O elogio de Manuela

Há certamente milhares de maneiras de interpretar negativamente esta extraordinária entrevista de Manuela Ferreira Leite. Que foi enviar recadinhos de um Cavaco demasiado cobarde para falar por ele próprio, sim. Que agora se mostra muito preocupada com os reformados quando antes propunha cortar nos tratamentos, sim. Que chora lágrimas de crocodilo quando apoiou a estratégia de falir o país para expulsar Sócrates, sim. Que fala de uma cátedra que não merece quando foi uma péssima ministra das finanças, sim. Que agora se mostra assustada com a dimensão da crise a que antes chamara um “abalozinho”, sim. Que tem contas internas a ajustar com esta liderança do PSD, sim. Que se perfila para o cargo de primeira-ministra, sim. Que poderá ser o rosto de um governo de iniciativa presidencial, sim. Que é uma figura no geral detestável, sim. Que o PSD é o eterno saco de gatos, sim, sim e sim.
E que me custa, e muito, fazer-lhe aqui o elogio? Sim, também. Mas desta vez é merecido.
Porque acho que a preocupação com o país e com os cidadãos que atravessa toda a entrevista parece sincera, e parece sincera porque corresponde ao que todos sentimos. A um sentido de alarme que despertou por todo o país quando, na ultima sexta-feira, subitamente nos apercebemos que somos governados por loucos fanáticos, e que esses loucos fanáticos têm de ser parados custe o que custar, sob pena da destruição completa de um país e de um modo de vida construído, com avanços e recuos, nos últimos 38 anos. Para uns terá sido uma surpresa, para outros a confirmação dos seus receios. De onde partimos não interessa muito, neste momento, porque creio que se pode afirmar que estamos todos, à esquerda e à direita, na mesma posição de rejeição absoluta deste caminho para onde nos querem levar à força.
Não é preciso concordar com a orientação politica que Manuela Ferreira Leite encarna para se estar em absoluto acordo com tudo o que foi dito. Porque o que está em causa hoje já nem tem relação com diferentes orientações, diferente politicas, diferentes ideologias, diferentes grupos de interesse. O que está em causa hoje é algo que está num nível superior a esse: a rejeição do extremismo. A consciência que acima de tudo aquilo que nos separa, está aquilo que nos une: moderação e prudência na governação. O centro alargado, que vai desde os activistas de sofá à esquerda aos monárquicos conservadores à direita. O que nos une é o simples bom-senso de quem percebe que um país não é uma Fenix que há que colocar a arder na esperança que renasça. Porque um país é feito de cidadãos, é feito de pessoas, e as pessoas queimam-se.
É isto, antes das diferenças, que me une, e a ti, a Ferreira Leite. É isto que importa preservar perante um assalto de loucos irresponsáveis. E foi isto que MFL disse aos deputados do PSD: parem, e vejam bem o que estão a fazer. Porque o PSD pode ser muitas coisas, mas não é isto. Foi esse o sentido da expressão “eu sou social-democrata”. Nesse sentido, eu também sou. Moderado e consciente que um país se mede pela prosperidade da sua classe média.
Assim que esta guerra, porque neste momento é de guerra que tratamos, assim que esta acabar voltaremos aos combates políticos leais e desleais, às campanhas mais ou menos sectárias, às pulhices e demagogia do costume, ao combate de ideias e argumentos, às várias soluções e recriminações desta crise. A tudo, no fundo, o que faz a política fascinante e o país avançar, embora por vezes aos soluços, mas sempre para a frente.
Por agora, no entanto, há uns loucos irresponsáveis a travar, e um desígnio nacional que nos envolve a todos. Todos – foi isto que Manuela Ferreira Leite veio confirmar. Da minha parte, e por muito que me custe, só tenho a dizer: obrigado.

