Arquivo da Categoria: Valupi

Gazeta do optimista

– Temos um Parlamento que a qualquer momento manda embora o Governo e resolve logo os problemas todos.

– Temos um Presidente que a qualquer momento manda embora o Governo e obriga o Parlamento a resolver logo os problemas todos.

– Temos um Ministério Público que denuncia qualquer pressão, mesmo que venha de colegas amigos e seja feita em almoços e telefonemas.

– Temos juízes que autorizam qualquer escuta, mesmo que seja ao Primeiro-Ministro e a mesma não seja legal nem ilegal o conteúdo da mesma.

– Temos jornalistas que denunciam todas as manobras do Governo, não se deixando calar por nenhuma autoridade.

– Temos jornalistas que acusam durante anos seguidos os governantes e os partidos de serem corruptos sem que precisem de apresentar qualquer prova.

– Temos uma casta de colunistas que não gosta de ninguém, mas que continua a querer a atenção de toda a gente.

– Temos palonços famosos a berrar que há anónimos a assinarem textos privados que são publicados em meios privados.

– Temos ainda mais 11 meses do melhor 2010 de sempre.

Esquerda, direita, revolver

Esta infografia explica o fenómeno das eternas discussões que nunca convencem qualquer das partes a aderir, ou conceder, à posição adversária. É que de cada lado está um mundo vasto, origem e abrigo de identidades.

Precisamos de um território que se intrometa entre a esquerda e a direita. Precisamos de novas palavras ou de novas definições. Precisamos daquele tipo heróico de inteligência que ousa confiar no adversário.

Palmadas na Palmira

A França, mais uma vez, está a ser o farol da secularidade. A intenção de proibir os véus em edifícios e transportes públicos irrompe vantajosamente equívoca. O resultado é um debate que favorece ambas as partes, a secular e a religiosa. Os seculares dividem-se entre aqueles que realçam as vantagens da uniformidade cívica e os que protegem a cívica individualidade. Já os religiosos, de diferentes credos, unem-se contra um inimigo comum.

O Jugular lidera este debate na blogosfera, apresentando a mais difícil das posições: mulheres que abominam a violência de origem ou capa religiosa a defenderem tradições religiosas que podem violentar mulheres. Contradição? Não, a questão é que suscita mudança de ponto de vista quando aprofundada: consideram uma violência maior a coerção do Estado, a qual ignora que se pode escolher o véu livremente – e também que a sua proibição pode piorar a situação dessas mesmas mulheres ao lhes retirar poder. A posição que advoga a manutenção do statu quo é a mais inteligente, mas não acaba com o problema, pois há igualmente boas razões republicanas para exigir a interdição do véu. O conflito entre secularidade e religião não tem fim, ou só tem um fim: a derrota política da religião.
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Viva o Sporting!

Justíssima, e bonita, vitória do Braga. Os deuses ofereceram-lhe o golo e a burrice dos leões. Mas é uma burrice com mérito, por vir do Carvalhal, um génio. Este génio insiste no Veloso, pé canhão e pólvora seca. Veloso a médio direito é o equivalente a participar no Dakkar com uma Famel Zundapp. Mas Carvalhal prefere a dificuldade, senão perde o interesse e começa a chegar atrasado aos treinos.

Uma coisinha é certa: depois deste jogo, o Sporting continua à frente e cada vez mais perto de ser campeão.

Que caralho de dicionário é este?

Não, caralho. Não queria dizer baralho, caralho. Queria era dizer caralho, por isso o disse. Mas porque caralho haveria de querer dizer baralho quando o que havia a dizer era caralho? Oh, cum caralho… Baralho, caralho?!

Este dicionário, não contente com a exclusão do vernáculo, ainda tem o topete de pôr em causa a literacia do utilizador, insinuando que há algum engano da nossa parte (já agora, faz o teste com punheta para descobrir mais uma genial associação). Desde a crise do Pato com Laranja que não via uma acção tão frontal contra a obscenidade, essa força maligna que nos reduz a seres com liberdade de expressão.

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Como sequela, ou prequela, do acima exposto, lê um texto do caralho.

Comprem fraldas

Tudo o que Teixeira dos Santos diz das agências de rating, explicando aos distraídos que elas não devem ser confundidas com a Santa Casa da Misericórdia, seria dito pela direita mais vezes, mais alto e mais demoradamente se estivesse no Poder. Nesse caso, apareceriam inchados de nacionalismo bacoco, garantindo que a independência da Grei iria resistir aos algozes da alta finança internacional. Diriam que em Portugal mandam os portugueses, e que para governar existe o Governo.

