Gazeta 216

ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco

CCXVI – «As cinco chagas de Cristo»

No dia em que eu nasci, terça-feira dia 13-2-1951, o calendário do Almanaque Bertrand assinala «As cinco chagas de Cristo». Não sou uma pessoa especial, sou apenas um dos 107.756 rapazes nascidos em 1951. Raparigas foram 100.114, casamentos 66.689, mortos masculinos 53.394 e femininos 52.079. A população era de 8.477.270 e os divórcios apenas 1.223. Era o tempo da «estrada de macadame» e Craveiro Lopes preparava-se para suceder a Carmona com Quintão Meireles a perder e Rui Luís Gomes fora da corrida. O Sporting Clube de Portugal conquistou o Campeonato Nacional da 1º Divisão á frente do F. C. Porto e do S. L. Benfica. Este, por sua vez, venceu a Taça de Portugal batendo a Académica no Estádio Nacional. Curiosamente os anúncios dos cigarros «Sporting» da Companhia Portuguesa de Tabacos inserem a imagem do Estádio Nacional em vez do estádio do Sporting. Uma distracção dos publicitários ou então a rejeição da foto do verdadeiro estádio do Sporting em 1950 que sempre existiu desde 1906 na Alameda das Linhas de Torres.

O Almanaque Bertrand de 1951 revela-nos o esplendor do efémero: um ano depois de Pierino Gamba que se deixou fotografar com os Cinco Violinos do SCP, esteve em Lisboa, em Abril de 1950, Roberto Benzi, de apenas 11 anos, a dirigir a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional. O calendário serve, por exemplo, para perceber que o meu nascimento coincidiu com a lua em quarto crescente. Houve lua nova a 6, lua cheia a 23 e quarto minguante a 28. O apogeu lunar foi em 15-2-51 às 10 horas, o perigeu tinha sido a 3-2-51 às 15 horas. O primeiro domingo da Quaresma tinha sido a 11-2-51 e a Páscoa foi a 25-3-51. A Pascoela foi a 1 de Abril, dia da festa na Granja Nova.

Para a malta nova, que não sabe, um almanaque era um livro onde, além de palavras cruzadas e de charadas, paciências, provérbios e outros passatempos, se publicavam anedotas e obituários, fotografias e crónicas de viagens. E também literatura. O do meu ano tem, entre outros, textos de Alexandre Herculano, Aquilino Ribeiro, Cabral do Nascimento, Maria de Carvalho, Olavo Bilac, Óscar Ribas, Pedro Homem de Melo e Vasco Matos Sequeira. Por isso mesmo o Almanaque Bertrand, coordenado por M. Fernandes Costa, tem o subtítulo de «Secção Literária, Científica, Artística e Recreativa». A «Festa Redonda» de Vitorino Nemésio custava 25 escudos e hoje pedem-nos 100 euros por ela num alfarrabista. É um dos livros da minha vida mas outros autores são publicitados no Almanaque: Alexandre Herculano, Aquilino Ribeiro, Carlos Malheiro Dias, João de Deus, Raul Brandão, Venceslau de Morais, Teixeira de Pascoais, António Botto e Camilo Castelo Branco. E também autores estrangeiros como Jules Verne. A propósito de literatura, pó e posteridade, Aquilino Ribeiro conta uma história deliciosa numa coluna intitulada «Vaidades literárias»: «No Chiado vi eu quanto a glória é restrita. Aconteceu-me entrar numa farmácia e encomendar um remédio, cuja manipulação exigia certo tempo. Dei o nome. O praticante, se não era já farmacêutico diplomado, pegou no lápis e, com ele em cima do papel, proferiu com seriedade não fingida:

Aclino… escreve-se com c ou com q de haste?

Como queira. Todos os caminhos vão dar a Roma. Escreva com k que dá o mesmo.

Não me admira. Na Rua Cadet encontrei a mulher dum antiquário que nunca tinha visto a Torre Eiffel.

Nem por cima dos telhados? – observei eu.

Olhe, nunca reparei.»

As cinco chagas de Cristo ficam, afinal, para outra crónica.

19 thoughts on “Gazeta 216”

  1. Transcrever pormenores do Almanaque Bertrand de 1951, por ter sido o ano do seu nascimento, no dia 13 de Fevereiro (o azar já se anunciava), foi aquilo que fez o autor deste post. A efeméride exigia registo condigno. Daí, ficarmos a saber coisas importantíssimas, como, por exemplo: quantos meninos nasceram nesse ano e quantas meninas, quantos morreram, entre homens e mulheres, quantos deram o nó, quantos se divorciaram, etc. etc… Com estas e outras banalidades se entretêm a passar o tempo os priviligeados que pediram a reforma aos 46 anos. Só faltou dizeres quantas vezes ao dia te mudavam a fralda, quantas vezes te punham a chupeta e quantas vezes te davam de mamar – jeito que te ficou desde essa altura, naturalmente…

  2. Este «pobre» aqui de cima nem percebeu que os dados da natalidade de 1951 foram repescados do Instituto Nacional de Estatística pois os Almanaques de um ano são sempre feitos no ano anterior e não podem incluir os números do «seu» ano. Tão «pobre» que nem percebeu a beleza, o insólito e a lucidez da bem curiosa história contada pelo mestre Aquilino: mesmo numa farmácia ao lado da Bertrand o praticante não sabia sequer escrever o seu nome.

