Vinte Linhas 591

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As nuvens cor de cinza na manhã de Rute (com desenho de Airton das Neves)

As mãos de Rute, aos poucos, vão desabotoar a neblina da rua em frente como se a manhã fosse uma camisola e os momentos os botões no desenho cinzento do relevo e do clima do lugar.

Há quem lhe chame «capacete» para simplificar mas Rute sabe os nomes de todas as nuvens da manhã de Fevereiro (cirros, cúmulos, estratos) e, além dos nomes, seus nomes de intervalo e seus aspectos de lençol, cinza e couve-flor.

Mais abaixo passa um rio pequeno de águas hoje límpidas com seus peixes e patos; na ponte um grupo de idosos atira devagar pequenos pedaços de pão, logo disputados pelos peixes na água e pelos patos na margem.

Rute organiza na sua mesa de trabalho o deve e o haver, o inventário e o balanço, o passivo e a situação líquida entre cheques, estratos bancários, facturas e papéis diversos. Situação líquida é, afinal, toda a nossa vida pois nascemos na água que rebenta e morremos quando longe da água mais do que onze dias.

As nuvens cor de cinza na manhã de Rute afastam-se aos poucos para os lados do Cabo da Roca. São empurradas pelo vento do Sul, quente e muito capaz de trazer no seu bojo o calor de todos os desertos da África do Norte.

O escritório de Rute é um oásis de calma na pressa sem motivos à vista de quem cruza as ruas entre o mar e o casco velho da cidade. Na despedida a porta que bate é o ponto final dum discurso pleno de harmonia, conforto e calor. Na luz do olhar de Rute a manhã é a camisola de malha de onde apetece não sair para a neblina da rua em frente.

Vacinem-se

A raiva é uma das principais emoções que moldam o espaço político. E ela tem sempre o mesmo significado: impotência. É o momento em que o adversário se transforma em inimigo, passando a valer tudo menos o respeito pela sua legítima e bondosa diferença. Nesse sentido, a falta de controlo emocional é antidemocrática, pois a democracia depende da racionalidade discursiva para ser eficaz e eficiente. A democracia precisa da retórica para sobreviver, é a sua língua – sendo a Lei o seu corpo. A retórica é neutra, qual talher ou bisturi. Podemos comer, podemos tratar, podemos ferir, podemos matar com os mesmos instrumentos. Com a mesma mão que os segura.

Em todas as democracias encontramos expressões de raiva. É endógena à oposição. E serve de critério para reconhecer agentes políticos em combate. Por exemplo, um jornalista. Formalmente, pode estar a representar o suposto papel de mediador e divulgador, simulando ser parte do processo de comunicação entre a realidade noticiável e a audiência. Porém, as manifestações de raiva, bastas vezes em modo de sarcasmo, dão conta da sua militância e disfunção deontológica.

PCP e BE rangem os dentes em fúria contra todo o sistema político e económico que lhes frustra a utopia. E PSD e CDS enchem o peito de ódio contra o PS que lhes frustra a ida ao pote. O resultado viu-se em Setembro de 2009 e ver-se-á em todas as eleições seguintes, com ou sem Sócrates. Porquê? Porque a maior parte do eleitorado que gera riqueza sabe que é pobreza social o que nasce da pobreza intelectual.

Good food for good thought

Why are experts (along with us nonexperts) so bad at making predictions? The world is a messy, complex and contingent place with countless intervening variables and confounding factors, which our brains are not equipped to evaluate. We evolved the capacity to make snap decisions based on short-term predictions, not rational analysis about long-term investments, and so we deceive ourselves into thinking that experts can foresee the future. This self-deception among professional prognosticators was investigated by University of California, Berkeley, professor Philip E. Tetlock, as reported in his 2005 book Expert Political Judgment. After testing 284 experts in political science, economics, history and journalism in a staggering 82,361 predictions about the future, Tetlock concluded that they did little better than “a dart-throwing chimpanzee.”

Financial Flimflam: Why Economic Experts’ Predictions Fail

Vinte Linhas 590

Lágrima em forma de letra do Chiado para Angra de Heroísmo

A vida é um mistério. Se fosse um negócio, os amigos do poeta Álamo Oliveira tinham comprado a possibilidade de o Suplemento Cultural do «Diário Insular» se continuar a publicar. Mas não. A vida não é um negócio e o «Vento Norte» acaba em Fevereiro de 2011 com a publicação do nº 450. Para quem, como eu, começou a colaborar ainda no tempo do «Quarto Crescente» do jornal «A União», corria o ano de 1982, é uma pena. Uma tristeza enorme, uma sensação de perda e também uma lamentação.

