Afinal, o que quer esta gente?

O FMI pronunciou-se sobre o andamento do programa de assistência português e as conclusões foram as seguintes:

1. O desemprego aumentou mais do que o previsto, com grande hipocrisia o dizem, logo, a receita é reformar ainda mais o código laboral e baixar mais os salários, de preferência acabar com eles, pois são a grande razão da falta de competitividade das empresas.
2. Para facilitar a vida às empresas (que entretanto vão perdendo clientes por fatores que se prendem com a crise), há que baixar a taxa social única, desequilibrando por completo o saldo da segurança social, mas que importa? A solução é recorrer ao privado e às jogatanas da banca para as pensões futuras.
3. A recessão não tem nada a ver com a quebra do poder de compra decorrente da acentuada redução de rendimentos, mas não dizem com o que é que tem a ver, sendo certo que as medidas preconizadas pelos seus famosos cérebros nunca podem estar erradas.
4. Quanto à inconstitucionalidade dos cortes salariais e de pensões na função pública, esperam que o Governo arranje substitutos estruturais duradouros, de preferência do lado da despesa, por outras palavras, que despeça funcionários públicos, pouco interessando a garantia das funções do Estado – saúde, educação, segurança, prestações sociais. Luxos que os pobrezinhos não podem pagar.
5. As condições económicas externas são a grande razão de risco. Claro. Não estamos mesmo a ver? Estranho é que já foram os fatores externos, como as trafulhices da banca, que espoletaram a crise em 2008 e o FMI pouco tem a dizer acerca disso.

Em suma, para esta gente (havendo nuances nos seus porta-vozes), os países em dificuldades mas amarrados à moeda única europeia que lhes cria tais dificuldades têm de empobrecer sem limite material nem temporal e o Estado tem de desaparecer (para dar lugar a quê pouco lhes interessa), cavando ainda mais o fosso que nos separa dos países do norte da Europa, onde nada disso se verifica. Experimentem ir à Alemanha e verão como os transportes públicos funcionam claramente em abundância e verosimilmente com prejuízo, sendo fortemente subsidiados; os apoios sociais são mais que muitos. Na Suécia, o Estado está por todo o lado, é assistencialista e funciona bem. Em França, nem convém falar do peso do setor público. Na Bélgica, idem. E por aí fora. Valerá a pena falar da educação na Finlândia?

Falando do seu trono de credores, dourado, distante e indiferente, às Troikas deste mundo não lhes chega emprestar dinheiro e fazerem-se pagar principescamente por isso; brincam e divertem-se com jogos de poder à custa das economias dos países e da vida dos seus habitantes. Para além da imposição de políticas, dão-se até ao luxo de distribuir carícias e rebuçados aos seus servidores perfeitos, como estas varejeiras do pote, na forma de defesa verbal pública contra todas as evidências de miséria e deterioração. Não gostamos deles. Mas gostamos ainda menos dos que, gostando deles, ignoram com total desamor o país que governam, não tendo uma única ideia nem estratégia para o seu desenvolvimento futuro.

Esta gente basicamente quer o dinheiro de volta. Deviam ficar-se por aí. Talvez assim o conseguissem.

14 thoughts on “Afinal, o que quer esta gente?”

  1. Penelope, parabéns!
    Rasgar este verdadeiro pacto de agressão já não é apenas uma exigência social e económica mas é também uma questão de dignidade, de afirmação da soberania nacional.

  2. Querem por Portugal a competir com a China.Mexer mais uma vez na lei laboral, é simplesmente obsceno.é de quem não conhece o patronato em portugal…

  3. Obrigada pela lucidez, Penélope. Só uma nota quanto ao ponto 4.
    Diminuir a despesa pública não tem de passar necessariamnete por despedimento dos funcionários- o que, aliás, é constitucionalmente impossível. Bastava adoptar uma política de igualdade no contributo dos mesmos (via impostos e equiparação de regalias) igual à dos privados.

    (tomei nota do termo espoletar, tá muito certo: despoletar não existe no sentido em que as pessoa o utilizam).

    Quanto à troika e seus maquievalismos: alguém os chamou e não era previsível que mudassem de estratégia só porque costumamos ser bons alunos, também há quem chame borregos.

  4. Que façam os cortes nos chamados “consumos intermédios”, menos carros, menos
    telemóveis, menos combustíveis, menos contratos com escritórios de advogados, menos
    passeatas pelo estrangeiro com enormes comitivas! Com tão pouco para vender para
    quê tantos vendilhões…a começar no jardineiro de Belém, o inquilino de S.Bento sem
    esquecer o locatário das Necessidades que não pára no País anda sempre em prospeção
    por esse mundo afora! Não venham com a conversa de que são trocos !!!

