És democrata? Então, vem cá dar um abraço ao André Freire

A democracia, a Constituição e a troika

Duas das coisas que mais chocam desde o acordo com a troika são, primeiro, a apatia relativa com que as medidas extraordinárias têm sido recebidas pela cidadania e, segundo, a subalternização da democracia e da Constituição, seja por responsáveis partidários, seja pelo zelador do “regular funcionamento das instituições”, seja pela maioria dos jornalistas-comentadores. Pelo contrário, o acórdão do TC, chumbando o corte do subsídios apenas para FP e pensionistas, por violar a igualdade e a proporcionalidade no tratamento dos cidadãos, vai no sentido de dar prioridade à democracia e à Constituição.

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Deve ser lixado ser tão mentiroso como tu, ó Passos

O líder do principal partido da oposição acusou ainda o Governo de se comprometer “em Bruxelas sem passar cartão a ninguém”, sobre o planeamento de um novo PEC. “A oposição, reunida na véspera a discutir uma moção de censura no parlamento, não soube de nada. Eu próprio recebi um telefonema apenas na véspera a avisar que iam ser apresentadas novas medidas de restrições. Os parceiros sociais que estiveram reunidos em concertação social com o Governo foram também surpreendidos”.

E “depois de o ter feito”, explanou, o Governo “agora diz que lamenta que o líder do PSD não esteja disponível para avalizar estas medidas porque estas medidas existem para defender Portugal “. Para Pedro Passos Coelho “não é normal em democracia o desprezo pelas instituições e pelas pessoas” que o Governo tem demonstrado neste processo.

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Como se diz?… Ah, já me lembro: que se lixe o interesse de Portugal e da Europa

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, admitiu hoje que a crise política dificultou a situação de Portugal, quando confrontado durante um debate no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, sobre as responsabilidades do PSD na queda do Governo.

Respondendo em concreto a uma intervenção do líder parlamentar dos socialistas europeus, o alemão Martin Schulz, que criticou a reprovação do Programa de Estabilidade e Crescimento pelo PSD, lembrando que esse é o partido de Durão Barroso, este respondeu que, enquanto presidente da Comissão, não interfere na política interna portuguesa, mas reconheceu que uma situação que já era “bastante difícil” ainda se tornou mais complicada.

Na sua intervenção, Schulz afirmara que, sendo verdade que não podem ser atribuídas culpas a Durão Barroso, por este já não liderar o PSD, foi o seu partido que precipitou a crise política em Portugal ao inviabilizar um PEC necessário para o país cumprir os seus compromissos no quadro do Pacto de Estabilidade e Crescimento.

“Meu amigo Martin Schulz, você sabe muito bem que enquanto presidente da Comissão Europeia não posso interferir na política interna portuguesa (…) mas, ao mesmo tempo, devo dizer-lhe que uma crise política em Portugal não tornou a questão mais fácil, e Portugal já tinha uma situação bastante difícil”, disse Durão Barroso, no período final de respostas de um debate consagrado ao último Conselho Europeu, de 24 e 25 de março, realizado imediatamente a seguir à demissão do Governo português.

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Num discurso, no Parlamento alemão, antes do Conselho Europeu, Angela Merkel condenou a decisão dos partidos da oposição de Portugal de não apoiarem o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) proposto pelo primeiro-ministro José Sócrates, levando-o a pedir a demissão.

“Lamento que não tenha havido uma maioria no Parlamento para apoiar o novo pacote de medidas”, afirmou a responsável alemã.

É que os compromissos assumidos por Portugal no PEC IV fazem parte da estratégia da Europa para evitar crises futuras.

Merkel lembrou também que as novas medidas tomadas pelo Governo português para reduzir o défice orçamental foram de “longo alcance” e apoiadas pelo Banco Central Europeu (BCE) e pela União Europeia.

Para Angela Merkel, Sócrates foi “correcto” e “corajoso” ao levar as novas medidas de austeridade ao Parlamento português para votação.

“Estou grata a Sócrates” por tomar a responsabilidade das contas públicas do seu País, disse também a chanceler alemã, citada na Bloomberg.