Porque para mim o jornalismo, mais do que uma ocupação, é uma paixão. Os jornais e as revistas que li e onde escrevi foram a Universidade que não tive. Tal como o cinema, o jornalismo ajudou-me a criar um código de valores, de conhecimentos e de atitudes. A minha leitura do Mundo modificou-se – ficou mais organizada quando o meu estatuto de leitor se dissolveu no estatuto de jornalista. Tive a sorte de ter trabalhado em A BOLA ao lado de Carlos Pinhão, Carlos Miranda, Vítor Santos, Homero Serpa, Alfredo Farinha, Aurélio Márcio, todos. No «Diário Popular» e no «Ponto» foi recebido por Jacinto Baptista que me sentou ao lado de Baptista-Bastos, Ângelo Granja, César da Silva, Abel Pereira, todos. No «Sporting» trabalhei com Galvão Correia, António Macedo, José Goulão, Hub Teixeira, Artur Agostinho, Fernando Correia, todos.

Quando morre um jornal é um pouco de nós que morre com ele. Muito me custou a morte do «Diário Popular» e do «Ponto». Agora não é um jornal é um Suplemento Cultural mas é uma dor intensa. Assim como uma lágrima em forma de letra saída do Chiado e recebida em Angra do Heroísmo. Mas a vida é um mistério, não um negócio.

Eu gostava que a política não fosse o que é, tantas vezes ditada pelo pragmatismo

Mas tenho uma pergunta simples para uma certa escrita de direita que acordou para os direitos humanos, numa infantilidade mentirosa: quando é que os Governos do PSD, do PSD/CDS, enfim, quando e em que momento é que a direita cortou relações com a Líbia?

Isto é um concurso, certo?

PS (no sentido de post scriptum, ok?): quem diz Líbia, diz Egipto e por aí fora (temos de incluir Angola, essa democracia plena). Espero, pelo menos, que tanta indignação nunca tenha dado um mergulho em Sharm El Sheikh. Aí sim, a militância é espectacular. Ainda que parcial, claro.

Leão, mostra a tua raça

Para além de esperar que o Sporting seja punido exemplarmente em consequência da violência contra a polícia dentro do estádio por parte dos seus adeptos, e logo aqueles organizados como claque e claque principal, aguardo as declarações dos candidatos acerca do acontecido. Quem não mostrar a sua indignação dirigida aos que ofenderam e prejudicaram a instituição, provará que nem para roupeiro do clube tem dignidade.

A passagem de José Eduardo Bettencourt corresponde ao período mais desgraçado da história desportiva do Sporting – superando Jorge Gonçalves em irresponsabilidade pela forma como abandonou o clube. A desgraça mede-se pelo afastamento do público, pela morte da festa. E não são as derrotas que a matam, são os derrotados.

Vinte Linhas 589

Muito longa memória para Cliff Bastin (1912-1991)

A vitória do Arsenal contra o Barcelona no dia 16-2-2011 deu-me um gozo suplementar. O Arsenal é o meu clube de Londres – sem esquecer a simpatia pelo Charlton Athletic. Mas a ligação aos campeões de Highbury tem muito a ver com o facto de a minha filha mais velha ter trabalhado na transformação do relvado de Highbury Park em jardim, além de as bancadas terem dado origem a apartamentos. Escolho para ilustrar este júbilo a foto dum campeão, uma figura lendária deste clube. Nascido em Exeter, começou por alinhar no clube da terra mas um dia o lendário treinador Herbert Chapman foi a Watford ver um jogador (Tommy Barnett) acabando por ficar encantado como adversário do dito cujo – ou seja Cliff Bastin. Vencedor de duas taças de Inglaterra (1930, 1936) e de cinco campeonatos (1931, 1933, 1934, 1935 e 1938) o nosso Cliff Bastin alinhou 21 vezes na selecção do seu país e marcou 12 golos. O seu record de 33 golos em 1933 só foi batido em 1997 por Ian Wright.

Quando digo gozo suplementar conjugo o que gosto do Arsenal com o que detesto no Barcelona. Não posso com eles. O ano passado perderam com o Inter em Nau Camp e toca de ligar as máquinas da rega para impedir o adversário de festejar. O esplendor da mesquinhez de quem perdeu um jogo e finge não perceber que há sempre três resultados possíveis quando o árbitro apita para o começo de um encontro de futebol.

Não suporto a sua prosápia, o seu fundamentalismo, a sua cegueira. Por isso mesmo a vitória justa, limpa e límpida do Arsenal por apenas 2-1 em 16-2-2011 vai ficar muito tempo guardada no meu sacrário pessoal de momentos felizes.

Why Lara Logan’s Sexual Assault Is Demoralizing for Egyptian Women

What happened to Logan is every woman’s nightmare, but it’s also atypical. Most cases of sexual assault in Egypt are not as gruesome as Logan’s experience, they are instead much like what happens to Hussein—a near constant stream of verbal harassment and the odd groping. A 2008 study found 83 percent of Egyptian women said they had been sexually harassed, while 62 percent of men admitted to harassing women; 53 percent of men blamed women for “bringing it on” themselves. But there’s one thing the numbers don’t spell out: the psychological impact of frequent minor assaults—too trivial to report on their own—is debilitating.

aqui

O que pensar disto?

Um casal, vivendo em união de facto, pretendia submeter-se a um tratamento de procriação medicamente assistida porque tinha problemas de infertilidade.

O parceiro morreu antes de se iniciarem os tratamentos.

