Ministro da saúde atirado ao único critério do mercado selvagem

Estamos a falar de prestação de cuidados de saúde. Estamos a falar de prestação de cuidados de saúde por técnicos altamente especializados. Estamos a falar de contratação desses técnicos – enfermeiros – tendo em conta – assim devia ser – as suas habilitações profissionais e humanas. Estamos a falar de doentes. Estamos a falar de vida e de morte. Estamos a falar de quem administra cuidados de saúde mas também de quem o faz de forma humanizante.
Estamos a falar de contratar esses profissionais. Acontece que a ARS de Lisboa e Vale do Tejo abre um concurso público cujo critério cimeiro era o do menor valor/hora. Assim, ganhou a empresa Sy‐Care e Medical Search o que significa que o valor hora a pagar pelo trabalho qualificado de um enfermeiro é de 3,96€.
Isto corresponde a 554,40€/mês o que, depois de todas as deduções, significará que os enfermeiros irão auferir cento e poucos euros.
Está por esclarecer se é verdade que a ARS de Lisboa e Vale do Tejo pagará à empresa Sy‐Care e Medical Search por cada um destes enfermeiros 1,151€.
Mesmo que esta última parte não se verifique, estamos perante um ataque à dignidade do trabalho com um descaramento pouco habitual. Atirar a contratação de pessoal altamente especializado que lida com áreas sensíveis para a lógica do mercado puro e duro é destruir a sociedade que se civilizou com base em regras, distinções necessárias, direitos, deveres, papel do Estado e que sabe que contratar um médico ou um enfermeiro não é o mesmo que ir às compras dos melhores sapatos em saldo.
O Ministro não pode ficar calado. Estamos num tempo em que o silêncio é amigo da cumplicidade.
Entretanto, episódio a episódio a sociedade agita-se.
Como não?

Desemprego: dados do Eurostat de ontem

Segundo o Eurostat, em maio, a taxa de desemprego em Portugal atingiu os 15,2%, subindo 2,5 pontos percentuais (p.p.) face a maio do ano passado e mantendo o mesmo valor face ao mês anterior. A população desempregada foi estimada em 822 mil, representando mais 126 mil desempregados (+18,1%) que no mês homólogo do ano passado. Em média, em relação ao ano passado, são mais cerca de 350 desempregados por dia, 15 por hora.Portugal apresenta a 4ª taxa de desemprego mais elevada da UE27 (a seguir à Espanha, Grécia e Letónia), o 4º maior crescimento homólogo (a seguir à Grécia, Espanha e Chipre). A taxa de desemprego em Portugal, cresceu mais do triplo que a da União Europeia e mais do dobro que a da zona euro (em termos homólogos). O ano passado, em maio, Portugal apresentava uma taxa de desemprego de 12,6%, situando-se na 8ª taxa de desemprego mais elevada.

Na União Europeia, a taxa de desemprego foi de 10,3%, crescendo quer em relação ao ano passado (0,8 p.p.) quer face ao mês anterior (0,1 p.p.). Na Zona Euro, a taxa de desemprego foi de 11,1%, crescendo em relação ao mês homólogo (1,1 p.p.) e ao mês precedente (0,1 p.p.). O Eurostat estima 24,8 milhões de desempregados em toda a União Europeia dos quais 17,6 milhões na zona euro. No espaço de um ano, o nº de desempregados na União Europa cresceu 8,5%: são mais cerca de 2 milhões de desempregados. Só na zona euro há mais 1,8 milhões de desempregados (+11,6%). Os países da zona euro são responsáveis por 70% do total do desemprego da UE.

