Perguntas maldosas

Tendo em conta que o malabarismo com a TSU não se destina a reduzir o défice e que, se fosse (for?) esse o destino das receitas obtidas pelo Estado, estar-se-ia a arrasar os fundos da Segurança Social,

Tendo em conta que nos é dito com o à-vontade de quem domina o absurdo que vão ser necessárias medidas “temporárias” em vez de “extraordinárias” para corrigir a derrapagem orçamental colossal do corrente ano, apesar do confisco violento, desumano, inconstitucional, desnecessário e contraproducente de salários que visava precisamente equilibrar as finanças públicas,

Tendo em conta que o principal, se não único, autor de tais medidas classifica de “intensificação do diálogo democrático” a onda nacional de indignação e contestação que ele mesmo provocou e que pode bem culminar no seu afastamento do cargo que ocupa sem que, aparentemente, perceba porquê,

Pergunta-se:

A presença de Vítor Gaspar no próximo Conselho de Estado terá por objetivo avaliar se o paciente “articula um discurso coerente e com adesão à realidade”?

E o presidente do coletivo estará em boas condições para ajuizar?

Será esta a instância mais adequada para a avaliação?

Já agora, vale a pena pensar nisto

Pomos de lado, sem o saber; aí reside precisamente o perigo. Ou, o que é ainda pior, pomos de lado por um acto de vontade, mas por um acto de vontade furtivo em relação a nós mesmos. E, de seguida, já não sabemos o que pusemos de lado. Não o queremos saber e, à força de não o querermos saber, chagamos ao ponto de não o poder saber.

Esta faculdade de pôr de lado permite todos os crimes. Para tudo o que está fora do âmbito dentro do qual a educação, o ensino criou ligações sólidas, ela constitui a chave da licença absoluta. É o que autoriza, entre os homens, comportamentos tão incoerentes, especialmente todas as vezes que o social, os sentimentos colectivos (guerra, raiva entre nações e classes, patriotismo de um partido, de uma Igreja, etc.) intervêm. Tudo o que está coberto pelo prestígio da coisa social é colocado num sítio diferente de tudo o mais e subtraído a certas relações.

[…]

Um proprietário de uma fábrica. Tenho estes e aqueles prazeres dispendiosos e os meus operários são miseráveis. Pode ter muito sinceramente piedade dos seus operários e não estabelecer nenhuma relação.

Porque nenhuma relação se estabelece se o pensamento não a produzir. Dois e dois continuam indefinidamente a ser dois e dois se o pensamento não os junta para fazer deles quatro.

Detestamos as pessoas que pretendem levar-nos a estabelecer relações que não queremos estabelecer.

in A GRAVIDADE E A GRAÇA, Simone Weil

Esquizofrenia? Veja se gosta destas.

O ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, afirmou hoje que a política em Portugal vive em alguns aspetos uma “situação que raia a esquizofrenia”, com alguns responsáveis pelas dificuldades financeiras a “explicar como se deve governar”.

Para começo de conversa, vocês estão ou não fartos de provar que não sabem governar? A desorientação é total.

E, de facto, na questão da esquizofrenia, é de arrepiar que a crise financeira internacional, de que nós fomos das primeiras vítimas do lado de cá do Atlântico devido às amarras da moeda única, à inação e deficiências das instituições europeias e à sede de poder de um bando de indígenas tão gananciosos quanto mal preparados, e que teve origem nos jogos de casino de Wall Street, tenha as suas consequências agora “combatidas” com as receitas defendidas pelos próprios “gamblers” já recompostos e regressados às lides, e que, na Europa, encontraram aliados tão improváveis quanto interesseiros como os países do norte da zona euro. Esta é a esquizofrenia primeira.