A crise política portuguesa apresenta assim um novo desafio para os líderes europeus, que hoje se reúnem em Bruxelas.

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Ah, ah! Vocês são/eram o quê?

Com a degradação da perspetiva («outlook») da Alemanha, Holanda e Luxemburgo pela Agência Moody’s, está finalmente a chegar o momento «nós não somos a Grécia» também para estes países. Para já, a Alemanha ousa apenas protestar, dizendo: «Nós somos a âncora da estabilidade da Europa». Pode ser, mas a mim parece-me mais que são a âncora da sua própria estabilidade e da dos satélites mais próximos. Até um limite. Para não se tramarem, os alemães teriam que exercer ou ter exercido esse papel com uma visão europeia, coisa que não lhes passa pela cabeça. Chegamos assim ao ponto em que a rã gostaria de se libertar do escorpião e o escorpião da rã, mas não conseguem. Vão os dois ao fundo.

Relvas, o fazeiter

Gostei muito de ouvir o Príncipe de Massamá afirmar que não demite o ministro Relvas porque ele é um “doer” (em americano, “fazeiter”). Concordo plenamente e acrescento que é também, sem sombra de dúvida, um mestre do verbo e sua reinvenção. As cadeiras que a generalidade dos estudantes faz “a doer”, com muito estudo e trabalho, fá-las o “doer” simplesmente sendo-o, isto é, fazendo (em americano, “fazeiting”).

Ora um “doer” de cadeiras, como é fácil de entender, é coisa bem mais inteligente do que cadeiras a doer, extravagância antiquada que é consabidamente responsável pelo crónico atraso do país.

Dizem os happy few que tiveram o privilégio de assistir que dá gosto ver o “doer” (em americano erudito, “fazeiteiro”), com um martelo na mão, “fazeiting” cadeiras para bundas virtuais à velocidade de um flato do bosão de Higgs. Tão inestimável capacidade levou, aliás, a Universidade Lusófona a decidir equivalenciar-lhe (em americano, “equivaleitingar-lhe”) a licenciatura em Carpintaria de Toscos, com posterior doutoramento “odoris causa” (na genial terminologia do Marco Alves) em Cadeiras a Martelo.

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Oferta do nosso amigo Joaquim Camacho

Sócrates e a bancarrota: Lobo Xavier faz uma descoberta fantástica

António Lobo Xavier pertence à guarda pretoriana da oligarquia. Os seus talentos intelectuais e políticos estão ao serviço da manutenção do poder em certas mãos que o recompensam e que recompensam a quem o recompensa. Pelo que se rege por uma lógica cristalina: tudo fazer para conservar intactos os topos das pirâmides económica e social.

Na oligarquia sabe-se de ciência certa e milenar dois princípios. O primeiro diz que os recursos são sempre escassos, pelo que é constante a necessidade de os acumular. O último diz que a moral não passa de uma arma de arremesso, causando graves prejuízos a quem a pratique. Por isso a gula dos oligarcas é insaciável, por isso o cinismo dos oligarcas é implacável.

Atente-se neste excerto vídeo de um aparentemente banal e inócuo programa destinado a cair no esquecimento assim que termina. Lobo Xavier fala da temática das desigualdades. Fala para um País que as tem visto crescer ao mesmo tempo que se vê a empobrecer. E consegue arranjar uma deturpação tal que declara ter sido a real diminuição das desigualdades efectuada pelo Governo socialista até 2009 a causa dos actuais problemas financeiros. Ele nada explica, nada contextualiza, limita-se a largar atoarda atrás de atoarda, bacorada atrás de bacorada. Nesta novíssima e rocambolesca tese direitola, a bancarrota para que o Hércules Sócrates nos arrastou sozinho já não tem nada a ver com as linhas de TGV e aeroportos que se fizeram por tudo quanto foi canto, antes porque nos 3 anos que antecederam a maior crise económica internacional dos últimos 80 anos se registou uma diminuição das desigualdades em Portugal. Apesar de habituados ao deboche snob do passarão, estamos a lidar com uma entrada directa para o Guiness na categoria “Foda-se, vale mesmo tudo”.

