Arte de ser português

Assim como Agostinho da Silva não era reconhecido pela academia como filósofo, assim José Hermano Saraiva não o era como historiador. Mas foram consagrados popularmente com os respectivos epítetos disciplinares por ser essa a sua prática: fazer filosofia, fazer história. Ambos eram animais televisivos natos e raros; Agostinho descuidadamente, Saraiva intencionalmente. Um passou meteórico e fulgurante pelo ecrã, o outro escavou devagar um vale nesse território mediático que foi enchendo de vida. E se a filosofia feita por Agostinho era uma fiel transmissão do ensinamento socrático por ser um radical exercício da curiosidade, a história feita por Saraiva era uma fiel celebração do estilo de Fernão Lopes por querer levar o Povo ao povo. Mas de que Povo foi falando ao longo de 40 anos? De um Povo imaginado e imaginário, cantado por poetas, simbólico, olímpico – os reis e heróis do Quinto Império.

Hermano Saraiva fez programas de entretenimento onde se entreteve na fruição narcísica do seu romantismo. O romantismo de um homem nascido no princípio do século XX, tendo provado e gostado do manejo do poder em ditadura, e o qual encontrou no espectáculo a sua realização política. Só que provavelmente até ao próprio pode ter escapado o alcance cívico do que nos deixa: muitos milhares de imagens e sons que nos oferecem não as suas fantasias mas o registo documental de paisagens, património e testemunhos de terceiros. Este material é precioso, crescendo o seu valor com a passagem do tempo. E é essencialmente democrático, pois se oferece à interpretação de qualquer um.

Não se ter julgado a PIDE e ter-se abandonado as colónias em fuga desordenada são tópicos de dolorosa polémica que subjazem inevitáveis quando se discute o 25 de Abril. Ter acolhido, e estimado, muitos dos que no Estado Novo creram estar do lado da razão ao se colocarem ao serviço do regime é algo que prova termos criado um país onde a democracia a todos eleva. Por mim, não confiaria nas lições de História de quem não abomina o salazarismo mesmo que o compreenda existencial e antropologicamente. Mas confio de alma e coração naqueles que suportam o peso do passado na consciência e ainda assim conseguem andar. Eis a arte de ser português.

18 thoughts on “Arte de ser português”

  1. Agora vão aparecer os gabarolas dos estudantes universitários a quem Hermano Saraiva mandou a polícia descarregar, quando era ministro da educação.

    Não se vão queixar do doi-doi e manchas negras.

    Não se queixam, gabam-se.

    Aquela classe priveligiada de “meia dúzia” que podia ir para universidade sofreram muito, tadinhos!

    Foi essa classe que ajudou a imortalizar Salazar, além do que ele próprio queria.

    Só se perderam as que caíram no chão.

    Não se julgue o 25, apenas se julgue o 26 de Abril, porque o 25 ainda foi feito coma disciplina do Estado Novo até Caetano entrar no Chaimite.

  2. o saraiva distingui-se como político incompetente, ministro da crise académica e mais tarde como entreteiner, aldrabando e branqueando a história de portugal até ao último momento, na televisão do estado e à custa do zé pagante. o herman perdeu um concorrente.

  3. oh ignorância, o respeitável e sério político português Marcelo Caetano, a par do grande e honrado militar Salgueiro Maia, fecharam o ciclo do Estado Novo com a maior dignidade.

    Cá o rústico, doutorado em apenas 5 anos, porque chumbou na 4ª classe e repetiu, passou a reacionário a partir do 26 de Abril.

    Está explicada a reacionarice, ou quer com mais molho?

  4. Valupi,começo por lhe fazer uma pergunta: voçê é da geração rasca ou é mais “antigo”?felicito-o pelo texto,embora discorde de algumas passagens.quando alguem morre,passa normalmente a boa pessoa. se não tivesse havido abril imagino o que seria para si o prof. saraiva.quanto à fuga desordenada,tenho-lhe a dizer que os retornados é que fugiram,quando podiam ter pegado em armas que tinham em casa.lembro-lhe que o ataque à cadeia de luanda que deu inicio à guerra colonial foi efectuado por cerca de 17 homens armados na maioria dos casos de catana.Se fossem corajossos tinham atacado ali o”mal” pela raiz,não o fizeram, e no dia seguinte salvo erro,foram mortos à catanada dezenas de “portugueses”, numa povoação perto de luanda levada a cabo pelos homens da UPA.fiquei contente com a independência.lamento que o poder tenha caido nas mãos de corruptos que não olha por aquela simpatica e desgraçada gente como era o seu dever .quanto aos retornados,numa boa percentagem é “cão” que não conhece o dono.como militar, eu e os meus camaradas, fomos mal tratados por essa gente que nos dizia o seguinte: dêem-nos armas que nos acabamos com eles. não precisamos de voçes aqui. e porquê? uma das razões foi por que a partir de uma fase a tropa começou a fazer ação psico social com as populaçoes e isso não lhes agradava pois queriam chicote neles.quando havia um acidente de automovel a primeira pergunta que faziam era se era preto. se era estava tudo bem. a proposito de acidentes vai esta anedota que espelha um pouco o que disse:um branco atropelou na passadeira três negros.em tribunal a sentença foi esta: um foi preso por que entrou para propriedade alheia (com o embate entrou pelo carro dentro).o outro tambem com o embate foi cuspido ,foi tambem preso por ter abandonado o local do acidente . o terceiro como foi parar a mais de cem metros foi igualmente preso por excesso de velocidade.de uma forma caricatural, damos uma imagem da mentalidade que reinava em angola.