A segunda, mais local e regional, está no facto de o Governo enaltecer perante cada microfone que lhe ofereçam o sucesso de Portugal no cumprimento do programa de ajuda externa quando afunda o país num novo buraco de 5000 milhões de euros (sem Jardins nem BPNs) e falha todas as previsões, aproveitando o ensejo e a maioria para ameaçar os portugueses com nova sangria nos ordenados, sem fim à vista. O coro de esquizofrénicos tamanhos estende-se também às Lagardes e Junckers deste mundo e aos porta-vozes da Comissão que, em grande conluio, veem (e apregoam) sucesso onde os principais interessados apenas veem desastre.

Finalmente, e como os “responsáveis pelas dificuldades financeiras”, na boca de Miguel Macedo, são e serão para todo o sempre Sócrates e os seus ministros, o que é de facto de esquizofrénicos é terem deitado abaixo um governo comprometido e empenhado num plano de austeridade gradual e menos doloroso para os portugueses, com a rejeição de um PEC apoiado pelas instituições europeias, alegando excesso de austeridade, para chamarem e abraçarem uma Troika implacável, mistura explosiva de nórdicos moralistas e FMI historicamente desastroso, que apenas está a causar miséria e nem a dívida dos países consegue reduzir. Mais: experimentam fórmulas jamais testadas em países pertencentes a uma união monetária especial e nem isto têm em conta. Esquizofrenia é mostrarem-vos onde conduzem os excessos e vocês não só repetirem-nos como agravarem-nos.

Um esquizofrénico, de facto, tem um desígnio que desafia a realidade e que é sempre infrutífero desmontar. Pobre de quem está à volta e ignorância de quem lhe entrega o poder.

Um primeiro-ministro pegado com cuspo

Graças aos “bons resultados da execução do programa de ajustamento” e à “recuperação da nossa credibilidade internacional”, o Governo pode ter os dias contados. Tudo depende da resposta às seguintes perguntas:

– A provocatória transferência de uma parte dos salários dos trabalhadores do privado para a tesouraria das empresas vai mesmo figurar no orçamento e passar no Parlamento?

– Portas sabia de todas as medidas, incluindo a redução da TSU nestes moldes? E os seus deputados, sabiam? Impossível não ver que o homem anda feliz a viajar e que não lhe apetece nada, é que mesmo nada, largar o lugar depois de anos de demagogias e sujeiras várias para lá chegar. Mas são sairá bem desta fotografia. Se sabia, porque lhe deu assentimento (é uma subida brutal de impostos) e não informou o partido? Se não sabia, como manter a coligação? E se sabia e assinou a medida por lhe ter sido apresentada como imposição da Troika (uma mentira, portanto)? Pior, não?
Como continuar, pois, a visitar o mundo?

– O que vão fazer os deputados do PSD? E os do CDS?

– Vai o Governo recuar? Se a incompetência, imaturidade e insensibilidade já estão à vista de todos, um recuo seria a confirmação fatal (embora permitisse acalmar os ânimos no imediato).

– O que vai fazer Cavaco? Ousará correr com eles, depois de os lá ter posto (convencido de que interviria ativamente na governação)? Solicita ao menos a fiscalização preventiva do TC?

– E o Tribunal Constitucional? Foi desrespeitado e desafiado. Vai ter de se pronunciar.

Não sei se um ano e meio deu tempo ao Relvas para fazer todos os negócios que tinha previsto. Parece-me que já não vai ter muito mais.

Pedro e os advisers

A Itália de Maquiavel era uma manta de retalhos devastada pelas incessantes disputas de poder entre as grandes famílias e também pelos conflitos causados pela Igreja Católica. Na ausência de forças militares próprias para vencerem os opositores, um dos recursos mais frequentes era o da contratação de exércitos mercenários, tropa estrangeira que, breve e invariavelmente, se transformava em tropa-fandanga ávida por espoliar as populações e territórios em nome de quem tinham combatido. Maquiavel explicou os males do tempo, embrulhados em desesperança e fatalismo, denunciando a cobardia da elite italiana. Em vez de serem patriotas e se rodearem daqueles que queriam defender as suas comunidades, os senhores entregavam-se nas mãos armadas dos bárbaros só pela ganância de irem ao pote.

