
.
.
.
.
.
.
.
.
As nuvens cor de cinza na manhã de Rute (com desenho de Airton das Neves)
As mãos de Rute, aos poucos, vão desabotoar a neblina da rua em frente como se a manhã fosse uma camisola e os momentos os botões no desenho cinzento do relevo e do clima do lugar.
Há quem lhe chame «capacete» para simplificar mas Rute sabe os nomes de todas as nuvens da manhã de Fevereiro (cirros, cúmulos, estratos) e, além dos nomes, seus nomes de intervalo e seus aspectos de lençol, cinza e couve-flor.
Mais abaixo passa um rio pequeno de águas hoje límpidas com seus peixes e patos; na ponte um grupo de idosos atira devagar pequenos pedaços de pão, logo disputados pelos peixes na água e pelos patos na margem.
Rute organiza na sua mesa de trabalho o deve e o haver, o inventário e o balanço, o passivo e a situação líquida entre cheques, estratos bancários, facturas e papéis diversos. Situação líquida é, afinal, toda a nossa vida pois nascemos na água que rebenta e morremos quando longe da água mais do que onze dias.
As nuvens cor de cinza na manhã de Rute afastam-se aos poucos para os lados do Cabo da Roca. São empurradas pelo vento do Sul, quente e muito capaz de trazer no seu bojo o calor de todos os desertos da África do Norte.
O escritório de Rute é um oásis de calma na pressa sem motivos à vista de quem cruza as ruas entre o mar e o casco velho da cidade. Na despedida a porta que bate é o ponto final dum discurso pleno de harmonia, conforto e calor. Na luz do olhar de Rute a manhã é a camisola de malha de onde apetece não sair para a neblina da rua em frente.




