O fantasma do Marquês de Pombal

Antes do Expresso, tinha sido o Público a largar a bombinha de mau cheiro:

As condições políticas, assinalam colaboradores de Cavaco, mudaram e muito. O Presidente está relegitimado, perante um governo minoritário, de Sócrates, antevendo-se um “papel mais actuante”. Numa versão benévola, na procura de consensos. Noutra, mais realpolitik, há outras fontes que antevêem momentos de tensão. Até pela degradação das relações entre Cavaco e Sócrates, que já existia, agravada pelas sequelas de campanha.

[…]

A campanha, com o caso BPN e da casa de férias, mas também as intervenções de ministros como Augusto Santos Silva, da Defesa, deixou sequelas no candidato. No discurso de vitória, na noite de domingo, Cavaco fez um discurso crítico, zangado mesmo, contra a “campanha suja” em que implicou os seus adversários na corrida a Belém. Colaboradores de Cavaco admitem que a relação de Santos Silva com Cavaco estará prejudicada com frases mais ácidas do ministro, ao dizer que o Presidente não se deve meter onde não é chamado.

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Como bem lembrou Santos Silva em resposta, citando o discurso mais taralhouco que já se fez em Belém desde que naquele poiso foram levantadas paredes, a Presidência da República é um órgão unipessoal e que só o Presidente da República fala em nome dele ou então os seus chefes da Casa Civil ou da Casa Militar. Não podemos, portanto, visto ele ser uma pessoa que só diz verdades, estar agora a pôr em causa a sua palavra; até porque isso implicaria ter de voltar a nascer, e essa cena do renascimento, para sair em condições, à italiana, tem um custo que a malta que trabalha não tem hipótese de pagar. Quer isso dizer que os super-íntegros jornalistas do Público e do Expresso inventaram as notícias? Tal também não é crível, seria manter a fina-flor da imprensa pátria sob uma caluniosa suspeita que estes jornais desmentem pela constante probidade e deontologia exibidas em todas as suas edições, secções e aflições. Pelo que algo se terá mesmo passado, as referências ao núcleo duro, colaboradores e fontes de Cavaco têm de corresponder a uma realidade à prova de alto cepticismo ou baixa política.

A minha tese é a da assombração. Existe um espectro que habita nas instalações do Palácio desde finais do século XVIII. O seu ectoplasma é tão poderoso que até consegue convocar alguns jornalistas, seleccionados pelos seus dons mediúnicos, para longas conversas enquanto passeiam nos jardins. Só impõe duas condições: que os encontros sejam à meia-noite e que se tenha cuidado para não perturbar o sono do Presidente da República.

Descarrilhado

Manuel Maria Carrilho escreveu um texto para responder ao desafio que Sócrates lhe fez: sobe ao ringue. São 7.185 caracteres (sem espaços) em 22 parágrafos que se resumem a isto:

i) Em 2004, em 2007, em 2008 e em 2009 escreveu coisas abundantes, maravilhosas e proféticas que podem ser agora consultadas com toda a facilidade num livro lançado em 2010 pela Editora Sextante.

ii) Sócrates não presta para nada e está cercado de imprestáveis, a crise foi causada pelo Governo, os tipos que dirigem o PS conseguiram escravizar o partido e o País e Sócrates é um entusiasmado apoiante, e cúmplice, da tirania egípcia.

iii) Ainda existem alguns militantes livres no PS, embora sejam raros e estejam impedidos de exercer as suas liberdades, os quais devem neste momento acordar da sua letargia ou hipnose e começar a pensar no que Carrilho lhes acabou de dizer que devia ser pensado.

O Manuel Maria é uma placa de Petri onde podemos observar a cultura da impotência a crescer. A facilidade com que se passeia na comunicação social expõe o seu drama em gente com omnipresente densidade. Mas só para acabarmos a ver um figurão da academia e da política a responder de forma primária e ressabiada à frontalidade de um desafio para o debate de ideias. Onde estão elas? Temos de ir a correr comprar o livro para as descobrir ou bastam as vulgaridades deste embrulho cheio de nódoas de gorduroso narcisismo? E que está ele a fazer no PS, um partido onde apenas encontra lobos e carneiros?

