Não se lembram de V. Gaspar grunhir em médio tom, recordando aos esquecidos – todos os Partidos – que ajudar um nadinha as pessoas que estão a entregar as suas casas aos bancos como escravos sem direitos era mauzinho para os interesses dos bancos? Pois…

É raro assistir-se a um processo político e legislativo assim. Os tempos são maus e para muitos são de horror. O poder político tem o dever moral de pensar em soluções. Todos os dias.

Sabemos que o direito fundamental à habitação está ameaçado em termos de verdadeiro alarme social. Efetivamente, todos os dias são entregues aos bancos centenas de casas – habitação própria permanente – porque os que em tempos idos e seguros fizeram empréstimos para comprar casa hoje não têm como pagar as prestações mensais. Este drama pode ser visitado no Fisco, que anda em corrida lenta, vendendo cerca de 70 casas por dia.

Para piorar a situação de quem sem emprego não pode pagar a prestação do seu crédito à habitação (para além de todas as outras despesas mensais), quando se dá a entrega da casa ao banco, que a avaliou no momento inicial, acontece o previsto na lei: o banco pode proceder a segunda avaliação do imóvel e concluir que ficando com o mesmo a dívida não se extingue. Temos pois uma pessoa sem nada, que entrega a sua casa ao banco, sem emprego, mas com uma nova dívida às costas.

É evidente que pelo menos no PAF este cenário tinha de ser revisto. Durante meses o PS pensou em soluções, ouviu as partes interessadas, motivado por um projeto de lei que evitasse a entrega da casa através de mecanismos razoáveis, que alargasse a mora do incumprimento, que permitisse em situações delimitadas a dação em cumprimento – cumprimento com a entrega da casa. Também o BE entregou um projeto-lei.

Às tantas a direita acordou, primeiro pela voz do CDS, também queriam fazer um projeto sobre este massacre social. Vai daí também o PSD quis salvar as pessoas. Óptimo, ouviu-se da esquerda. Haveria que criar um grupo de trabalho e limar as diferenças entre os projetos e dar às pessoas uma lei que realmente as ajudasse. Poucos se lembram da única voz discordante: V. Gaspar. É que isto de se pedir sacrifícios a todos, tudo bem, mas ai de quem toque nos bancos, mesmo depois de ter reunido com eles, mesmo tendo tido sempre em conta a sustentabilidade da banca.

Pois é. Hoje a maioria PSD/CDS suspendeu o grupo de trabalho sobre crédito à habitação.

Relvas e os chineses: aprender com quem sabe

Não sabemos quanto pagou Miguel Relvas pelo pacote completo da licenciatura. Possivelmente alqueires de milho imaterial, a posteriori. Mas também poderá ter sido a priori, com grande linguajar. Se optarmos pela teoria do sempre pândego professor Marcelo, foram Relvas e a sua fama que atraíram para uma bandeja o diploma que ele até nem queria, com um cartão de boas-festas da universidade… Seja como for, não partilho da opinião dos que dizem ser muito português o desejo de ser doutor. É português, é alemão (temos o caso do ministro Karl-Theodor zu Guttenberg, demitido por plágio, mas conheço quem ganhe a vida a escrever teses), é líbio, argentino e, sobretudo, chinês, nos tempos que correm. E, como o desejo deste governo parece ser achinesar o mercado de trabalho e os salários e não só, Relvas provou ter aprendido antes alguma coisa com eles, embora não tudo, nesta matéria (sem prejuízo do muito que tem para ensinar noutras, como na disciplina de geologia que versa sobre a técnica de detetar os melhores terrenos para furar).

Falta de ambição. Porquê um diploma da Universidade Lusófona? Os chineses fazem melhor! Segundo a revista The Economist, há quem, no Império do Meio, venda diplomas de universidades americanas inventadas, como uma tal «Nation University», os mais caros (30 000 dólares), e, a um preço mais módico, de falsas universidades chinesas, como a Universidade Wuhan de Indústria e Comércio. Na terra das falsificações de relógios Rolex, malas Louis Vuitton ou echarpes Armani, os diplomas só podiam ser uma mercadoria como outra qualquer e logicamente falsificável. Os interessados podem ser jovens estudantes, sujeitos à implacável concorrência de outros 7 milhões deles, mas também homens de negócios ansiosos por enriquecer o currículo e arranjar um posto no governo. As autoridades parece que já deram conta e arranjaram um sistema informatizado de controlo da autenticidade, sem certezas de que resulte.

