Arquivo mensal: Julho 2012
Lembra-te
A hipocrisia do número dois
Em vésperas de Relvas desaparecer da cena política – há quem defenda que ele já não é ministro – tem-se falado muito dele. Quase que exclusivamente. É demasiado. O número dois do governo nunca foi ele, mas sim Paulo Portas. É este que, com o seu partido, assegura a maioria que governa o país. A dupla Coelho-Portas é que manda. O episódio do acórdão do TC veio claramente demonstrá-lo. Relvas, sem qualquer autoridade nem credibilidade, já não risca nada. Paulo Portas, tomando posição contra a decisão do TC (que hipocritamente diz acatar), veio a público mostrar que é ele o número dois.
Em hipocrisia, Paulo Portas é o número um. “Não será comigo que Portugal vai diabolizar a função pública” – disse ontem no Funchal. Para logo a seguir se desdizer: “Temos de saber e entender que, se o problema de Portugal é défice do Estado, não é justo pretender que o sector privado tem a mesma responsabilidade de ajudar (…), temos que ter a noção de que, quando comparamos os salários e pensões nos sectores privado e público, no privado a média dos salários é mais baixa, o desemprego é maior, a estabilidade do emprego é diferente”.
Para quem diz que não quer “diabolizar a função pública”, não está mal.
Diz ele que “o problema de Portugal” é o défice do Estado. Será mesmo? Segundo os dados do Eurostat, o rácio dívida pública/PIB anda actualmente em Portugal pelos 110%, o da dívida externa/PIB anda pelos 250%. Conclusão de Portas: o “problema de Portugal” é o défice do Estado. Logo, os assalariados do Estado têm mais “responsabilidade de ajudar” que os privados. Claro como água… turva.
A enorme “responsabilidade” dos privados pelo tamanho do défice público é totalmente obscurecida por Portas. O défice é a diferença de duas rubricas: a despesa e a receita. Ora a fuga aos impostos – a evasão e fraude fiscais e a fuga de capitais para offshores e paraísos fiscais – maciçamente praticada em Portugal pelos privados (estou a falar sobretudo de empresas, detentores de capital e profissionais independentes, e NÃO de assalariados), diminuem substancialmente a receita do Estado, aumentando o défice público na mesma proporção. Já nem falo dos milhares de milhões que o banco privado BPN custou ao Estado, num montante igual a vários anos de subsídios de férias e Natal da função pública. A grande mentira que Portas quer fazer passar é que o défice público resulta apenas da rubrica despesa e, em especial, dos salários, benefícios e segurança no emprego dos funcionários do Estado. Outra grande mentira (de Portas e de Coelho) é que, depois da decisão do TC, a alternativa do governo seria penalizar os ASSALARIADOS do sector privado. Nem uma palavra sobre os outros “privados” atrás citados, os que fogem sistematicamente aos impostos e que fazem de Portugal o paraíso europeu dos prevaricadores fiscais mais recalcitrantes.
Em declarações ontem à Antena 1, o presidente do TC, Rui Moura Ramos, criticou a reacção “a quente” de Passos Coelho ao acórdão do TC e, com todo o direito que lhe assiste, esclareceu o verdadeiro significado desse acórdão contra as interpretações “simplistas” postas a correr por gente do governo. Paulo Portas, notório especialista em argumentos “simplistas”, enfiou a carapuça até aos olhos e veio declarar, como se alguém lhe tivesse perguntado alguma coisa: “Não devo responder, porque acho que um membro do Governo não deve entrar em controvérsia com o Tribunal Constitucional. Chama-se a isso institucionalismo”.
Pois eu chamo a Portas um hipócrita. Um hipócrita em três actos: 1) Portas ajudou a lançar a controvérsia em torno da decisão do TC, contestando-a, chamando-lhe “preocupante” e geradora de um “problema político”, embora afirmando que a acata; 2) o presidente do TC veio a público esclarecer as questões obscurecidas por essa e outras interpretações abusivas e tendenciosas, que querem fazer crer que os assalariados privados é que terão que “pagar” o acórdão, omitindo os outros privados; 3) Portas diz agora não responder a Moura Ramos porque tem sentido de Estado e acha não dever “entrar em controvérsia” com o TC – mas, logo de seguida, responde mesmo a Moura Ramos e entra mesmo em controvérsia com o TC, tentando provar que o acórdão está errado.