É um festival da fantochada observar o modo como Lobo Xavier revela todo o seu desprezo pelo que significa social e economicamente ter conseguido reduzir a pobreza. A sua monstruosa vacuidade moral toma-lhe conta do rosto que ora baixa os olhos, ora quase rebenta a rir tamanha a hipocrisia sabida, ora fica a olhar bovinamente para nenhures. Em seu abono, apenas esta evidência: calhando estar no programa qualquer imbecil do PCP ou do BE e a sintonia entre eles seria perfeita na negação do feito extraordinário que representa ter conseguido pegar no que Durão e Santana deixaram em cacos e de imediato começar um processo de salvação dos mais desfavorecidos. Aos partidos dos trabalhadores e dos miseráveis também não interessa ver socialistas a diminuir desigualdades pois os imbecis leram nos cartapácios que Marx recomenda o aumento da miséria como sendo o caminho mais rápido para a revolução.

Aplauso para o António Costa, o qual faz a síntese imbatível do que esteve, está e estará em causa:

Não há dinheiro e não há mensagem

Andámos a viver acima das nossas possibilidades

Homem honrado paga o que deve

Numa casa, não se deve gastar mais do que se ganha. Qualquer dona de casa explica isso.

Não vamos deixar as dívidas para os nossos filhos pagarem

Não há dinheiro, qual é a parte que não perceberam? Não há dinheiro.

A economia andou a viver do crédito fácil, agora acabou.

Temos que aprender a viver de acordo com as nossas posses

Não vão ser os outros a pagar os nossos gastos

 

Todos os dias, uma ou várias das frases acima e respectivas variantes entram pelas nossas casas dentro. Via jornais, rádio, televisão, sobretudo pelos comentadores sérios e importantes, com muitos títulos (normalmente não relacionados com economia), que têm a missão de explicar a crise aos restantes cidadãos. A seu favor, uma enorme vantagem: têm toda a razão no que afirmam. Não há nenhuma daquelas frases com a qual discorde. Nem uma só..

A razão para não discordar é que tudo o que ali está escrito é do mais elementar senso-comum. Afinal, ninguém gosta de ter dívidas, e a primeira coisa que qualquer um faria caso ganhasse o Euromilhões, a primeira de todas, era pagá-las todas até ao ultimo tostão. Libertarmo-nos desse peso, poder dizer com incontida satisfação “não devo nada a ninguém”. É uma questão visceral para a grande maioria das pessoas. Outra coisa igualmente visceral é o sentimento de protecção dos filhos, o não querer deixar-lhes um fardo. E dentro do mesmo tipo de sentimentos, ter folga no fim do mês, ou seja, não gastar mais do que se ganha. E caso o dinheiro acabe, cortar tudo o que não seja essencial. Tendo em vista que face a essa situação, o próprio conceito de essencial muda. Casa, comida e roupa. Tudo a partir daí passa a ser luxo sujeito a ser posto em questão. Quando não há dinheiro, não há dinheiro. Ponto final.

Como disse, isto é uma questão do mais elementar senso-comum, e quando alguém diz uma frase destas concordo imediatamente com ele.

Até que as usam para explicar a presente crise. Ou seja, até que mentem. Porque a crise não se explica com estas frases, os estados não se governam como uma economia doméstica, e dívidas publicas são mecanismos benéficos na maior parte dos casos. E sim, as dívidas gerem-se. E gerem-se por períodos de tempo multigeracionais. Os estados, ao contrário das pessoas lá em casa, têm uma certa tendência para não morrerem. Eu construo uma auto-estrada, os meus filhos e netos acabam de a pagar, porque todos beneficiamos. Todos juntos, somos o estado em existência contínua. Imagine-se se não tivéssemos construído a ponte 25 de Abril “para não deixar encargos aos filhos”? Quando é que ficou finalmente paga, recordem-me lá?

Nada disto, no entanto, impede que estas parábolas continuem a ser usadas, e são usadas pela mesma razão que são usadas, para referir o exemplo mais famoso, nos Evangelhos: são terrivelmente eficazes a passar a mensagem, de traduzir conceitos complexos em ideias simples susceptíveis de serem entendidos por quem não percebe nada de economia, finanças e de “como chegámos aqui”. E de como sair.

