Isto anda tudo ligado

Há regulares estudos no âmbito da psicologia social que exibem traços distintivos da direita face à esquerda quanto à tipologia mental e moral. Assim, à direita tende-se a valorizar o individual em detrimento do colectivo, algo que a literatura em ciência política já consagra desde os conflitos gregos entre urbanos e terratenentes que deram origem à democracia nos séculos VII e VI da Antiguidade. A partir desta simples diferença, podemos assistir ao encaixe perfeito de outras características: a direita tende a ser conservadora, procurando manter uma ordem onde se encontra no topo da pirâmide, e a esquerda tende a ser progressista, procurando alterar a ordem estabelecida na procura do constante nivelamento da distribuição da riqueza; a direita é mais assustadiça, reagindo com medo à incerteza que lhe pode trazer grandes prejuízos, e a esquerda é mais aventureira, esperando alcançar grandes ganhos com a alteração social; a direita está blindada face ao sofrimento de quem não pertença ao seu clã, o qual explica como falha das vítimas, e a esquerda assume as dores de terceiros como suas, as quais explica como falha da sociedade.

É um retrato básico, caricatural, mas nem por isso inexacto. É uma condição antropológica, como tal observável vezes sem conta empiricamente. Basta que nos lembremos dos casos anedóticos daqueles que mudaram de posição na hierarquia social auto-percebida (que pode passar por algo tão mínimo como ter carro e casa própria ou passar a ganhar mais uns tostões no emprego e receber um qualquer título manhoso que permita não ser confundido com a ralé) e, de imediato, passaram a defender e atacar exactamente o contrário do que atacavam e defendiam antes da mudança. Não há aqui, vendo na largura histórica, um mal moral, antes uma dinâmica de sobrevivência cuja raiz, ao limite, é biológica. Quem tem de seu, protege-o; a quem falta, não faltam razões para cobiçar o alheio.

Nada há de errado em qualquer uma das grandes concepções ideológicas, ambas têm propósitos legítimos. Só que para defender menos Estado e mais sociedade, para advogar mais iniciativa privada e menos controlo legal, não deveria ser necessário atacar a honra dos adversários. Quando se fala da decadência da direita partidária portuguesa não se está a falar do seu quadro ideológico de base, mas tão-só da incapacidade de se fundamentarem nele para apresentar um projecto político decente. Ora, o que o PSD e o CDS fizeram depois da traição de Barroso e do descalabro de Santana consistiu na programada e crescente conspurcação do regime. Os governantes legítimos foram tratados como criminosos, denegriu-se a credibilidade das instituições estatais e até autoridades judiciais máximas – como o Procurador-Geral da República, o Presidente do Supremo e o Tribunal Constitucional – foram inauditamente desconsideradas e atacadas. O que os levou para este extremismo tem as suas causas no tamanho das ameaças que as crises internacionais configuravam e que tiveram consequências devastadoras no sistema de poder da direita, como os casos do BPN, BCP e BPP deixam ver. A reacção desta direita não é a de intelectuais que pensem a política e a sociedade, nem a de personalidades com um currículo obtido na defesa de causas públicas, é a dos cavalheiros de indústria, os operacionais dos negócios. Daí a sua inépcia, daí a sua irresponsabilidade, daí a sua violência.

É dentro dessa estratégia do quanto pior melhor, da política de terra queimada, que se encontram as razões para o derrube do Governo em Março de 2011. E a forma como as figuras gradas da direita decadente foram justificando as suas decisões contra o interesse nacional, descrevendo os portugueses como um povo de madraços e de estroinas, prometendo cortar gorduras que são mais esquivas do que as armas de destruição em massa no Iraque ou ameaçando apanhar ladrões escondidos a cada página dos contratos das PPP que ainda não tiveram tempo de ler, é parte hipocrisia voluntária e parte destino.

Isto anda tudo ligado – quem faz do ódio uma política, acaba a fazer política pelo ódio.

11 thoughts on “Isto anda tudo ligado”

  1. O Val (e Azevedo).

    Tu nao te aborreces de escrever sobre o mesmo tema repetidamente? Sera que acreditas assim tao piamente naquela maxima de que “uma mentira dita muitas vezes transforma-se em verdade”.
    Todos os dias um post sobre a tematica da “subida da direita ao poder”.
    O pa, tas chateado? Tas desempregado? Nao tens mais nada em que pensar?
    Acreditas mesmo no que escreves? Tu ja ouviste falar da tendencia natural do eleitorado em promover alternancia democratica? Tu ja pensaste que normalmente esta tendencia e exarcebada na presenca de pessoas de personalidade despotica, esquizofrenica, com resultados de governacao desastrosos e tendencialmente corruptas?

    Tu das pena pa, devias considerar falar com um psiquiatra pa, era gajo para ajudar.

    Um abraco.

  2. Não esquecer que a expressão «isto anda tudo ligado» pertence ao poeta Eduardo Guerra Carneiro. De resto na «mouche» ou dito de outra maneira: o PEC IV era mau não era???

  3. Val! Acerca de ano e meio disse-te: não conheço nenhum indivíduo de direita ou do porto que tenha vergonha na cara. Passou-se ano e meio e ainda não encontrei nenhum. Quando falo de direita é óbvio que estou a falar da direita actual, passos, mas podia ser o santana ou o portas, ou durão ou bush ou rajoy ou cameron ou qualquer outro filho da puta. Não estou a falar do Marcelo ou do Degaull. Destes já não há!!!!!
    Quanto ao ser de esquerda é algo que também não compreendes muito bem porque não o sentes. É evidente que há indivíduos que se dizem de esquerda e não o são, e são muitos, como parece estar acontecer com o teu amigo amado. É só aparecer a oportunidade de se passarem para a direita, e lá vão eles cantando e rindo!!!!!! Louvados, louvados, sim!!!!!!

  4. ignatz, sou homo sapiens, sapiens …. sapiens. Sou PS, votei Sócrates, mas não sou nenhum fanático do mesmo. O homem é demasiado inculto para o meu gosto. Agora a tua espécie é que ainda está em vias de classificação, mas já se sabem algumas características: sem alma, sensibilidade em extinção, incapacidade de gostar de alguém, muita semelhanças com um boi a olhar para um palácio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.