Ao lado do Portas, Relvas é um menino…
Finalmente chegou a aprovação de Paris, já podemos anunciar
Este blogue habituou-se à paridade sexual e agora não quer outra coisa. Para regressar a esse equilíbrio convidámos o Júlio, um nosso amigo de longa data, a juntar-se à equipa. Ele vai passar a presentear-nos com a sua superior e implacável escrita tendo ao dispor todos os recursos de edição.
Vai ser de arrebimbomalho.
Revolution through evolution
Why People Look the Other Way in Child Sex Abuse
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Army’s huge culture shift: No shame in mental health help
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Game, Set and Match to Strawberries: The Superfruit
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Cutting Daily Sitting Time to Under Three Hours Might Extend Life by Two Years
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Newer Technology to Control Blood Sugar Works Better Than Conventional Methods
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Evidence Supports Health Benefits of ‘Mindfulness-Based Practices’
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Giving Time Can Give You Time
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Americans’ Confidence in the Church at All-Time Low
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For Romantic Partners Left Out of a Meal, Lunch Is Not ‘Just Lunch’
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The More Gray Matter You Have, the More Altruistic You Are
Seguro, o anestésico
A vida política, a vida pública numa democracia tem que ter níveis de transparência a 100 por cento. E por isso, quando há dúvidas sobre o comportamento de membros do Governo, ou de outros políticos, elas devem ser cabalmente esclarecidas. Não pode ficar nenhuma dúvida, doa a quem doer e seja quem for.
Seguro a respeito do caso Relvas-Público, 22 de Maio
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Relvas foi à Comissão Parlamentar para a Ética, Cidadania e Comunicação prestar declarações a respeito das acusações do Público apenas porque a tal foi obrigado pelo agendamento potestativo do PS. Por sua vontade, não teria posto lá os pés. Chegada a hora da verdade, recusou-se sequer a comentar as passagens do relatório da ERC que registaram mentiras suas e que apontaram para eventuais consequências nos planos ético e institucional, repetindo com insolência e acinte em todas as respostas que tinha sido ilibado pelos técnicos que elaboraram o relatório. Teve até o descaramento para reclamar o direito à indignação perante ataques à sua honra (os quais não identificou) e de alegar que estava a ter um comportamento que beneficiava todos os agentes políticos.
O caso Relvas-Público não tem paralelo com nada que tenha chegado ao espaço público no Portugal democrático. A sua gravidade radica na absoluta credibilidade e veracidade da acusação, na exposição da tipologia da pressão (chantagem relativa à privacidade de uma jornalista e de um político e boicote informativo por todo o Executivo) e na cumplicidade moral e política do Primeiro-Ministro – portanto, do Governo. A partir do episódio é legítimo admitir a possibilidade de não ter sido esta a primeira vez que Relvas usou tal metodologia, podendo apenas ter sido esta a primeira vez que alguém lhe resolveu mostrar que tinha ossos no lugar onde ele contava com a presença de gelatina. É que Relvas já mostrou noutras ocasiões uma violência verbal que é manifestação de um sentimento de impunidade em roda livre. Quem se permite em público ofender toda a família de um adversário político, o que não fará julgando-se protegido pelo secretismo e pelo medo das suas vítimas?
Este caso, pois, ultrapassa a mera questão da sua permanência em funções governativas e partidárias. Este caso remete para uma cultura partidária que tem anos de exercício e a qual reduziu a política ao jogo e o jogo à batota. Ao lado de Relvas está Passos, e ao lado de Passos está o próprio Presidente da República e os anteriores líderes do PSD que promoveram e exploraram assassinatos de carácter, golpadas judiciais-jornalísticas e manipulações populistas. Foi este caldo venenoso que escolheu a política da terra queimada única e exclusivamente para conquistar o poder. E este é o cenário onde a personagem Seguro se ilumina e destaca.
Seguro, em Novembro de 2010, saiu-se com esta valentia lançada à cara dos seus colegas socialistas: “Serei implacável com a corrupção”. Em Setembro de 2011, no XVIII Congresso, disse que o combate à corrupção seria uma das prioridades do seu mandato e avisou que todos os membros do Secretariado Nacional teriam de assinar um compromisso de honra em como respeitariam um código de ética dirigido a todos os dirigentes e candidatos do PS. Não sabemos o que será feito de tanta ética junta por assinar e respeitar, mas sabemos que Seguro – um dos mais opacos líderes políticos de sempre – é o campeão da exigência de transparência. E foi precisamente isso que lhe passou pela mona quando teve de se pronunciar sobre as avarias do seu amigo Relvas.