O que se passa com a desasada personagem é em tudo igual ao que acontece com os Crespos, Cintras Torres e Pachecos que utilizam o poder mediático – onde são pagos, nalguns casos sumptuosamente pagos, pelo que a culpa maior nem é deles – para nos imporem o espectáculo da sua decadência. A soberba da mediocridade há muito que defenestrou a inteligência nestes castelos de vaidades arruinadas. E o prejuízo maior é algo que está completamente fora da sua capacidade de entendimento: eles prejudicam a oposição.

Um livro por semana 218

«A dança das feridas» de Henrique Manuel Bento Fialho

O ponto de partida é Alexandre O´ Neill («O amor é o amor – e depois?»), o poeta do adeus português a Nora Mitrani: «O meu amor partiu para uma noite gótica / partiu a uivar aos mortos / bebendo directamente das veias / o sangue que nos corre até ao coração desarmado».

Entre canção e reflexão a poesia é o lugar do encontro. Para dançar são precisos dois – como Fred Astaire e Ginger Rogers: «Pode ser difícil de acreditar / mas a dança chegou-me / muito antes da coreografia / do corpo cadenciado ao ritmo da voz / dos passos marcados pela mágica de um sorriso».

Para perceber melhor as feridas do amor juntam-se Ernesto Sampaio e Fernanda Alves: «Não sei quem és. Não sabes quem sou / Somos apenas alguém à espera / fantasiando o absurdo da vida / crentes de que um dia o nada de onde viemos / possa tornar-se o tudo para onde vamos».

Jorge de Sena poderia ter dito a Mécia de Sena («Esta noite sonhei contigo») enquanto Fellini poderia ter dito a Giulietta Masina – «Ninguém dá flores às flores. / O que eu quero é um ramo de poemas / para oferecer à minha flor».

Não o sabendo de certeza, o poema aventura-se a adivinhar as palavras trocadas entre amantes lendários como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Rainer Maria Rilke e Lou Andréas-Salomé, Ulisses e Penélope, Sylvia Plath e Ted Hughes ou Humphrey Bogart e Lauren Bacall de onde vem o título do livro: «Não digas que foi um erro ficarmos / um dentro do outro / durante todo o fim-de-semana. / Não digas que em redor das nossas desavenças / se apagaram todas as lâmpadas».

(Colecção Insónia, Capa: Maria João Lopes Fernandes, Composição: Pedro Serpa, Impressão: DPI Cromotipo)

Bicho-homem

Aquela cena dos egípcios montados em cavalos e camelos, que investiam contra a multidão só para serem de imediato apeados e sovados sem se perceber o que lhes passou pela mona ao irem para ali galopar, foi de uma irracionalidade tamanha que nenhum animal conseguiria imitar.

Cineterapia

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Groundhog Day_Harold Ramis

Repito com frequência a Deus que este era o filme que gostaria de ter feito se só pudesse fazer um filme. E que, se o fizesse, ele sairia tal qual como este: do guião aos actores, passando pela equipa técnica, produtores, realizador. Mas com uma diferença, era o meu filme. Deus, com aquele rosto maior do que o Universo, fica a olhar para mim, meio pensativo e meio sonhador, talvez sonolento ou embriagado, e nada diz. Quem cala consente, pelo que é possível que já me tenha concedido o desejo e ainda não tenha aterrado o anjo a avisar.

Segundo diz quem sabe, passaram 10 anos entre a primeira e a última vez que o Phil acordou no mesmo dia, no mesmo quarto, com a mesma canção. 10 anos, então, é quanto demora até que um filha-da-puta cínico se transforme num gajo porreiro de quem apetece ser amigo. Se querem exemplo de optimismo, maior do que este ainda não se fabricou. Acontece que o filme enfia os 10 anos em 101 minutos de película, genérico incluído. Isso dá muita vontade de rir e alguma vontade de chorar – como sempre acontece quando se tentar meter o tempo na gaiola do espaço, seja através do cinema ou do BOTOX®. Rir e chorar, caso não te lembres, é a finalidade suprema da invenção dos irmãos Lumière.

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Vinte Linhas 581

Memória pessoal da Sé na cidade de Leiria

Voltei ontem a Leiria onde comprei num alfarrabista ao lado do restaurante «Adega Mouzinho» o livro «O regresso dos remadores» de João Miguel Fernandes Jorge em óptimo estado por apenas um euro.