E esta batalha de ideias e conceitos está a ser ganha em toda a linha pela direita, pelos moralistas, e por todos os que odeiam o próprio conceito de estado social e querem aproveitar a crise para o colocar nos mínimos, ou mesmo acabar com ele.

Agora, não sou economista mas gosto de política, e como ultimamente toda a politica se resume à economia e finanças, tenho procurado saber o máximo possível. Ler jornais económicos, artigos de especialistas, discutir com gente que sabe muito mais do que eu. Adquirir, no fundo, os conhecimentos necessários para não ser completamente passado a ferro quando se discute a crise. E não é fácil, mesmo para quem gosta de ler e aprender. É perfeitamente natural que a grande maioria das pessoas tenha mais que fazer do que andar a ler e aprender estas coisas.

O que se aprende nestas discussões e leituras é também outra coisa: a direita explica a crise e as opções à nossa frente com muito recurso a estes exemplos simples e desonestos, enquanto a esquerda tem tendência a ser mais rigorosa, académica e muito, mas muito menos eficaz. Ou para colocar as coisas de outra maneira: pode ser muito correcto e honesto contrapor cenários macroeconómicos e politica monetária do BCE quando alguém diz que andámos a viver do crédito fácil, mas no fim do dia o que as pessoas interiorizaram foi precisamente a ideia do crédito fácil. Aquilo que compreendem, que experimentam, que conhecem. A direita desonesta passa a mensagem, a esquerda passa a ideia de serem teóricos desligados do mundo real. Os tais que querem “continuar a gastar à tripa-forra”.

Por exemplo, o governo embandeirou em arco com o saldo positivo da balança de pagamentos, com prova que estamos finalmente no bom caminho. Para a maior parte das pessoas, exportar mais do que se importa é uma coisa boa, apesar de na realidade reflectir sobretudo o nosso empobrecimento acelerado. Agora contraponham essa ideia simples com, por exemplo, este artigo mais rigoroso do João Pinto e Castro;

A ausência de política monetária e cambial própria decorrente da integração do país no sistema monetário europeu tornou mais difícil o ajustamento, porque nem as famílias, nem as empresas, nem o próprio estado tinham incentivos para reajustarem os seus comportamentos às novas circunstâncias. Não se alterando os padrões de despesa, foi-se prolongando até hoje o excesso de importação.

Qual é que, na mente do público, consegue passar mais claramente a mensagem? (Estou, claro, a descartar aqui o facto de ser uma publicação económica, virada para quem percebe um pouco mais.)

Isto é algo em que a esquerda, e todos os que se opõem a este caminho têm de mudar, e mudar urgentemente. Bons conceitos têm de ser bem explicados, e por bem explicados entende-se por construir a mensagem de modo a chegar ao maior número possível de pessoas de maneira que estes entendam. Se algum rigor se perde, compensa-se em eficácia. Porque estamos a falar para o público, não para o Victor Gaspar. Por cada exemplo de dona de casa que tem de cortar nos gastos, contrapor o conceito do empresário de transportes a quem dizem que para salvar a empresa tem que cortar no gasóleo. Por cada argumento de “quanto mais austeridade, menos tempo”, lançar a imagem do doente a quem  dizem que é melhor tomar a caixa de comprimidos toda de uma vez. E depois perguntar que raio de médicos são estes. Conceitos simples, curtos e eficazes para explicar porque é que o caminho está errado e o nosso correcto.

Eu, pela minha parte, estou bastante farto de ver a esquerda engasgar-se cada vez que alguém da direita diz, com ar superior, “pois, mas não há dinheiro”. Estou farto de ver a esquerda perder a guerra da mensagem enquanto a direita lança alegremente as culpas para cima de nós. Com as contas públicas em descalabro, a ideia do “não havia nem há alternativa”, mais o discurso da culpa de quem “se endividou” vai ser usada à exaustão. É altura de contra-atacar.