Ora, estando o processo concluído e o PS satisfeito com os resultados, posto que nada mais tem para perguntar ou dizer a Relvas nem se mostra incomodado com o espectáculo chulo dado no Parlamento em frente dos deputados, está na altura de avisar o nosso exemplar Seguro que o seu objectivo foi alcançado. As dúvidas que ainda tínhamos a respeito da tua coerência, ideal republicano e sentido de Estado foram cabalmente desfeitas: estás completamente anestesiado e vais anestesiando o partido, doa a quem doer.
Da procura do conhecimento permanente
O Relvas debitou ontem, com os olhos em alvo e aquela cabecinha linda a girar ainda mais furiosamente que o habitual, qual ventoinha louca, a pérola que se segue:
«NORTEIO A MINHA VIDA PELA SIMPLICIDADE DA PROCURA DO CONHECIMENTO PERMANENTE.” (sic)
Duas conclusões:
1 – A patética verbalização em público da “fórmula” com conotação maçónica tem todo o aspecto de apelo subliminar desesperado às hostes da confraria (aux armes, citoyens!) para que não o deixem cair, tentando contrabandear a ideia de que o que lhe está a acontecer resulta não de pecados próprios mas sim de um ataque insidioso à agremiação, que assim se sentiria na obrigação de fazer tudo para impedir o “irmão” de se estatelar. Esperança idiota, penso eu de que, não me parece que os manos vão na conversa.
2 – Mas ao mesmo tempo, duro de ouvido e cábula como parece ser, (mal) habituado a que a matéria pegada com cuspo lhe chegue para singrar em mar calmo de equivalências, papagueou a máxima ao contrário e saiu-lhe a equivalência gripada. O lema maçon é, tanto quanto julgo saber, qualquer coisa equivalente (cruzes, canhoto!) a “procura permanente do conhecimento” e não “procura do conhecimento permanente.” Isto, mais uma vez, penso eu de que.
Aliás, que porra poderia ser essa de “conhecimento permanente”? Conhecimento cimentado com doses maciças de fósforo? Conhecimento à prova de Alzheimer? Wikipédia em comprimidos… ou intravenosa… ou em supositórios? Estará a resposta no bosão de Higgs?
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Oferta do nosso amigo Joaquim Camacho
O dia em que a Presidente da AR amordaçou os Deputados
Esta questão parece um incidente parlamentar. Não é. Tem a ver com os direitos constitucionais e regimentais dos Deputados, com a democracia representativa e, por isso, com o direito do Povo a ouvir a palavra parlamentar.
Nos termos do artigo 76/2 do Regimento da AR (RAR) cada Deputado, individualmente, tem o direito de fazer uma declaração política individual durante 10 minutos, uma vez por sessão legislativa.
O artigo 76/3 do RAR, compreensivelmente, dispõe sobre o momento em que é proferida a referida declaração política: é feita depois de outras por ordem de inscrição.
Qualquer aluno de primeiro ano de Direito a quem fosse perguntado o que fazer se um Deputado se inscreve para exercer o seu direito a proferir uma declaração política porque há um tema que a justifica, mas não há outras declarações inscritas, responderá, se não quiser chumbar, o seguinte: “obviamente o espírito da norma é o de se proferir a declaração política depois de outras, se as houver”.
“Se as houver” é, claro, a norma implícita, sob pena de um Deputado ter a urgência de falar sobre um tema, mas, perante o azar de não haver outras declarações políticas, ficar amordaçado.
Foi o que me aconteceu.
Requeri à Senhora Presidente da AR a minha inscrição para uma declaração política sobre a decisão do TC (subsídios e pensões). O requerimento data de 6 de Julho. Naturalmente, cabe-me decidir da oportunidade do mesmo.
Entendeu a Senhora Presidente enveredar por um formalismo na interpretação dos preceitos atrás referidos que não posso acompanhar. Isto é: entendeu que não havendo outras declarações políticas eu perderia o direito substantivo previsto no artigo 76/2.
