Vacinem-se

A raiva é uma das principais emoções que moldam o espaço político. E ela tem sempre o mesmo significado: impotência. É o momento em que o adversário se transforma em inimigo, passando a valer tudo menos o respeito pela sua legítima e bondosa diferença. Nesse sentido, a falta de controlo emocional é antidemocrática, pois a democracia depende da racionalidade discursiva para ser eficaz e eficiente. A democracia precisa da retórica para sobreviver, é a sua língua – sendo a Lei o seu corpo. A retórica é neutra, qual talher ou bisturi. Podemos comer, podemos tratar, podemos ferir, podemos matar com os mesmos instrumentos. Com a mesma mão que os segura.

Em todas as democracias encontramos expressões de raiva. É endógena à oposição. E serve de critério para reconhecer agentes políticos em combate. Por exemplo, um jornalista. Formalmente, pode estar a representar o suposto papel de mediador e divulgador, simulando ser parte do processo de comunicação entre a realidade noticiável e a audiência. Porém, as manifestações de raiva, bastas vezes em modo de sarcasmo, dão conta da sua militância e disfunção deontológica.

PCP e BE rangem os dentes em fúria contra todo o sistema político e económico que lhes frustra a utopia. E PSD e CDS enchem o peito de ódio contra o PS que lhes frustra a ida ao pote. O resultado viu-se em Setembro de 2009 e ver-se-á em todas as eleições seguintes, com ou sem Sócrates. Porquê? Porque a maior parte do eleitorado que gera riqueza sabe que é pobreza social o que nasce da pobreza intelectual.

20 thoughts on “Vacinem-se”

  1. A pobreza social nasce da pobreza intelectual. Esta afirmação do Valupetas não deixa de ter o ser quê de verdade. De facto, desde que o Pinto de Sousa está no governo que se assiste ao aumento da pobreza social, sendo o crescimento da taxa de desemprego e o aumento da precariedade os melhores indicadores dessa realidade. Ora, esta pobreza social não deixa, de facto, de ser um resultado da pobreza intelectual da dita «esquerda» moderna, que incapaz de conceber e aplicar políticas de esquerda se limitou a copiar o programa económico da direita neoliberal e a seguir as ordens da Merkel. O próprio discurso ou retórica destes «pobres de espirito» é uma cópia do discurso neoliberal, que se traduz em coisas como o Estado «mínimo» ou «eficiente» ou a «racionalização ou optimização dos recursos». Tudo conversa dos manuais de economia em que são formados os gurus do neoliberalismo.
    Aliás, esta «esquerda» moderna ainda consegue ser pior que a direita neoliberal, pois se esta defende a privatização das empresas e serviços do Estado (como a saúde e a educação), aquela, copiando e aplicando aos poucos ou de forma disfarçada este mesmo princípio, defende, no entanto, a nacionalização dos prejuízos das empresas privadas. Por outras palavras, o Estado nas mãos da «esquerda» moderna é o que se pode dizer que é um Estado ao serviço da classe dominante ou do capital, para usar a linguagem marxista, pois tudo é feito à medida dos interesses de quem tem o poder económico.
    Enfim, a democracia até pode precisar da retórica para sobreviver, mas aquilo de que os aldrabões da «esquerda» moderna precisam para sobreviver é da dita «má retórica», isto é, da manipulação. E se se têm dado bem com isso é porque os socretinos fazem justiça ao seu nome: têm pouca raiva, lá está, são dóceis, submissos e são facilmente domesticados…

  2. o que está aí é o Mediterrâneo a incendiar-se contra a desigualdade, a privação e a injustiça, isso é que é. E com a Primavera, os pólens e a testosterona, promete… o que o Sarkozy enunciou na cimeira de Lisboa, a tal da revisão estratégica do conceito. Tristemente, aliás.

  3. a democracia verdadeira precisa de diálogo na praça pública entre pessoas de boa fé e com interesse verdadeiro em que todos ganhem , não precisa de todo de retórica de feira parlamentar ganhador jactante /perdedor raivoso , e muto menos de colónias de parasitas , vulgo partidos , especialistas na arte de enganar retóricamente os que sofrem de défice de bom senso e acreditam em histórias da carochinha e que há almoços grátis.