Desde meados de 2010 que uma parte da elite portuguesa fez campanha pela entrada em território nacional de uma força estrangeira. Diziam que ela trazia a solução para os nossos males e que só ela estaria em condições de governar um povo ingovernável. Era o FMI e seu receituário de empobrecimento forçado e desprezo impávido pelo sofrimento causado na classe média e na parte da sociedade mais financeira e socialmente carente. Este seria em tudo como o exército romano, essa implacável e letal máquina de engenheiros e engenharias. Há dezenas, há centenas de declarações públicas onde personalidades políticas e económicas destacadas fazem esse apelo abertamente, onde se assumia que a única forma para o derrube do poder eleito num país que insistia em votar Sócrates contra os interesses da oligarquia era fazer com que se suspendesse a democracia e se entregasse a cidade aos tecnocratas alienígenas que iriam aterrar na Portela para fazer contas de subtrair.

Concluído o processo de reeleição de Cavaco, sabendo que Sócrates, contra tudo e contra todos, ia conseguindo resistir aos mercados e conseguindo a aliança de Merkel no fio da navalha, que as contas se começavam a ajustar no sensato equilíbrio da austeridade com a sobrevivência da economia, e sabendo que estávamos na iminência de um passo decisivo com o chamado PEC IV, a elite portuguesa decidiu que não haveria melhor momento do que os idos de Março para abrir as portas aos guerreiros mercenários. Se não fosse nessa altura, teriam de esperar pela discussão do Orçamento para 2012 e corriam o risco de verem Portugal cada vez mais capaz de se financiar e a não se afundar na tempestade internacional.

Uma vez instalado o corpo expedicionário Troika por obra e graça da santa aliança, temos sem surpresa parte desses senhores a fazerem-nos constantes ameaças: ou nos portamos bem ou os estrangeiros fazem-nos mal, ainda mais mal, pois eles é que têm as armas. É uma conversa de trastes e de chantagistas. Para além de nos quererem oprimir, têm o topete de nos dizer que é para nossa salvação, que foi por nossa causa que tiveram de chamar os mauzões dos estrangeiros. Aliás, que nem sequer foram eles que trouxeram esta gente pérfida, foram os outros, os outros que não os queriam cá é que os foram buscar, é que são os culpados. Tudo o que de negativo a Troika provoque é da responsabilidade dos outros, tudo o que de positivo a Troika alcance é mérito deles, escarram-nos em cima minuto a minuto. Agora, é comer e calar para que isto não fique cada vez pior, trágico, catastrófico.

E quanto ao que o Governo faz ou não faz, pensa fazer ou desfazer, tal como o Primeiro-Ministro candidamente revelou na entrevista desta noite, isso é algo que ele vai discutindo com os advisers. É também essa a razão que explica o assustador facto de darmos por nós a olhar para um governante que literalmente não sabe do que fala nem se esforça por o esconder – pois se os advisers é que mandam, não faz parte da natureza transparente do Pedro estar a fingir aquilo que ele não é nem pode ser.

Mau em tabuada

Hoje, os passageiros que entravam no 46 da Carris eram recebidos por um efusivo “Boa-tarde a todos!” do jovem motorista, que usava óculos escuros de ski e era particularmente expansivo. Sentei-me perto e observei como palrava animadamente com toda a gente que ia entrando. Metia conversa, fazia perguntas, ajudava quem não lhe pedia ajuda. Em S. Sebastião, entra um rapaz de mochila às costas e é recebido com o sacramental “Boa-tarde a todos!” O rapaz devolve-lhe o cumprimento inesperado, mas o motorista engraça com ele e trata-o por tu:

– Então já começaram as tuas aulas?

– Ainda não, sou estudante universitário – responde o rapaz.

– És estudante universitário? Muito bem, muito bem. Então, diz-me lá uma coisa: sete vezes oito?