Tive oportunidade de contestar vivamente tal entendimento. Sou acompanhada nesta perplexidade por muitos Deputados. É para mim evidente que a norma que se retira dos preceitos em questão é a que referi mais atrás. Dá vontade de dizer: “nesta casa, o filho do meio poderá comer, mas em último lugar”. E se for filho único? Não come?
Tudo isto é uma facada na democracia parlamentar.
Dia 11, já longe do impacto que a declaração teria, segui a indicação desresponsabilizante da Senhora Presidente de submeter a questão ao Plenário . Mas não seria nesse dia, dia do debate do Estado da Nação, naturalmente.
Seria um dia, um dia qualquer, por que não em Setembro?
Como é fácil de perceber, a Declaração política que tinha o direito de fazer – insisto – perdeu a atualidade. Ganhou a direita de que a Senhora Presidente da AR é Deputada. Só ela leu a declaração. Depois decidiu. Esta sombra é insuportável.
Se foi tudo e apenas técnica interpretativa, é com aflição que vejo o formalismo que os melhores livros de Direito me ensinaram a afastar quando fosse necessário salvar o espírito da norma presidir à interpretação de direitos regimentais de representantes do Povo.
Solicitei que requerimento distribuído aos Presidentes dos Grupos Parlamentares fosse retirado.
A minha Declaração perdeu a sua oportunidade …. porque mais ninguém fez outra.
Perdeu a democracia.
Teatro do absurdo
O som e a fúria
A sublime inteligência política do PSD resolveu responder às crescentes constatações de vazio de autoridade no Governo – onde se vê Passos na mão de Relvas, Relvas na mão de Menezes, Menezes na mão de alguns verdadeiros homens do Norte, Portas emigrado e Gaspar pairando por cima deles todos – com a encenação circense de um assomo de virilidade do nosso barítono de Massamá:
Passos furioso com colegas do Governo
A esperança desta operação típica da mentalidade jotista é a de que ela ocupe espaço mediático, afastando a atenção das labaredas que já vão altas em S. Bento e sugerindo que o Governo está sujeito ao férreo controlo patriarcal que sabe ser exemplarmente duro com os seus.
Pois é, um ano foi só o que bastou para que a incompetência política e o vazio moral desta direita rasca e bronca se exibissem fulgurantes.
Também poderá levantar na Lusófona o título de Cavalheiro de Indústria honoris causa, assim calhe lá dar um saltinho
A experiência profissional enunciada não lida em particular com o exercício de cargos de liderança, mas ao envolver funções, conforme declarado, de consultoria em organizações de domínios de actuação distintos permite contactar com realidades empresariais em mutação e percepcionar o entrecruzamento, hoje inevitável, entre esferas sociais no passado distintas ou incompatíveis, como era o caso da esfera empresarial e da esfera político-partidária. Neste ponto o currículo submetido reflecte um percurso profissional que, ao não se limitar ao exercício político, aponta para uma desejável diversificação de competências e aprendizagens.
Parecer que serviu de base à atribuição das equivalências a Miguel Relvas na íntegra
8it8
Emma Small e o Freeport

John McIvers e Emma Small têm boas razões para estarem zangados com o Expresso. É que o Johnny Guitar está a ser julgado por corrupção e o sacana desse Expresso não deixa que o País saiba o que já se descobriu ainda vai a procissão a meio.

Só que nem todos se acobardam perante os poderes sinistros do sinistro Expresso, pelo que a Emma Small tudo fará para expor as verdades que o Correio da Manhã, honra lhe seja, vem trazendo para ilustração e consolo do seu público.

Emma Small gosta de esperar nas esquinas dos acontecimentos de pistola na mão. Aparece sempre um incauto em quem disparar.
Mas pudesse ela escolher o alvo e a esta hora o Johnny Guitar estava cravadinho de balázios. Qual julgamento, qual quê.

“Hey, Johnny Guitar! Chega cá, meu cabrão! Vou-te matar, e depois vou-te obrigar a devolver os milhões que andaste a pedir aos construtores do saloon da Vienna, e depois ainda te vou esfregar a manhosa licenciatura de pistoleiro na tromba! Fode-te, cabrão!”

