Cineterapia

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Groundhog Day_Harold Ramis

Repito com frequência a Deus que este era o filme que gostaria de ter feito se só pudesse fazer um filme. E que, se o fizesse, ele sairia tal qual como este: do guião aos actores, passando pela equipa técnica, produtores, realizador. Mas com uma diferença, era o meu filme. Deus, com aquele rosto maior do que o Universo, fica a olhar para mim, meio pensativo e meio sonhador, talvez sonolento ou embriagado, e nada diz. Quem cala consente, pelo que é possível que já me tenha concedido o desejo e ainda não tenha aterrado o anjo a avisar.

Segundo diz quem sabe, passaram 10 anos entre a primeira e a última vez que o Phil acordou no mesmo dia, no mesmo quarto, com a mesma canção. 10 anos, então, é quanto demora até que um filha-da-puta cínico se transforme num gajo porreiro de quem apetece ser amigo. Se querem exemplo de optimismo, maior do que este ainda não se fabricou. Acontece que o filme enfia os 10 anos em 101 minutos de película, genérico incluído. Isso dá muita vontade de rir e alguma vontade de chorar – como sempre acontece quando se tentar meter o tempo na gaiola do espaço, seja através do cinema ou do BOTOX®. Rir e chorar, caso não te lembres, é a finalidade suprema da invenção dos irmãos Lumière.

Buda, Ouspensky, Nietzsche e uma legião de escritores famosos, uns, e de quem nunca ninguém ouviu falar, outros, são dados como fontes de inspiração para a obra. Quer dizer que se acertou em cheio no gosto popular, toda a minha gente reclama um pedacito. Quantas vezes é que este fenómeno acontece? Não faço ideia, mas responde ao nome sucesso. A arte de criar sucessos é a mais difícil de alcançar; e que o diga Hollywood, onde os produtores já levam um século de aprendizagem e continuam sem descobrir a pedra filosofal do blockbuster. Provando a afirmação anterior, a fama deste filme nasce de acasos cujas consequências passaram completamente despercebidas aos seus autores. Uma delas é a ausência de explicação para a prisão do protagonista no mesmo dia, assim permitindo as mais desvairadas interpretações, a outra o conflito que nasceu entre o realizador e o actor – Harold Ramis querendo apenas fazer uma palhaçada levezinha e Bill Murray querendo fazer uma xaropada filosofante. O resultado é algo maior do que a soma das partes, a transcendência pronta a servir.

O que é o tempo? O que é o espaço? O que é sentir? Nas primeiras aulas de Estética I, e ao longo do curso, aquele mestre desafiava-nos, sorrindo luciferino, com as questões mais básicas. À sua frente via dezenas de palonços de 20 e 30 anos que tinham os cornos cheios de serradura, que emporcalhavam as conversas com restos de livros mal digeridos e que eram obscenamente alérgicos ao pensamento. A sala ficava em silêncio, os minutos em que aguardava inutilmente pelas respostas ferviam. Que era o tempo? Que raio era o espaço? E porque havia eu de estar ali a levar com aquela impertinência quando tinha respostas tão boas para dar se as perguntas fossem acerca da liberdade, do amor e da felicidade? Cabrão de merda.

Foi muito a custo que o parto se deu. Compreensão lenta, lentíssima. A principal característica do tempo é a de nunca passar, ao contrário da percepção comum que diz exactamente o contrário. O tempo é sempre igual, sempre o mesmo, sempre tempo. O primeiro e o último instante de uma existência não se distinguem quanto à sua natureza, equivalem-se. O tempo é um nada que suporta os seres. Já o espaço não pára quieto, está em constante fluxo. É impossível entrar duas vezes no mesmo rio, mas não é menos impossível estar duas vezes parado na mesma margem a contemplar o rio. A mística, oriental ou ocidental, resume-se a esta consciência e o resto são notas de rodapé. Ora, o filme inicia o espectador nessa subida ciência sem que ele careça de preparação espiritual ou sequer se aperceba do que lhe estão a fazer. O estratagema da repetição do dia ilumina a transitoriedade do espaço. E ao aumentar a imobilidade do tempo, mais poderosa é a força que molda a geometria do real. Por fim, é o próprio espaço interior do protagonista que é virado do avesso e esculpido. Visto de fora, apaixonou-se de um dia para o outro – visto de dentro, sofreu na longa viagem, desceu aos infernos, para se conseguir salvar. Para crescer.

