino, o novo nazi. Os dirigentes políticos do Estado israelita são assim reduzidos à categoria de novos himmler, eichmann e goebbels. O drone israelita faz a vez do fuzilamento na vala comum nazi, o bulldozer israelita vale a câmara de gás nazi, a Faixa de Gaza é a Auschwitz nazi, o colonato israelita equivale à colonização ariana do Leste nazi, o exército israelita é versão contemporânea da waffen ss nazi.
    A mula russa não poderia deixar de subscrever, com entusiasmo de iluminado, a afirmação produzida por um sociólogo francês chamado Bernard Granotier, a propósito da invasão israelita do Líbano em 1982. Escreveu então esse sociólogo o seguinte: “É uma guerra total. Hitler não ousou ir diretamente sobre Varsóvia, começou por Danzig. Mas Begin indicou imediatamente o alvo: Beirute. A solução final do problema palestiniano”.
    Do raciocínio de Granotier, evidentemente secundado pela mula russa, temos a extrair a conclusão de que está em curso, à data de hoje, um genocídio já com 42 anos de existência. Mais de quatro décadas de genocídio, sem tirar nem pôr.
    Motivo mais do que suficiente para que a mula russa conclua, com a candura intelectual dos sonsos, que o sionismo equivale a nazismo, daí resultando a formulação do conceito de “nazionismo”, de que não abdica, tamanha é a sua preferência por neologismos suaves.
    Na retórica da mula russa, a estigmatização do sionismo como forma extrema de imperialismo não visa apenas a deslegitimização do Estado judaico, mas também, na melhor das hipóteses, a conversão do alegado genocídio dos palestinianos em crime equivalente ao genocídio real dos judeus ou, na pior das hipóteses, a negação da evidência histórica deste último genocídio, em benefício do primeiro.
    Temos, deste modo, o anti-sionismo de extrema-esquerda da mula russa a convergir com o anti-sionismo demonológico da extrema-direita. Unidos na denúncia do inimigo comum, ambos recorrem à fórmula eufemística do sionismo internacional” (Estado de Israel e diáspora judaica) para exprimirem a crença fantasmática numa conspiração dos judeus pelo domínio do mundo.
    Sob a máscara da legítima contestação da linha política do Estado israelita, o verdadeiro ponto nodal do ódio obsessivo da mula russa situa-se, afinal, na denegação do direito à existência dum Estado judeu. Ao qual deseja, literal e metaforicamente, a morte, seja por via da derrota militar, seja através da dissolução demográfica.
    Se a mula russa vier, um dia, a verter em livro as luminosas teses do seu anti-sionismo, será com naturalidade que receberá o aplauso de personalidades do gabarito, entre outros, de robert faurisson, maurice bardèche, alain soral, julius streicher ou alfred rosenberg, consabidamente cúmplices no mesmo ódio de eleição.
    E para cúmulo do prestígio intelectual, poderá contar com um prefácio de Noah Chomski, esse campeão incansável na defesa da liberdade de expressão, que, na hora da verdade, soube ser solidário com vigaristas do calibre de vincent reynouard e do já referido faurisson.
    E, por último, inevitáveis, lá estarão na fila dos autógrafos vários dos sonsos imbecis que vegetam neste e noutros blogues, derradeiros vazadouros da sua mediocridade essencial.

  9. Kamachov :
    Cantas bem, mas não enlevas !
    Cita quem quiseres, com letra minúscula, pois não precisamos de maiúsculas para os números que são a vergonha do sionismo !
    Cantas bem porque julgas ter as costas quentes,Mossads, Exército, Força Aérea,Bombas Atómicas, etc., etc., etc.. : vã ilusão, vê o que aconteceu ao anjo protector de Israel, a todo o lado onde foi levou pancadaria da grossa, olha o Afganistão !
    E tanta bomba atómica nos paióis, tanto avião, tantos porta-aviões,tanto submarino atómico, tanto satélite, tanta informação : eles até sabem as medidas das camisas e dos sapatos que eu e tu usamos ! Tanta coisa, tanta coisa e ,no fim, a derrota !
    Tanta coisa ,e no fim ,o assalto ao Parlamento!
    Tanta coisa ,e no fim, Guantánamo !
    Não sabes cantar em surdina ?

  10. Parvalhov, já mediste a febre hoje? Estás bem? Espero que não, mas isto é wishful thinking, claro.

  11. Gitmo ‘as American as apple pie,’ former inmate says
    Published: 11 Jan 2022 | 16:00 GMT

    Prisoner-turned-activist discusses how he feels that the now 20-year-old US military jail was slated for closure but never did

    While publicly demonstrating intentions to shut down the detention facility at Guantanamo Bay, Republican and Democratic US presidents alike kept the notorious prison running for two decades, Moazzam Begg told RT.

    Begg is one of hundreds of men who went through the military prison created by the George W Bush administration in January 2002 to keep captives of his global ‘War on Terror’ incarcerated. The British citizen was released after spending three years behind bars without trial and became an advocate for others locked up in Gitmo.

    Despite all known abuses and legal questions associated with it, Guantanamo managed to exist for two decades. This fact shows the entrenched dedication of the US under subsequent presidents to its survival, he told RT.

    Guantanamo is a bipartisan project. It’s left-wing, it’s right-wing, it’s black, it’s white, it’s East Coast, it’s West Coast … it’s as American as an apple pie.

    Bush said he wanted to close his creation and in fact it was under his administration that most of the prisoners in Guantanamo were released. Barack Obama pledged to shut it down and in January 2009 issued an executive order to do so, but after his two terms the facility was still operational. Trump contrasted both in stating his intention to keep it running.