Em 1961 (Agosto) estive ali naquela mesma Sé a rezar com a minha mãe pelo bom sucesso dos meus exames da admissão aos Liceus e às Escolas Técnicas. O barulho dos galos madrugadores de Leiria competia com o som grave dos oito sinos da Sé na torre sineira ali mesmo ao lado. Quase não dormi nessa noite, estranhei a palha do colchão mas estava bem preparado pelo célebre livro «1111». Que tinha (imagine-se) 1111 problemas de matemática. Passei nos dois exames mas sabia e tinha ouvido já dizer diversas vezes que o Liceu não era para os filhos dos motoristas. E não era, na sociedade desse tempo onde cada um tendia (e era empurrado para ser) o mesmo que o pai e o avô tinham sido antes. Fui para uma Escola Técnica em 1961 (Outubro) e de lá saí para entrar directamente no Departamento Operacional de Estrangeiro do Banco Português do Atlântico na Rua do Ouro (ou Rua Áurea) em Setembro de 1966.

A belíssima foto de António Sequeira capta o esplendor da luz passada nos vitrais dos dois lados das grandes naves. Entre pedras e sinais, houve um tempo que a tudo resistiu, uma memória diluída onde o bispo José António da Silva Rebelo (1779-1846) natural da minha terra (Santa Catarina) acaba de sair da sacristia e caminha apressado para os claustros onde o poço está tapado e onde em tempos passou um rio que vinha da serra a caminho do mar.

Apocalypse Now

Informam-se todos os profetas da desgraça, e os demais videntes do abismo, que o mês de Janeiro de 2011 terminou sem qualquer altercação social – apesar dos cortes nos salários, aumentos nos combustíveis, ataques sujos contra o impoluto candidato Cavaco e a transferência de um famoso atacante da Selecção para um clube estrangeiro. A Gerência pede a vossa compreensão e paciência, fazendo notar que ainda temos mais 11 meses pela frente, período durante o qual poderemos encher as ruas com urros e flores festejando a chegada do FMI, voltar a bloquear as estradas com camionetas de mercadorias ou incendiar o Parlamento e edifícios contíguos.

Se cada um destruir a sua parte, se não vacilarmos no boicote de tudo por causa de todos e no ataque a todos por causa de tudo, se os comunas e os reaças conseguirem unir esforços e caminhar na mesma direcção qual feixe de varas de bétula branca, vamos bem a tempo de dar uma grande alegria aos apóstolos da situação explosiva.

Retórica do medo e medo da retórica

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The Daily Show With Jon Stewart Mon – Thurs 11p / 10c
Tim Pawlenty
www.thedailyshow.com
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Há variadas semelhanças entre a política norte-americana e a portuguesa, se nos esquecermos das radicais e intransponíveis diferenças. Uma delas é esta que o diálogo entre Jon Stewart e Tim Pawlenty ilustra: a retórica febril e demente contra Obama, tal e qual, mutatis mutandis, a retórica demente e febril contra Sócrates – cujo auge corresponde ao período em que a troika Cavaco-Manela-Pacheco tudo fez para destruir Sócrates através de tentativas de assassinato de carácter na comunicação social, no Parlamento e na Justiça. Ideias, nenhumas ou más; calúnias, torrenciais e venenosas. Foi nisto que apostaram, não tinham mais nada naqueles neurónios que pudesse ser servido ao Povo.

Esta conversa, para além de ser mais uma em que o Jon faz questão de obrigar o oponente a levar com a sua implacável receita e aguentar calado, permite pensar no que terá sido a experiência da direita americana face à agressividade, também histérica, com que Bush era tratado. Claro, Bush foi um dos inquilinos da Casa Branca mais tontos de que há memória, e enfiou o país em duas guerras que ninguém sabe hoje para que serviram (nem ele), mas o ponto em reflexão é acerca do que os Republicanos terão sentido nessa época.

Para além do exercício da empatia, que faz sempre muito bem, é inquestionável que a direita vulgar é mais bélica e tacanha do que a esquerda comum. Há razões antropológicas, históricas e cognitivas para ser assim, mas também se pode resumir tudo ao medo. Como o diz Tim Pawlenty.