Emma Small tem um plano. Um plano simples, como é apanágio da gente séria. Ela, muito simplesmente, pretende destruir o saloon Freeport, a fonte da terrivel corrupção que está a ser meticulosamente provada e comprovada no tal julgamento que o Expresso abafa só para poder atacar com toda a força o Dancin’ Kid, um bacano que nem sequer é do PS.
Ah, nada como uma bela fogueira para nos livrar do mal… (de preferência com o Johnny Guitar lá dentro)
Em que estado se encontra a credibilidade da Nação?
Uma das principais preocupações dos opositores de Sócrates era a credibilidade. Caluniaram-no, insultaram-no, perseguiram-no de todas as formas possíveis e impossíveis e depois acusaram-no de falta de credibilidade. E resultou. Rapidamente, políticos, jornalistas e comentadores de todo o tipo sempre que abriam a boca era para exigir um governo que devolvesse a credibilidade ao País. Deve ter sido a palavra mais repetida durante a campanha eleitoral. Bastava isso para mais de metade dos nossos problemas se resolverem como que por magia. Com um governo credível enfrentar a crise internacional seria uma brincadeira de crianças. Obviamente, um governo credível podia ser qualquer um desde que não fosse liderado por Sócrates. Com a chegada da direita ao pote muitos respiraram de alívio, Portugal era de novo um país credível. E apesar de cedo se ter percebido que os mercados não se impressionaram com os lindos olhos dos novos governantes, dos mesmos fazerem exactamente o oposto do prometido, de mentirem descaradamente, a credibilidade do Governo parecia inabalável. Mas, passado um ano, curiosamente, já mal se ouve falar de tal coisa. Ainda há uns resistentes, Cavaco, por exemplo, quando confrontado com a derrapagem do défice, garantiu que a troika teria em conta a credibilidade do País. Lá está, para o PR, as políticas do Governo podem revelar-se um verdadeiro desastre, os ministros podem ser autênticas anedotas, algumas de muito mau gosto, que nada disso afecta a credibilidade do País. É uma coisa à parte, assim como se tivesse saído na Farinha Amparo. Mas e os outros, como é que em tão pouco tempo se esqueceram da palavrinha?
Foram estes e teriam sido os anteriores, mas estamos a lidar com pessoal que não percebe nada disto
Quem para um Acordo Ortográfico que pára a racionalidade da língua?
Tem sido frequente constatar que nos órgãos de comunicação social onde o AO está em vigor permanece a regra de acentuar graficamente palavras homógrafas de modo a distinguir verbos de preposições.
É tão-só a lógica a falar. É a evidência de que este AO é uma aberração que não vem resolver qualquer problema, antes introduz irracionalidade e amnésia no corpo da nossa identidade.
Um programa cujo visionamento vale 500 créditos para gasto em cursos de Ciência Política
Inestimáveis lições desta edição:
– Lobo Xavier acha que o caso da licenciatura de Sócrates é, num certo sentido, pior do que o caso da licenciatura de Relvas, embora não saiba bem o que terá acontecido no primeiro caso, talvez uma dúvida acerca da cadeira de Inglês Técnico, ou coisa que o valha. Seja como for, os casos são iguais nisso de ambas as figuras terem obtido graus formais sem realmente terem estudado ou aprendido fosse o que fosse.
– Pacheco Pereira, o arauto que apanhou “empregados do Governo e mais acima” a escrever neste e noutros blogues da Frente da Calúnia, o valente que denunciou as técnicas dos serviços secretos usadas a partir do gabinete de Sócrates, o herói que andou a cheirar as cuecas de um primeiro-ministro envolvido em manipulações avassaladoras mas que depois nada fez para o levar à Justiça e nem sequer explicou do que se tratava, diz que a situação de Relvas é exactamente igual à de Sócrates, os dois tendo recebido favores para tirarem cursos de plástico. Pacheco sabe o que se passou e quem fez o quê. Por exemplo, sabe que nada nos papéis da licenciatura de Sócrates bate certo, algo que talvez deva merecer a renovada atenção do Ministério Público assim haja alguém que lhes envie o link. E também sabe que Sócrates passou numa cadeira com um trabalho enviado de casa, algo que não terá desculpa possível e prova a complexa perfídia daquela operação. Pacheco tem toda a razão, escusado seria dizer, pois não há notícia de algum outro aluno em qualquer outro curso ter sido avaliado com trabalhos feitos em casa, em bibliotecas ou em mesas de esplanada. Os trabalhos legítimos são só aqueles que se fazem sob o olhar aquilino do professor ou de terceiros devidamente autorizados para esse controlo. É isto o ensino superior, aquele onde os avaliadores pairam por cima dos cábulas e não os deixam sair da sala para se dedicarem a leituras perigosas ou falar com estranhos.
