Um livro por semana 220

«Deixem passar o homem invisível» de Rui Cardoso Martins

Vencedor em 2009 do Grande Prémio Romance e Novela da APE, o título sugere uma ligação irónica entre o poema de Miguel Torga e a fala de rua de alguém a confundir «invisível» com «invisual». Portugal é (sabemos) um país de analfabetos, situação que alastra a algum jornalismo: «As televisões primeiro disseram que parecia uma jovem com perturbações mentais. Mas pediram desculpa porque era a mãe do menino». Mas, é claro, não era tal. O menino era um dos protagonistas da história: «Espetados na terra húmida estavam a bengala de um cego e um sapato de criança». O outro é António, advogado invisual que avisa o menino: «Se sairmos daqui vivos e alguém quiser a nossa história é um thriller de acção psicológica de esgoto». Ao invés do «Livro de Bordo» de Cardoso Pires que viaja nas calçadas e miradouros, este é um livro de subterrâneos lembrando sempre as cheias de 1967: «Em cinco horas de chuva já havia cadáveres a boiar ali na Praça de Espanha. Numa aldeia do Tejo, perto de Vila Franca, metade dos habitantes morreu.» Quando tudo se repete há culpas divididas: autarcas, Governo, Protecção Civil, tudo falha. No acaso do encontro e da viagem no subsolo lisboeta, os dois descobrem que o seu destino já se tinha cruzado antes (num Tribunal) e que desta vez, no meio da escuridão dos esgotos, era a criança que o vinha salvar a ele, António. Nas histórias afluentes que emergem na viagem entre S. Sebastião e o Terreiro do Paço há tempo para recordar um livro («Coração») no qual um professor afirma que os cegos estão «como sepultados nas entranhas da terra». Mas de onde vão sair depois de ouvirem os «sinos da aldeia» de Fernando Pessoa, ali aos Mártires.

(Editora: D. Quixote, Capa: Rui Garrido sobre foto de Rui Ladeira)

5 thoughts on “Um livro por semana 220”

  1. nice meu! despertaste-me a curiosidade para não ler o livro. desculpa lá oh martins, mas é o que dá quando somos promovidos por efluentes emergentes.

  2. É isso, somos separados à nascença. E ainda bem. O amónio é o que se põe na terra ao lado do estrume para fazer crescer as couves de sete semanas.

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