Isto só é possível na China? Não sei. E não me estou a esquecer que os chineses são largos milhões de primatas como nós que mal se conhecem uns aos outros, quanto mais ao resto do mundo e às instituições académicas dos estados norte-americanos. Mas, os já referidos dotes (leia-se qualificações) do ministro Relvas teriam potencialidade para lhe angariar um diploma de uma qualquer universidade estrangeira muito mais bem sonante do que a Lusófona. Não ousou. Internacionalizar os seus inúmeros contactos talvez lhe tivesse trazido vantagens. Ai dele, que agora é tarde.

Hoje: Centenário da criminalização da homossexualidade motiva tertúlia em Lisboa

A 20 de Julho de 1912 foi publicada a lei da mendicidade que estabelece a criminalização da “prática de vícios contra a natureza”.

A efeméride assinala-se na próxima sexta-feira, 20 de Julho, no Centro LGBT no formato de tertúlia e cujos intervenientes são a jornalista do Público e escritora São José Almeida e o activista, antropólogo e ex-deputado Miguel Vale de Almeida.

A tertúlia, organizada pela ILGA Portugal, tem lugar no Centro LGBT, Rua de São Lázaro, 88, em Lisboa a partir das 19 horas. A entrada é livre.

Já não é preciso falar verdade aos portugueses, felizmente

Confrontado com a frase que deixou na sua tomada de posse de que “à legitimidade para reclamar sacrifícios tem de corresponder uma cultura de exigência assente em valores éticos e em princípios de serviço público” e interrogado se o Governo tem correspondido a esta “prerrogativa’, o chefe de Estado escusa fazer julgamentos em público sobre o Governo.

“Tenho reuniões com o primeiro-ministro todas as quintas-feiras, que decorrem com toda a normalidade, reuniões de trabalho onde falamos de tudo aquilo que ele e eu consideramos importante para o país”, declara.

Cavaco, a sonsice triunfante, o ex-líbris da direita portuguesa

Cultura da calúnia – Do sórdido ao patético

Sócrates saiu de cena há mais de um ano, ausentando-se para fora do reino de modo a que nem a sua sombra incomode os transeuntes, e se quisermos saber como gasta os milhões que roubou ou o que diz ao telefone temos de ler o Correio da Manhã. Todavia, os socráticos não o deixam em paz e passam os dias a invocar o seu nome. Foi assim com os casos Relvas. Começaram por nos lembrar que Silva Carvalho tinha sido escolhido por Sócrates in illo tempore, logo tudo o que se passou e passaria entre Relvas e o super-espião tinha no anterior primeiro-ministro a raiz do mal. Depois lembraram-nos de que Sócrates também fez telefonemas para jornais a queixar-se disto e daquilo, pelo que estar agora a dar atenção a uma chantagem que envolvia a divulgação canalha de dados, verdadeiros ou falsos, relativos à privacidade de uma jornalista e de um político não se justificava, muito menos justificava castigo. Por fim, e com rutilante satisfação, sacaram das lembranças relativas ao caso da licenciatura de Sócrates para nos garantirem que Relvas se tinha limitado a imitar o outro, pelo que devíamos ver os dois casos em conjunto por serem farinha do mesmo saco. Podemos já antecipar que calhando Relvas ser apanhado a roubar carteiras no Metro alguém virá lembrar a forte suspeita de que Sócrates batia na avó, e que esse praticamente confirmado facto é que merece a nossa indignação.

Alberto Gonçalves, cronista no DN, é um desses socráticos fervorosos que não perdeu a oportunidade de cumprir serviço. Ele alia uma inquestionável habilidade para trabalhar o verbo com uma não menos inquestionável apetência para a bronquite asnática. Eis o que partilhou com o público a respeito dessas duas figuras, pujante de confiança:

Para chegar a José Sócrates, a Miguel Relvas apenas falta fingir que pratica jogging e estuda em Paris. No resto, as semelhanças arrepiam um céptico. O dr. Relvas manda no Governo. O dr. Relvas cuida das clientelas do principal partido do Governo. O dr. Relvas emite propaganda reformista enquanto manobra para que reforma alguma seja realizada. O dr. Relvas coloca frequentemente jornalistas na ordem e vale-se da honrada ERC e da apatia geral para escapar impune. O dr. Relvas vê o seu óptimo nome chamado a casos no mínimo pouco edificantes e no máximo criminosos. E o dr. Relvas dá-nos razões de sobra para acrescentarmos o título antes do nome por pura ironia.