  4. É estarrecedor o estilo kadafiano destes enunciados axiomáticos, martelados facciosamente à Valupetas, qual sacerdote de verdades inquestionáveis – e para começar, só para começar, pela enormidade da primeira “oração”: “A raiva é uma das principais emoções que moldam o espaço político. E ela tem sempre o mesmo significado: impotência.”

    Mas ó rapaz isto quer dizer o quê? Espaço político de quem? Qual? Este? o Seu? O meu? Português? Líbio? Iraniano? Chinês? Francês? PCP? CDS? Público? Privado? Social? Partidário?

    Para o caso, o que é óbvio e nos quer fazer engolir à laia de catequismo subliminar, fruto de uma visão redutora e intelectualmente limitada, é que isso diz certamente respeito apenas aos seus adversários políticos. Apenas destes claro, com objectivos óbvios e directos; categorizados como seres movidos à base da emoção, em contraponto com a razão que o move a si e aos seus pares, para os tornar diminuídos e infantilizados como crianças, logo sem rudimentos básicos de auto-controlo.

    Esta visão tão pobremente simplista das dinâmicas complexas e multidimensionais dos muitos espaços políticos (o espaço político? o que é isso? o seu blogue e os cães de fila do aparelho? já pensou sobre a complexidade da questão?) pretendem explicar que quem não é por nós é contra nós e não presta. São impotentes para realizar o substancial, apenas acessível a homens da política, como os senhores do governo e do PS, porque, ao contrário de toda a oposição pateta e raivosa, estes estão tomados de clareza e lucidez -não possuídos por sentimentos de raiva que enferma toda e qualquer racionalidade e retórica a sério – logo menos confiáveis e potentes. Logo não prestam e impotentes.

    E podíamos continuar por ai fora neste arrazoado de baboseiras, paranóias e mentiras perigosas apresentadas como verdades sem discussão. Você é um pandego que não se
    olha ao espelho e está convencido que está a procriar/gerar algo de original. Mas o que eu vejo são ejaculações para os pés. Mas se quiser eu continuo a desmontar esse texto básico de labreguices com ar de intelectualidade ou ensaio político original, porque é tão básico que nem dá luta.

  5. Jorge Sousa Martins, quero sim. Fica por aqui a desmontar os textos e a deixar as tuas relevantes mensagens. Já sabes que é à borla, aproveita. Não te quero é a andar na rua sozinho, sabe-se lá que distúrbios ainda arranjavas na vizinhança.

  6. Duas discrepâncias (palavra que não deriva do étimo Crespo) :

    1. Na raiz ideologica, tanto do PCP como do Bloco, esta o combate à vacuidade do espirito utopico. Admito, no entanto, que nem sempre eles se mostram à altura, nem bem cientes das suas raizes.

    2. Quanto ao PSD e ao CDS, gostava que tivesses razão ! Mas, infelizmente, desmentindo a tua conclusão, excluis liminarmente, sem a examinar, a hipotese que não se trate de odio mas, muito mais simplesmente, de satisfação…

    Boas

  7. O Post do Val é tão oportuno, que teve logo reacção de alguns recalcados! Tens razão, eles andam raivosos porque se sentem e são impotentes! É que não lhes basta o controlo da comunicação social para se chegar ao pote. Têm medo de ficar mais uns anos longe da manjedoura!

  8. Claramente um daqueles posts em que só se imagina o Val a entediar-se e a pensar “e que tal uma provocaçãozinha, um pequeno coçar na ferida, para os ouvir guinchar”? E pronto…too easy, though…

  9. “Níveis excessivos de raiva à solta, contida durante um tempo prolongado, podem provocar em quem os ostenta prejuízos irreversíveis, nos domínios emocionais e neurológicos” (Dr. Bayard). Por outras palavras, sente-se por demasiado essa raiva impotente à solta, em diversos meios sociais nacionais, e sabe-se que esse sentimento desvairado é dolosa e conscientemente induzido na opinião pública pelos detentores dos poderes sociais, económicos e culturais portugueses.