Espanha apresenta a taxa de desemprego mais alta da UE (24,6%) e, pelo contrário, a Áustria regista a taxa de desemprego mais baixa, com 4,1%.
A taxa de desemprego juvenil, em Portugal, é de 36,4%, (+ 7,0 p.p. de crescimento homólogo e -0,1 p.p. de crescimento mensal) o equivalente a 159 mil jovens desempregados. Portugal ocupa a 4ª taxa de desemprego juvenil mais elevada da UE (a seguir à Grécia, Espanha e Eslováquia) e o 3º maior crescimento, face ao ano passado. São mais 32 mil jovens desempregados que no ano passado (1/4 de crescimento, ou mais 88 por dia). A taxa de desemprego juvenil em Portugal cresceu mais do triplo que na Zona Euro e mais do quádruplo que na União Europeia (em relação ao ano passado). Na UE27, a taxa de desemprego juvenil fixou-se em 22,7% (+1,7 p.p. de crescimento homólogo e +0,2 p.p. de crescimento mensal) e na Zona Euro em 22,6% (+2,1 p.p. de crescimento homólogo e 0,2 p.p. de crescimento mensal). Na UE27 há 5,5 milhões de jovens desempregados dos quais 3,4 milhões estão na zona euro.
A maior taxa de desemprego juvenil regista-se em Espanha e Grécia, com 52,1% (dados referentes a março para a Grécia).

Pelo contrário, a Alemanha apresenta a taxa de desemprego juvenil mais baixa da Europa (7,9%).

Está tudo bem. Nada a alterar.

IVG e taxas moderadoras – da demagogia sobre o espírito da lei

Mais uma demagogia. Não tem nada a ver com o enriquecimento ilícito? Tem. Tudo. Gritar bem alto sobre os poderosos que não vão presos, porque têm advogados caríssimos, porque recorrem, recorrem, esses malandros cheios de dinheiro. Dizer ao povo zangado que só há uma maneira de combater este absurdo, criar um crime que dispense a prova, que dispense a chatice do Estado de direito, mas que acalme em dias tanto sangue nas nossas gargantas zangadas.

Não tem nada a ver com a ainda mal explicada criação de dados com registos de pessoas condenadas por crimes de abuso sexual de menores e sua disponibilização não apenas às autoridades policiais mas eventualmente a escola e a vizinhanças e, portanto, ao “Correio da Manhã”? Tem. Tudo. Nos crimes que mais comoções provocam e que, por isso mesmo, mais convocam a razão de ser da invenção do Estado moderno ocidental, eis que o Governo dá de comer à fome natural de vingança e prevenções privadas (no meu prédio não, aqui não, vizinhos organizados). Pelo meio o risco monstruoso de linchamento moral ou físico de inocentes. Pelo meio uma ministra que diz estar em causa o “interesse das crianças”, uma jurista que não vê nenhum direito constitucional concorrente no assunto.

Com que então, como diz Teresa Caeiro, taxas moderadoras na IVG, porque se trata de um ato médico qualquer. É inocente, este erro? Não. Nada tem a ver com a exploração emocional da crise em prejuízo dos princípios jurídicos que regem o enquadramento da IVG? Tem. Tudo. A direita sobe as taxas moderadoras, sobe o preço dos transportes, faz do direito à saúde uma conquista diária em retrocesso e agora diz a milhares de pessoas, com doenças graves sujeitas a dificuldades financeiras insuportáveis, esta coisinha: – então e a IVG é à borla? Mesmo que uma mulher seja reincidente? Sim, essas que já se está a ver usam a IVG como um contracetivo!

É insuportável ver a direita a mover-se pela força da demagogia

A IVG não é um ato médico como outro qualquer. Gostava de saber quem é a Teresa Caeiro ou quem quer que seja para julgar a complexidade da “reincidência”. Gostava de saber o que tem a deputada a dizer de uma mulher que engravida uma vez porque o contracetivo falha e outra por efeito de interação medicamentosa, por exemplo. Ou por tantas e tantas circunstâncias.

Quanto à prova de insuficiência económica para que uma mulher não pague taxas moderadoras, como não dar cabo do espírito da lei? Dando exemplos: se a lei protege a liberdade e a confidencialidade íntima da mulher, como pode uma rapariga de 16 anos, dependente dos pais, fazer aquela prova se não quer, no seu direito, dar conta do facto? Se uma mulher casada ou em união de facto que, por razões íntimas, decide realizar uma IVG sem o conhecimento do parceiro, mas depende do mesmo economicamente, como faz a prova de insuficiência económica?