Hoje é 2 de Fevereiro. Outra vez. Tal como ontem, tal como amanhã. Se estiveres com atenção, entre dois segundos há espaço para toda a eternidade – e mais um bocadinho.

27 thoughts on “Cineterapia”

  1. Val

    em que cinema podemos ver este filme meu caro?

    Os “palonços de 20 e 30 anos que tinham os cornos cheios de serradura”,

    não é tão raro assim, direi que é vulgar, boa imagem.

  2. Ovitelo, não deve ser preciso esperar muito para voltar a passar num dos canais generalistas. Este é dos tais que, felizmente, tem lugar marcado nas tardes de Sábado ou domingo.

  3. Teresa,

    muito obrigado pela informação. Pensava que me tinha escapado uma obra prima, mas pelo sentido que retiro da sua previsão, estamos perante uma seca intelectualoide e menor?

  4. Teresa,

    o sentido é então o inverso, “felizmente”, nas tardes de sábado só passam bons filmes?

    Quanto ao nome do blogue, fica melhor assim, na ultima versão, por respeito ao autor do belo animal, nada de vacalhices, o seu a seu dono.

  5. a seu dono, a conclusão volta a parecer-me inusitada mas as conclusões devem ser como a água benta, cada um toma as que quer…

  6. Teresa,

    já vou na quarta, meu recorde absoluto de troca de mailes e ainda não acertei uma.

    Menina misteriosa, diga lá por favor qual o sentido que quer que se retire do que escreveu?

    Diga de sua justiça, o nome do bicho ficou mais digno nesta grafia?

  7. O filme é magnífico e o teu texto idem, claro, pela originalíssima leitura que fazes do Heraclito. Apetece-me logo discordar e de atirar-te com o espaço-tempo e o Borges e o Zenão. Mas vou reler outra vez.

  8. Teresa,

    já vou na quarta, o meu recorde absoluto de mailes, e ainda não sei que sentido deu ao que escreveu. Menina misteriosa, diga lá o sentido que quis dar ao seu texto por favor.

    E a nova grafia do nome do bicho, gostou ou nem por isso?

  9. Quase no Guinness, se do que escrevo não retira um só sentido mas muitos não serei eu, com um querer de menina, o colesterol da sua veia poética.

    O bicho dá pelo nome? Então é digno dele.

  10. Teresa,

    o poeta aqui não sou eu, sentidos já retirei vários é certo, mas que não ajuda nada também é verdade. O nome do bicho é o de uma obra prima do século XIX de Tomas da Anunciação. Finca as patas dianteiras e tem um olhar desconfiado, aprecie que vale bem o tempo.
    Uma adopção plena que o tempo consolida.

    Muito boa noite para si.

  11. Val, há quase 20 anos, vi uma curta-metragem, para aí na RTP2, dum tipo que estava preso entre as 12:01 e as 13:00 – aquilo pareceu-me fascinante ao meu eu de 11 ou 12 anos, que já consumia doses elevadas de ficção científica.

    Dizem as más-linguas que foi nessa curta que se baseou o Feitiço do Tempo. Eu não sei, o conceito é relativamente comum na ficção científica, pode ter sido baseado numas poucas de coisas. Tira as tuas conclusões: http://www.youtube.com/watch?v=WUGYwNzez3g

    “O Vitelo”, o filme não é uma seca intelectualóide, nem é, completamente, um filme de fim-de-semana. É leve o suficiente para passar a horas familiares nos canais generalistas, mas o conceito subjacente é denso o suficiente para fazer pensar os mais atentos.