À semelhança do eng. (se soubessem o gozo que esta abreviatura me dá) Sócrates, o dr. (idem) Relvas parece igualmente ter adquirido a licenciatura num vão de escada, ou pelo menos no topo de uma escada sem muitos degraus. Os pormenores do primeiro caso, incluindo o fax ao domingo, são já lendários. Os pormenores do segundo, agora divulgado, preparam-se para ingressar na lenda.

8 de Julho

Este Gonçalves não se atrapalha, como vemos. Relvas é transformado em clone de Sócrates, o grande mestre da corrupção. As duas licenciaturas seriam equivalentes nisso de terem sido obtidas por favor, sem prestação de provas. Prazer a dobrar, confessado gozo orgástico: poder achincalhar Relvas recorrendo a Sócrates, poder atacar Sócrates através de Relvas. Porém, guardada estava uma surpresa para a semana seguinte:

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Mais desemprego

A divulgação de dados indicam que o número de inscritos nos centros de emprego aumentou 24,5 por cento em junho em termos homólogos e 0,7 por cento face ao mês anterior, para 645.995 desempregados.

De acordo com a informação mensal publicada ontem pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), no final de junho encontravam-se inscritos nos centros de emprego do Continente e das Regiões Autónomas mais 127.250 indivíduos do que um ano antes.

Face a maio, o número de desempregados aumentou em 4.733 pessoas.

Ou seja, como afirmou Miguel Laranjeiro: registou-se “o maior aumento homólogo do desemprego” neste ano, o que significa que “nem o efeito sazonal do mês de junho teve uma consequência positiva” numa eventual mudança de trajetória da tendência.

“Nestes dados não estão contabilizados os 75 mil portugueses que estão desempregados, mas que se encontram em ações de formação. Também não estão contabilizados os milhares de professores que o Governo se prepara para despedir no próximo ano letivo”.

Talvez não valha a pena perguntar nada ao PM porque ele vai perguntar à TROIKA e esta, avaliando-se a si própria e não o estado do país, dirá que o Governo tem tido um “bom comportamento na execução do memorando”.

Estamos de parabéns e até nos agradecem a paciência e a vocação para o sacrifício.

Dom Januário

Este bispo Januário – que em jovem esteve ao lado de outro bispo que foi perseguido e exilado pelo ditador Salazar – não tem papas na língua. Algumas das suas ideias não são lá muito bem articuladas e denota dificuldade em dominar a emoção. Às vezes até parece que está na blogosfera a mandar umas postas de pescada com espinhas. Mas ouço-o frequentemente com gosto e proveito. Este, pelo menos, é um dos que não renegaram a doutrina que apregoam. É um dos que têm saído em defesa dos fracos, dos pobres, dos velhos, dos indefesos, dos sem trabalho, dos imigrantes sem papéis, etc. E até já defendeu, contra o papa, o uso do preservativo e a pecaminosa homossexualidade.

Januário saiu-se anteontem com umas novidades sobre o actual governo, que qualificou de “profundamente corrupto” e achou composto por “diabos”. Comparados com eles, os do governo Sócrates eram uns “anjos”. Uma evidência, dir-se-á, mas vinda de um bispo soa a novo. Saltaram-lhe logo ao caminho chusmas de pêpêdolas indignados. Que o bispo estaria a fazer política e não devia. Que insultou gente honrada e esforçada pelo bem da nação. Que tem que escolher entre o pastoreio das almas e o comentário político. O inolvidável Aguiar Branco estigmatizou a atitude “política” do bispo. Um tal Almeida, do partido democrata-cristão, afirmou mesmo que Januário não prima pelo bom senso, insinuando que o que dali vem está contaminado por demência. Alguma vez ouviram esse almeida comentar os afrontosos dislates regularmente proferidos pelo tiranete da Madeira, que nem sequer é do partido dele?

Estes indignados de borra fizeram-me lembrar os que há meio século se indignaram com o bispo do Porto, que em 1958 desafiou Salazar e pagou com a sua expulsão do país até 1969. Disseram que ele era um bispo “político” e “imprudente”. Afiançaram que era “vermelho” e que estava feito com os comunistas. Insinuaram repetidamente que era chalado. O grande homem, de seu nome António Ferreira Gomes, apenas tinha desalinhado dos seus colegas do episcopado, um bando de fervorosos salazaristas falsamente apolíticos, chefiados por um tal Cerejeira que tinha vivido em união de mesa e pucarinho com o futuro ditador, numa república a dois, em Coimbra, abençoados pelo papa. Os bispos de antanho apoiaram o Estado Novo desde a fundação e viveram tristemente à sua sombra até ao fim, sem independência, sem carácter e sem dignidade para darem um murro na mesa ou exigirem sequer coisas tão simples como a oficialização do ensino católico ou a criação da Universidade Católica – sempre denegadas pelo ditador e só concedidas pela democracia. Os padres que “faziam política”, isto é, que não eram salazaristas, eram castigados, presos pela PIDE, exilados e, obviamente, ostracizados pela própria Igreja.

