Vinte Linhas 581

Memória pessoal da Sé na cidade de Leiria

Voltei ontem a Leiria onde comprei num alfarrabista ao lado do restaurante «Adega Mouzinho» o livro «O regresso dos remadores» de João Miguel Fernandes Jorge em óptimo estado por apenas um euro.

Em 1961 (Agosto) estive ali naquela mesma Sé a rezar com a minha mãe pelo bom sucesso dos meus exames da admissão aos Liceus e às Escolas Técnicas. O barulho dos galos madrugadores de Leiria competia com o som grave dos oito sinos da Sé na torre sineira ali mesmo ao lado. Quase não dormi nessa noite, estranhei a palha do colchão mas estava bem preparado pelo célebre livro «1111». Que tinha (imagine-se) 1111 problemas de matemática. Passei nos dois exames mas sabia e tinha ouvido já dizer diversas vezes que o Liceu não era para os filhos dos motoristas. E não era, na sociedade desse tempo onde cada um tendia (e era empurrado para ser) o mesmo que o pai e o avô tinham sido antes. Fui para uma Escola Técnica em 1961 (Outubro) e de lá saí para entrar directamente no Departamento Operacional de Estrangeiro do Banco Português do Atlântico na Rua do Ouro (ou Rua Áurea) em Setembro de 1966.

A belíssima foto de António Sequeira capta o esplendor da luz passada nos vitrais dos dois lados das grandes naves. Entre pedras e sinais, houve um tempo que a tudo resistiu, uma memória diluída onde o bispo José António da Silva Rebelo (1779-1846) natural da minha terra (Santa Catarina) acaba de sair da sacristia e caminha apressado para os claustros onde o poço está tapado e onde em tempos passou um rio que vinha da serra a caminho do mar.

30 thoughts on “Vinte Linhas 581”

  1. se soubesses como eu gosto de alfarrobistas. (até tenho um que vive dentro de mim, no cimo de um monte, que se chama tininho. e não, não se importa com concorrentes) :-)

  2. parece um discurso do cabeça de abóbora, eu tamém já não vou a leiria desde a última vez que lá fui compar alfarroba prá mula.

  3. jcf: não ligues, meu caro (ou melhor: liga se for para ler coisas preciosíssimas como esse sublime “vação”). Gosto muito destes teus textos, jcf. São verdadeiras deambulações solitárias que me fazem lembrar as do Rousseau. É isso, és o Rousseau do nosso HTML: poeta, reaccionário, egocêntrico e, repito, senhor de uma bela escrita.

  4. Obrigado, João Pedro! Já agora o dicionário da Sociedade Língua Portuguesa explica: vacão – campónio, rústico, lapuz, homem inútil, indolente, mandrião, palerma, homem estúpido. Vem na página 616. O nosso querido Moraes dá vacão na página 419 e embora refiram ambos o Fundão como origem do termo eu sempre o ouvi em Leiria. E, não por acaso, o usei neste contexto.

  5. O jcFrancisco é muito capaz de acreditar nas palavras do João Pedro da Costa – sem desconfiar de tanta subtileza e sentido de humor. Já dizia Rousseau: «Mentir sem prejudicar»…

  6. Sobre o «mimo» da palavra «vação», explica jcfrancisco, com a arrogância do costume: «E, não por acaso, o usei neste contexto»! Certamente que nunca é por acaso que usas palavras ordinárias dirigidas a quem comenta os teus escritos. E não é que a Maria tem razão?! O «vacão» acreditou mesmo nos «elogios» do JPC!

  7. É isso mesmo, Sinhã! O lixo humano regressa sempre à sua origem tal como os vacões regressavam na «carrera» das seis da tarde, entre fumo e pó, nas tardes quentes de Verão.

  8. E continuas a usar o termo «lixo humano»! Não te envergonhas, pá? Lixo humano eram os Judeus para os nazis! Os vacões são teus conterrâneos, lá em Santa Catarina. Pessoas do campo, rurais, agricultores, pessoas simples e decentes. Foi isso que te ensinou o teu pai, lá na tua terra? Quem é que tu julgas que és, grande vaidoso e linguareiro, sem nível nem moralidade?!

  9. oh, André, lixo humano é a caquinha que de vez em quando os seres, que por terem bocarra se dizem humanos, dizem. tranquilo e não zanga: queres uma sopinha de abóbora e agrião quentinha? :-)

  10. Continuo e continuarei porque tu, André, bem o mereces. Demagogo da treta, estavas à espera de quê? Uma medalha? Uma taça? Uma salva de prata? Vai morrer longe. E manda saudades que é coisa que cá não deixas…

  11. Como também tenho um livrinho de citações, aqui vão duas para si, meu caro jcFrancisco:

    «O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menos conta por aquilo que é. É a vaidade em acção.» – Fernando Pessoa

    «A soberba nunca desce de onde sobe, mas cai sempre de onde subiu.» – Quevedo

    Talvez lhe mereça reflexão, embora eu não acredite…

  12. aqelas que estão sempre a sorrir, malhadinhas e com uma margarida no canto da orelha? obrigada, adoro vacas.:-)

    (sim, andam no gamanço – mas de alfajulietas) :-)

    eu cá, quando não gosto não como. e nem perto chego, Maria. :-)

  13. a mim nem me passou pela cabeça tal coisa. o que perguntei – e mantenho a curiosidade – não tem, igualmente, ponta de ironia. (ou será que chamar-te João faz-te comichão e devo dizer João Pedro da Costa)? :-)

  14. obrigada. :-)
    mas tem mesmo. nunca tinha pensado nisso e desde ontem que fiquei com o bichinho. e andei a ler umas coisas que me levam a crer que ele gosta mesmo de poesia: centrou-se no conceito de união para gerar uma linguagem ambígua que, por sequência, vai dar a uma outra.

    (pena que o progresso, e as suas desvantagens, tende a acabar com a poesia) :-(

  15. Pelo contrário, meu caro, as citações assentam-lhe que nem uma luva. E pode crer que «não desapareço», como muito lhe agradaria. Que seria dos posts sem comentadores?! Deixo-lhe outra citação. Durma com ela debaixo da almofada, pode ser que dê resultado, embora eu continue a duvidar…

    «A EDUCAÇÃO VISA MELHORAR A NATUREZA DO HOMEM O QUE NEM SEMPRE É ACEITE PELO INTERESSADO» – C. Drummond de Andrade

  16. João Pedro da Costa, pensei que fosse mais selectivo nos seus gostos literários; enganei-me. E como não é «gajo para dar muito uso à ironia», de futuro, no que respeita aos seus elogios aos textos do jcfrancisco, vou levá-lo absolutamente a sério, prometo. As minhas desculpas pelo equívoco…

  17. Mau Maria, Mau Maria! Escolheste mal o autor, logo o C. Drummond de Andrade. Nem tudo o que luz é oiro… Vê lá que um dos próximos posts vai ser o que o Nelson Rodrigues escreveu contra o poeta Drummond, quando da morto horrorosa do irmão de Nelson o poeta famoso escreveu uma crónica pobre sobre a morte de Paulo e os cinco corpos cravados na pedra – «pôs numa frase escassa toda a aridez de três desertos».

  18. O JCF é cada vez mais uma “estrela pop”.

    admirado por uns, odiado por outros.

    é moço para receber flores mas também um tomatito podre (se a Maria pudesse…).

  19. sabes o que é, Zézinho, há algumas, e outros, que a única coisa que vêem na arte é os seus portadores – e depois a única coisa que dela retiram é uma troca de fluidos rançosos – que acabam afogados em água corrente de um bidé. oh. :-D

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