  5. Também me parece que o ponto 1 merece alguma atenção. Neste momento , o código laboral (para os “malandros dos privados”) retira todos – digo TODOS os direitos constitucionais, nomeadamente o direito à remuneração pelo trabalho prestado (é isso mesmo, leram bem,) Portanto, quando dizes, Penélope, “O desemprego aumentou mais do que o previsto, com grande hipocrisia o dizem, logo, a receita é reformar ainda mais o código laboral e baixar mais os salários, de preferência acabar com eles, pois são a grande razão da falta de competitividade das empresas.”, o que isso significa é que as pessoas deverão trabalhar de borla, pagar quando são despedidas e pagar impostos sobre aquilo que não recebem – dupla tributação já não refiro, porque passou a prática usual (veja-se os pensionistas do privado.)

    Tudo isto é triste, tudo isto é suicidário, tudo isto é, pelos vistos, constitucional e portanto está bem. Se as pessoas não tiverem casa nem alimentação, desde que seja constitucional e não se toque nos estatutos especiais dos FP, está tudo bem.

    Mas pergunto: onde vão buscar o dinheiro para lhes pagar, aos FP?

  6. Penélope, chega agora a notícia de que o FMI quer mais cortes “permanentes” na despesa e a Comissão Europeia quer mais cortes nos salários e mais facilidade nos despedimentos?

    É realmente de perguntar. Afinal, o que quer esta gente! Estarão convencidos de que já reduziram Portugal a simples protectorado?

    Não querem apenas o poder de decisão sobre o Orçamento de Estado, querem também controlar o orçamento da Saúde, de Educação, da Cultura etc.
    Querem transformar Portugal no país da Europa para onde vão “deslocalizar” as indústrias de mão de obra intensiva, com salários de miséria, sem direitos, mantendo sob o controlo dos circuitos de exportação que lhes permita garantir os lucros.

    Nos últimos 4 anos saíram de Portugal cerca de 73 mil milhões de euros de rendas, juros e lucros. Quantos milhares de milhões passarão a sair depois desta operação de agressão económica, enquanto os portugueses vão empobrecendo e regredindo socialmente?

    A propósito deste espartilho da dívida, dos juros e do Pacto, já o comparei com a situação dos seringueiros da selva amazónica, de que nos fala Ferreira de Castro, permanentemente endividados como meio de os obrigar à submissão.

    Na minha opinião, estas imposições não são apenas indignas para quem as faz mas principalmente degradantes para quem as recebe e aceita.

    Nem a Alemanha nazi derrotada foi tratada desta maneira.

  7. Se um dia alguém, ou alguns, perder(em) a cabeça e limpar(em) o sarampo a meia dúzia de cabrões do FMI, da Goldman, da Moodys e etc., vocês vão ver se isto muda ou não muda.
    Até lá…., não há que esperar mudanças. Com estes FDP, nos quais inclúo, bem entendido, os nossos (des)governantes, isto só muda à porrada.

  8. Obrigada a todos pelos comentários.

    Edgar: Partilhamos alguns diagnósticos, infelizmente talvez não as soluções, se é que ainda és simpatizante do PCP (se não, peço desculpa pela ideia errada que formei).

    Kamarada: Durante as duas legislaturas anteriores muito se falou sobre sistemas educativos noutros países, nomeadamente na Finlândia. Muitas vezes, o motivo foi a avaliação. Mas, se não quiseres ter trabalho a pesquisar, aqui deixo um link para informações sobre o ensino na Finlândia – público e gratuito:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Education_in_Finland

  9. Juro que esta noite sonhei que já não podia ver, nem ouvir, nem ler o pessoal da troika ; enjoam-me, cansam-me a pobre cabeça de pobre, chateiam-me. E não é que a toma diária e viciante de AspirinaB, versão Penélope, me explica em detalhe a origem do pesadelo? Isto sim são farmacêuticos de qualidade. Obrigado.

  10. oh penélope! não sejas ingénua, o edgar aproveita qualquer diagnóstico para propagandear a ditadura do proletariado, agora em versão burguesa da função pública. essa escumalha não tem pingo de vergonha, tornaram-se sócios da desgraça que nos governa para reclamarem o que o ps defendia, cambada de atrasados, sempre a reboque dos acontecimentos e armados em locomotiva da revolução. nem o portas é tão hipócrita. pergunta-lhe coisas sérias, ex.: porque acabou a coligação em lisboa, para ver se ele te responde. acho que o gajo trabalha de controleiro aqui no blogue com net e pc à borla fornecidos pela célula comunista da pt.

  11. O que os gatos gordos de Bruxelas estão a aplicar aqui é o PAC (Processo de Achinesação em Curso), de que já falámos há algumas semanas, sem o baptizar. Eu sei que lhe chamam “programa de ajustamento”, mas trata-se obviamente de um pseudónimo.

