Arquivo da Categoria: Valupi

Dominguice

Se o futuro não existe, por ainda não ter existência, não devíamos fazer planos para ele. Porque, não existindo, não serve de nada ter qualquer plano a respeito do que desconhecemos como será ou não será. Carece de aplicação possível um plano para o futuro visto não haver à nossa disposição o tal objecto chamado futuro inerente ao tal plano para o fantasiado futuro.

Devemos antes fazer planos para o passado. O passado fica, está, é. Nós somos esse passado que não passa por não ter mais para onde ir. Ficou para ali à espera que façamos alguma coisa por ele. E não pára de nos chamar, de pedir atenção. Sempre a atazanar-nos com cenas que já passaram. Precisamos de arranjar um plano para que o passado se consiga entreter sozinho, para que finalmente possa ir à sua vida descansado. Em troca ele oferece-nos um presente surpreendente.

Cineterapia


The Angry Silence_Guy Green
[em exibição numa Netflix perto de si]

A tradição do realismo social na cinematografia britânica pode ser um refrigério para quem desespere com o panorama da ficção fílmica e televisiva actual. Em The Angry Silence, junta-se a relevância política e psicológica das temáticas tratadas com a arte de contar uma história. Mas que história é essa?

Nesta obra polémica no Reino Unido aquando do seu lançamento, 62 anos passados, há uma narrativa de superfície que opõe os interesses sectários de agentes sindicalistas aos interesses capitalistas do patronato. Ninguém se salva nos dois lados, mundos antagónicos em constante queda para a exploração mútua. Adentro deste cenário desenrola-se outra narrativa, profunda e envolvente, onde se dramatiza o direito à diferença, à individualidade – isto é, onde o herói representa o fundamento principal da democracia liberal, o supremo inimigo de todas as tiranias: a liberdade.

Por mim, ligando-o à experiência própria, escolho ver este filme como um portentoso e intemporal manifesto contra o assédio moral. A “banalidade do mal”, a passividade colectiva que permite as violências quotidianas de alguns, não foi um fenómeno que se esgotou na Alemanha nazi. É algo que está presente urbi et orbi, em todos os tempos e potencialmente com todos os rostos pois está inscrito no tribalismo, na antropologia.

A cobardia é aconchegante e cautelosa, odeia quem vence o medo.

Against empatas

«Quando eu ponderar uma vida no crime, a primeira coisa que eu vou fazer é construir um altar todo em talha dourada em honra de Ivo Rosa lá em casa e rezar-lhe uma oração todas as noites.»

Araújo das piadolas

Existe uma campanha contra Ivo Rosa, a qual une a direita política e mediática num coro de perseguição obsessiva como nunca se viu igual a respeito de um juiz em Portugal – só comparável à perseguição a Sócrates. Tal deve-se à Operação Marquês, tendo começado logo que Carlos Alexandre ficou em risco de perder o controlo absoluto sobre o seu desfecho. É uma campanha que não aflige os partidos da esquerda pura e verdadeira, nem o PS, nem o ministério da Justiça, nem o sindicato dos juízes, nem o Presidente da República, nem a minha vizinha do 4º andar. Trata-se de uma campanha alegre, portanto, e que continua porque todo o dano que se lhe conseguir fazer promete trazer ganhos para o dano maior que se deseja venha a atingir Sócrates (logo, a também atingir o PS, embora o PS de Costa conviva muito bem com essa armadilha onde os direitolas estão enfiados a ver a caravana do poder a passar).

O Sr. Araújo e coleguinhas televisivos pagos pelo Balsemão são três dos mais influentes carrascos de Ivo Rosa na comunicação social “de referência”. Fazem-no a coberto do registo “humorista”, para que o cinismo e a sonsaria atinjam o grau máximo de veneno no espaço público. Na citação acima, este “comediante” recorre ao sensacionalismo para broncos e trata literalmente Ivo Rosa como cúmplice de criminosos. Só rir, né? O Estado de direito e as legítimas diferenças na interpretação e aplicação da Lei que se fodam, viva o culto dos justiceiros que despacham a bandidagem com cordame e autos-de-fé.

