Arquivo da Categoria: Valupi

Da crispação à crespação

Miguel Esteves Cardoso escreveu um texto (o Câmara Corporativa fez a transcrição, mas também o nosso amigo Joao) onde aparece esta súmula histórica:

Sócrates, ao reagir como cidadão e abster-se das condescendências e pseudo-aristocracias da democracia, presta um serviço e rompe com uma tradição.

Para contemplarmos a magnitude desta alteração na simbólica do Poder, levada a cabo sem um momento de vacilação até esta altura em que escrevo, lembremos que a oposição aparece invariavelmente crispada quando discursa ou assiste. Este comportamento é tribal, tão mais tribal quanto a inexperiência, a cegueira ideológica e a hipocrisia dos políticos em causa. Por isso – e não só em Portugal, evidentemente – os debates políticos obedecem a códigos tácitos onde se representa o adversário como inimigo, não como parceiro de solução. Esta lógica de conquista e ocupação do espaço governativo por exclusão, num qualquer futuro, será vista como arcaica. Corresponde a um absurdo económico, pois esbanja inutilmente recursos intelectuais ao não procurar consensos. Mas adiante.

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Quem é que se baldou?

Acabo de ver numa reportagem da TVI que os participantes na manifestação Todos pela liberdade não chegam a corresponder ao número de blogues apoiantes – e isto esquecendo que muitos desses blogues são colectivos, apenas para o cálculo fazendo corresponder 1 participante por blogue.

Enfim, a ala comuna do movimento que comece já a purga porque este fiasco não pode ficar sem consequências.

Isto é só para tentar engatar a Blonde

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O verdadeiro caminho passa sobre uma corda que não está esticada ao alto, mas rente ao chão. Parece antes destinar-se a fazer tropeçar do que a ser percorrida.

Der wahre Weg geht über ein Seil, das nicht in der Höhe gespannt ist, sondern knapp über dem Boden. Es scheint mehr bestimmt, stolpern zu machen, als begangen zu werden.

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Franz Kafka, «AFORISMOS», Assírio e Alvim, p. 27

A alma é a forma do corpo

Não há nenhuma dicotomia entre forma e conteúdo na problemática das escutas, pese a facilidade com que se compreendem as palavras do João Galamba. A violação do segredo de Justiça não é uma formalidade, é em si um conteúdo, é substantiva. Trata-se de um acto ao serviço de interesses que colidem com direitos dos implicados e a segurança da comunidade. As escutas até poderiam incluir passagens onde Sócrates fosse dado como um serial killer, para o caso era igual. Pura e simplesmente, não temos os materiais, os meios e os conhecimentos para nos substituirmos à Justiça. Assim, qual o resultado da publicação de um despacho cujo desfecho ainda é desconhecido? Apenas a criação de um ambiente perverso onde se explora a suspeição. Como está em causa o Primeiro-Ministro e o Governo, e os seus adversários políticos estão a usar a publicação para lançarem ataques, a situação é gravíssima.

Caso não consigamos estancar a instrumentalização da Justiça pelo poder político e mediático, a democracia deixa de ter condições para subsistir.

Mudar, romper e…

Passos Coelho quer mudar. Paulo Rangel quer romper. E Aguiar-Branco quer o quê? Como poderá subir a parada e mostrar que os outros dois são uns meninos e não têm aquilo que é preciso para pôr isto na ordem?

Deixo algumas sugestões para slogans de campanha:

Partir
Moer
Picar
Cuspir
Espremer
Triturar
Diluir
Maldizer
Estraçalhar
Cortar aos bocadinhos
Grelhar numa chapa pré-aquecida
Passar o corredor a pano

Curiosidades do reino da estupidez

Comparar a publicação do email do Público pelo DN com a publicação de documentos sujeitos a segredo de Justiça é, mais do que um teste moral, um teste cognitivo. Desconfio que serão muitos os que, honestamente, não sabem qual é a diferença. Para eles, é tudo privado; pelo que agora é a sua vez de gozarem, depois de terem fingido serem contra essas manobras quando elas os prejudicaram.

Acontece que termos ficado a conhecer a origem das espantosas notícias do Público acerca de eventuais vigilâncias do Governo ao Presidente foi um favor que se fez ao eleitorado e ao País. A forma de explicar a situação passava por furar uma privacidade que estava a ser danosa para o futuro da política nacional. A reacção atarantada do Presidente validou a bondade dessa decisão do DN e restituiu a sanidade possível ao acto eleitoral. Neste caso de materiais em segredo de Justiça, é precisamente ao contrário. Há magistrados que os conhecem e sobre os quais tomam decisões. As suas decisões podem ser objecto de recurso, inquérito ou estudo. A privacidade da Justiça está ao serviço do interesse maior para a política. Porque não se pode admitir que a privacidade se torne critério de destruição de políticas e de políticos. Isso é o que acontece em estados totalitários.

