Mundo português

O Museu de Arte Popular é uma dupla, ou tripla, cápsula do tempo. Nesta edição do Encontros com o Património podemos começar a perceber porquê – e alguns até conseguirão fazer as pazes com António Ferro.

Para além da preciosa recuperação criativa-criadora desse Portugal do século XX que era bem maior (e muito melhor!) do que o Estado Novo, os amantes do ódio a Sócrates terão ainda o grande prazer de ouvir no final duas declarações panfletárias nesse sentido. Espero é que alguém na TSF seja despedido, pois não são toleráveis estas falhas de segurança.

Um livro por semana 220

«Deixem passar o homem invisível» de Rui Cardoso Martins

Vencedor em 2009 do Grande Prémio Romance e Novela da APE, o título sugere uma ligação irónica entre o poema de Miguel Torga e a fala de rua de alguém a confundir «invisível» com «invisual». Portugal é (sabemos) um país de analfabetos, situação que alastra a algum jornalismo: «As televisões primeiro disseram que parecia uma jovem com perturbações mentais. Mas pediram desculpa porque era a mãe do menino». Mas, é claro, não era tal. O menino era um dos protagonistas da história: «Espetados na terra húmida estavam a bengala de um cego e um sapato de criança». O outro é António, advogado invisual que avisa o menino: «Se sairmos daqui vivos e alguém quiser a nossa história é um thriller de acção psicológica de esgoto». Ao invés do «Livro de Bordo» de Cardoso Pires que viaja nas calçadas e miradouros, este é um livro de subterrâneos lembrando sempre as cheias de 1967: «Em cinco horas de chuva já havia cadáveres a boiar ali na Praça de Espanha. Numa aldeia do Tejo, perto de Vila Franca, metade dos habitantes morreu.» Quando tudo se repete há culpas divididas: autarcas, Governo, Protecção Civil, tudo falha. No acaso do encontro e da viagem no subsolo lisboeta, os dois descobrem que o seu destino já se tinha cruzado antes (num Tribunal) e que desta vez, no meio da escuridão dos esgotos, era a criança que o vinha salvar a ele, António. Nas histórias afluentes que emergem na viagem entre S. Sebastião e o Terreiro do Paço há tempo para recordar um livro («Coração») no qual um professor afirma que os cegos estão «como sepultados nas entranhas da terra». Mas de onde vão sair depois de ouvirem os «sinos da aldeia» de Fernando Pessoa, ali aos Mártires.

(Editora: D. Quixote, Capa: Rui Garrido sobre foto de Rui Ladeira)

A democracia é assim: Cavaco obrigado a promulgar a “lei da identidade de género”

Aquando do veto de Cavaco à chamada lei de identidade de género, ouviu-se pouco barulho à volta do que era mais uma manifestação da insensibilidade e da instrumentalização de um tema pacífico para fins eleitorais. Talvez porque muita gente adormecida tenha tido por normal a desculpa comunicada de umas falhas técnicas de que o diploma padeceria.

Bem, muito bem, esteve a AR ao não mudar uma vírgula à lei que acaba com o inferno da concretização burocrática do elementar direito à identidade pessoal.

O decreto foi confirmado com uma maioria alargada e, agora, nos termos constitucionais, o PR tem de promulgar o diploma.

Pode, claro, cumprir a sua obrigação com mais uma mensagem ao país mostrando-se incomodado com a democracia.

Talvez não o faça, se reflectir um pouco nos 8 dias que tem para tanto.

V9

As semelhanças com George W. Bush nesse aspecto são espantosas. PPC é um veículo para fazer passar as ideias dos outros, que alguém julgou que venderiam melhor com um packaging “jovem” e “moderno”.

