Não fechem os olhos, não tapem os ouvidos

E também é um risco, porque, ao invés de contribuir para ultrapassar desacordos passados, pode, infelizmente, acabar por confirmá-los. Mas quem não se conforma com o divórcio das esquerdas tem de estar disposto a arriscar. Eu diria mais: tem o dever de arriscar, porque não podemos estar condenados a repetir o passado. Se há algo que caracteriza todas as esquerdas é a recusa desse tipo de fatalismo.

João Galamba

*

Talvez o Congresso das Alternativas seja a mais promissora tentativa de enterro do machado de guerra entre as esquerdas de que há memória, pelo menos a avaliar pelo largo espectro ideológico dos organizadores e primeiros aderentes. Até Soares terá dado o seu aval, até o PCP ainda não denunciou o carácter imperialista e divisionista da iniciativa.

Como diz o João, pode bem ser que não dê em nada, que seja um tiro de pólvora seca. Mas, como diz o João, o único perigo será fugir do perigo. Ser de esquerda implica necessariamente essa abertura ao futuro, essa força tamanha que permite acolher a alteridade. Quem se dissesse de esquerda deveria por inerência ontológica abominar o conservadorismo estéril que de dialéctico já só tem o ódio ao presente.

Ninguém está à espera que o PCP e os Louçãs da nossa disfuncional esquerda abdiquem da sua identidade pura e verdadeira. Eles que a levem para a cova intacta e a conservem até que o Universo se desfaça em pó. A nossa esperança está toda é naqueles que sabem que precisam da comunidade e seus conflitos, constrangimentos e contradições para se realizarem. Esses, como canta o Ivan Lins, não pretendem exibir-se de mãos lavadinhas.

5 thoughts on “Não fechem os olhos, não tapem os ouvidos”

  1. Parece-me uma belissima iniciativa mas temo que esteja votada ao fracasso. Mas siga em frente, porque a ciência faz-se de “tentativa e erro”.
    O “movimento” vai materializar um “estado de alma”. Muito bem. O problema é partir-se do pressuposto de que a existência da alma precede a existência do corpo, como quem diz, “está aqui a verdadeira esquerda, vamos dar-lhe forma (de movimento ou partido)”.
    As coisas mudaram. Há um “corpo” que está em construção acelerada e a nós resta inserir-nos nessa construção e fazer a leitura mais certa com vista a optimizar/humanizar a construção. Por exemplo, a “comunicaçâo social” e o “poder económico” tornaram-se interdependentes. Não interessa combater esse facto e outros nem, muito menos, ignorá-los. A atitude correcta será inserir-nos dentro do novo “corpo”, sintonizarmo-nos com ele e humanizá-lo “a partir de dentro”. Ora, o que as esquerdas têm feito é “reagir” contra essa nova realidade (não tâo nova como isso), acabando, ironicamente, por ser elas apelidadas de “reaccionárias”. A cegueira referida, pelo Valupi, do PCP e BE é o exemplo em cima da mesa do reacionarismo/conservadorismo das esquerdas.
    Creio que a “fuga” de cérebros da esquerda para os braços da direita se explica pelo “conservadorismo” dessa esquerda tradicional.
    O completo lôgro que foi o BE devia sevir de lição. Serviu?

  2. qualquer processo federativo da esquerda que vise acabar com as aberrações totalitárias do partido comunista e com a inutilidade do tijolo de esquerda melhorará a qualidade e o custo da democracia. a direita deveria fazer o mesmo, dois partidos chegam e sobram.

  3. Também não acredito nesta iniciativa.

    O principal problema da Esquerda não é a sua suposta fragmentação, é mesmo a sua definição. Enquanto o programa marxista-leninista/trotskista for o gene principal de certa “esquerda”, esta no seu todo estará sempre condenada à fragmentação, ou então à total irrelevância histórica.

    A Esquerda portuguesa tem de ler mais Freud para depois saber pegar em Bernstein e enterrar finalmente Marx, Engels e, sobretudo, Lenine e Trotski.

    Enquanto não conseguir pegar este boi bravo de frente, não vale a pena tentar tourear a realidade, porque ela cíclicamente voltará a dar-nos marradas violentas, como as que nos pregou em Maio de 1926, no Verão Quente de 75, nas presidenciais de 86 e 2006 e, agora, em Março de 2011.

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