Quanto à reincidência, se eu interromper uma gravidez no hospital y e depois interromper outra no hospital x, não sendo possível fazerem um registo do meu ato, como é que a Teresa Caeiro me persegue, perguntando-me, a menos que eu me explique num confessionário aberto, como raio engravidei duas vezes e duas vezes perante um cinema esgotado fui fazer uma IVG?

Respeitar a lei é respeitar a sua letra e o seu espírito. Ou era.

Hoje no P3

Não fechem os olhos, não tapem os ouvidos

E também é um risco, porque, ao invés de contribuir para ultrapassar desacordos passados, pode, infelizmente, acabar por confirmá-los. Mas quem não se conforma com o divórcio das esquerdas tem de estar disposto a arriscar. Eu diria mais: tem o dever de arriscar, porque não podemos estar condenados a repetir o passado. Se há algo que caracteriza todas as esquerdas é a recusa desse tipo de fatalismo.

João Galamba

*

Talvez o Congresso das Alternativas seja a mais promissora tentativa de enterro do machado de guerra entre as esquerdas de que há memória, pelo menos a avaliar pelo largo espectro ideológico dos organizadores e primeiros aderentes. Até Soares terá dado o seu aval, até o PCP ainda não denunciou o carácter imperialista e divisionista da iniciativa.

Como diz o João, pode bem ser que não dê em nada, que seja um tiro de pólvora seca. Mas, como diz o João, o único perigo será fugir do perigo. Ser de esquerda implica necessariamente essa abertura ao futuro, essa força tamanha que permite acolher a alteridade. Quem se dissesse de esquerda deveria por inerência ontológica abominar o conservadorismo estéril que de dialéctico já só tem o ódio ao presente.

Ninguém está à espera que o PCP e os Louçãs da nossa disfuncional esquerda abdiquem da sua identidade pura e verdadeira. Eles que a levem para a cova intacta e a conservem até que o Universo se desfaça em pó. A nossa esperança está toda é naqueles que sabem que precisam da comunidade e seus conflitos, constrangimentos e contradições para se realizarem. Esses, como canta o Ivan Lins, não pretendem exibir-se de mãos lavadinhas.

Serviço editorial

É impressionante ler as peças jornalísticas dos diretores dos jornais portugueses e da hierarquia mais próxima. Servem e bajulam este governo de uma forma escandalosa. Quase não há um que destoe. DN, JN, jornal i, Correio da Manhã e Expresso fazem a direção do Público parecer um órgão objetivo e isento. Abro uma exceção para o Jornal de Negócios.

Ricardo Costa, do Expresso, faz o favor de, neste sábado, escrever uma carta a Angela Merkel em nome de Passos Coelho (“Carta de Pedro aos europeus”), enumerando o que considera serem os trunfos para o Governo obter uma revisão das condições do empréstimo. Ignorada por completo no seu cérebro a hipótese de incompetência total como origem da recente derrapagem colossal das contas, RC centra o seu argumentário nas qualidades de bom aluno personificadas em Gaspar e Passos, fazendo-lhes um elogio e querendo com isso ajudar o amigo primeiro-ministro. Ridículo. No mesmo jornal, Henrique Monteiro não vai além do suave e simpático “cobardolas” para apelidar os governantes atuais que, entre outras coisas, não ousam renegociar as PPP. São uns cobardolas, diz ele. Cobardolas? Imaginamo-lo a referir-se a Sócrates com esta brandura! Noutras colunas, destes ou de outros membros da direção, apesar de uma ou outra crítica, a gentileza e a contenção são também notórias. Chego a temer que Nicolau Santos não consiga manter-se por muito tempo à frente do suplemento de Economia.

Dos editoriais de Marcelino no DN nem vale a pena falar, tal é a colagem. Hoje, por exemplo, a propósito de mais um elogio a Paulo Portas e à sua fantástica diplomacia económica: “Nem todos os novos e possíveis parceiros comerciais são exemplos de democracias perfeitas. Mas, nunca deixando de marcar a distância, fazer as devidas críticas, cumprir as regras e defender os direitos humanos, são os que existem e com os quais todos os países estão a negociar”. Pois. O que não se dizia do anterior Governo e das idas à Venezuela e outros países da América Latina e norte de África!
O JN, por sua vez, perdeu todos os traços distintivos que faziam dele um jornal sério do norte no tempo de Leite Pereira. Editoriais do CM e do i, abstenho-me de comentar.