Um estudo da Marktest analisou 60 e tal figuras públicas e descobriu que Ricardo Araújo Pereira é a personalidade com quem os portugueses sentem mais empatia. Ocasião para recomendar a leitura do Against Empathy, onde a tese é precisamente a de que a empatia pode boicotar, e mesmo anular, a deontologia e a ética – ou seja, a empatia pode servir para as maiores canalhices. É o caso com esta pulharia paga a peso de ouro, as vedetas da indústria da calúnia.

Pinto Monteiro, testemunho

Pinto Monteiro (1942-2022)
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NOTA

O silenciamento do fim da vida de Pinto Monteiro no editorialismo dito de referência e nos espaços de comentário político é vexante. Calaram-se por medo de o continuarem a caluniar na hora da sua morte, uns, e por medo de honrarem a sua memória no momento da despedida, outros. Expõe a miséria moral que é parte essencial da comunidade que somos. Revela como a Justiça tem sido usada como arma de arremesso golpista, feita antro de abusos, devassa e crimes sem punição, sequer investigação.

Revolution through evolution

High optimism linked with longer life and living past 90 in women across racial, ethnic groups
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Social isolation is directly associated with later dementia
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Walking towards healthier knees
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Beetroot Boosts Sporting Performance in Athletes
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Do Shared Life Experiences Make It Harder to Understand Others?
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Researchers find large cost benefits for companies with Machiavellian CEOs
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Expertise as a Liability? Experts May Overcompensate Decisions When Told They Are Wrong
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Dominguice

Destino ou liberdade? Podemos, como sugeria e recomendava Agostinho da Silva, aceitar que o nosso destino consiste em cada pessoa se realizar, ou simplesmente viver, como um ser livre. E que numas situações olhamos para o que se explica ou compreende melhor com a dimensão destino e noutras com a dimensão liberdade. Se for esse o caso, quão mais livres mais nas mãos do destino e quão mais entregues ao destino mais livres.

Paradoxal? Sim. E essencialmente quântico.

Desejo que ele viva mil anos

Mas com uma personalidade com a importância nacional e grandeza humana do João Miguel Tavares é natural, inevitável, que nos interroguemos acerca do que seria um epitáfio adequado à sua vidinha. Este cidadão tem sido incansável na luta heróica contra as figuras mais funestas, mais perigosas, mais diabólicas que nos cercam e ameaçam – casos do Domingos Farinho, da Edite Estrela, do Pedro Silva Pereira, do Ivo Rosa, e de qualquer outro com ligações a este bando de facínoras (vocês sabem de quem estou a falar). E também porque, raios, a sua relevância social e cultural está ao nível de qualquer outro ex-ou futuro-presidente da comissão organizadora do 10 de Junho, vai sem discussão. É ver a lista e constatar que o outrora ilustre crítico de cinema não só é um seu igual como até nem merecia ter ficado associado a algumas escolhas sem o seu brilho moral e hipnótica facúndia.

Assim, na citação abaixo, encontro não um, não dois, não três, mas pelo menos quatro potenciais epitáfios que rivalizam em poder de síntese a respeito do opus tavarista:

«Eu li um texto do Eduardo Dâmaso muito giro – ele geralmente está bem informado sobre este tema – que tem uma nova tese (vocês nem sempre lêem o Correio da Manhã, fazem mal, aprende-se muito a ler o Correio da Manhã). Em que ele tem uma tese que é: José Sócrates e Lula da Silva muito amigos, e no final Lula da Silva Presidente da República do Brasil e… toma lá um passaporte diplomático para José Sócrates!»

Caluniador profissional – Junho de 2022

A saber:

1º – «Eu li um texto do Eduardo Dâmaso muito giro»
2º – «Ele [Eduardo Dâmaso] geralmente está bem informado sobre este tema»
3º – «Vocês nem sempre lêem o Correio da Manhã, fazem mal, aprende-se muito a ler o Correio da Manhã»
4º – «Toma lá um passaporte diplomático para José Sócrates!»