    E, caso a actuação do Bill Murray não chegue para te encher as medidas, vale sempre a pena poisar a vista na Andie MacDowell (Quatro Casamentos e Um Funeral, Hudson Hawk e, claro, Sexo, Mentiras e Vídeo)…

  12. o vitelo, podes comprar em DVD, ou Blu-ray, em qualquer lado, ou esperar que volte a dar na TV. O filme não passa de uma comédia ligeira, normalíssima, que se vê com toda a facilidade e, na maior parte dos casos, enorme agrado.
    __

    Primo, se não me atirares com o espaço-tempo e o Borges e o Zenão, quem fica a perder sou eu. Muito.
    __

    Marco, por isso referi que há uma longa lista de candidatos à fonte de inspiração da história. Mas tanto o autor do argumento, como o realizador, falam de influências longínquas no tempo. Quanto a este “12:01 PM”, ele próprio adapta um conto de 1973.

    E também estou contigo na destaque à Andie MacDowell, que passei a idolatrar por causa do “Sexo, Mentiras e Vídeo”. Os deuses foram amigos e puseram-na neste filme para meu deleite (pun intended).

  13. Marco & Val,

    vi os dez minutos do “12:01 PM” e seguramente que espero ver Andie MacDowell, obrigado rapazes. A Teresa andou a enganar-me o tempo todo. Não há mulheres como as dos filmes.

  14. Ó Romântico, o tempo todo é também o tempo nenhum mas mesmo que fosse o tempo algum não conseguiria encontrar nele um engano meu.

    E não desfazendo no vitelo a obra prima do mestre foi o seu discípulo.

  15. o filme é uma comédia divertida e de facto deliciei-me de cada vez que vi (primeiro em vídeo, há muitos anos e depois voltando a apanhá-lo na tv) com o conceito e todos os detalhes em torno de cada re-hapenning.

  16. (Tubarão, já deves ter visto só ainda não fizeste a associação mas se quiseres acho que o tenho por aí. ou tinha…)

  17. eu é que gosto quando escreves com poder sem ser de poder. gosto mesmo.:-)

    (mas tenho de te dizer uma coisa, senão fico engasgada: quem cala consente, sim. ou quem cala não diz o que sente. também.) :-)

  18. ‘Magnificentemente’ Exposto!

    Inspirador…o filme…

    Que Mestre lixado!!! Tanta coisa, tanta coisa…e afinal o Tempo não existe!!!

    “O tempo é um nada que suporta os seres”… só possível dada a insustentável leveza dos mesmos…

    “Já o espaço não pára quieto, está em constante fluxo.”

    Espaço visivelmente mutável: Estar.

    Existir: Estar entre 2 segundos…

    Interior/Exterior = o Mesmo

    Não tanto ‘conhece-te a ti mesmo’….mas antes…’conhece-te no Outro’…

  19. Como é que um gajo pode aceitar a definição que dás de “tempo” depois de usares expressões como esta: “compreensão lenta, lentíssima”? Estou a ver centímetros e milímetros nisso.

    Alem disso perguntei à minha pila se concordava contigo e ela rompeu imediatamente com um ataque de gargalhada que eu estava a ver que não iria acabar, mas depois, com a lentidão do costume (mais rápido se a tivesse submetido a uma ducha de água fria, eu sei) lá se reduziu ao estado falecido da excitação, desejando-me, por fim, uma “boita noite, camarada”.

    Explique, desenvolva e dê exemplos concretos. O ponto termina dentro de 90 minutos.

  20. Kalimatanos, dizeres “estou a ver centímetros e milímetros nisso” e logo a seguir mencionares a tua pila pode dar uma impressão errada a quem leia assim de repente, pá…
    :)

  21. (Minha querida – tu sabes que eu sei que tu sabes que é a ti que me dirijo – entretanto já cheguei lá. Já vi sim senhora, mas muchas gracias pela tua graciosa oferta.)

  22. (pareces a fresquinha, também jurava que não tinha visto… percebo bem, primeiro que eu chegasse à Marmota também demorou um bocadito)

  23. Shark,

    Bem aproveitada, sim senhor. Se eu soubesse tinha metido isso em quilómetros e hectómetros. O meu gold member é, por tradição, medido em metros, mas não tenho coragem para te dizer onde coloco a vírgula, tendo em atenção o mínimo de decência que as conversas públicas exigem.

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