Aqueles que se permitem tirar conclusões a partir do que leram nos jornais têm uma urgente tarefa à espera: estudar jornalismo ou Direito. Caso já sejam jornalistas e juristas, azarinho.

Esmiucemos o plano

Pessoas que já nos garantiram estar iminente a captura de Sócrates pelo James Bond, e que nem um projecto marado foram capazes de encontrar na Guarda ou que ficaram bovinamente a falar de cursos tirados ao domingo, estão agora convictas de que Sócrates é um mafioso de alto coturno. Bastou-lhes a exposição ilegal de um despacho com indícios vagos para se convencerem do desfecho do caso – assim revelando ao mundo o tipo de consideração que têm pelos direitos dos concidadãos. Muito bem, mas avancemos um pouco nesse caminho.

Qual seria a última coisa que qualquer um de nós faria se estivesse a planear uma golpada para correr com um jornalista através da tomada de poder accionista na sua empresa? Isso, acertaste: abrir um congresso com ataques a esse jornalista ou protestar contra ele numa entrevista. Nenhum de nós faria isso porque somos todos bué da espertos. Sabemos que ao romper com as convenções da hipocrisia à portuguesa, onde se esconde a raiva e as vinganças, estamos a chamar a atenção para o alvo. Tal escalada do confronto só iria tornar ainda mais difícil o já improvável plano de entrar na casa do inimigo e dar cabo dele sem que se topasse a autoria da manobra. Naturalmente, a sensibilidade à suspeita, e o seu efeito paranóico, cresceria para níveis máximos, levando a que todas as possíveis associações de causa-efeito fossem tidas em conta. Não se afigura sequer razoável que alguém tendo um plano tão cerebral tivesse também um comportamento tão desmiolado. Porém, como se trata de Sócrates, parece que dá para abrir uma excepção. Afinal, e como os reaças e os comunas berram, este engenheiro é o Alfa e o Ómega da corrupção.

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Raçudos

Está a ser uma época fascinante para o Sporting. Um case study do que é um ambiente disfuncional numa organização. Por exemplo, que leva um marmanjo como o Tiago a fazer-se expulsar do banco, deixando a equipa sem guarda-redes substituto a meio do jogo? Ou que leva os jogadores a protestarem contra as decisões do árbitro, sabendo que só irritam o senhor ou que se arriscam a serem penalizados pelos protestos? Que leva os jogadores a passarem o jogo todo a largar caralhadas? Que leva os treinadores a berraram contra os árbitros? Que leva os dirigentes a comportarem-se como capatazes?

Se eu fosse treinador de futebol, nenhum dos meus jogadores alguma vez responderia a um árbitro. Nem que ele os expulsasse aos 10 segundos de jogo. Protestar contra os árbitros, durante e depois dos jogos, devia ser interdito em Alvalade. É, simultaneamente, um sintoma e uma causa de pouca inteligência. Contribui para a fraqueza física e técnica por ser uma fraqueza moral. Quem protesta assume uma postura subserviente, exprime uma impotência, deixa de ser um guerreiro.

Idealmente, o Sporting devia ter equipas de futebol que fossem exemplares no campo da disciplina, do desportivismo e da entrega ao espectáculo. É este o sentido aristocrático que está na origem do clube. Mas, para tal, teríamos de ter dirigentes que fossem do Sporting, o que não é o caso presente. É que não é do Sporting quem quer, só quem faz prova de lhe pertencer através de feitos valorosos. E isso começa nas derrotas, no saber perder.

O presidente tem de ser o símbolo da união entre a equipa e os adeptos, independentemente dos resultados e dos eventuais conflitos. Quem não for capaz de compreender esta missão, não pertence a esta raça. Não é Leão.

O abutre

Paulo Rangel é o mais capaz para levar o PSD a expulsar o CDS do Parlamento. Porque este homem alia um apurado belicismo verbal à demagogia em último grau. Com ele a liderar o PSD, aquilo que a Manela não soube fazer por inépcia fatal seria então levado para um patamar de eficácia imparável e trituradora. A direita reaccionária e ressabiada vê nele a solução para pôr isto na ordem.

