Obrigado, Santana

A condecoração de Santana com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo gerou silêncio na direita e escárnio na esquerda. Para cúmulo, ver a má moeda agraciada pela mão do pior Presidente da III República é por si um espectáculo trágico-cómico imperdível ou descoroçoante.

Contudo, há um outro lado neste episódio. Aquele onde Santana, de facto, merece a condecoração. Não pelo que ela valha simbolicamente, mas pelo reconhecimento que o Estado outorga a quem o serve. Independentemente da avaliação que se faça do Governo de Santana, sendo até indiferente o modo como acabou, a verdade é a de que ele se ofereceu para servir Portugal num dos cargos de maior responsabilidade para todos nós. Quantos se recusariam? Muitos mais do que aqueles que aceitariam, não é?

O discurso contra os políticos, típico dos populismos e das tiranias, e que se encontra do PNR ao BE e PCP, perverte a democracia. Passamos bem sem essa legião de egocêntricos furibundos, inúteis ou perigosos. E talvez um dia aceitemos a evidência: não há força mais poderosa do que essa que consiste em esperar o melhor do governante, dando-lhe todo o apoio para que o exercício das suas capacidades não tenha a menor desculpa. E só depois, com implacável lucidez, julgar os seus méritos.

Santana foi demitido porque não tinha legitimidade eleitoral, por um lado, e porque causava crescente perturbação no Regime, naquela que parecia uma espiral imparável de decadência. Apesar disso, que teve um justíssimo desfecho, agradeço-lhe a disponibilidade para me servir. Eis uma generosidade e coragem, essência da cidadania, que se pode enaltecer até mesmo quando se trata do desastrado e ridículo Menino Guerreiro.

19 thoughts on “Obrigado, Santana”

  1. O problema é que o Estado não outorga reconhecimento a todos os que o servem, mesmo que muito bem, mas apenas a alguns que o servem, mesmo que mal, só por razões, digamos, protocolares.

  2. Quase, quase completamente de acordo. Só discordo na questão da legitimidade.
    Santana não foi candidato a PM nem tinha que o ser!
    Lembram-te da conversa antiga das legislativas?

    Mas sempre adianto quê poucas vezes fiquei tão aliviado pelo facto de um governo ter terminado funções. No entanto, imagino uma situação de igual satisfação ;)

  3. Em Direito Penal uma das causas de exclusão da culpa é a falta de consciência da ilucitude do acto. Raro, mas pode acontecer. Parece-me que aqui, no caso do Santana, estivemos perante uma falta de consciência do serviço público o que deveria ter, como consequência, a exclusão do mérito. Ou talvez se possa dizer, aproveitando as palavras de um grande pensador do nosso tempo, que se a atribuição da medalha é moralmente inatacável, éticamente deixa muito a desejar…

  4. ‘O discurso contra os políticos… perverte a democracia’.

    Essa vai ficar nos anais da meteorologia revisionista do anarco-capitalismo. Isto e, ha muitos Alegres na terra, e chavao em abundancia nao falta. Novo, velho e recondicionado. E se nao se perder de vista que a perversao e impervertivel porque e contra certas leis basicas da quimica, today, my dear, is Independence Day! – para quem te le antes dum cafe forte de manha.

    Eu diria que esse discurso contra os amanuenses da promessa democratica e fundamental e necessario, nao so pelo colorido e folclore que envolve, mas tambem para se ir matando a fome e a sede aos coitadinhos e orfaos que ainda acreditam nesta senhora.

  5. Muito bem, Val. O discurso rasca contra “os políticos que temos” mete nojo. Não precisamos de abafar o sentido crítico para reconhecer o mérito e dignificar o serviço público. Santana também faz isso, não enxovalha os adversários.
    Só não entendo o que é que Cristo tem a ver com tudo isto.

  6. Eu também tenho um obrigado para Santana. Demitiu o Cardoso e Cunha da TAP, permitindo assim que esta administração continuasse o seu trabalho. Não me lembro de mais nada para realçar, mas esta decisão foi positiva.

  7. No fundo agradece-se a disponibilidade (que eu julgo não tão desinteressada e altruista mas sim aventureira e narcisista) e cumpre-se o protocolo. Genéricamente nada a opor, agora simbolicamente e no tempo em que aconteceu não foi uma decisão muito feliz, já que por mero calculismo de Cavaco, desqualificou-se um acto que merecia outro significado e outra pedagogia.