E é neste ponto que é mais espantosa a total e completa falência intelectual de muita direita: alguma elite, encabeçada pelo Pacheco Pereira, entendeu que a melhor maneira de fazer damage control às medidas corajosas do governo e a uma óbvia eficácia do primeiro-ministro era procurar passar a ideia de que seriam apenas propaganda, marketing, era tudo falso, mentira. Invenções para enganar o povo. A ideia pegou em muitos círculos, não só pela nossa ainda enraizada tendência de desconfiar das boas novas, pela quantidade e velocidade de medidas e reformas que foram encetadas (muitas contra corporações que não estavam claramente habituadas a ser confrontadas), o que permitiu passar aquela ideia de “isto não pode ser verdade, devem estar a inventar”, pelo facto de muitas das medidas serem tomadas com horizontes a médio e longo prazo, logo sem resultados imediatos que se vissem, e finalmente, e ironicamente, pela inépcia comunicacional do próprio PS, governo e primeiro-ministro.

Resultado da estratégia: o PSD e a sua “politica da verdade” tiveram praticamente o mesmo resultado que em 2005, tendo o PS perdido a maioria para a esquerda.

Depois deste desastre, acho que houve muita gente na direita que, incapaz de perceber que a “politica da verdade” não passava de uma estratégia rasteira de criticar o governo sem criticar as medidas (a grande maioria das criticas era que as medidas não estavam realmente a ser tomadas, não que eram as medidas erradas), começaram a convencer-se que a ideia da “propaganda” era não só verdade, mas que pelos vistos resultava, que ganhava eleições, que o “propagandista” Sócrates era a prova que não era preciso ter ideias concretas, mas umas vagas, desde que fossem bem vendidas. E chegamos a este ponto, em que temos duas variantes da direita: a cínica que se convenceu que é preciso é enganar o povo, e a burra que se convenceu que o povo quer ser enganado. Spin puro, encarnado em Pedro Passos Coelho. Eis a herança de Pacheco. Espero que esteja orgulhoso.
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Abstencionistas do pensamento

Passos Coelho tem um problema assim um bocadinho para o aborrecido em quem pretenda fazer carreira como líder partidário e chefe de Governo: quando fala, desaparece. Quer-se dizer, as suas declarações levam a que metade da audiência adormeça e a outra metade deixe de estar acordada. O período de vigília no espectador não chega aos 10 segundos, não importando o assunto na berlinda. A sua oratória, de um convencionalismo soporífero nessa simulação oh tão artificial da gravitas, terá parte da responsabilidade, mas não é causa – a causa é o vazio de ideias. Se o seu discurso tivesse alguma relevância, mesmo que mínima, alguém iria interessar-se o suficiente para superar a barreira dos 10 segundos de atenção. E eu, que não tenho a pretensão de saber mais de política do que este antigo presidente da JSD, muito menos quero cometer a indelicadeza de lançar suspeitas acerca das suas capacidades intelectuais, culpo aqueles que o aconselham, sejam eles quem forem, pela sucessão de calinadas de palmatória desde que substituiu aquela senhora do abalozinho.
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Gazeta 216

ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco

CCXVI – «As cinco chagas de Cristo»

No dia em que eu nasci, terça-feira dia 13-2-1951, o calendário do Almanaque Bertrand assinala «As cinco chagas de Cristo». Não sou uma pessoa especial, sou apenas um dos 107.756 rapazes nascidos em 1951. Raparigas foram 100.114, casamentos 66.689, mortos masculinos 53.394 e femininos 52.079. A população era de 8.477.270 e os divórcios apenas 1.223. Era o tempo da «estrada de macadame» e Craveiro Lopes preparava-se para suceder a Carmona com Quintão Meireles a perder e Rui Luís Gomes fora da corrida. O Sporting Clube de Portugal conquistou o Campeonato Nacional da 1º Divisão á frente do F. C. Porto e do S. L. Benfica. Este, por sua vez, venceu a Taça de Portugal batendo a Académica no Estádio Nacional. Curiosamente os anúncios dos cigarros «Sporting» da Companhia Portuguesa de Tabacos inserem a imagem do Estádio Nacional em vez do estádio do Sporting. Uma distracção dos publicitários ou então a rejeição da foto do verdadeiro estádio do Sporting em 1950 que sempre existiu desde 1906 na Alameda das Linhas de Torres.
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