O rapaz fica atrapalhado, não consegue responder e sorri envergonhado. O motorista consola-o:

– Não és muito bom em contas, pois não? Deixa lá, o nosso ministro das Finanças também não…

O elogio de Manuela

Há certamente milhares de maneiras de interpretar negativamente esta extraordinária entrevista de Manuela Ferreira Leite. Que foi enviar recadinhos de um Cavaco demasiado cobarde para falar por ele próprio, sim. Que agora se mostra muito preocupada com os reformados quando antes propunha cortar nos tratamentos, sim. Que chora lágrimas de crocodilo quando apoiou a estratégia de falir o país para expulsar Sócrates, sim. Que fala de uma cátedra que não merece quando foi uma péssima ministra das finanças, sim. Que agora se mostra assustada com a dimensão da crise a que antes chamara um “abalozinho”, sim. Que tem contas internas a ajustar com esta liderança do PSD, sim. Que se perfila para o cargo de primeira-ministra, sim. Que poderá ser o rosto de um governo de iniciativa presidencial, sim. Que é uma figura no geral detestável, sim. Que o PSD é o eterno saco de gatos, sim, sim e sim.
E que me custa, e muito, fazer-lhe aqui o elogio? Sim, também. Mas desta vez é merecido.
Porque acho que a preocupação com o país e com os cidadãos que atravessa toda a entrevista parece sincera, e parece sincera porque corresponde ao que todos sentimos. A um sentido de alarme que despertou por todo o país quando, na ultima sexta-feira, subitamente nos apercebemos que somos governados por loucos fanáticos, e que esses loucos fanáticos têm de ser parados custe o que custar, sob pena da destruição completa de um país e de um modo de vida construído, com avanços e recuos, nos últimos 38 anos. Para uns terá sido uma surpresa, para outros a confirmação dos seus receios. De onde partimos não interessa muito, neste momento, porque creio que se pode afirmar que estamos todos, à esquerda e à direita, na mesma posição de rejeição absoluta deste caminho para onde nos querem levar à força.
Não é preciso concordar com a orientação politica que Manuela Ferreira Leite encarna para se estar em absoluto acordo com tudo o que foi dito. Porque o que está em causa hoje já nem tem relação com diferentes orientações, diferente politicas, diferentes ideologias, diferentes grupos de interesse. O que está em causa hoje é algo que está num nível superior a esse: a rejeição do extremismo. A consciência que acima de tudo aquilo que nos separa, está aquilo que nos une: moderação e prudência na governação. O centro alargado, que vai desde os activistas de sofá à esquerda aos monárquicos conservadores à direita. O que nos une é o simples bom-senso de quem percebe que um país não é uma Fenix que há que colocar a arder na esperança que renasça. Porque um país é feito de cidadãos, é feito de pessoas, e as pessoas queimam-se.
É isto, antes das diferenças, que me une, e a ti, a Ferreira Leite. É isto que importa preservar perante um assalto de loucos irresponsáveis. E foi isto que MFL disse aos deputados do PSD: parem, e vejam bem o que estão a fazer. Porque o PSD pode ser muitas coisas, mas não é isto. Foi esse o sentido da expressão “eu sou social-democrata”. Nesse sentido, eu também sou. Moderado e consciente que um país se mede pela prosperidade da sua classe média.
Assim que esta guerra, porque neste momento é de guerra que tratamos, assim que esta acabar voltaremos aos combates políticos leais e desleais, às campanhas mais ou menos sectárias, às pulhices e demagogia do costume, ao combate de ideias e argumentos, às várias soluções e recriminações desta crise. A tudo, no fundo, o que faz a política fascinante e o país avançar, embora por vezes aos soluços, mas sempre para a frente.
Por agora, no entanto, há uns loucos irresponsáveis a travar, e um desígnio nacional que nos envolve a todos. Todos – foi isto que Manuela Ferreira Leite veio confirmar. Da minha parte, e por muito que me custe, só tenho a dizer: obrigado.

A ler – Eduardo Cabrita

Governo fora de lei
A grande vantagem comparativa de Portugal no meio do furacão que tem varrido a Europa é a paz social, a bonomia dos protestos sindicais, o reiterado compromisso do PS com o Memorando da troika e a paciência do povo perante as vagas de más noticias com que tem sido bombardeado.