Boletim semestral

Não é que este governo não tenha tido tempo para se sentar, como vaticinava Teixeira dos Santos. Sentou-se e bem. Tudo o que fizeram, contratações diárias, cortes atrás de cortes, nomeações de amigos e apoiantes, puderam perfeitamente fazê-lo sentados, tranquilamente e sem grande esforço. O pote oferece belos sofás. Como anunciaram, era e está a ser um prazer aplicar um programa externo desta natureza. Entretanto, mesmo que quisessem desentorpecer as pernas e ir até à rua, um local em que se anda normalmente de pé, não podiam, ou cada vez menos o podem, tais os apupos diretos e enxovalhos matutinos com que são brindados, se tiverem tido a ideia de abrir a boca na véspera. Logo, mais uma razão para permanecerem confortavelmente sentados.
O ministro Crato «has a dream», mas um sonho de retrocesso, e aproveita os cortes orçamentais para repor a escola elitista e classista de antigamente, seguindo as suas memórias de lisboeta da classe média, mas metendo 30 adolescentes em cada sala de aula. Dificulta o trabalho na escola pública e ajuda assim os privados, o que, de certa forma, é um contrasenso face ao seu espírito revivalista. O ministro Gaspar, com as suas teorias «thatcherianas» fora de tempo, abre buracos atrás de buracos, que alguém vai ter de tapar. Saldo da Segurança Social? Prestes a ir à vida. Aumento do IVA? É já a seguir. Despedimentos na FP? Vão começar. Aumento da recessão? Consequência lógica. Serviços públicos? Impossíveis de gerir, disfuncionais e prontos a serem liquidados. Gaspar ignora o país, com o qual, aliás, parece não se identificar, ocupando-se com somas e subtrações que nunca podem bater certo. Conseguirá pôr o país a produzir para cumprir os seus compromissos e a financiar-se a juros decentes? Quando estivermos todos mortos, quem sabe?
Na Defesa, Administração Interna, Ambiente/Agricultura, etc., nada se faz, logo haverá toneladas de medidas a tomar depois (alguém viu Miguel Macedo ou Assunção Cristas enquanto o país ardia? Pareceu-me vê-la, a ela, animada num comício do CDS nos Açores). Portas passeia-se, segue a estratégia e colhe os louros das conquistas de outros e distancia-se o mais que pode das confusões de São Bento e São Caetano. Relvas, com um pé dentro e outro fora, prepara com azáfama o seu futuro no privado, de que Passos beneficiará se o proteger entretanto. Mota Soares, sob o lema da caridade, enlata velhinhos e crianças em lares e creches e consagra um novo sinónimo para «pobre» – malandro/mandrião. Passos é o vazio total, apenas uma voz bem timbrada e até imprópria para as grosserias que profere. Algo não bate certo. Foi um erro não ter ido trabalhar com o Filipe La Feria. Conta com Gaspar para o conteúdo técnico e com Relvas para a estratégia política. Ambos estes suportes se estão a desmoronar.
Com estes atores assim dispostos no palco, pagamos ao menos o excesso de dívida? Não, não pagamos. Agravamo-la. Essa é a parte dramática. O país está a ir pelo cano, ao som de elogios, mas a ir.

Parece-me que quem não terá tempo para se sentar, tal a quantidade de medidas que vai ser preciso tomar para corrigir os desmandos destes incompetentes e civilizar o país, será o próximo governo.

Com dois semestres de liderança, António José Seguro nada tem feito para provar que é uma boa alternativa. Se mais nada fosse, o facto de as sondagens continuarem a dar ao Governo maioria absoluta no meio do descalabro a que estamos a assistir e da incompetência e vacuidade que revelam os seus membros devia levá-lo a pôr o lugar à disposição, ou ser forçado a tal. Sei que, estando a situação na Europa por definir – mantém-se o euro, não se mantém o euro, sai a Grécia, saem os do sul, não sai ninguém, morre tudo, salvam-se alguns, reduz-se a zona euro, etc. – não é apetecível assumir a liderança da oposição com vista a um futuro governo. Mas o contrário não pode ser a inexistência de oposição e o eterno «bluff» de Seguro: ira-se por vezes, mas na prática pactua. Não há qualquer interesse, nem para o partido socialista nem para o país, em andar a negociar ou a celebrar acordos ou pactos com os farsolas e incompetentes que nos governam, quando estes têm maioria absoluta e, ainda por cima, aplicam uma receita objetiva e comprovadamente desastrosa. Manter Seguro à frente do PS é destruir a credibilidade do partido e das pessoas competentes que tem e empobrecer a democracia.