O parceiro não deixou nada escrito, exprimindo a sua vontade quanto aos tratamentos, o que se entende, é coisa comum não andar a acautelar a morte em idade jovem.

Esse documento seria dispensável se fossem casados; sim, nesse caso poderia haver inseminação post mortem.

Erupção de ranho

Isto é um muito exacto retrato da nossa pseudo-direita: Petição Quem financia Rui Pedro Soares e Emídio Rangel?

Devido à falta de comparência da direita portuguesa, parte dela estando fora do Reino a passeio e a outra parte tendo escolhido viver fechada nas mansardas a salvo dos indígenas, a pseudo-direita ocupa o espaço vago com a sua inenarrável estupidez. Estas erupções de ranho continuam a ser possíveis porque a pseudo-direita não se consegue ver ao espelho. De cada vez que tentam, ele quebra-se em mil bocados com o susto. É que são muito feios. Tenebrosos.

Como punhais

Os partidos querem resolver as questões políticas através de processos judiciais. Isso é a pior prática que pode haver para a Justiça em Portugal. A política resolve-se em eleições e na Assembleia da República. Mas querem resolver através de processos judiciais! Já que falou no primeiro-ministro, veja a quantidade de processos. Nunca mais acaba! Quando acabar um, vem outro, tem de se manter acesa a chama!

Nunca! Nunca ninguém do poder político falou comigo, nunca ninguém do poder politico tentou interferir em qualquer processo.

Fiz um comunicado em que disse: Não há nada até este momento contra o primeiro-ministro. A partir daí a imprensa inverteu e desatou a atacar o procurador.

Pinto Monteiro

Vinte Linhas 588

Memória justificativa para um desenho infantil

Existe no traço deste desenho o reflexo dum olhar de criança. Para Tomás é tudo muito simples. Quem se porta mal é chamado ao director da Escola. O senhor Osborne tem sempre aberta a porta do gabinete. O desenho representa o incidente com um menino e entornar o copo de água nas costas do casaco do Tomás. Tudo se resolveu com um pedido de desculpas. Foi o Mark, podia ser o Jude, o Mike ou o Alexander.

Já com as meninas é diferente. Aparecem de vez em quando duas frente ao Tomás no corredor e despejam num ápice a frase – «Olá, cabeça de banana!». Quando ele vai para responder já elas não estão lá porque desataram a correr. O senhor Osborne nem chega a ter conhecimento destas histórias e ainda bem. Há coisas mais importantes e elas têm apenas quatro anos de idade embora já sejam veteranas nesta Escola porque já no ano lectivo passado frequentaram o jardim infantil.

O marcador azul fica bem na folha de papel pardo. Visto do seu banco preferido depois das aulas, o Rio Quaggy parece azul no seu caminho para o Tamisa. Tomás gosta de comer a maçã ou a banana no mesmo banco (sempre no mesmo banco) enquanto ouve as histórias de florestas, monstros, tigres e leões. Ainda agora argumentou que a parede do quarto onde dormiu na casa do avô tem monstros mas quando lhe disseram para colocar o ursinho a combater os monstros respondeu: «Não percebem que o ursinho é um brinquedo e os monstros são verdadeiros?» No seu caminho diário o Tomás dá passagem ao corvo de Papillons Walk que ocupa o passeio do lado oposto à Escola. E sorri porque não pode deixar de sorrir à gramática feliz deste dia azul. A cor da mala.

Vara, o vilão nacional

Realmente, o que este cabrão anda a fazer ao País é inacreditável. Ele é suspeitas disto e daquilo, boatos, escutas, calúnias, processos, acusações. E agora, só porque está atrasado para um voo, atestados médicos literalmente à má-fila, assim prejudicando gravemente a população reformada e doente. Facínora!

Mas o cerco está a apertar-se e ele não vai conseguir escapar. Um dia, Portugal irá respirar de alívio. Voltaremos a recuperar a dignidade perdida e o respeito próprio. Voltaremos a poder sair à rua de cabeça erguida, sabendo que entre nós os pulhas, os bandalhos e os escroques são perseguidos e castigados implacavelmente. Um dia. Quando o apanharmos.

Obstétrica civilizacional

Assim como ninguém conseguiu explicar a alta dos preços do petróleo em 2007 e 2008, nem conseguiu prever a crise económica internacional com origem na bolha do imobiliário americano, nem consegue apontar um caminho para sairmos da crise do sistema monetário do euro, assim ninguém avisou que uma onda de convulsões ia começar na Tunísia em Janeiro de 2011 e alastrar pelos países onde não existem regimes democráticos; começando pelos mais próximos geográfica e culturalmente, mas não se sabendo até onde poderá chegar – ao Irão e à China?

Veja-se este mapa da fragilidade dos Estados relativo a 2009 e compare-se com o que está neste momento a passar-se. A política é tão mais imprevisível quanto aumenta a complexidade das sociedades, lapalissada amiúde esquecida pelos verbosos publicistas.

Seja o que for que aconteça, e como aconteça, é belo ver as dores de parto da democracia.