Atendendo a que a orientação política dos jornais e tudo o que daí decorre para as notícias propriamente ditas é plasmado nessas colunas, o panorama é desolador. Apenas salvo pelos artigos de opinião dos colunistas convidados, que, nuns mais do que noutros, traduzem o respeito por um certo pluralismo. Mas é triste. E revelador.

Uma nódoa de vinho tinto à vista de toda a gente

Ao considerar que averbou uma vitória este governante de baixo calibre demonstra claramente que ainda não percebeu o que é que pôs em causa com as suas atitudes prepotentes e chantagistas e com as suas ligações ao submundo malcheiroso da promiscuidade entre os serviços de informação, o governo e o mundo empresarial. O fulano ainda não percebeu que pôs em causa a credibilidade do governo pelo qual dá (ou costumava dar) a cara diariamente. Nem ele nem o personagem cinzento, esquivo e relapso que dirige o governo querem perceber isso. O tempo se encarregará de lhes mostrar que não podem assobiar para o lado. Qualquer governo PERDE por ter alguém tipo Relvas a dar a cara por ele. Será assim tão difícil de entender?

De que vitória se gaba o abstruso governante? Vitória sobre Maria José Oliveira, que investigou as suas mentiras e a quem a insolidária directora do Publico criou uma situação tal que a jornalista, enojada, se sentiu obrigada a demitir-se? Isto é uma vitória para o fulano? Uma vitória para ele é quando uma jornalista que lhe é desagradável é safada do mapa?

Por maioria de um voto alaranjado, a ERC aprovou, ao fim de um mês a arrastar os pés, obviamente para deixar esfriar o caso, uma declaração tipo Pilatos, em que, fingindo-se tribunal, dava como não provado algo que só poderia ser provado (em tribunal) se houvesse uma gravação (ilegal) do telefonema, ou se este tivesse sido ouvido em alta-voz na sala da redacção pelos restantes jornalistas. Assim, é a palavra dele contra a da editora política do Público. Mas qual é o português, da extrema direita à extrema esquerda, que neste caso acredita na palavra dele? Grande vitória!

Atenção: a editora política do Publico, que testemunhou sobre o teor e o tom dos telefonemas, ainda não se demitiu. É uma meia vitória, quando muito, não?

A pergunta que a jornalista Maria José Oliveira pôs ao foleiro governante ainda não foi por ele respondida até hoje. Disse que 32 minutos era apertado para responder. De quantos meses precisará? Repita-se aqui a pergunta: se Relvas só conheceu Silva Carvalho em 2010, como afirmou no parlamento, como é que em 2007 já recebia recortes de imprensa do fulano, que na altura era director da secreta? O governante aldrabão parece que acha que tem todo o direito de não responder e de continuar a ser o número dois do governo e a fazer declarações diárias em que apela à boa fé dos portugueses, esperando que acreditem nele.

Há muitas mais perguntas a fazer a este indivíduo tanto sobre a cronologia como sobre os meandros do seu envolvimento com Silva Carvalho. Quem as faz? Há aí algum jornalista vivo?

Não me preocupa a credibilidade deste governante. Para a oposição até é preferível que o Coelho mantenha o descredibilizado Relvas. É como se o governo usasse todos os dias uma camisa com uma nódoa de vinho tinto à vista de toda a gente.

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Agradece ao Varela, Bento

Aos 86 minutos do jogo com a Dinamarca, Paulo Bento e a sua equipa eram tudo aquilo que Manuel José, Queiroz e milhões de adeptos pensavam e diziam deles após os resultados com a Macedónia, Turquia e Alemanha. Ei-los agora prestes a irem para o último jogo do Grupo só com 1 ponto após estarem a vencer até aos 80 minutos. O melhor jogador do Mundo tinha falhado golos de baliza aberta, a equipa seria massacrada na comunicação social daí a um bocadinho e o desafio contra a Holanda ocorreria adentro de um clima de geral hostilidade entre jogadores, técnicos e dirigentes que só poderia agravar ainda mais a dificuldade da muito improvável passagem aos quartos-de-final.