Da série “Coisas que Seguro nunca dirá”

[…]

4. A eficaz campanha montada pela actual maioria para demonizar José Sócrates teve danos colaterais graves. Dois deles foram a condenação dos institutos públicos, como forma de gestão de entidades públicas não pertencentes à administração directa do Estado, e a atribuição às parcerias público-privadas (PPP) de todos os malefícios do endividamento público, para além de acusações nunca provadas, ou mesmo improváveis, de fonte de corrupção. Os argumentos, como em todos os tribunais de fé, foram sempre fictícios: que os institutos públicos faziam o trabalho de direcções gerais, sendo por isso dispensáveis, que os seus dirigentes detinham prebendas e alforrias inaceitáveis, que os institutos se endividavam à tripa-forra ou detinham elevados e ocultos depósitos bancários. Ajudou à missa um venerando conselheiro reformado do nosso órgão julgador das contas públicas, desmultiplicando-se em entrevistas e publicações. A base da doutrina, pois que de jurisprudência se não tratava, eram umas auditorias já famosas pelas frases intermediárias que faziam as delícias dos media, permitindo-lhes o uso repetido do verbo “arrasar”, normalmente mais cautelosas na parte das conclusões; acresce que forçados a recorrer a opiniões externas, nem sempre tais auditorias se apresentam com a qualidade técnica recomendável. Quase sempre tais montanhas pariam ratos, apenas. Mas impressionavam incautos e desconhecedores, cumprindo com diligência a missão posterior de “arrasar” a gestão dos governos Sócrates. Ora os institutos públicos não foram criação dos fatídicos últimos dez anos, nem as PPP irão desaparecer do nosso universo. Os primeiros remontam, em todos os países, ao papel crescente da administração do Estado social moderno; as segundas foram importadas da União Europeia onde são a quinta-essência das “alavancagens” financeiras necessárias para o crescimento e o emprego. Destruir a credibilidade das PPP é o mesmo que dizer ao Banco Europeu de Investimentos (BEI), “nós queremos o vosso dinheiro para crescer e criar emprego, mas rejeitamos as PPP”, ou seja, uma condição descredibilizante e ridícula, que deita fora a criança e guarda a água do banho.

[…]

Correia de Campos, Público, 23 de Julho de 2012

A César o que é de César

Enquanto Januário Torgal Ferreira andou a criticar Governos socialistas, o Correio da Manhã não se lembrou de expor os seus rendimentos. Logo que o bispo se atirou a Passos, os pulhas não perderam tempo e abriram fogo de artilharia populista contra o homem. O pasquim do Octávio Ribeiro dá-nos sempre um retrato fiel da decadência da actual direita portuguesa, não falha.

Esta frase – “O Governo é profundamente corrupto.” – será uma calúnia a merecer repúdio imediato caso o seu significado remeta para o foro judicial. Contudo, no plano estritamente político é de uma exactidão geométrica. O Governo do casal Passos-Relvas é profundamente corrupto porque os seus responsáveis de coligação enganaram profundamente o eleitorado e traíram profundamente os interesses de Portugal ao escolherem a estratégia da terra queimada para conquistarem o poder. O que os moveu foi só a conjuntura de fragilidade do anterior Executivo e mais nada de nada de nadinha de nada entrou naquelas cabeças cheias de ódio e sede.