18 thoughts on “O elogio de Manuela”

  1. Muito bem, pensei exatamente o mesmo. Tirando o código de pertença que consiste na frase “As maiores responsabilidades pela situação da nossa dívida são do Sócrates” (vá lá, não pronunciou o nome, penso eu, porque lhe dá afrontamentos, mas disse que eram do governo anterior), de resto fez uma excelente, contundente e apaixonada súmula de tudo de sensato que já tem sido dito, acrescentando, com bastante habilidade, o convite à desobediência dos deputados do PSD. Grande momento.

  2. Vega9000 és um farsolas. Depois do que tudo o que este blogue disse sobre Manuela Ferreira Leite no passado. São uma cambada de farsolas

  3. Já eu discordo completamente e não tenho nada que “obrigadar” a esta gaja.

    Embora aprecie intelectualmente as boas intenções veguianas (que sinceramente espero, contudo, não vão acabar com os costados no “inferno”…), quando oiço a Ferreirinha a dizer o que qualquer pessoa decente e mínimamente dotada de meninges pensa desde Sexta-feira, à hora ainda do Portugal, 0 – Luxemburgo, 0, não posso associar-lhe nem responsabilidade, nem moderação, nem sequer (boa) consciência!

    O que vejo em Leite, acima de tudo, é pavor. Pavor por se rever na estratégia, nos “timings” e nos métodos que conduziram a isto, pavor por temer que a populaça, primeiro, e a História, logo a seguir, a apontem como uma das mais irresponsáveis, imoderadas e inconscientes criaturas que não só criaram o MONSTRO, ou seja, o Diabo contra o qual o Povo votou completamente às cegas em 2009 e 2011, fazendo-o, primeiro, perder a merecida maioria absoluta e, depois, perder até a relativa (um CRIME IMPERDOÁVEL!!!), como agora vem propor, com a maior das insensibilidades e irresponsabilidades, que os Deputados do PSD estilhacem a deisiplina partidária, ou se DEMITAM!

    Não, lamento, mas os termos “responsável”, “moderada” e “consciente” não se associam a gente desta. ESTA MULHER É UMA INCENDIÁRIA, que quando vê as chamas chegar perto de casa desata a desancar à paulada nos Bombeiros!

    À sua medida, não passa de uma variante feminina e “social-democrata” (seria cómico, se não fosse dramático) de um tal Tó-Zé Seguro: sempre pronto a servir, claro, o “interesse nacional”, mesmo que isso implique as maiores pulhices.

    E ainda os intelectuais se admiram de o Povo andar com a cuca fundida. Pois não há-de ele andar…

  4. Penélope, estava literalmente de boca aberta a ver a entrevista.
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    AntiAbrantes, lê lá melhor o primeiro parágrafo. Sim – e falo por mim – já disse cobras e lagartos da MFL e pretendo continuar a fazê-lo no futuro. O que não me impede de a elogiar quendo acho que fez algo admirável. As duas coisas, para tua óbvia confusão, não se excluem.
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    Anel de Soturno, fazes muito bem em discordar e por todas as razões que enumeras. Mas são razões políticas, e o texto fala de um plano, a meu ver, diferente.

  5. o pitonisa Ignatz já nos avisou , lá para baixo , para nos prepararmos para governo de iniciativa presidencial com a nelinha à frente. querem ver que já profetiza melhor que a Cassandra , o ratinho ?

  6. Sem dúvida, V9.

    E nessoutro plano, que me atrevo a considerar superior, parece-me que todos teremos, muito em breve, de ultrapassar os traumas psicológicos da “guerra fria civil” que já sofremos desde há três ou quatro anos (para ser preciso, desde 31 de Julho de 2008…) e voltarmos a tentar reconstruir algo que se pareça mínimamente com um sentimento de identidade, de dignidade e de unidade nacional, hoje à beira de se perder totalmente, quanto a mim…

  7. a velha é sómente oportunista e está a lançar-se na fase 2 do projecto cavaco, não sei o que será pior, vender o país aos africanos com gerência relvas ou mais 40 anos de cavaco com as famílias de há 40 anos.

  8. alguém sabe onde é que o broges era comissionista quando a mulher a dias varreu o déficite para baixo do tapete e deu a negociata da titularização da dívida pública ao citibank. cheira-me que já foram bons amigos, comissões à parte.