Aos 87 minutos, vemos uma bola ser centrada para a grande-área da Dinamarca. Ronaldo não a consegue parar e Varela acerta um primeiro pontapé no ar, mas que foi suficiente para lhe travar o movimento, ficando perto para novo remate. Um defesa dinamarquês posiciona-se entre o atacante português e a baliza, mas teve tanto tempo para mentalizar a situação que se prepara como se estivesse na barreira de um livre, colocando as mãos atrás das costas e apertando os joelhos para proteger a genitália. A bola passa a direito exactamente nesse espaço de 10 centímetros que disponibilizou ao se encolher. Se Varela tivesse rematado 5 centímetros mais ao lado, para qualquer um dos lados, ou teria acertado no defesa ou no poste. A conjugação de factores aleatórios que permitiu o sucesso daquele pontapé de ressaca não voltaria a ser observada nem que ficassem ali cem anos a repetir a jogada.

Seguiu-se uma Holanda a quem Portugal invariavelmente ganha, desta vez apresentando-se derrotada e com um futebol medíocre. Depois veio a República Checa, sem discussão uma das equipas mais fracas no Euro 2012. E finalmente apareceu uma Espanha cansada nas pernas e cansada na alma, sem precisar de provar nada a ninguém e feliz da vida se ficasse pelas meias-finais. Perder nas grandes penalidades era um prémio que o nosso provincianismo aceitaria e a Selecção podia voltar a casa com a honra resgatada e com seleccionador para os próximos dois anos. O que não se seguiu foi a recolha do ensinamento que o golo de Varela ofereceu. Essa verdade redondinha de que o futebol é sorte, e que a sorte maior é ter um treinador que a saiba chamar e aproveitar.

Percebe-se por que Louçã idolatra o Syriza

De saída da liderança do Bloco (“Terei sempre um papel no Bloco”) Louçã deu uma entrevista a Clara Ferreira Alves, no Expresso deste sábado. A entrevistadora conduz o diálogo na base da troca de impressões (com a dela sempre presente, às vezes demasiado) entre amigos, ou pelo menos bem conhecidos, perdendo com isso a oportunidade de aprofundar algumas declarações do entrevistado, que bastante interesse teria. Assumo que é o meu ponto de vista, mas achei Louçã francamente desinteressante. Não sei se é a personagem que está gasta, sem confiança e talvez no fundo com má consciência, ou se é o discurso que perde cada vez mais aderência à realidade, se alguma vez a teve. A situação política na Grécia trouxe um balão de oxigénio, ainda que longínquo, ao Bloco. Mas na Grécia os grupúsculos de agitadores nunca deixaram de pulular e são bastante violentos. O Syriza até parece comedido. Por outro lado, a proximidade do poder para um grupo com características semelhantes às do Bloco impõe-lhes a revisão da sua missão primordial de protesto (despreocupada e inconsequente), o que farão, diria eu, a contragosto. Aí, talvez, a maior condicionante desta entrevista. A primeira parte gira, portanto, à volta do tema Syriza. Eis o percurso:
– O Syriza, a sua grande ascensão (um orgulho!), a porta aberta que representa para a afirmação de movimentos como o dele (não o diz, mas depreende-se do entusiasmo com que se lhe refere);
– A ideia de que, conquistada uma maioria democrática de esquerda (a dele, a dita “dos valores” (?), para Louçã, não há outra), Merkel, a CE e o FMI seriam obrigados a negociar (com tudo o resto estático, depreende-se);
– A ideia de que a sociedade só logra a equidade e a justiça quando o povo conquistar o poder (ou, na nova linguagem não bolchevique “A única possibilidade é os de baixo imporem aos de cima novas políticas”);
– O perdão de parte da dívida, a correção do défice através de políticas fiscais (“Taxando os ricos?”, pergunta a entrevistadora. “Não, isso são políticas de financiamento. Eu falo de políticas para promover capacidade exportadora, capacidade de criação de emprego qualificado, de inovação tecnológica inteligente…” (?));
– A ideia de que vender empresas e bancos a países totalitários (China, Angola (resta saber como seria o país não totalitário dirigido por ele)) é uma nacionalização (quando acusado de querer nacionalizar tudo, como o Syriza). Aqui, um regresso à linguagem panfletária;
– O objetivo prioritário (e único?) de conquistar eleitorado ao PS (“Contamos [ir à luta] com metade do eleitorado do PS, mais as pessoas que se abstêm”. “A história do Bloco sempre foi dialogar com essa gente”). Parece não ter percebido o episódio Manuel Alegre. Mas também é certo que o secretário-geral do PS agora é o Seguro;
– A sanha contra os grupos Mello e Espírito Santo (e contra os hospitais privados) e o tiro aos grandes grupos económicos em geral, como a Galp, a Cimpor, sem esquecer o Amorim, o seu fantasma predileto;
– As razões para o chumbo do PEC 4 (“Quando foi recusado porque a direita o recusou, nós estivemos contra todos os PEC. Teixeira dos Santos queria despejar os inquilinos, liberalizar os despedimentos, privatizar a TAP, os CTT e os hospitais.” (sem comentários, face ao observado na atualidade);
– Sócrates? Muito bom nas questões “fraturantes”, alguém cheio de genica e uma vítima de uma perseguição pessoal miserável (onde estavas em 2008, 09, 10, 11?), mas um vendido aos grandes grupos, claro. Para Louçã, ninguém em Portugal pode ter um grande grupo económico (talvez o Estado?). É mau para o país;
– Uma certa mágoa pelo fim do seu papel como líder do Bloco, que no entanto mantém numa nebulosa (“[…]mas não vou falar do meu afastamento. Na Convenção se decidirá”).

