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Tectónica da democracia

A ideia de que Sócrates teria um plano para dominar a comunicação social, de forma a conseguir afastar jornalistas incómodos e garantir notícias simpáticas, não resiste a nenhum tipo de análise. Não é que seja impossível ter existido, posto que há malucos para tudo, apenas fica como uma aberração que obriga a desligar o córtex. O plano só é concebível como grosseira fantasia, caricatura que apaga toda a logística, complexidade e consequências que supõe tal operação. Mesmo assim, muitas figurinhas supostamente educadas, cultas e de intelectos sofisticados, à direita e à esquerda, declararam estar compradoras do produto. Umas por debochado oportunismo, outras porque são irremediavelmente idiotas.

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Política da terra queimada

Depois de se ter colado a Almunia na tentativa de afundar ainda mais as contas públicas, dizendo que Portugal ia ficar pior do que a Grécia.

Depois de ter usado da palavra no Parlamento Europeu para dizer que Portugal não é um Estado de direito e que o Governo tem um plano para controlar a comunicação social, fazendo do Presidente do Supremo e do Procurador-Geral cúmplices deste plano.

Está na altura de Paulo Rangel denunciar em Estrasburgo, Bruxelas, Paris ou Bona que Constâncio é o perigoso meliante responsável pelos buracos no BCP, BPN e BPP.

O autor da frase Credibilidade da política não está na ética tem sido exemplarmente coerente com o seu pensamento. E Aguiar-Branco que o diga, se tiver estaleca de líder. Se apenas for o palhaço do Pontal, então pode continuar caladinho.

O fim do Regime e o começo da dieta

Entre o grupelho de castiços que gastou a hora de almoço para fazer a manifestação mais ridícula dos últimos 30 anos, alguns defendem que o Regime está no fim. Não se sabe ao certo o que eles querem, mas seguramente que terá a ver com a mudança de mão no Poder. Isto das eleições democráticas não lhes serve, eles querem outra solução mais expedita e simples para que os seus amigos ocupem S. Bento, posto que em Belém já lá estão.

Tendo em conta que não devem ter chegado a 40, embora digam que eram 100 seguindo a tradição dos sindicatos, não admira que ao espectacular fiasco tenham juntado a gloriosa argolada: começaram logo, in situ, a dizer que a providência cautelar contra a edição do Sol do dia seguinte provava as suas razões e justa causa. Havia censura em Portugal porque um cidadão tinha recorrido a um tribunal, era a tese. Nessa mesma noite, contudo, começaram a levar nas orelhas dos seus amiguinhos. Pacheco e Lobo Xavier, na Quadratura, disserem que a liberdade de expressão ou de imprensa não está ameaçada, que tal protesto era disparatado. E depois também levaram com variadas vozes na direita, das que ainda não alucinaram, a declarar absurda e de má-fé a acusação de censura a propósito de uma providência cautelar.

O que importa realçar, para lá da magnitude da estupidez e oportunismo senil do movimento Todos pela Liberdade, é a composição social e profissional dos seus mentores e agitadores. Trata-se de pessoas que, nalguns casos, são especialistas em Direito e exercem funções académicas e empresariais de relevo. Dispõem de condições de acesso aos meios de comunicação que o vulgar cidadão não tem nem terá. Os asfixiados da camisola branca são um bando de privilegiados, vivendo com benefícios de classe que estão muito acima da média nacional – tanto a ala reaça como a ala comuna desta mixórdia.

Em resultado dos resultados, aconselho que deixem de tentar acabar com o Regime e comecem uma salvífica dieta. É que estão anafados com tanto desprezo pela democracia, qualquer dia nem uma manifestação à varanda vão ter forças para fazer.

Cineterapia


Tokyo monogatari_Yasujiro Ozu

É preciso envelhecer para entrar neste filme. Já não ter pressa. Ficar sentado a olhar.

Uma espiral começa vagarosamente. A curva finge ser um grande círculo. Aos poucos, e muitos, acelera. O movimento dirige-se para o ponto de eterno repouso.

Pais que vão a Tóquio visitar os filhos, os netos e a nora. Filhos que estão demasiado ocupados para estar com os pais. Os pais também não querem estar com os filhos. São estranhos uns para os outros, há muito que deixaram de se conhecer. O tempo separou o acaso, acabou com a família.

Na foto vemos Noriko. Ela regressa a Tóquio vinda do funeral de Tami, a sua sogra. Guarda nas mãos o presente de Shukishi, o seu sogro. Shukishi descobriu que Noriko lhe é mais próxima do que os seus filhos e netos. E deu-lhe o segredo do sentido da vida, pertença de Tami até à sua morte.