– Pacheco igualmente nos pinta o enésimo retrato da miséria da classe política e sua gula infrene. Ele explica como as coisas se passam, como as coisas se fazem e como as coisas acabam. Tendo em conta que o próprio Pacheco faz parte desta classe política vai para 40 anos, e tendo em conta que é a maligna classe política que lhe permite ser uma vedeta da indústria da opinião, as suas detalhadas descrições adquirem automático estatuto de verdade. Faltaria só tirar as consequências de tão pudendas contradições éticas – mas talvez seja sensato abdicar de lhe exigir a perfeição.
– Lobo Xavier, Pacheco Pereira e António Costa estão de acordo no seguinte diagnóstico: o Governo está nas mãos de Luís Filipe Menezes, o qual vai metendo o seu Norte nos lugares de poder e prepara o regresso de Durão Barroso para substituir Cavaco. Provavelmente, tanta inteligência junta não poderá estar enganada.
Folclore do laranjal
É falso que a ERC tenha dito que houve pressões inaceitáveis. O relatório iliba-me em toda a linha.
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Estava convencido de que a expressão “uma pressão inaceitável” estava lá. Lamento que não esteja e o erro é meu.
Grandes verdades
Liberal wonderland
Para se perceber bem o que pensam os chamados liberais da nossa praça, os puros e verdadeiros, é olhar para este naco de pensamento no Blasfémias. Diz assim:
promover uma reforma profunda do estado, retirando-o da saúde, da educação, da segurança social, onde ele desempenha funções principais e não subsidiárias, reestruturando a justiça, as forças armadas e de segurança (a GNR e a PSP ainda existem?), que têm gente a mais e produtividade a menos, e acabando, de vez, com o sector público do estado
Ou seja, o que os nossos liberais querem é saúde exclusivamente privada, porque funciona tão bem, por exemplo, nos EUA , educação exclusivamente privada, quem puder pagar estuda, quem não puder, bom, azar, pelo menos é o que se depreende de “retirar o estado” (a não ser que esteja a falar de subsídios aos privados, pelo que a expressão “funções subsidiarias” é certeira) e, pasme-se, da Segurança Social. O que trocado por miúdos significa que quem quiser reformas pode ser responsável e investir o que entender e quanto entender em produtos dos bancos, esses paradigmas de estabilidade e solidez, ao contrário do volátil estado.
Retirado este dessas áreas absolutamente não-essenciais a um país moderno, resta “reformar” a justiça, forças armadas e polícia, começando pela “gente a mais“. Portanto, suponho que a proposta seja menos juízes, menos militares e menos polícias. O que será muito produtivo, já que menos polícias significam menos detenções, o que exige menos juízes. Ou pôr os juízes a fazer mais, porque 4000 processos/juiz é coisa para 2 ou 3 meses bem produtivos. Quanto aos militares, o melhor é acabar com eles de uma vez. Também não fazem nem servem para nada.
Isto, nas palavras do autor, é absolutamente necessário para “mudar o paradigma que nos tem empobrecido“. O empobrecimento, suponho eu, é este aqui em baixo:
Tem razão o autor em querer mudar tão vil paradigma, e em exortar o governo a introduzir as reformas necessárias para acabar com ele, sem pensar um minuto em “reformar esse paradigma para o tornar viável“, porque um paradigma inviável não pode ser viável e seria, por alguma razão, uma má notícia que conduziria a mais empobrecimento, ou nas palavras do autor (ou do PCP, isto confunde-se um bocado) “enfraquecem progressivamente o tecido social e a economia, aumentam o desemprego real (o que resulta da falta da iniciativa privada e não da falta de serviços públicos), provocam falências, impedem o crescimento da economia e incentivam a emigração“.
Mudem pois o paradigma e destruam a economia antiga, e apesar do sofrimento a “curto, médio prazo“, a longo prazo os amanhãs cantarão. Estaremos é todos mortos.