  3. Não, não foi para falar na «beleza (???), no insólito e na lucidez da bem curiosa história do Aquilino» que escreveste o post: foi para falar de ti, para contar a TUA HISTÓRIA, pá! Para apregoares que estiveste em Paris, na rua Cadet! A cagança do costume… Agora se não foi ao almanaque que foste buscar os dados, para mim, é igual; mais me ajudas: não te falta tempo para teres a pachorra de ir «repescar» os dados do Instituto Nacional de Estatística. E se o praticante de farmácia, em 1951, não sabia escrever, mais escandaloso é tu não saberes escrever em 2011!

  4. Trambolho analfabeto – a história de Paris é obviamente do Aquilino Ribeiro. Não percebeste, é natural. E pára com isso de «não saber escrever» – não vale a pena repetir; o que tu dizes não conta para nada.

  5. Ah! a história de Paris é do Aquilino e vem no almanaque?! Do modo como a transcreves, está muito pouco explícita, como vai sendo hábito nos teus escritos. Para a próxima, não uses o itálico de mistura com a caixa baixa. Podias também incluir a frase: «E Aquilino acrescenta:» E, aí, contavas a segunda história! Sim, porque tu referes que «Aquilino Ribeiro conta uma história deliciosa». Afinal são duas: a do farmacêutico e a da mulher do antiquário! Pouca agilidade na tua escrita dá nestas confusões. Aprende, porque eu não duro sempre! Por isso, não retiro o que escrevi quanto ao farmacêutico não saber escrever em 1951: é mais grave o teu caso. Não saberes escrever em 2011!

  6. não saber escrever, não é grave, pode meter explicador ou recorrer a outsourcing. a falta de inteligência é que não tem remédio.

  7. É preciso ser muito estúpido para passar ao lado das coisas mesmo interessantes… Não viram por exemplo uma situação curiosa – o maço de tabaco «Sporting» tem o Estádio Nacional na embalagem. Isso é que é curioso mas os trambolhos não conseguem ver. Estão no pavilhão dos ceguinhos.

  8. cegueta és tu, a diferença está nas beatas e não nos cinzeiros. querem ver que a marca sporting era exclusivo do teu clube e o acesso à restrito nicotina aos atletas e sócios com as quotas em dia.

  9. Grande calhau – então a marca é «Sporting» então a foto é do Estádio Nacional e tu, grande bruto, consideras isso normal??? Como se disse mais tarde – «Os publicitários são uns exagerados!»

  10. Também do arco-da-velha é o facto de hoje se festejarem 8 anos do programa «Inter Ilhas» na RDP Açores onde tenho uma crónica semanal. Entrei em directo na emissão às 11h 45m e falámos de tudo um pouco mas foi pena não ter tido tempo para lembrar os pioneiros da rádiotelefonia – Edison, Marconi e Fleming com Lee De Forest e o seu «audion» de 1904 onde Enrico Caruso cantou em directo no ano de 1906. E as estações de rádio de Detroit e Pittsburgh e as eleições presidenciais de 1920 em directo. Mas o noticiário da 12 (lá) aproximava-se…

  11. olha lá oh poeta! o edison agradece, o morconi pede desculpa de não ter estado presente e os outros pedem que fiques lá acores que aqui já nem a preto & branco.

  12. Caraças de farsola, este tipo! A trombeta a anunciar ao povinho o feito heróico de sua Exª ter «entrado em directo, pelas 11h e 45 m, na RDP Açores, onde tem um programa semanal»! Então não é que este tipo está sempre a pedi-las?! Depois, os comentadores é que o insultam e são raivosos. Se ele for tão bom na Rádio como é aqui, podemos imaginar! Só há uma coisa a favor: lá não tem comentadores, está à-vontade para despejar o intelecto de pacotilha, de almanaque, de gasetilha, de enciclopédia etc. e tal. Não consegue ter um pingo de dignidade e deixar que os outos falem por ele, sem ser ele a alardear o «intelectual» que, afinal, gostaria de ser, mas não é!

    Hoje o Joca está de folga!

    amónio; achei-lhe graça!

  13. Primeiro entrar no google depois escrever RTP; aparece em cima a palavra «Radio» na barra azul e dentro dessas rádio surge a RDP-Açores. Clicar e procurara o programa Inter Ilhas. Qualquer dúvida telef. 296201100. RTP quer dizer Rádio Televisão de Portugal.

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