O discurso oficial assentou na determinação do bom aluno que seria recompensado nas notas das avaliações trimestrais até à glória do quadro de honra para gáudio luso e exemplo para arruaceiros gregos ou espanhóis. A dúvida surgiu quando as obesidades a cortar foram quase só os “pneus” dos reformados sedentarizados e os “papos” dos funcionários públicos confundidos com a vetusta imagem dos mangas-de-alpaca. A banca foi apoiada com fundos da troika sem qualquer contrapartida quanto ao financiamento da economia e libertou-se do pagamento de pensões, à conta da maquilhagem do défice de 2011, com custos para todos nós de mais de 500 milhões de euros este ano.

A resposta de Passos e Gaspar foi a fuga para o precipício destruindo a esperança de retoma em 2013, substituída por mais um ano de recessão. As medidas anunciadas provam que perdemos um ano de reconversão da economia e que o fanatismo ideológico vai provocar o maior aumento de impostos sobre o trabalho de sempre (7% de Segurança Social + novos escalões de IRS + redução de remunerações extra). O bónus de 2,3 mil milhões às empresas torna-nos cobaias da engenharia social e aumenta lucros a quem não merece.
Esta terceira injeção é uma overdose fatal para o consenso político, para a paz social e um murro que põe KO a auto-estima nacional. A forma como se pretende aldrabar o Tribunal Constitucional é o maior desafio de sempre à prova de vida de Cavaco. Mais do que um Governo sem futuro, passamos a ter um Governo fora de lei.

Aqui

No tempo em que os animais falavam – 0

A 4 de Maio de 2011, a um mês das eleições, Passos Coelho despejava estas verdades para cima do povo:

Vítor Gonçalves – Paulo Portas disse, esta noite, que isto era um acordo mediano. Qual é a sua opinião? Este é um bom acordo, é um mau acordo ou um médio acordo? Como é que classifica este acordo?
Pedro Passos Coelho – Em primeiro lugar, é um acordo necessário e é um acordo difícil e duro. Acho espantoso que o Primeiro-Ministro, ontem, tivesse comunicado aos portugueses os termos que não estavam no acordo e não o acordo que ele próprio firmou nas negociações.
Vítor Gonçalves – Havia muitas dúvidas nas pessoas sobre se vai haver ou não 13º mês e, portanto, o Primeiro-Ministro acabou por resolver essas dúvidas.
Pedro Passos Coelho – É verdade. Mas sabe que quem lançou essas dúvidas na opinião pública foi o Primeiro-Ministro. Foi o Primeiro-Ministro que veio ameaçar, publicamente, que podia estar em causa o 13º e o 14º mês, caso o PEC fosse chumbado e tivesse de se recorrer à ajuda externa. Não se disse por aí, foi o Primeiro-Ministro que ameaçou.

No tempo em que os animais falavam – 1

A 4 de Maio de 2011, a um mês das eleições, Passos Coelho despejava estas verdades para cima do povo:

Sandra Sousa – Isto que dizer, Doutor Pedro Passos Coelho, que não há grande margem de manobra para alterar algumas políticas? Ontem à noite, por exemplo, o negociador do PSD, Eduardo Catroga…
Pedro Passos Coelho – Não foi isso que eu disse.
Sandra Sousa – … disse que abriu a porta a um mix de políticas, caso se viesse a revelar necessário.
Pedro Passos Coelho – Exactamente, nós não temos é espaço para falhar os objectivos. Mas julgo que é importante…
Sandra Sousa – Mas têm espaço para alterar as políticas? O que é que quer dizer, exactamente, com este mix de políticas?
Pedro Passos Coelho – Julgo que é importante que, uma vez fixados os objectivos, por exemplo de atingir um determinado volume de despesa pública, encontrar um determinado mix para a área fiscal, quer dizer, uma combinação dos impostos sem aumentar a carga fiscal, para que se possa ajudar a economia a crescer.
Sandra Sousa – Deixe-me ver se eu percebi o seu ponto…
Pedro Passos Coelho – Se isto acontecer, não há uma única combinação de políticas que pode dar o mesmo resultado. Ora, do nosso ponto de vista, e dissemo-lo desde o inicio, era muito importante que houvesse espaço para esta flexibilidade a seguir às eleições.
Sandra Sousa – E há esse espaço?
Pedro Passos Coelho – Eu julgo que haverá esse espaço, não há dúvida disso.