Por isso vejo com muito bons olhos todas as imprudências deste bispo, que não esqueceu o seu mestre – e ainda bem que não esqueceu. No fundo, a Igreja Católica devia-lhe agradecer, pois ele é apenas um contrapeso à linha política de um episcopado que (já não se lembram?) fez toda a espécie de críticas, ataques e chantagens ao governo anterior e agora está muito caladinho. Por contraste, Januário permite-lhes continuar dizer que “não fazem política”.

Estamos muito melhor do que há um ano

António Borges, em entrevista ao Público de domingo, dia 15:

Pergunta: Tem defendido o espírito do memorando da troika. Está confiante no resultado?

Resposta: “Portugal estava numa situação de completa emergência. A maioria das pessoas não se deu conta de quão perto estivemos da bancarrota. Era uma questão de dias e não tínhamos dinheiro para pagar aos funcionários públicos e aos pensionistas. O país precisa agora de voltar aos carris, de pôr a economia em ordem. As coisas estão a correr melhor do que pensávamos em muitas perspectivas. Estou, por isso, confiante que os resultados vão chegar mais cedo do que se esperava.”

Ora bem, esta falácia de que a economia ia muito mal devido a políticas erradas (pressupõe-se e alguns afirmam-no, dos últimos seis anos) e que apaga do mapa a crise internacional tem sido repetida ultimamente ad nauseam por todos os PSDs que passam pela televisão e pela rádio. E são muitos e despudorados. Estávamos à beira da bancarrota, para onde fomos levados pelo Governo anterior, martela-se, e fomos salvos pela milagrosa Troika e seus fiéis representantes na Terra, os atuais governantes. “Estamos muito melhor do que há um ano”, dizem os Arnauts, os Matos Correia e os Abreus Amorins de serviço. Para o ilustrarem, falam exclusivamente dos juros que estão mais baixos e da mais que subjetiva convicção de que lá fora temos imensa credibilidade. Baixaram de facto um bocadinho os juros nos prazos mais curtos, de 3 a 12 meses (baixariam igualmente com outro governo, os mercados são algo tontos, tendo em conta a situação das contas públicas), mas nos mais longos nem há sequer hipótese de ir ao mercado. Evidentemente que os juros cobrados pela Troika também são mais baixos do que os que nos pediam em Maio de 2011, mas isso é a condição indispensável para se recorrer a empréstimos de emergência internacionais: bastava que nos emprestassem dinheiro a juros de 6% para já serem mais baixos. Não é essa a taxa, mas anda lá perto. É altamente compensadora.
Estivemos perto da bancarrota, diz o homem com orgulho salvífico. Mas agora, passado um ano, quantas famílias, serviços e empresas estão na bancarrota? Quantas pessoas fugiram?

E a que se deveu a emergência que tanto alardeiam? À inexistência de políticas de redução da dívida e do défice? Não. Elas existiam e estavam a ser acompanhadas e aprovadas pela UE. O PCP e o BE que o digam tendo em conta o que diziam então – tudo o que o Governo propusesse como contenção de gastos eram ataques às classes trabalhadoras, tudo era cedência aos privados. Tudo era liberalismo com capa de esquerda. O próprio PSD e o CDS acusavam o Governo de Sócrates de sobrecarregar os portugueses com impostos e austeridade desmesurados. Somem-lhe o Cavaco. A Assembleia e as transferências para a Madeira. Lembram-se? Teixeira dos Santos viu-se obrigado a fazer uma declaração ao país para expor a irresponsabilidade da oposição. As carreiras docentes! A lata não tem, pois, limites.

O que esta gente quer verdadeiramente dizer é que estão, eles, muito melhor, não o país. O estado do país está à vista e vamos ter de recomeçar tudo de novo, algum dia tem de ser, com alguém que reponha a dignidade interrompida. Dispensamos o Tozé.

