A revelação de excertos das escutas a pessoas ligadas a Sócrates e ao PS, ontem feita pelo Sol, cumpre a última etapa de uma nova forma de fazer política em Portugal. Assistimos, pela mão do actual PSD, à completa instrumentalização da Justiça ao serviço de interesses políticos. E os factos falam por si:
– Pinto Monteiro não tomou as suas decisões por ter lido num jornal as certidões extraídas. Nem tinha como objectivo avaliar o caso em 20 minutos para ir a correr dizer mal dos malandros que nos governam.
– O Procurador-Geral teve acesso a todo o material enviado, incluindo as gravações na sua integralidade, e ainda solicitou adicionais elementos a Aveiro. Sem essa análise, e ponderação, as certidões permaneceriam insuficientes, posto que são uma interpretação sintetizada da investigação.
– Dado o melindre do caso, tanto por envolver o Governo e o Primeiro-Ministro, como por ocorrer nas vésperas das eleições Legislativas, não é crível que Pinto Monteiro não tenha posto o Presidente da República ao corrente da situação. No mínimo, terá justificado em Belém as suas decisões.
– O Presidente do Supremo terá feito exactamente o mesmo na sua relação com o Presidente da República.
Como 1ª conclusão, temos que o Chefe de Estado validou o desfecho onde se conclui pelo erro do Procurador e do Juiz em Aveiro. Assim, pertence ao domínio da grande hipocrisia vir reclamar a intervenção presidencial a mando de uma capa de jornal. Cavaco sabe muito mais do que aquilo que foi agora publicado, e sabe-o há muito tempo. Na demente teoria de conspiração que concebe o Procurador-Geral e o Presidente do Supremo como criminosos, todas as informações que fossem precisas dar para os desmascarar chegariam a Belém pelos mesmos que as colocam nos jornais. Tal eventualidade de ocultamento de ilícitos pela hierarquia máxima da Justica, e logo nos seus dois braços, é o equivalente a um golpe de Estado. Só um trafulha da pior espécie, ou quem está cego de raiva, se permite essa calúnia.