No tempo em que os animais falavam – 2

A 4 de Maio de 2011, a um mês das eleições, Passos Coelho despejava estas verdades para cima do povo:

Vítor Gonçalves – Deixe-me colocar-lhe a seguinte questão, o PSD chumbou o PEC IV e algumas das …
Pedro Passos Coelho – E ainda bem.
Vítor Gonçalves – … e algumas das propostas que estão agora neste acordo são muito semelhantes às que se encontravam no PEC IV. Portanto, eu cálculo que alguns portugueses nesta altura perguntem, “Mas como é que o PSD foi chumbar o PEC IV e agora aceita um acordo que é, numa grande área, semelhante ao PEC IV”.
Pedro Passos Coelho – Em primeiro lugar o PEC IV já não existiria se tivesse sido aprovado, essa é a primeira coisa. Partia de uma base irrealista. Olhe, partia de uma base de que nós não precisávamos de dinheiro e o País precisa, desesperadamente, de dinheiro. Partia da base de que o défice em 2010 era de 6,8%, é de 9,1 não atendendo a receitas extraordinárias que se não tivessem ocorrido deixaria o nosso défice em 10,2%. O PEC IV não deixava margem para o crescimento da economia, nós dissemos isso na altura. O PEC IV não resolve nenhum problema em Portugal e ainda bem, portanto, que foi chumbado, porque se não tivesse sido chumbado todo aquilo que neste memorando de entendimento funciona a favor do crescimento de economia, envolvendo…
Vítor Gonçalves – Mas as medidas de consolidação orçamental são as mesmas, basicamente.
Pedro Passos Coelho – Deixe-me dizer… incluindo racionalização do Estado, transferência da austeridade dos cidadãos para a despesa pública e para o próprio Estado, a começar nas fundações, nos institutos, na administração paralela, isto que nós denunciámos na altura e que o Governo não quis atender. Isso está no memorando de entendimento mas não estava no PEC IV, portanto, ainda bem que o PEC IV foi chumbado.

No tempo em que os animais falavam – 3

A 4 de Maio de 2011, a um mês das eleições, Passos Coelho despejava estas verdades para cima do povo:

Eu não estou agarrado ao meu lugar, não quero ser Primeiro-Ministro a qualquer preço. Mas ninguém no PSD quer ganhar mais estas eleições do que eu porque numa altura em que o País enfrenta, provavelmente, a última grande oportunidade nos próximos anos de inverter esta tendência de empobrecimento em que tem caído, Portugal tem crescido, nos últimos dez anos, em média 0,5%, o que significa que se não inverter esta situação os 700 mil desempregados que hoje tem crescerão para perto de 900 mil muito rapidamente – o que significa uma situação absolutamente desastrosa e caótica. Nós hoje só não temos 15% de desemprego em Portugal porque temos a maior taxa de emigração dos últimos 90 anos em Portugal. Portanto, ou vamos inverter esta situação rapidamente e as pessoas acham que é importante fazê-lo, e escolher um Governo que, de uma vez por todas, entregue este resultado e lute por ele, ou não temos isso e então o País terá escolhido o seu destino e eu assumirei a minha responsabilidade; é porque eu não fui suficientemente convincente. Mas estou muito determinado em entregar este resultado e não será por falta, nem de preparação, nem por não escolher as pessoas com melhor perfil, nem de levar a maior isenção e abertura para o Governo, que a estratégia não será bem sucedida.