Indo a fontes alternativas, esta proposta também é ganhadora:

«Tenho tudo contra a degradação intelectual do 10 de Junho»

Caluniador profissional – Junho de 2014

Aceitam-se outras sugestões.

Português de lei


Pinto Monteiro (1942-2022)

No reino da pulharia, este homem foi odiado por ter resistido ao golpismo da judicialização da política – ou seja, por ter defendido a Lei, o Estado de direito, a sua consciência e a nossa liberdade. Agora, na hora da sua morte, os cobardolas festejam em silêncio:

«A TSF tem tentado obter reações à morte do antigo procurador-geral da República, mas as personalidades contactadas recusam pronunciar-se ou não atendem os telefonemas.»

A cínica declaração de Marcelo, onde alude à “fase complexa da vida nacional” em que Pinto Monteiro foi procurador-geral da República, e onde silencia o assassinato de carácter de que foi vítima por mão da direita (dos broncos e cães de fila aos tenentes e generais) desde 2009, é mais um selo na cumplicidade do regime com o pior que pode acontecer numa democracia: ter a Justiça infiltrada por criminosos que se sentem, e de facto são, impuníveis.

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As escutas estão ao serviço dos jornalistas, diz quem não pode ser ignorado

Adenda à entrevista de Pinto Monteiro

Um linchamento é só rir

«O Sócrates apresentou recurso da decisão instrutória. Esse recurso foi atribuído a uma juíza e ele pede nulidade da atribuição por não ter havido sorteio electrónico. A primeira coisa é este bolo de bolacha de expedientes dilatórios. Atenção, eu sou a favor de garantias ao arguido. Mas, quando as garantias do arguido fazem com que os processos se dilatem no tempo desta maneira, é um bocadinho difícil continuar a chamar garantias ao que parece ser apenas um expediente para nunca ser julgado. E, portanto, é mais uma garantia de que nunca vai a tribunal.»

Araújo das piadolas

Atenção, ele é a favor de garantias ao arguido. Mas ainda mais atenção, há limites. Limites não para todos, claro, calma. Porque, atenção, ele é a favor de garantias ao arguido. Façam é o favor de dar ainda mais atenção ao facto de ele também ser, simultânea e concomitantemente, a favor da restrição, diminuição e mesmo desaparecimento de certas garantias para certos arguidos.

O “Governo Sombra” nasceu em 2008 como um programa de humor que iria gozar com os políticos e a política, de caminho ironizando com os programas de comentário político que se levam a sério. Porém, logo à partida, havia o propósito de ser um espaço de oposição ao então Governo maioritário do PS. Daí terem chamado um fulano alinhado com os interesses do PSD, outro com os do CDS e uma grande vedeta do humor que aparecia como locomotiva das audiências e franco-atirador de alguma coisa supostamente à esquerda do PS. Tudo a malhar no mesmo alvo. As circunstâncias viriam a transformar este elenco numa das forças mais poderosas da actual indústria da calúnia.

Que leva alguém com o poder de influência do Sr. Araújo a atacar os princípios e valores constitucionais e o Estado de direito? Por que razão a sua virulência é obsessiva com Sócrates, que não consta que alguma vez lhe tenha feito qualquer mal, e não com Ricardo Salgado, que consta ter-lhe causado um grande prejuízo financeiro? Ele responderia como os mafiosos, “Não é nada pessoal”. Simplesmente, o negócio assim o impõe. Há mercado para o linchamento de Sócrates, ele não seria um bom profissional se o desperdiçasse.

Revolution through evolution

Women Use Various Tactics to Accomplish Boardroom Goals
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Gratitude expressions between co-workers improve cardiovascular responses to stress
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About 3 grams a day of omega-3 fatty acids may lower blood pressure, more research needed
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Coffee consumption link to reduced risk of acute kidney injury, study finds
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Turn Up the Beat! Groovy Rhythm Improves Cognitive Ability in Groove Enjoyers
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Narcissistic bosses stymie knowledge flow, cooperation inside organizations
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Brain Scans Remarkably Good at Predicting Political Ideology
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Dominguice

Como provar que a Terra roda à volta do Sol se não é isso que os dias mostram? De que forma descrever um átomo se nunca encontrámos átomo algum à nossa frente? As vozes que ouvimos ao telefone são realmente as vozes daqueles que nos falam ao telefone? Quem pode garantir que o lado oculto da Lua não é feito de queijo – e queijo de ovelha com meia cura, para ser mais exacto? Não pergunto a quem sabe do assunto, mas a mim. E a ti. A eles.