Em suma, pareceu-me muito pouco. O afundamento do Bloco depois do chumbo do PEC 4 prometia ser longo e irreversível e quase nada indica que assim não será. Louçã está politicamente gasto e possivelmente cansado. Não tem a idade de Tsipras. Como este, não se descortina ninguém nas hostes bloquistas. A crise e sobretudo o Syriza (a ver vamos se a sedução de Tsipras se mantém, ou se Samaras o utiliza habilmente como força de pressão perante a Europa) ofereceram uma tábua de salvação ao agrupamento, que me parece ilusória, porque distante, apesar de os 9% que uma das recentes sondagens lhes dá serem motivo de grande júbilo e esperança para Louçã.

Relvas proverbial

O ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, considerou ontem que há pessoas que têm “mau perder”, tendo defendido que já devia ter sido colocado um ponto final sobre o caso que o envolve com o jornal ‘Público’.

“A ERC foi muito clara. O relatório é claro e objetivo e sempre estive tranquilo”, disse hoje Miguel Relvas.

*

[…] reconhece-se que a atuação do ministro nos telefonemas trocados com os responsáveis editoriais, usando de um tom exaltado e ameaçando deixar de falar pessoalmente com o Público, poderá ser objeto de um juízo negativo no plano ético e institucional, o que aqui se assinala, ainda que não caiba à ERC pronunciar-se sobre tal juízo.

Relatório da ERC

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A credulidade dos tolos é o património dos velhacos. Barro e cal encobrem muito mal. Cuidado que a língua te não corte a cabeça. Donde a vergonha sai nunca mais entra. Em caso de necessidade, casa a freira com o frade. Fumaça não assa carne. Gado ruim não tem senão cornos. Homem mentiroso da honra não é cuidadoso. Intriga de família, fogo de monturo. Junto à panela que ferve não faltam amigos. Loucuras não remedeiam loucuras. Miguel, Miguel, não tens abelhas e vendes mel! Nem toda a água do mar pode esta nódoa tirar. O montanhês para defender uma tolice dirá três. Para agarrar um coxo o melhor é vê-lo andar. Quem ao longe não olha perto se fere. Relva a cabra onde está atada. Segredo de três não é segredo. Todo o burro come palha, a questão é saber-lha dar. Uma mentira descobre outra. Vão os bons ficam os ruins. Zé Nabiça, quanto vê quanto cobiça.