Repare-se no que a figurinha conseguiu fazer em poucos dias. Na quinta-feira de altíssima especulação com a dívida de Portugal, ao mesmo tempo que a bolsa se afundava e deixava a direita do capital em pânico cá no burgo, Rangel – um eurodeputado! – veio dizer o que Almunia nem sequer ousaria pensar: que Portugal estava em situação igual à da Grécia e que até poderia ficar pior. Estas afirmações, naquele dia e ditas por um político com o seu estatuto, são absolutamente irresponsáveis, se não forem antipatrióticas. E é essa a ideia que se retira do que declarou Cavaco, 24 horas depois:

Eu confio que os analistas externos que olham para Portugal e a própria Comissão – que fez através de um seu comissário uma declaração que eu considero infeliz e incorreta – espero que rapidamente corrijam essa apreciação em relação a Portugal. Porque não é só uma questão de injustiça, é uma questão de incorreção e eu posso afirmar isso correctamente.

Esta não é uma distraída estalada na cara do Rangel, trata-se de um pontapé nos túbaros, seguido de sessão de aconchego com pau de marmeleiro. Se o Almunia, nas palavras do Presidente da República, foi infeliz e incorrecto, que dizer da pulhice do Rangel, que vilipendia o interesse nacional para obter ganhos políticos que só existem na sua cabecinha oportunista? E alguém ouviu alguma crítica às suas declarações? Alguém ouviu algum pedido de desculpas?

O que se ouviu foi outra coisa, o novo delírio de um irresponsável para quem vale tudo:

Eu queria denunciar aqui aquilo que se está a passar em Portugal neste momento, onde é claro que a comunicação social trouxe à luz um plano do Governo para controlar os jornais, para controlar estações de televisão, para controlar estações de rádio.

Rangel está a insinuar que o Procurador-Geral e o Presidente do Supremo são cúmplices deste suposto plano. Rangel quer, por sua vez, chegar à presidência do PSD. A acontecer, será a primeira vez que um partido com vocação de governo será liderado por alguém que caluniou a hierarquia máxima do sistema de Justiça, e isto apenas 4 dias depois de ter tentado prejudicar a imagem de Portugal de modo a agravar as suas dificuldades financeiras.

Os abutres alimentam-se de cadáveres em decomposição. Não admira que Rangel seja um dos mais interessados na putrefacção da política nacional.

Mística, ou falta dela

O Rei Bettencourt fugiu para o Brasil na altura em que o seu general ia ao Porto para uma batalha decisiva. Findo o pleito em desgraça, o Rei mandou dizer que o exército o tinha deixado envergonhado – assim acrescentando à pesada derrota a humilhação suprema para a equipa de sofrer o desprezo dos seus. Dias depois, o exército voltou a ser vencido, agora entre muros e por um corpo expedicionário.

Obviamente, este Rei não pertence a este Reino.

Quinta-feira Gorda

O militante nº1 do PSD é o dono de um dos maiores grupos de comunicação social, a TVI segue uma linha editorial oposicionista mesmo após o fim daquele show de assassinato de carácter às sextas, o Público teve até há pouco tempo a função de lançar campanhas difamatórias contra Sócrates e foi protagonista de uma tentativa de viciação das eleições Legislativas, o Sol e o Correio da Manhã furam o segredo de Justiça exclusivamente dos processos que podem prejudicar o Governo e Sócrates, a RTP é tão isenta que até um doente como Pacheco Pereira tem de andar de cronómetro a contar os segundos do Jornal da Tarde para ter o que envenenar, a Antena 1 foi forçada a interromper uma inócua e criativa campanha de promoção sob a demente alegação de que pretendia acabar com o direito à manifestação, a Igreja domina uma fatia importante do espaço radiofónico, as histéricas vedetas do BE são a coqueluche da comunicação social há anos e anos, o PCP louva a Coreia do Norte no Avante, o jornal i é abertamente oposicionista quando os caluniadores afiançavam que iria estar ao serviço do PS, a Constituição salvaguarda a liberdade de expressão e demais princípios democráticos, existem inúmeros garantes legais e cívicos que tornam impossível a existência da censura, o ambiente é de constante calúnia e perseguição para quem vocaliza o seu apoio ao Governo – já se tendo chegado à fase em que se atacam aqueles que não atacam Sócrates! – e qualquer macaco diz o que quer e lhe apetece em casa, na rua e na Internet.

Mesmo assim, reaças e comunas vão dar os braços para defenderem uma enigmática liberdade de expressão que dizem estar ameaçada por um negócio que nunca existiu. Para cúmulo, as informações acerca do negócio começaram por ser usadas em manobras políticas esconsas e vis. Depois, a Justiça não encontrou matéria criminal nessas informações. E agora elas chegam ao conhecimento público de forma enviesada e parcelar, levando à actual exibição do apetite violento para usar a privacidade como arma de destruição política.