Aguiar-Lava-Mais-Branco

“Eu espero que o senhor bispo tenha apresentado na PGR os factos que fundamentam essa declaração, até porque o senhor bispo deve obediência às regras da Igreja e o falso testemunho é matéria que não obedece às regras da Igreja”, afirmou José Pedro Aguiar-Branco.

Em declarações aos jornalistas no Parlamento, Aguiar-Branco considerou que “para ser consequente”, o bispo das Forças Armadas deve “apresentar na PGR os factos que levam a essa acusação”.

Aguiar-Branco no Governo, 2012

O primeiro-ministro, José Sócrates, tem uma “visão retrógada e sovietizada, que não dá liberdade às pessoas, não confia nelas nem na iniciativa privada”, estando o País a debater-se com um “problema de excesso de intervenção tutelar do Governo, que visa estar em todos os sectores da sociedade”.

A acusação foi lançada pelo vice-presidente do PSD Aguiar Branco, anteontem, no jantar da tradicional Festa do Pontal, que se realizou junto à praia, no Calçadão de Quarteira (Loulé). Falando em “ensaios na banca e na TVI”, o dirigente social-democrata afirmou que “o Governo de José Sócrates tem uma visão clientelar do Estado”. “Pretendem um Estado não para servir os portugueses, mas para servir o PS.”

Num discurso de cerca de 15 minutos, Aguiar Branco disse que o país “está a viver uma crise terrível, que é a crise de valores”. “Suspeita-se do que está por detrás dos contratos dos contentores de Alcântara, suspeita-se do que está por detrás do financiamento dos computadores Magalhães, suspeita-se do que está por detrás da Fundação das Telecomunicações para as redes móveis, suspeita-se do que estaria por detrás do negócio da TVI, suspeita-se porque há alegadas pressões sobre magistrados no chamado ‘caso Freeport’ e que deu origem a processo disciplinar. Temos em Portugal um Governo sob suspeição e isto corrói as instituições e mina a autoridade do Estado”, acusou.

Antes do vice-presidente do PSD, já o presidente da distrital de Faro do partido Mendes Bota dissera, na sua intervenção, que Sócrates é o primeiro-ministro europeu com o “maior índice de falta de credibilidade”.

“Trata-se de escolher entre quem já provou que mente e que tem falta de carácter e alguém que diz ser possível haver seriedade e coerência na política”, afirmou Mendes Bota, apelando ao voto em Ferreira Leite.

Aguiar-Branco, e a máquina do PSD, atiçando a turbamulta para uma caça às bruxas 3 dias antes de se lançar a “Inventona de Belém”, a operação caluniosa que desonrou a Presidência da República e cuja impunidade nos devia envergonhar a todos (mas só envergonha a uns poucos, muito poucos), 2009

Afinal, o que quer esta gente?

O FMI pronunciou-se sobre o andamento do programa de assistência português e as conclusões foram as seguintes:

1. O desemprego aumentou mais do que o previsto, com grande hipocrisia o dizem, logo, a receita é reformar ainda mais o código laboral e baixar mais os salários, de preferência acabar com eles, pois são a grande razão da falta de competitividade das empresas.
2. Para facilitar a vida às empresas (que entretanto vão perdendo clientes por fatores que se prendem com a crise), há que baixar a taxa social única, desequilibrando por completo o saldo da segurança social, mas que importa? A solução é recorrer ao privado e às jogatanas da banca para as pensões futuras.
3. A recessão não tem nada a ver com a quebra do poder de compra decorrente da acentuada redução de rendimentos, mas não dizem com o que é que tem a ver, sendo certo que as medidas preconizadas pelos seus famosos cérebros nunca podem estar erradas.
4. Quanto à inconstitucionalidade dos cortes salariais e de pensões na função pública, esperam que o Governo arranje substitutos estruturais duradouros, de preferência do lado da despesa, por outras palavras, que despeça funcionários públicos, pouco interessando a garantia das funções do Estado – saúde, educação, segurança, prestações sociais. Luxos que os pobrezinhos não podem pagar.
5. As condições económicas externas são a grande razão de risco. Claro. Não estamos mesmo a ver? Estranho é que já foram os fatores externos, como as trafulhices da banca, que espoletaram a crise em 2008 e o FMI pouco tem a dizer acerca disso.