Revolution through evolution

Being in Awe Can Expand Time and Enhance Well-Being
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In the Mind of the Psychopath
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Moderate Drinking May Reduce Risk of Rheumatoid Arthritis
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Humanizing Computer Aids Affects Trust, Dependence
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Good-Natured Jokes Ease Pain
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Punishment Motivated by Fairness, Not Revenge
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Poor Sleep May Age Your Brain
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Are Consumers Aware That They Are Drawn to the Center When Choosing Products?
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Brain Power Shortage: Applying New Rules Is Mentally Taxing and Costly
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Self-Compassion Fosters Mental Health
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Managers Realize Highest Professional Vitality in 50s

Os mórmons, porque é domingo

Mitt Romney, o candidato republicano às próximas presidenciais americanas, é mórmon. Conhecendo relativamente pouco da seita, lembrando-me sim dos seus métodos de proselitismo, mais concretamente, o envio de jovens e bem parecidos evangelistas vestidos de fato cinzento pelo mundo fora, inclusive nas ruas da minha terra, em busca de aderentes, investiguei na net o que é exatamente ser mórmon. Descobri o seguinte sobre a cosmologia em que assentam a sua prática e que foi consignada no «Livro de Mórmon» (a sua verdadeira Bíblia), escrito nos anos 20 do século XIX por Joseph Smith Jr., após uma revelação, e que os distingue do cristianismo comum:

(tradução livre da Wikipedia) A vida na Terra é uma parte muito curta da nossa existência eterna. No princípio, todas as pessoas existiam num estado de independência em relação a Deus. Eram espíritos ou inteligências. Nesse estado, Deus, que também é espírito (mas amplamente «upgraded»), chegou junto delas e propôs-lhes um plano, de acordo com o qual poderiam progredir e ter o privilégio de o igualar. Livres de aceitar o plano, dois terços das pessoas aceitaram-no e um terço, liderado por Satanás, rejeitou-o. Quem o aceitou recebeu um corpo e veio à Terra perfeitamente consciente de que teria a experiência do pecado e do sofrimento e de que a forma como lidasse com as tentações e provações lhe conferiria posteriormente, presume-se que no regresso à existência extraterrestre, o estatuto de Deus. A expiação dos pecados da humanidade por Jesus Cristo merece especial ênfase, sendo o ponto central do referido plano, já que constitui o exemplo a seguir pelos humanos. Aparentemente, o mistério da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) não é mistério nenhum porque não há fusão. Cada um tem a sua função e estatuto. Deus vai comunicando com os humanos, para lhes lembrar o seu programa, como a Troika, por intermédio do Espírito Santo, através de visões, revelações e visitas de entes divinos.

No fundo, esta cosmovisão resolve o problema do Deus criador de tudo o que existe e que o torna responsável pela criação tanto do bem como do mal. Assume a distinção e o contrato desde o início dos tempos e identifica claramente os agentes do mal.

Bom, deixando de lado o interesse ficcional que me suscitam sempre estes tipos de explicações do mundo, porquê isto agora? Porque é domingo? De certa forma, sim. Domingo é dia de crónica do Alberto Gonçalves no DN. Começando por culpar a Maçonaria em geral pelos males do país e pelas trafulhices do Miguel Relvas em particular, o principal objeto das suas chispas de ódio desta vez não é Sócrates, é Barak Obama, de cuja mediocridade os seus apoiantes são o perfeito espelho, já que, ao que diz, gozam com a religião minoritária de Romney, ainda por cima sem humor. Obama, rotulado de perigoso, deve, por essas e por outras, abandonar a Casa Branca em Novembro. Mas tem razão, não deviam gozar, sobretudo se se intitulam de cristãos ou praticantes de outra qualquer religião. O ridículo e o absurdo apenas variam, pelo que é de facto inaceitável que uns gozem com os outros. Gonçalves revela-se aqui grande defensor das minorias, começando por nos induzir a pensar, enquanto lemos e arregalamos os olhos, porque conhecemos o escriba, que se está a refrir aos homossexuais. Engano, brincadeira com o leitor. Afinal referia-se aos mórmons, uma comunidade tão simpática. Sobretudo desde que aboliram a poligamia por terem sido proibidos de a praticar (o que deu lugar a cisões). Não percebo é em que aspeto Mitt Romney imita Jesus Cristo. Mas enfim. Fica-lhe bem, a Alberto Gonçalves, a defesa da liberdade religiosa, ainda que seja apenas um pretexto e uma maneira ínvia de esconjurar Obama. Por acaso não me lembro de o ver defender tão sentimentalmente os homossexuais nem sequer nenhuma religião, mas pode ser distração minha.