Comunas e reaças sabem bem o que os une. Desde sempre.

A face oculta da Face Oculta

O populismo nasce sempre da exploração do ódio. A turbamulta é atiçada pela promessa de sangue fácil, de crime anónimo, de cobardia celerada. Para conseguir essa união de indivíduos com interesses tão díspares, até contrários, é preciso encontrar uma narrativa primária a que todos possam aderir, incluindo os que tenham as maiores dificuldades cognitivas, educativas e intelectuais. A falta de escrúpulos, perene ou momentânea, é o cimento que dá força a esta frente.

E é de frentismo que falamos desde finais de 2007, o período que coincide com a contestação a Correia de Campos, o desenlace da crise no BCP e o descalabro do BPN e BPP. De 2008 em diante, figuras ligadas a Cavaco Silva apareceram a defender o reforço dos poderes presidenciais, soluções governativas de iniciativa presidencial e até o abandono do semi-presidencialismo. Misturavam estas propostas com a retórica da explosão social caótica, promoviam cenários catastrofistas e de violência indefinida. O caso não era para menos: o maior abalo no tecido sociológico da direita tinha acontecido com a alteração no controlo do BCP, resultado da queda da mítica figura que unia a alta finança à santidade. Logo depois, veio a evidência de que parte do círculo cavaquista mais íntimo, tão íntimo que até tinha conseguido abancar no Conselho de Estado, frequentava um antro de escroques. A direita dos lusos negócios, pois, entrou em pânico e em modo de guerra total. Sentiram-se cercados, o chão a fugir-lhes debaixo dos pés. A quem iriam agora recorrer para obter financiamentos, fazer jogadas bancárias, deslocar capitais? Ao Santos Ferreira? Ao Vara?! Exigia-se vingança.

É sintomático que a resposta da direita à inventona de Belém tenha começado por ser a adesão entusiasmada, tendo sido logo aproveitada pelo PSD, e depois viesse a acabar no silêncio acabrunhado. Uma já assumida manobra de conspiração a partir da Casa Civil, a 1 mês das eleições Legislativas, ainda por cima tendo ficado sem responsabilização, revelou a duplicidade de critérios e a decadência cívica, moral e ética da actual direita. Por isso, ver no caso Face Oculta o aproveitamento da ilegalidade e da falência do Estado de direito – onde há agentes da Justiça e da comunicação social que são actores políticos na sombra e agem impunemente – resulta num espectáculo que expõe obscenamente a lógica do que está em causa: obter o Poder contra a Lei e contra o voto.

Não esperem facilidades, rapaziada.

Muito dreda

Em boa hora (a uma hora da cena, precisamente) o João Pedro da Costa (somos primos por decisão mútua) avisou-me que o documentário É dreda ser angolano ia passar na RTP2 (foi nesta sexta-feira passada). Então, finalmente, lá o vi. E o que vi é uma maravilha. A maravilha de não nos apresentaram Angola e os angolanos adentro do género documental coitadinhos ou pantomineiros. Não se explora a miséria nem se vende a ilusão. Não há explicações ou lições para dar seja a quem for, protagonistas ou espectadores.

Independentemente da discussão teórica e técnica acerca da realização e sua estrutura narrativa, que não importa para nada quanto ao que mais importa, temos ali um olhar que conseguiu o feito de nos apresentar os angolanos como pessoas. Cada um é uma pessoa, do taralhouco que mal consegue falar à mulher-polícia mandona, do músico orgulhoso ao vendedor de rua humilde. Cada um tem densidade, não é uma caricatura. A câmara tem aversão ao anedótico que despreza, prefere o anedótico que nos aproxima. Absolutamente notável.

Aliás, só por ficarmos a conhecer um pensólogo, ser desopilante e genial, este documentário merece ser visto e revisto muitas vezes.

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Para mais informações publicadas cá na casa:

É dreda ser Angolano

Ticha, trate-me por Ticha

O ludos favorece o logos

Estou uma vez mais de acordo com um artigo seu, embora não aprecie alguma fraseologia. Lamentável é, em grande parte, a linguagem e as considerações dos comentários. Julgo que se está a ser demasiado permissivo com a liberdade de expressão. Penso que não há que ter medo em dizer não à asneira, à maledicência, à infâmia, à velhacaria.