Como não presta para nada, esta direita faz cocó nas calças e queixa-se da qualidade do ar.

Não, não têm

A saída de José Manuel Fernandes foi lida como cedência da Sonae ao Governo…

Errado. Não houve cedência, mas sim uma guerra entre jornalistas, com culpas para as partes. Um director pode sentir-se cansado. Terá sido uma das razões, pois José Manuel Fernandes deixou de lutar para liderar. Ele era acusado – e bem acusado – de não criar climas de consenso no jornal. Deixou-se desautorizar.

– As razões de saída foram então internas e não propriamente políticas?

Cansaço, se quiser. Provavelmente, concluiu, com o andar do tempo – e ele reconhece – que podia ter feito melhor. Perdeu poder. E quando um director, seja de que empresa for, deixa de mandar com alguma firmeza, cada dia que passa é pior. Ele concluiu que se tinha esgotado o seu tempo. Continua a colaborar, agora na qualidade de comentador. Escreve mais ou menos da mesma maneira, mas já não tem responsabilidade na linha editorial.

Via Câmara Corporativa

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Durante meses e meses, passarões de muito alimento político e mediático garantiram-nos que a saída do Zé Manel era uma prova da asfixia democrática e da existência de um projecto de poder pessoal qualquer; o qual levaria à entronização de Sócrates e subsequente fecho do Parlamento, e das fronteiras, para mais 48 anos de orgulho solitário. Foram os mesmos que também usaram o João Miguel Tavares como prova da fúria persecutória contra a imprensa livre, mas só até ao dia em que o coitadinho viu o mercado recompensar a estratégia de ocultamento seguida. Então, e também para reposicionar a sua marca após as eleições legislativas, contou uma versão dos acontecimentos que os cães de fila da Política de Verdade comeram e calaram. Os mesmos, sempre os mesmos, que berraram histéricos contra uma empresa privada por esta ter acabado com um peculiar jornalismo fundado na esperança de que uma potência estrangeira aterrasse na Portela com um mandado de captura para o Primeiro-Ministro.

Não têm vergonha?

Orçamentos grátis

Quando for eu a mandar nesta merda toda, obrigo os partidos da oposição a apresentarem os seus orçamentos alternativos. Adorava ver o que aquelas inteligências elaboravam no fogo da responsabilidade.

Como é que o BE e o PCP fariam a divisão dos recursos, sabendo-se que iriam aumentar e dar subsídios de desemprego a qualquer marmanjo sem vocação para o trabalho, proibiriam os despedimentos, prenderiam os patrões, fariam chegar os cuidados de saúde ao cu do mundo e transformariam as pensões de miséria em pensões de fartura? Qual seria o défice resultante das propostas eleitorais desses partidos?

E como é que o PSD e CDS diminuiriam o défice, sabendo que também pretendem baixar impostos, acabar com taxas, diminuir os pagamentos ao Estado? Como é que eles fariam o emagrecimento da Função Pública, onde e quanto cortariam? Como é que diminuiriam o desemprego se o actual desemprego é causado por factores externos?

Venham daí esses orçamentos. Não custa nada.

Much ado about nothing

PSD e CDS começaram a nova legislatura com a cassete da maioria parlamentar e de como o Governo tinha de se sujeitar às novas regras. Entretanto, o Governo preparava a elaboração e aprovação do Orçamento desde a primeira hora após ter tomado posse. Chegada a hora da verdade, PSD e CDS tiveram juizinho.

Fica como um dos maiores enigmas da política nacional isto destes dois partidos só terem juízo uma vez por ano, ou menos.

Vamos com os cães

Um casal de bifes começou a fazer contas à carne necessária para alimentar um cão. Resultado: dois Pastores Alemães consomem mais durante um ano do que a média de um habitante no Bangladesh. Não contentes, continuaram a irritar os amigos dos animais, agora fazendo contas à pegada ecológica. Resultado: ter um rafeiro qualquer gasta mais recursos do que ter um carro de alta cilindrada. Os que prefiram gatos não têm motivos para ronronar, bem pelo contrário. Até possuir um cágado é razão para nos borrarmos de medo com os cálculos deste casalinho que não começou hoje a pensar na saúde do Planeta.

A população humana duplicou nos últimos 50 anos, mas a exploração de recursos naturais quadruplicou. E a China só há pouquíssimos anos começou a ter classe média, hoje é o maior mercado automóvel do Mundo. A Índia também acelera os seus níveis de consumo, assim como todos os países em desenvolvimento. A meta são os padrões de consumo dos EUA e Europa. Mas a menos que se comece a plantar trigo na Lua, algo de completamente errado está a passar-se neste pintelho da galáxia. O animal em nós está a devorar o seu próprio corpo.