    Num tecido social cívicamente débil e intelectualmente pobre, esta inoculação premeditada de doses cavalares de raiva impotente deveria ser considerada um crime público! Por menos do que isto se chegou, ainda há bem poucos anos, a uma guerra civil na Jugoslávia e, umas décadas antes, a uma outra aqui mesmo ao lado. E por algum motivo quiçá comparável, atentas as diferenças de contextos histórico e mental, se terá igualmente um dia despoletado tragédia similar no território português, está para breve a “celebração” do seu bi-centenário. Talvez seja boa altura para reflectir (e, talvez, também para refletir…) neste importante tema nacional…

  10. Hmmmm, continuo discrepante, ainda que ligeiramente…

    Decreta-la crime publico ? Assim sem mais nem menos ? E que tal, antes, pôr, ainda que de forma absolutamente fictiva e provisoria, a hipotese que se deva ao fracasso, ou antes aos insuficientes resultados, alcançados pela governação ?

    No politically correct, I know mas acho que a Edie não deixa de ter uma certa razão (melhor dizendo, de ser susceptivel de ter capturado parcialmente um pouco da realidade que subjaz à resolução do problema). Como é que ela diz ?

    Too easy, though…

  11. sabes, só há uma raiva que eu gosto e que nunca é demais e que quando vem não faz por menos: a espuma que o mar despeja é, em estado puro, a bílis salgada.:-)

  12. Mas qual é o grande «equívoco» (ou melhor, a grande manipulação) neste post do Valupetas? É a ideia de que a razão, ou a racionalidade, está desligada das emoções, dos interesses, dos valores ou do que quer que seja. Nessa medida não há uma razão pura ou única, nem retóricas neutras, como pretende a socretinice dualista do Valupetas. Há diversas racionalidades e por isso vários discursos. Aconselho-te a leitura do livro «Investigações filosóficas» do Wittgenstein «II», para pensares melhor nas coisas antes de escreveres.
    O discurso socretino, por exemplo, é, como se vê, um discurso limitado, próprio de robots que só dizem aquilo para o qual foram programados. Desligados do mundo real, da vida, das emoções, dos principios ideológicos, limitam-se a repetir o que o chefe lhes transmitiu, a propaganda socretina. De qualquer forma não deixa de ser um «jogo de linguagem» ou discurso com uma racionalidade subjacente, que neste caso concreto, e como já foi dito, é a racionalidade caracteristica de quem tem propósitos manipuladores. Só que como é próprio dos robots, ou da chamada «inteligência» artificial, os socretinos não têm consciência do que repetem ou papagueiam, e por isso mesmo nem têm consciência de si mesmos, do que são. Não sabem que são artificiais, lá está.

  13. Logo, os socretinos não sabem que são artificiais mas o DS sabe porque é. Logo, os socretinos são artificiais por ignorância mas o DS é artificial por convicção.
    Afinal, citou Wittgenstein apenas como argumento de autoridade pois, pelo discurso de senso comum acima, não se vê que tenha aprendido a pensar com o filósofo.

  14. Adolfo, se tu nem consegues dominar o básico da «lógica aristotélica» (apesar desses «logos» todos), é escusado tentares dar a ideia de que, tu sim, aprendeste alguma coisa com o Wittgenstein: nem com o «II« nem com o «I», pois está visto que as tuas «tabelas de verdade» não se constroem seguindo as regras lógicas mais básicas…

  15. Caro “joão viegas” (se é que se mantém inalterado – vive em França, certo?),

    continuo muito atento às suas provocações (positivas…), se bem que com diminuto tempo para as réplicas.

    Presumo que possa estar bem informado sobre a realidade social e mental portuguesa dos dias que vivemos, apesar de “éloigné” da Pátria, por isso é-me difícil descortinar o motivo pelo qual conclui que o excesso de raiva impotente, que se detecta no ar, seja devida “ao fracasso, ou antes, aos insuficientes resultados alcançados pela governação”. Isso seria passar um atestado de ignorância extrema à opinião pública portuguesa, supondo que ela não está, e muito vivamente, consciente da profunda e estrutural crise internacional que atravessamos. Está, sim, pode ficar descansado.