Aproveito para fazer minhas as palavras de Manuel Loureiro, e dizer-lhe Val, que devia seleccionar os comentários como faz a maioria dos blogues. Da maneira que alguns se comportam dá para notar que estão sempre à espera de poderem provocar e maltratar quem não compartilha das suas opiniões.

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Os nossos amigos Manuel Loureiro e Manuel Pacheco trouxeram uma dificuldade que é comum a muitos outros que não a expressaram, adivinho. Agradeço a oportunidade para partilhar o meu entendimento da questão e respectivas opções neste blogue.

A leitura do meu 1º texto no Aspirina B pode ajudar a esclarecer muito do que faço aqui, até muito do que aconteceu por aqui ao longo dos anos. Mas quero realçar que ele permanece actual, da primeira à última palavra. Para mim, isto de escrevermos num blogue é uma brincadeira. Resulta do exercício da minha liberdade. É o equivalente a estar no jardim da minha casa com o portão aberto e deixando que qualquer um entre – o espaço é meu, ou da equipa de autores, e ninguém é obrigado a entrar nem fica impedido de sair.

Por minha convicção na bondade dessa abertura, só admito limites à liberdade de expressão que resultem da Lei, do bom senso e do acordo com os implicados. Isto porque não ofende quem quer, e vejo como um erro crasso ficarmos afectados pelas palavras disparatadas, ou iradas, de quem não conhecemos de lado algum – para mais, discutindo assuntos que são públicos e polémicos. Por outro lado, todo o vernáculo, e todo o insulto, é por mim admitido e acarinhado. Sempre que alguém opta por gastar o seu tempo a escrever no Aspirina B, mesmo que se entretenha a chamar nomes aos autores ou aos comentadores, esse indivíduo está a manifestar uma preferência relevante: para ele, é importante participar, é algo que lhe faz bem – pelo que respeito e valorizo essa evidência, pouco me importando que o exercício tenha consistido num chorrilho de impropérios contra o autor Valupi.

Eu não procuro imitar os códigos estilísticos e de etiqueta em vigor num órgão de comunicação profissional qualquer. Isto não é um jornal, uma revista ou o canal informativo de alguma entidade. Isto é uma tertúlia, um gozo e a celebração digital da nossa cidadania. Tenho a certeza de que o nosso destino cósmico está ligado a esta procura de aprender, de conviver e de nos ajudarmos uns aos outros a crescer em direcção ao infinito.

Ministerium für Staatssicherheit

Que os imbecis pretendam chegar à pureza ideológica através de um Estado policial não surpreende. Mas que os ranhosos ataquem a privacidade e a Lei é espantoso.

Ver pessoas com idade e estudos para terem juizinho a usar a publicação de uma parte de um processo judicial para concluírem acerca das acções e intenções dos envolvidos é uma violência escabrosa, asquerosa, tenebrosa. Estão a violentar a própria lógica do Estado de direito, o qual não pode ceder a esses impulsos primários onde se acusa com base em aparências. Foi dessa selva que viemos, é a ela que querem regressar?

Não precisamos que alguém nos explique quão perverso é captar a privacidade de outrem para a explorar ao serviço dos mais desvairados interesses e objectivos. Como é que aqueles que levantaram as mãos para o céu contra um Estado que desconfia dos cidadãos, escandalizados com a possibilidade de divulgação dos rendimentos, se permitem este deboche de se arrogarem certezas acerca de situações relatadas em certidões? Pelos vistos, é essa a regra que querem ver aplicada quando um dos seus estiver em semelhante situação. E como estas alimárias estão a pôr em causa a honorabilidade do Procurador-Geral e do Presidente do Supremo – os quais sabiam que todas as escutas poderão acabar publicadas à má-fila, independentemente das ordens de destruição seja do que for – então, mais facilmente admitirão que numa comarca qualquer, um dia, se arranje um caldinho para dar cabo de uma liderança partidária, ou de um Governo, recorrendo precisamente ao mesmo método: arranjar uma desculpa legítima para escutar políticos, e continuar a escutá-los até eles fornecerem indícios suficientes para serem apanhados numa suspeição.

Escutar políticos é o mesmo que escutar advogados, juízes, militares, polícias, médicos, padres, os excessos emocionais numa situação traumática, as parvoíces da inexperiência, a discussão de um casal desavindo, as tonteiras de um bêbado. Cada um que olhe para a sua vida e a dos seus. Seria inevitável encontrar lá muitas vergonhas que a Stasi recolheria com água na boca. A Stasi ou aqueles que estão a defender a existência de um plano que passava por comprar o Presidente da República.