Este filme foi feito em 1953. E nunca envelhecerá.

Qual é a parte?

O Presidente do Supremo declarou que avaliou todas as escutas relativas a Sócrates e que nelas não encontrou nenhuma matéria com relevância criminal. Mais acrescentou que chegou a tomar conhecimento de outras que faziam parte do conjunto, mas que já não teria de avaliar. Também nessas não encontrou matéria criminal.

O Procurador-Geral declarou que não encontrou nas escutas a Sócrates nenhum indício de crime contra o Estado de direito nem de qualquer plano para controlar a comunicação social. Mais acrescentou que em Aveiro é que se devem investigar todos os restantes despachos que não envolvam directamente o Primeiro-Ministro.

Qual é a parte que os pulhas não querem aceitar?

For whom the bell tolls

O ataque ao Estado de direito vem das classes privilegiadas. Neste sábado, ter assistido ao Eixo do Mal e ao A Torto e a Direito foi confirmar a decadência das elites portuguesas. Para além daquelas pessoas se divertirem com a desgraça alheia, é o exemplo que dão que fica como um trágico testemunho do nosso atraso cívico. Salve-se o Francisco Teixeira da Mota, os restantes são cúmplices da manipulação criminosa que utiliza materiais judiciais para construir uma acusação política. As suas paixões partidárias e ideológicas reinam supremas e destroem a mais leve consciência dos direitos que assistem aos visados e vítimas dos crimes.

Repare-se que não se fala da matéria dos despachos e das escutas para discutir formas de investigar as questões implícitas, antes se dá rédea solta a sentimentos de vingança e ódio. Para estes comentadores, não há qualquer dever de isenção. Pelo contrário, promovem o sectarismo, mesmo quando a dimensão do problema transcende a natureza partidária. O Estado de direito diz respeito ao fundamento primeiro do que nos permite ser uma comunidade de paz e desenvolvimento, não pode estar sujeito aos ataques oportunistas que apenas visam a eliminação dos adversários. Não vale tudo.

Como é que eles sabem que as escutas, e sua interpretação pela Judiciária e Procuradoria em Aveiro, são capazes por si só de levar a uma conclusão do que significam e implicam? Que deboche vem a ser este de acusar sem prova? Acaso gostariam de ver relatos da sua vida pessoal na imprensa se se vissem num processo similar ainda a esperar desfecho judicial? Será possível que não admitam erro, equívoco ou conspiração nos elementos publicados? Por se tratar de Sócrates, permitem-se anular a presunção de inocência dos envolvidos, o direito à privacidade e ao bom nome, e ainda o segredo de Justiça? É que estamos a falar de documentos na posse de magistrados, não se está perante a denúncia de algo novo e carecer de acção judicial. Acima de tudo, fazer de meros indícios armas políticas é um retrocesso civilizacional que conduz à barbárie. Como é que estas pessoas iriam reagir se um seu inimigo preparasse uma armadilha onde se gravavam conversas que os implicavam em crimes? Aceitariam que a comunicação social, e os seus adversários políticos, de negócios ou pessoais, utilizassem esses materiais numa campanha difamatória destinada a retirar-lhes poder, privilégios e direitos?

À luz do exemplo que estas pessoas dão, e adentro da sua influência mediática, fica patente existir uma crise moral e cívica na sociedade portuguesa cuja magnitude ultrapassa os limites do que até agora era imaginável. Só há uma coisa a fazer, contudo: denunciar quem está a pôr em risco toda a comunidade ao desprezar as garantias constitucionais e legais a que temos direito.

Curiosidades do reino da estupidez

A direita, sem conseguir conter o riso, compara Santana com Sócrates. Diz que Santana foi abaixo por muito menos, pelo que… estará Cavaco a proteger Sócrates? A actual direita não é conhecida por ser intelectualmente brilhante, por isso não admira que os seus raciocínios acabem por se virar contra si com tanta frequência. Este é apenas mais um momento em que teria a ganhar se ficasse caladinha.

Façamos a comparação:

– Com Sócrates, as calúnias, insídias e suspeições começaram com o Freeport, em 2004, e não mais pararam. O que há de notável não é a quantidade de casos, pois se podem inventar conspirações contra qualquer pessoa em qualquer altura, com muito maior frequência e gravidade quando essa pessoa ocupa o Poder e é atacada pelos contrapoderes e poderes rivais. O extraordinário é a incapacidade para se formalizar uma acusação, nada tendo sido encontrado até agora, mesmo depois de se vasculhar o seu passado escolar e profissional. Por cima destes casos e respectiva pressão, temos visto o Governo, o anterior e o actual, sempre impecavelmente unido e cumpridor das suas responsabilidades ministeriais.