    Agora, eu poderei é tê-lo interpretado mal e você ter querido dizer que essa raiva provém da convicção, correcta ou inoculada, de que os efeitos da crise possam estar a ser agravados pela má governação. Ora bolas, mas isso não faria sentido, pois nesse caso a raiva seria sentida apenas, naturalmente, por quem se opõe ao actual Governo, que contudo resulta de eleições legislativas muito recentes (e que baixou em muito os níveis de contestação social sofridos pelo anterior, sobretudo em sectores-chave como a Educação, a Justiça e a Saúde). Logo, se é esse o seu argumento, não faz à partida muito sentido. A menos que o sentimento de rejeição ao Governo, entre os que não o apoiam, tivesse no último ano e meio subido muito mais do que o sentimento de agrado daqueles que o apoiam, o que pode ter de facto ocorrido, mas não passa de uma mera hipótese inconclusiva, ou especulativa.

    Em todo o caso, admitindo à partida como igualmente plausível a minha hipótese contrária, a de que o sentimento de raiva impotente é induzido, dolosa e conscientemente, na opinião pública mais frágil – ignorantes, quase-analfabetos, iletrados, inumerados, preguiçosos mentais, etc. – pelos mais poderosos e influentes meios de comunicação de massas nacionais – televisões mercantis, tablóides, semanários “de intervenção” e jornalhada gratuita -, fazendo insidiosamente crer que O PRINCIPAL RESPONSÁVEL PELO INCUMPRIMENTO QUER DAS PROMESSAS ELEITORAIS RECENTES, QUER DAS MAIS DIVERSAS EXPECTATIVAS GERACIONAIS (económicas e não só) E, MAIS FUNDO AINDA, DAS ESPERANÇAS HISTÓRICAMENTE ASSOCIADAS AINDA ÀS CONQUISTAS DO 25 DE ABRIL, É APENAS E EXCLUSIVAMENTE O PRIMEIRO-MINISTRO ACTUAL, com absoluto prejuízo para o rigor histórico, o dever deontológico de informar com qualidade e isenção e a obrigação moral de neutralidade cívica e política, parece-me que a minha metáfora de tudo isso configurar uma espécie de crime público, ao nível ético, não é de todo descabida.

    O João Viegas, que é especialista na matéria, sabe muito bem que o incitamento à violência e ao crime podem ser criminalizados. Não “assim sem mais nem menos” (penso que já lhe dei motivos para ir um pouco mais além no seu juízo sobre a minha intervenção aqui e noutros “blogues”), como é óbvio, mas nos termos em que tal é feito em diversos Países civilizados, nomeadamente da União Europeia.

    Porque a linguagem e a atitude do combate político em Portugal no espaço público já ultrapassa muito o domínio do razoável e do psicológicamente sustentável, incorrendo já quanto a mim nessa categoria de paroxismo em que o “balde de água fria” penal pode ser a única forma de não se transporem limiares muito perigosos e de desfecho imprevisível. Sobretudo e em primeiro lugar para a saúde mental dos portugueses.

    E esse pretensioso “Too easy, though” parece-me um comentário demasiado fácil para rematar a complexidade e gravidade da situação aqui abordada neste texto do Valupi…

  16. joão viegas,

    essa divagação que fizeste com boleia nas minhas palavras, para lhes distorcer o sentido, tem piada como brincadeira manipulatória, mas mais nada. Como não te ofereci boleia, agora ficas com esta:

    “Em geral as pessoas que se perdem em pensamentos é porque não conhecem muito bem esse território.”

    (Millor Fernandes)

  17. Caros Marco Alberto Alves e Edie,

    Não tenho jeito para debater culpas ou para aplaudir anatemas. Admitindo que queixas possam ser infundadas, julgo que a pior maneira de se lhes responder consiste em disqualifica-las à partida, em vez de procurar avaliar em que medida elas podem ou não ter algum mérito.

    Continuo pois a pensar que a questão se deve pegar pelos dois pontos mencionados no meu primeiro comentario…

    Mas estou inteiramente disposto a examinar as razões (que v. me hão de explicar), que permitem diferenciar o conteudo deste post do Valupi da raiva que ele pretende criticar nos seus opositores, razões que confesso não identificar muito bem…

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