Se assumíssemos que não percebemos patavina de coisa alguma, que apenas papagueamos o que nos mandam repetir, que somos feitos de alucinações, a própria evolução teria de parar e sentar-se um bocadinho. Banza connosco.

De facto, Cavaco está em grande forma

«Penso que foi um erro o PSD deixar-se enlear na dicotomia direita-esquerda. Era uma armadilha montada pelo PS e por alguns órgãos de comunicação social para desqualificarem o PSD e impedirem que alguns votantes saíssem do PS para votar no PSD.»

Fonte

Cavaco conhece “alguns órgãos de comunicação social” que montaram uma “armadilha” à volta da “dicotomia direita-esquerda” de modo a “impedirem que alguns votantes saíssem do PS para votar no PSD“. Infelizmente, não teve tempo para identificar esses órgãos conspiradores ao serviço dos malditos socialistas. Talvez numa próxima entrevista ou num novo livro de memórias, vamos ter esperança.

Isto não é conversa de um paranóide ou cheché qualquer, nada disso e bem pelo contrário. Isto é análise política da mais profunda, mais fina, mais lúcida que se faz no rectângulo. Não admira que esta inteligência superior continue, do alto da sua exemplaridade moral, a ser o grande líder da direita portuguesa em 2022. E só cederá o lugar quando Passos regressar numa manhã assim pró farrusco (ou talvez à tardinha, não podemos ser esquisitos).

Estado da direita: o chefe continua a ser o Cavaco

O artigo de Cavaco – Fazer mais e melhor do que Cavaco Silva – levantou o laranjal para mais uma grande exaltação messiânica. Parece que Costa é um merdas e que estaríamos muito melhor se Cavaco continuasse a mandar nisto ou se fosse ele a escolher quem deve governar os estroinas e madraços que insistem em votar no PS, diz o Aníbal e suas cheerleaders.

Tendo a concordar. Repetem o mesmo há tanto tempo, e vão continuar a repetir por mais uns anos valentes, que um gajo acaba por suspeitar que são os ressabiados e impotentes quem tem razão.

Tadeuismo

«A América é o país envolvido no golpe Euromaiden na Ucrânia, em 2014; da expansão da NATO até às portas da Rússia e das ameaças constantes ao seu maior rival económico, a China - tudo ações que poderiam ter muitas boas razões iniciais, mas que estão a lançar-nos numa III Guerra Mundial, com ameaça de armas nucleares.

Porque é que a América é um exemplo a seguir? Por que a aceitamos como líder do mundo? Por que a defendemos quando ela faz tantas coisas indefensáveis?...»


Pedro Tadeu

Este amigo ilustra na perfeição a psicose que invadiu os comunistas portugueses, entre outros grupos já mentalmente muito fragilizados. Como se pode ler, o registo é primário e maniqueísta. Não há qualquer manifestação de pensamento crítico acerca das realidades politicas na Rússia e na China, nem acerca das suas acções e respectivas agendas no palco internacional. Em vez disso, faz-se da “América” um alvo de diabolização, mente-se a outrance e embrulha-se a distorção no catastrofismo.

Como não é possível estabelecer qualquer nexo lógico entre o PCP e Putin, o que os primeiros ainda conseguem deixar em nota de rodapé nas suas intervenções acerca da invasão da Ucrânia, a única explicação para o maior desvario colectivo na história dos comunistas portugueses tem de ser encontrada no profundo trauma resultante de terem chumbado o Orçamento (forçados pelo BE) e, consequentemente, acabarem varridos do Parlamento (sendo humilhados pelos resultados da extrema-direita).

Colocarem-se ao lado do Putin, numa fuga alucinada para baixo, oferece-lhes uma ilusão de identidade. A ressaca vai ser devastadora.