Minority Report

Junto a minha indignação à do Paulo Ferreira perante esta notícia. A ser uma transcrição válida do que o Tribunal declarou para fundamentar a sua decisão, estamos perante uma aberração judicial. Estes juízes devem ser investigados, os seus processos anteriores reavaliados, porque são um perigo público.

Os pedófilos são reincidentes. Este médico, tendo a oportunidade, vai voltar a atacar. Não a tendo, vai procurá-la. E só parará quando encontrar a nova vítima. Ora, como estamos perante um médico, e de clínica geral, as oportunidades não faltarão. Os familiares das futuras vítimas talvez venham a poder processar estes juízes, pois, e mesmo que não dê em nada, a simples censura do facto e a ameaça da prisão realizarão de forma adequada e suficiente as finalidades da punição.

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Nota: a notícia remonta a Março de 2009

Estado da direita

João Pinto e Castro fez um retrato da direita portuguesa que é tão cru quanto exacto. De todas as maleitas de que sofre – tão mais inesperadas quanto dispõe dos melhores recursos educativos, financeiros e sociais – nada se compara à falta de talento. Não há talento político no PSD e CDS, o poder tem estado entregue a figuras medianas e medíocres, como Durão Barroso, Marques Mendes e Portas, nalguns casos más, como Manuel Monteiro, Filipe Menezes e Ribeiro e Castro, e até péssimas, como Santana e Ferreira Leite. Onde estão os craques?
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Obrigado, Santana

A condecoração de Santana com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo gerou silêncio na direita e escárnio na esquerda. Para cúmulo, ver a má moeda agraciada pela mão do pior Presidente da III República é por si um espectáculo trágico-cómico imperdível ou descoroçoante.

Contudo, há um outro lado neste episódio. Aquele onde Santana, de facto, merece a condecoração. Não pelo que ela valha simbolicamente, mas pelo reconhecimento que o Estado outorga a quem o serve. Independentemente da avaliação que se faça do Governo de Santana, sendo até indiferente o modo como acabou, a verdade é a de que ele se ofereceu para servir Portugal num dos cargos de maior responsabilidade para todos nós. Quantos se recusariam? Muitos mais do que aqueles que aceitariam, não é?

O discurso contra os políticos, típico dos populismos e das tiranias, e que se encontra do PNR ao BE e PCP, perverte a democracia. Passamos bem sem essa legião de egocêntricos furibundos, inúteis ou perigosos. E talvez um dia aceitemos a evidência: não há força mais poderosa do que essa que consiste em esperar o melhor do governante, dando-lhe todo o apoio para que o exercício das suas capacidades não tenha a menor desculpa. E só depois, com implacável lucidez, julgar os seus méritos.

Santana foi demitido porque não tinha legitimidade eleitoral, por um lado, e porque causava crescente perturbação no Regime, naquela que parecia uma espiral imparável de decadência. Apesar disso, que teve um justíssimo desfecho, agradeço-lhe a disponibilidade para me servir. Eis uma generosidade e coragem, essência da cidadania, que se pode enaltecer até mesmo quando se trata do desastrado e ridículo Menino Guerreiro.

Vício

Não é um Mad Man, mas é capaz de fazer perder a cabeça. Cada episódio é uma aula de antropologia e psicologia evolutiva. Aprende-se que o corpo não consegue mentir. E que muito se mente por causa do corpo.

Fica para mim

A publicação ilegal das escutas a Pinto da Costa, repetição sonora do que já tinha vindo a público por escrito, dá azo a uma oportunidade para distinguirmos a moral da ética – tomando aqui a primeira como o conjunto das regras objectivas de conduta admitidas numa dada época, e a segunda como a capacidade subjectiva de identificar o bem e o mal.

Aqueles que ouviram as gravações, alguns tendo de imediato utilizado esses conteúdos como material humorístico na comunicação social, validaram a publicação. A ilegalidade compensou, o culto da violação da privacidade foi exaltado. Constitui-se agora, com o exemplo de milhares e milhares, como um acto moral – ou seja, está de acordo com os costumes que uma dada sociedade institui como preferíveis. Já aqueles que se recusam a ouvir, porque não querem ser cúmplices, estão numa situação em que não podem fazer prova de uma ausência. A sua boa acção é invisível, parece inexistente, mas é real.

O provérbio As boas e más acções ficam para quem as pratica nasceu na Idade Média, um período de fulgurantes ensinamentos. Nunca deixará de ser actual, enquanto existir uma consciência ética algures no Universo.