    Pergunta um comentador “Afinal, o que quer esta gente?”. Receio que nem eles saibam. Não passam de cipaios, tropa indígena, burocratas sem alma, incompetentes incapazes de dar o braço a torcer e mudar o rumo quando vêem que o barco que lhes serve de brinquedo, e cuja rota escolhem displicentemente brincando com o controlo remoto, enquanto dão banho ao cão, vêem a novela preferida e bebericam uns whiskies, vai direitinho às cataratas do Niagara.

    O Durão Barroso é o protótipo perfeito, lá colocado apenas porque oferecia a garantia de não incomodar os patrões que generosamente lhe entregaram o penacho. Certificaram-se de que o gajo sabia dizer “Yes, bwana”, “Jawohl! Herr Kommandant” e “Oui, patron” e recebeu imediatamente as 750 equivalências necessárias e suficientes para o poleiro de cipaio-mor da Chafarica Europeia. A criatura tinha acabado de disputar no seu (nosso) país, em 13-6-2004, umas eleições europeias em que levou uma tremenda tareia (PSD e CDS tiveram, somados, apenas 33,9% dos votos, contra 44,5% do PS sozinho), percebeu que nas legislativas seguintes levaria um pontapé no cu que lhe comprometeria a auspiciosa carreira e em 5-7-2004, menos de um mês depois, deu de frosques, depois de se insinuar junto dos donos como criadão sem alma que é.

    “Um grande orgulho para Portugal, ter um português como presidente da Comissão.” Foi esta surrealista afirmação que passámos então a ouvir, repetida até à náusea. Ou seja: um mês depois de os portugueses terem dito que o Burroso, em termos europeus, não prestava para nada a não ser para um pontapé na peida, vêm os donos da Europa e dizem: “Não senhor, vocês são uma cambada de burros, o Burroso é óptimo, tão bom que decidimos escolhê-lo para presidir ao principal organismo da União.” E concluindo: “Vocês são não só uma cambada de burros como devem sentir-se orgulhosos por nós vos chamarmos isso mesmo.” Ora foda-se!

    E agora, como se não nos bastasse o cipaio tuga, brindaram-nos, como cipaio controleiro da troika, com um ilustre Sei-Lá-Se-É que, coitado, não sabia onde aplicar os seus valiosos talentos depois de ter solucionado todos os problemas da sua europeíssima Etiópia natal, por certo com eficácia equivalente à que serviu ao cipaio Burroso para resolver os do seu país antes de dar à sola.

    Quem elegeu estes gajos, cipaios sem vergonha nem alma, gatos gordos cuja única competência é função da prática que adquiriram a rebolar-se nas felpudas alcatifas dos donos? Principescamente pagos para brincar, os brinquedos que lhes oferecem são as vidas de milhões de seres humanos, as nossas. Quando os partem, que é o que mais acontece, pois que se foda, paciência, amanhã dão-lhes outro brinquedo para experimentarem nova forma de o escaqueirar. Se lhes der na telha até podem usar o mesmo método, que a imaginação não é o forte deles.

    O bispo Januário Torgal Ferreira disse o que disse e esta cambada não percebeu nada. Arrogantes e estúpidos como são, depois de malbaratarem em menos de um ano a ingénua confiança que uns milhões de iludidos neles depositaram, nem conseguiram entender que o bispo mais não fez do que gritar a indignação perigosamente sem esperança de milhões que se vêem a deslizar inexoravelmente para o abismo, num plano inclinado em que a cambada iluminada da confraria do pote não pára de derramar hectolitros de azeite.

  12. Penepole,
    atribuir um rótulo para concluir que não estaremos de acordo, não será preconceito?
    Sou comunista mas não lhe perguntei o que era para apoiar a sua indignação, que também sinto e sentirão milhões de portugueses de todos os partidos e sem partido.
    Se estivermos de acordo sobre a necessidade denunciar este pacto de agressão, romper com estas políticas, renegociar a dívida e respeitar a Constituição já teremos um ponto de partida que corresponderá, na minha opinião, à vontade da maioria dos portugueses grande parte deles eleitores e simpatizantes dos partidos deste governo.
    Devo acrescentar que não tenho dúvidas de que haverá um um caminho muito difícil a percorrer para recuperar os estragos mas, quaisquer que sejam as opções só teremos sucesso com o apoio dos trabalhadores e do povo e nunca contra eles, como está a ser feito.

  13. oh edgar! se for para não pagar impostos é sucesso garantido, tens o apoio dos trabalhadores, do povo, da burguesia, do clero e da nobreza, mas dúvido que tenhas país para governar. entretanto vai rasgando, rompendo e respeitando a constituição, mas não te esqueças que para renegociares a dívida do estado tens de ser acreditado para isso e 8% é curto para impores o quer que seja.

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