Em suma, para esta gente (havendo nuances nos seus porta-vozes), os países em dificuldades mas amarrados à moeda única europeia que lhes cria tais dificuldades têm de empobrecer sem limite material nem temporal e o Estado tem de desaparecer (para dar lugar a quê pouco lhes interessa), cavando ainda mais o fosso que nos separa dos países do norte da Europa, onde nada disso se verifica. Experimentem ir à Alemanha e verão como os transportes públicos funcionam claramente em abundância e verosimilmente com prejuízo, sendo fortemente subsidiados; os apoios sociais são mais que muitos. Na Suécia, o Estado está por todo o lado, é assistencialista e funciona bem. Em França, nem convém falar do peso do setor público. Na Bélgica, idem. E por aí fora. Valerá a pena falar da educação na Finlândia?

Falando do seu trono de credores, dourado, distante e indiferente, às Troikas deste mundo não lhes chega emprestar dinheiro e fazerem-se pagar principescamente por isso; brincam e divertem-se com jogos de poder à custa das economias dos países e da vida dos seus habitantes. Para além da imposição de políticas, dão-se até ao luxo de distribuir carícias e rebuçados aos seus servidores perfeitos, como estas varejeiras do pote, na forma de defesa verbal pública contra todas as evidências de miséria e deterioração. Não gostamos deles. Mas gostamos ainda menos dos que, gostando deles, ignoram com total desamor o país que governam, não tendo uma única ideia nem estratégia para o seu desenvolvimento futuro.

Esta gente basicamente quer o dinheiro de volta. Deviam ficar-se por aí. Talvez assim o conseguissem.

A cassete dos piratas

Uma das manifestações mais vexantes do atrofio geral que molda a nossa política consiste na repetição da cassete direitola onde ouvimos dizer que o “PS está agarrado ao Memorando” porque foi um Governo socialista que o pediu, o negociou e assinou. Logo, o Memorando prevalece e sobrepõe-se à liberdade política do PS sob pena de passarem por irresponsáveis, dizem social-democratas e populares a gozarem o prato com alarvidade.

O argumento é pífio. Primeiro, a necessidade do Memorando resulta de um boicote do PSD e do CDS (ajudados pelo Presidente da República, BE e PCP) a um programa alternativo defendido pelo Governo de então e por todos os responsáveis europeus. Conclusão, o Memorando interessava aos interesses da direita, a qual fez campanha por algo similar ao longo de 1 ano. Segundo, o Memorando foi negociado e assinado também pelo PSD e CDS. Tanto Catroga, que disse ter influenciado o acordo, como Passos, que disse estar em perfeita sintonia ideológica com ele, reclamaram vitória pela sua implementação. Conclusão, o Memorando consubstancia uma visão da sociedade e da economia na qual o PS não se revê, mas a qual espelha os pressupostos programáticos dos radicais da diminuição do papel do Estado. Terceiro, o Memorando foi sofrendo alterações a seguir à tomada de posse do Governo PSD-CDS. Essas alterações deixaram de contar com a participação do PS, o qual não foi mais tido nem achado e talvez nem saiba agora do que consta a mais recente versão do acordo.

Como se explica a repetição maníaca desta cassete, tanto por deputados, como por dirigentes, como por jornalistas do laranjal? Explica-se pela cumplicidade de Seguro. O apagamento do passado recente que Seguro instaurou logo a partir da sua campanha para Secretário-Geral abriu todo o flanco para o partido ser impunemente sovado até à perda de consciência. Seguro consentiu no espancamento por razões que nunca revelou, mas que pelo seu percurso podemos tentar adivinhar com elevada probabilidade de acerto: ele concorda com as acusações da direita contra Sócrates e seus bandidos. É que a alternativa a esta explicação é não só terrível como potencialmente doentia: ele não concordava, mas mesmo assim não conseguia mover uma palha para defender os camaradas e as políticas que serviram Portugal com brio e honra de 2005 a 2011.

O algodão não engana

Sabemos que o Governo está nas últimas quando a defesa do indefensável vem do Carlos Abreu Amorim, uma trituradora industrial para uso em lixeiras:

Carlos Abreu Amorim considera que Miguel Relvas está a ser alvo da mais «brutal campanha» de ataques de que há memória. O vice-presidente da bancada do PSD na Assembleia da República ensaia uma explicação.

O social-democrata considera que a marcação cerrada ao ministro adjunto obedece a uma agenda de interesses de grupos de comunicação social, uma estratégia que não vai surtir efeito, porque Passos Coelho vai resistir.

«Miguel Relvas está a ser alvo da mais brutal campanha que eu me lembre que alguém tenha sido sujeito, um ministro, nomeadamente nos tempos democráticos. Pedro Passos Coelho não é pessoa para mudar ministros ou fazer remodelações governamentais» em função da comunicação social.

Fonte