O que é isto?!

Não sei.
Sei o que significa a fórmula do TC “limite dos sacrifícios”.
Sei o que significa a exigência constitucional e do TC de “igualdade proporcional”.
Sei o que significa salário “mínimo” conjugado com o conceito constitucional de “mínimo de existência condigna”.
Sei o que significa materialmente um sistema fiscal realmente “progressivo”.
Sei o que é o Estado de direito.
Sei o que é a segurança jurídica e a tutela das expectativas jurídicas.
Sei a quem pertence o dinheiro dos reformados e dos aposentados.
Sei que os subsídios de férias e de natal são, como disse o TC, “remuneração”, e por isso atribuídos num só mês e nunca, um deles, em fraude ao AC, como uma mesada paternalista para mais anulada com os descontos.
Sei que o ataque fiscal anunciado é de tal ordem que não encontra equidade “material” em qualquer das medidas anunciadas. Podiam dar cabo de mil Belmiros com impostos de 80% que, no concreto, não deixava de ser insustentável viver com rendimentos miseráveis: a equidade não é uma proclamação do tipo “com o mal dos outros muito ricos que até têm barcos tributados posso eu um nadinha melhor”.
Sei que a TSU é um rato num laboratório.
Sei que só um psicopata, no sentido de incapacidade de empatia social e humana, rouba javardamente aos trabalhadores transferindo a soma para o capital, sem sequer retirar da medida amoral qualquer vantagem.
Sei que a desesperança vai aumentar.
Ouvi as declarações cheias de eufemismos do MF e as de hoje e não sei quem é aquela pessoa. Sei que tem características doentias. Mas está onde está por responsabilidade do PM, ou do Pedro, o pai do Facebook.
O País divorciou-se de um Governo que entrou em rutura com o próprio Memorando, com os PS e com os portugueses traídos em todas as promessas.
Cavaco verá estendido a si este divórcio se nada fizer.
Batemos todos no fundo com duas declarações e uma entrevista.
Por mim, farei o meu trabalho na AR.
Mas junto-me à rua.
(Publicado no P3)

Isto anda tudo ligado

Há regulares estudos no âmbito da psicologia social que exibem traços distintivos da direita face à esquerda quanto à tipologia mental e moral. Assim, à direita tende-se a valorizar o individual em detrimento do colectivo, algo que a literatura em ciência política já consagra desde os conflitos gregos entre urbanos e terratenentes que deram origem à democracia nos séculos VII e VI da Antiguidade. A partir desta simples diferença, podemos assistir ao encaixe perfeito de outras características: a direita tende a ser conservadora, procurando manter uma ordem onde se encontra no topo da pirâmide, e a esquerda tende a ser progressista, procurando alterar a ordem estabelecida na procura do constante nivelamento da distribuição da riqueza; a direita é mais assustadiça, reagindo com medo à incerteza que lhe pode trazer grandes prejuízos, e a esquerda é mais aventureira, esperando alcançar grandes ganhos com a alteração social; a direita está blindada face ao sofrimento de quem não pertença ao seu clã, o qual explica como falha das vítimas, e a esquerda assume as dores de terceiros como suas, as quais explica como falha da sociedade.

É um retrato básico, caricatural, mas nem por isso inexacto. É uma condição antropológica, como tal observável vezes sem conta empiricamente. Basta que nos lembremos dos casos anedóticos daqueles que mudaram de posição na hierarquia social auto-percebida (que pode passar por algo tão mínimo como ter carro e casa própria ou passar a ganhar mais uns tostões no emprego e receber um qualquer título manhoso que permita não ser confundido com a ralé) e, de imediato, passaram a defender e atacar exactamente o contrário do que atacavam e defendiam antes da mudança. Não há aqui, vendo na largura histórica, um mal moral, antes uma dinâmica de sobrevivência cuja raiz, ao limite, é biológica. Quem tem de seu, protege-o; a quem falta, não faltam razões para cobiçar o alheio.

Continuar a lerIsto anda tudo ligado