  9. Caro Vega, também eu fiquei de boca aberta, e certamente teria entrado mosca, se não a fechasse de imediato, pois nestas coisas o seguro (o de vida, não o do PS) morreu de velho.
    A MFL, agora que também leva no lombo nas reformitas, vê serem-lhe apanhados mais uns pósitos para os rendimentos e se calhar ainda mais qualquer coisita em tachos a voar, e apela à desobediência civil no PSD e CDS, como se a disciplina de voto não existisse na votação do orçamento.
    Este canto da sereia é capaz de arrastar alguns, mas eu já me acautelei e protegi os ouvidos com tapumes duplos, pois a maviosidade do canto deve esconder alguma agenda a curto prazo.
    Gostei sobretudo daquela ideia de que o presidente, tadito, estava ali para lavar as consciências dos deputaditos da maioria.
    Tadito dele, então o home que andou nas guerrilhas da contra-informação, que pedia aos amigos para confabular com jornalistas de passado esquerdalho e mandar uns bitaites contra um governo legitimamente eleito, que botava faladura a propósito de tudo e de nada, que agora anda tão caladito que já há quem lhe telefone todos os dias para saber da saúde, manda a Manelita distribuir palmatoada ao Pedrito e comandita como se não estivesse na génese desta triste aventura?
    Atão já não se importa com a instabilidade e com os mercados?
    Ora bolas, mais uma vez, esta gajada toda o que merecia era com um bom pau de marmeleiro pelas costelas abaixo a ver se de futuro se deixava de armar aos cucos pois já estamos fartos de pagar pelas suas asneiras.

  10. Teófilo, é claro que esconde uma agenda, e é perfeitamente admissível que o cálculo financeiro, tanto dela como de muitos do PSD, Cavaco incluído, entre na equação. Chama-se não querer descer de nível de vida à bruta e desnecessariamente, e é outra coisa que partilho.
    Repara que a lógica da entrevista é transversal a todos os sectores da sociedade, seja o operário sindicalizado ao quadro médio e superior. Sacrifícios são admissíveis, podendo variar na forma conforme o partido e a ideologia. Isso é normal. Agora, sacrifícios sem fim à vista numa lógica cega de destruição do país onde tanto eles como nós vivemos não o são. Não tenho problemas com pessoas a zelarem pelos seus interesses, muito menos quando são coincidentes com os meus. É o caso.

  11. a coisa é simples, o cavaco e o bando da coelha estão a ver passar navios enquanto o gang arrelvista vai vendendo o património e empochando comissões, a este ritmo não vai sobrar nada para os do costume, portantes há que agir patrióticamente correndo com a má moeda.

  12. Ó Teófilo,
    Será que desta vez o primeiro ministro informou o presidente sobre as medidas do PEC XV ou esta é mais uma “falta de lealdade institucional que vai ficar registada na história”?

  13. Em verdade vos digo, aquilo do PSD parece um saco de gatos com cio, agora regados com leite azedo.
    A D. Nela fala pelo chefe supremo, que pode dificultar a aprovação do orçamento ou mesmo vetá-lo. Se isso acontecer podemos festejar porque será o fim deste governo e, na prática, é isso que interessa, impedi-los de continuar com estas politicas de doidos.
    Percebo o Vega mas o obrigado à Manuela parece-me um pouco exagerado.

  14. Há outra coisa. A negociata que MFLeite arranjou com o Citigroup e as PPPs de José Socrates são filhas do mesmo pai: as obsessões desvariadas de Bruxelas com burocracias contabilísticas que permitiram ou até promoveram habilidades financeiras para mascarar infantilmente os défices orçamentais, garantindo chorudas comissões aos bancos do costume. Pedir aos cidadãos que acreditem em instituições que, depois de fomentar estes monstros, olham com indiferença o facto dos juros da nossa dívida representarem 10% do orçamento enquanto alguns países se financiam a taxas nulas, é um convite a pegar em forquilhas e podões.

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