– Com Santana, e infelizmente para ele, esteve sempre em causa a legitimidade política da decisão de Sampaio. Caso tivesse optado pelas eleições quando Durão fugiu, e caso Santana ganhasse, então o Governo teria a robustez suficiente para ultrapassar as situações que levaram à sua queda. Essas situações não diziam respeito à pressão mediática, mas a dois factos do foro interno da governação: a oposição de figuras gradas da social-democracia, as mais importantes sendo Marcelo e Cavaco; um ambiente caótico na relação de Santana com a sua equipa governativa.

Resulta da comparação que estamos perante o incomparável. Sócrates é um alvo, Santana era um alvoroço.

Isto é só para tentar engatar a mdsol

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A. está muito envaidecido, pensa estar bem avançado na prática do bem, já que, sendo aparentemente um alvo cada vez mais atractivo, se sente exposto a tentações cada vez maiores vindas de direcções que lhe eram até agora completamente desconhecidas. A explicação correcta é, contudo, o facto de um grande diabo se ter instalado nele e uma infinidade de diabos mais pequenos se aproximarem com o intuito de servir o grande.

A ist sehr aufgeblasen, er glaubt im Guten weit vorgeschritten zu sein, da er als ein immer verlockenderer Gegenstand immer mehr Versuchungen aus ihm früher ganz unbekannten Richtungen her sich ausgesetzt fühlt. Die richtige Erklärung ist aber die daß ein großer Teufel in ihm Platz genommen hat und die Unzahl der Kleineren herbeikommt, um dem Großen zu dienen.

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Franz Kafka, «AFORISMOS», Assírio e Alvim, p. 35

Génio de Carvalhal

Um treinador que começa o jogo com Saleiro, que deixa Vuk no banco, que não esgota as substituições, que acaba o jogo com Saleiro e que deixa o Vuk no banco é genial.

Ou melhor, genial é pouco. Ele é mais do que genial, a palavra é que não me está agora a ocorrer.

O plano da direita

A direita diz que Sócrates é mentor de um plano do qual não existem provas, que foi desmentido e que é inverosímil.

A direita afirma que o plano seria levado a cabo por Sócrates e duas ou três figuras menores, o resto do Governo e do PS não saberia de nada.

A direita quer que o PS substitua Sócrates por outro socialista, um qualquer, prometendo portar-se bem caso o pedido seja acatado.

Conclusão: a direita deixou de querer governar o País, já só pretende uma vingança.

Se o ridículo pagasse imposto

Tendo em conta os desvarios megalómanos que os proponentes e divulgadores da manifestação Todos pela Liberdade exibiram frenéticos, e face à hilariante fantochada em que tudo acabou, é grande azar não se pagar imposto pelas figuras ridículas na via pública. A dívida de Portugal teria desaparecido por volta da 13.30, de fronte ao Palácio de São Bento.

Mas saber que este rancho de cínicos, decadentes e avariados dos cornos não faz a menor ideia da razão pela qual ficaram a falar sozinhos é ainda mais engraçado.

Crachá d’ouro

Espectáculo dantesco dado por Judite de Sousa. Ela entrou e saiu da entrevista a Noronha do Nascimento sem perceber como funciona a relação entre Supremo e Procuradoria, muito menos as obrigações do entrevistado no processo em causa. Mas que todo o mal fosse esse. O pior é ver uma jornalista que é parte da perversão populista, ao serviço de interesses bem identificados, onde se afunda o Estado de direito. A sua convicção é a de que Noronha omitiu informações de cariz criminal, por isso repetia e repetia as mesmas perguntas. Se calhar entrevistar Pinto Monteiro, e mantiver as mesmas certezas, é provável que nem consiga falar pelo medo de estar frente a bandido tão perigoso.

Proponho que se ofereça à Judite uma imitação do crachá de ouro conquistado pelo judite de Aveiro. Ela já fez o suficiente para o merecer.

Curiosidades do reino da estupidez

A deputada bloquista Helena Pinto considera que a providência cautelar configura uma “situação inédita e surpreendente” e que “dia após dia cresce a confusão em torno desta situação”.

Fonte

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Eis o que esta senhora está a dizer:

– Que a existência do Estado de direito configura uma situação inédita e surpreendente para o seu entendimento da realidade.

– Que dia após dia cresce a sua confusão em torno desta situação, mas não explica que raio temos nós a ver com o facto de andar à nora.

O BE é mesmo um partidozinho de merda. E de merdas.