  5. As estórias de Nunos das câmaras municipais, são tão imbecis como era algum retornado parente ou conterrâneo dele que lhe pediu a arma para dar cabo deles.

    A ignorância de muitos militares oficiais e sargentos que foram para Angola e em força, pensavam que foram apenas para defender as costas dos brancos, não conheciam motivos históricos nem nacionais.

    Outros gananciosos e oportunistas repetiam comissões a cambiar os escudos a 25% aos retornados, interiormente queriam que a guerra se eternizasse.

    Aqueles oficiais e sargentos que de facto tinham alguma ideologia dividiam-se entre os que havia uma missão patriótica a cumprir, e os que confundiam colonialismo, antisalazarismo e comunismo.

    E no meio ficaram os soldadinhos, carne para canhão.

    E os chamados retornados que por poderem vestir uma camisa lavada na vida e até alguns já suportarem os custo de algum filho na universidade, eram alcunhados de ladrões e exploradores.

    Quando aparecem certos “cães” sem coleira, é fácil compreender como precisamos da troika de trela na mão.

  6. Senhor retornado,começo por lhe dizer que não fui militar de carreira.fui obrigado a ir defender um territorio que não era nosso. não fui para lá com espirito de missão.fui contrariado.não tinha confusões na minha cabeça sabia que estava a defender interesses e uma boa parte de pessoas sem o minimo de educação que pela amostra é o seu caso. se reparou no meu texto disse:uma boa parte é cão que não conhece o dono, não generalizei.se ficou ofendido,lamento, mas não posso fazer nada por si.

  7. Morreu um salazarento fascista, puro e duro, que teve a coerência de nunca virar a casaca.

    Esta é a verdade, por muito que o queiram santificar.

  8. Jonas, lidei muitos anos no emprego com um colega salazarista até morrer.sabiamos quem tinhamos ao nosso lado.nunca nos traiu.outros por puro oportunismo deram um salto tremendo para a esquerda o que para mim é bem pior.

  9. isto era “cadeia” com os justiceiros!podiam ter feito as perguntas a socrates,não as fizeram,podia ter sido arguido, não foi.pergunto: que factos relevantes surgiram agora em pleno julgamento para pedirem certidões para ouvir socrates.o correio da manha já vem dizer que socrates se safou porque os casos prescreveram.Isto é para pôr fim à carreira de socrates como politico. o mêdo é uma fobia terrivel….

  10. Valupi o teu bom texto já era, a rapaziada tem contas ainda por saldar.

    Há temas que se julgam enterrados mas à mais leve brisa saltam para a vida.

    Boas férias para ti.

  11. Bonito e merecido texto.

    José Hermano Saraiva foi de facto muito bom, como divulgador e comunicador (ou “entretedor”), mas sobretudo como doutrinador, em modo “suave”. Houvesse porém mais alguns tão bons como ele, com as mesmas, ou diferentes – até opostas – orientações ideológicas, e a História de Portugal não seria tão desconhecida, nem deturpada…

    Não precisei de concordar com ele para o admirar, nem preciso de comungar das suas convicções para apreciar a sua obra. É esta a beleza da Democracia – que, infelizmente, muitos dos que dele discordam orgulhosamente nunca compreenderão.

  12. “Não precisei de concordar com ele para o admirar, nem preciso de comungar das suas convicções para apreciar a sua obra.”

    um boi a admirar um curral convencido que está a enxergar um palácio.

  13. Um extracto de escarro escrito em pretuguês e a querer passar por erudicto é simplesmente patético…

    Venham mais pérolas dessa laia, fantoche analfabruto!

    Escarreta a escarreta, vais escrevendo aqui a tua “legenda”, para nosso gozo…

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