  8. É bem verdade que não são muitos os que se disponibilizam para desempenhar a função de primeiro-ministro, basta ver a falta de candidatos a líder no PSD. Se calhar não era má ideia inventar também umas condecorações para os líderes dos partidos…

  9. Então, caro Val não posso maldizer os políticos do meu País sem ser populista, tirano ou ainda grande perversor da Democracia?
    É um pensamento muito pouco democrático e redutor… Antes do 25 de Abril chamava-se censura, agora em pleno século XXI atira-se-lhe uma metáfora em cima…
    O Santanismo, (não confundir com Satanismo, já muito difundido e extremamente enraízado em algumas classes profissionais e estratos sociais…) é um fenómeno recorrente na esfera política nacional…
    É como a passagem de um cometa, o cometa Santana aparece, torna-se visível durante algum tempo e depois desaparece para os confins do espaço…
    É como um mecanismo automático de “pedrada no charco”, sempre que as águas do pântano estão paradas, aí vem a “pedrada Santanista” ( Não confundir com qualquer outro tipo de pedrada provocada por estupefacientes, também bastante enraízada em alguns sectores profissionais e estratos sociais…).
    Que tal este discurso para a aplicabilidade de metáforas?
    Parece-lhe bem?

    Best regards

  10. Manuel Loureiro, neste caso, trata-se de uma condecoração para quem foi primeiro-ministro. Não seria viável, sequer sensato, condecorar todos os funcionários públicos, certo?
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    Tereza, mui sábias palavras, as tuas.
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    Dixit, também concordo contigo. As always.
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    Nik, é isso mesmo, uma coisa não impede a outra (antes pelo contrário, acrescento).
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    K, estes rituais nunca tiveram atenção mediática, muito menos interesse popular.
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    guida, bem pensado. Mas os critérios de atribuição serem definidos por nós, aqueles que nunca serão condecorados.
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    Tiago Mouta, mas quem é que te impede de maldizer o que te dá na gana? Censura? Tens a certeza de que não te enganaste no blogue?
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    nm, refiro-me ao discurso contra aqueles que não são comunas, de imediato vistos como inimigos da revolução e da democracia. E também ao discurso contra o “bloco central”, onde a tese é a mesma: a política dos outros é apenas exploração e manipulação, não uma legítima escolha política por legítimos representantes do Povo.

  11. isso não faz um discurso contra os políticos, antes pelo contrário apela à exigência de comportamento dos políticos. sempre os vi aliás defender a prevalência dos critérios políticos contra outros.

  12. Um dia destes você trinca a lingua e…zus ! fica verde e morre.Verde de inveja e de tanto venêno engulir de uma mordidita só.O sr José Sócrates Pinto de Sousa é que é na realidade um bom PM..(ah esqueci-me de acrescentar um pormenor estou com alucinações porque tenho gr ipe mas bolas! não é A!!!)

  13. O acto a que me refiro seria entregar o pendurico ao Santana pelas portas dos fundos do Palácio (a cozinha de preferência) à hora da recolha do lixo. Simbolico e pedagógico.

  14. Val, não todos, naturalmente, mas apenas aqueles que tenham feito algo de excepcional, independentemente do cargo que exerçam ou dos galões que ostentem, certo?

  15. Manuel Loureiro, mas existe a figura do louvor, a qual é abundantemente usada na Função Pública. A condecoração está reservada para o topo da hierarquia, como é lógico.

  16. As condecorações e louvores:
    Se me encontrasse no lugar de Santana Lopes, não aceitava a condecoração com que Cavaco Silva o agraciou. Depois de tudo que Cavaco disse de Santana, só a vejo como um presente envenenado. Como Santana aceitou tal condecoração a pouca consideração que tinha para com ele ficou reduzido a nada e o menino terrível como é conhecido passa a menino acobardado.
    Sobre esta condecoração relato uma passagem que presenciei e que depois se transformam em maus exemplos para os verdadeiros condecorados.
    Num domingo de um mês e ano que agora não me lembro, na cadeia em que prestava serviço, uma visita que ia visitar um seu familiar, levou uma encomenda com algo que não posso precisar, para ser dado a um subchefe de guardas, com o intuito de o agraciar por favores prestados.
    Acontece que nesse dia esse tal subchefe de guardas encontrava-se de folga e um outro subchefe de guardas de serviço, disse que não autorizava a aceitação da referida encomenda. A visitante pediu a direcção do mesmo com o intuito de no regresso a deixar em casa do subchefe guardas.
    Este procedimento foi bastante badalado entre a corporação de guardas e chegou ao conhecimento do dito subchefe de guardas. Este como se dava bem com o Director foi-lhe dar conhecimento do falatório e qual a solução. Foi aconselhado a devolver a encomenda mediante uma informação por escrito. Assim se fez, a informação seguiu os seus trâmites legais e passados uns meses o subchefe de guardas recebeu um louvor a distinguir a sua seriedade e o bom serviço prestado e que servisse como exemplo para a corporação de guardas.
    Viver não custa, o que custa é saber viver.

  17. Val, condecorações ou louvores para os de cima ou para os debaixo, pouco interessa, o que não é compreensível é que umas ou outros sejam atribuídas a alguém, seja ele quem for, só porque esse alguém aceitou um cargo de responsabilidade, por muito importante que seja, independentemente da sua boa ou má actuação no mesmo, certo.

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