    “Trump came along and he said that he’ll keep the place open, but he only did that because Obama wouldn’t prosecute and gave immunity to all of those who were involved in the torture program,” Begg pointed out.

    Obama infamously acknowledged that “we tortured some folk” – doing things that were wrong and contrary to stated American values – but refused to hold to account those responsible. To his credit, he banned the use of what the Bush administration euphemistically called “enhanced interrogation techniques.”

    Begg said he was subjected to his share of the mistreatment in Guantanamo and witnessed crimes being committed on others.

    “I saw two people beaten to death,” he recalled. “I saw one prisoner with his hands tied above his head to the top of the cage being repeatedly punched and kicked until he was killed. The Americans have accepted that this was a homicide.”

    Personally, he was threatened with the safety of his family, with interrogators waiving pictures of his wife and children in front of him and leading him to believe that his wife was being hurt in the next cell, he added.

    Last year, Begg and other former Gitmo prisoners called on incoming President Joe Biden to do the right thing and shut down the place that the activist described as “an absolute travesty of justice” during an interview with RT.

    “You need to speak to us. The Congress needs to speak to us, the Senate needs to look at us and see our humanity. And we need to tell you what America has done to us,” he said.

    Tirado daqui:

    Gitmo ‘as American as apple pie,’ former inmate says 
    https://www.rt.com/news/545673-guantanamo-anniversary-moazzam-begg/

  12. Lá vamos, cantando e rindo, tremoços comendo e bejecas bebendo, a caminho da guerra e do aniquilamento. Nove décimos da humanidade irão prò galheiro, resto da bicharada também, excepto baratas, percevejos e afins, haverá menos assassinos de animais a comer vacas, menos peidos bovinos para a atmosfera, menos efeito de estufa, menos aquecimento global, final e radicalmente travado, a Greta Thunberg ficará feliz, a radioactividade desaparecerá um dia, repovoamento ambientalmente sustentável, enfim, um futuro radioso, a terra do leite e do mel… e dos tremoços, claro. Bejecas? No credo.

    Washington says it won’t consider Russian proposal to end NATO expansion
    https://www.rt.com/russia/545674-us-refuses-end-nato-expansion/

  13. Não tardou para que a mula russa aparecesse, igual a si própria, na mediocridade de hipócrita integral.
    Secundado por quem quis ser o primeiro dos idiotas de imitação.

  14. Entretanto o homem adoeceu, pelo que tenho de lhe desejar rápida recuperação. E muitas noites bem dormidas, para ver se volta de memória mais fresca. O sonso!

  15. Atrasado mental, querido! Entre as 17:20, quando te deu o ataque, e as 21:01, quando te dei os comprimidos de Novichok, fora quase 4-QUATRO-4 horas. Se estivesses à beira do peido final (wishful thinking again), não teria chegado a tempo. E tu dizes que não tardei? És um paciente pouco exigente, balha-me a Birgem Xantíssima! Mas estaue a melhorar, tás a ber? Agora foram só carenta minutitos, amor!

  16. “Foram” e não “fora”, of course, cabrão de revisor este! Sorry, amorzinho. Estimo as melhoras da borbulha.

  17. As melhoras para a borbulha, of course again, e não para o dono dela. Que viva por muito tempo e cresça sem parar (a borbulha again).

  18. Dizem que a China é país de Partido único e por isso não têm liberdade e as pessoas não são felizes. Ao menos Portugal não é país de Partido Único. Bem contados somos capazes de ter para aí 7 ou 8 ou mais Partidos o que faz de Portugal um dos países mais felizes do Mundo. É só sorrisos e música por todo o lado.

  19. Abraham Chevrolet, convém não esquecer o que, a propósito do Cazaquistão, muito bem lembrou Anthony Blinken, do Império do Bem, há poucos dias: “Once Russians are in your house, sometimes it’s very difficult to get them to leave.” Nem mais! Eu alembrei-me logo das mais de 800 bases militares “russas” espalhadas pelo mundo, prova provada da malignidade agressiva da Moscóvia. Aquele Putin dum cabrão é mesmo um sacana dum açambarcador, mafarrico do caraças! E já viste o que ele gasta em armamento (comparado com os tostões do Império do Bem em simples fisgas), enquanto os pobres russos e russas andam na neve em pelota? Quando as vejo, coitadinhas, só me apetece ir lá aquecê-las, mas o KGB, aliás FSB, cortava-me logo o pirilau, para o pequeno-almoço do Vladimir, e odespois como é que eu mijava? Pôcera, vou já ali à janela benzer-me virado para Fátima, ou para Meca, ou Queca, tanto faz, tenho é de me purificar por ter sujado a boca com o nome do mafarrico da Moscóvia. Balha-me a Birgem Santíssima, estou todo arrepelado!
    Está tudo aqui:

    https://youtu.be/gU8rQWh_qtc

    E não te esqueças de te benzer!

  20. Não há romance sem conflito. A 30 de janeiro o romance atingirá o seu climax. Logo veremos a crueldade do guionista.

  21. Excelente texto!

    E muito bom e muito sintético também o primeiro comentário, Manojas.

    De todas as alternativas possíveis, a melhor seria de facto um novo acordo, firmado pela Esquerda parlamentar, para uma solução de Governo PS estável.

    De todas as que parecem viáveis, infelizmente, a menos má parece claramente ser a de um Governo de maioria absoluta do PS.

    Em suma, oxalá o Manojas esteja errado e ou uma ou outra possam mesmo resultar das próximas Legislativas.

    A Bem de Portugal e do Povo português.

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