Credibilidade made in Arraiolos

Sobre a credibilidade, é verdade que Portugal reforçou-a substancialmente junto dos parceiros europeus e das instituições internacionais. Sou testemunha disso. Portugal, hoje, é um país mais respeitado. Há uns dias, 41 deputados alemães testemunharam-me aqui o apreço pela forma como Portugal está a executar o seu programa. Nas reuniões do Grupo de Arraiolos, onde estão nove chefes de Estado da Europa que não participam nos Conselhos Europeus, tenho ouvido os maiores elogios à forma como Portugal está a tentar corrigir os seus desequilíbrios.

Cavaco, o Presidente da República que preferiu derrubar um Governo e abrir uma crise política no pior momento, e com as piores consequências, para os interesses do Estado e dos privados

Goodbye Kitty

A arma de assalto usada ontem pelo psicopata do Colorado para matar 12 pessoas e ferir 58 na estreia do último Batman é uma AR-15, comprada semanas antes na loja da esquina, juntamente com 3000 munições. Essa arma é usada pelo exército americano, mas na grande maioria dos states é considerada legal.

Há tempos outro psicopata americano adorador de armas ofereceu uma AR-15 à querida esposa, com decoração Hello Kitty especialmente encomendada. Ver o objecto aqui e aqui. O imbecil explicou que era para fazer troça da proibição de armas de assalto na Califórnia. Muitos cretinos como ele fartaram-se de rir com a piada. Um comentador do seu site fetichista de armas deu-lhe um conselho: “Faz um favor à humanidade e mata-te com isso”.

 

Arte de ser português

Assim como Agostinho da Silva não era reconhecido pela academia como filósofo, assim José Hermano Saraiva não o era como historiador. Mas foram consagrados popularmente com os respectivos epítetos disciplinares por ser essa a sua prática: fazer filosofia, fazer história. Ambos eram animais televisivos natos e raros; Agostinho descuidadamente, Saraiva intencionalmente. Um passou meteórico e fulgurante pelo ecrã, o outro escavou devagar um vale nesse território mediático que foi enchendo de vida. E se a filosofia feita por Agostinho era uma fiel transmissão do ensinamento socrático por ser um radical exercício da curiosidade, a história feita por Saraiva era uma fiel celebração do estilo de Fernão Lopes por querer levar o Povo ao povo. Mas de que Povo foi falando ao longo de 40 anos? De um Povo imaginado e imaginário, cantado por poetas, simbólico, olímpico – os reis e heróis do Quinto Império.

Hermano Saraiva fez programas de entretenimento onde se entreteve na fruição narcísica do seu romantismo. O romantismo de um homem nascido no princípio do século XX, tendo provado e gostado do manejo do poder em ditadura, e o qual encontrou no espectáculo a sua realização política. Só que provavelmente até ao próprio pode ter escapado o alcance cívico do que nos deixa: muitos milhares de imagens e sons que nos oferecem não as suas fantasias mas o registo documental de paisagens, património e testemunhos de terceiros. Este material é precioso, crescendo o seu valor com a passagem do tempo. E é essencialmente democrático, pois se oferece à interpretação de qualquer um.

Não se ter julgado a PIDE e ter-se abandonado as colónias em fuga desordenada são tópicos de dolorosa polémica que subjazem inevitáveis quando se discute o 25 de Abril. Ter acolhido, e estimado, muitos dos que no Estado Novo creram estar do lado da razão ao se colocarem ao serviço do regime é algo que prova termos criado um país onde a democracia a todos eleva. Por mim, não confiaria nas lições de História de quem não abomina o salazarismo mesmo que o compreenda existencial e antropologicamente. Mas confio de alma e coração naqueles que suportam o peso do passado na consciência e ainda assim conseguem andar. Eis a arte de ser português.