28 thoughts on “Zôon politikón”

  1. Em Portugal não sei.

    Em minha casa (portuguesa), por referência às primeiras manifestações da distinção, logo a seguir à revolução francesa, reputa-se de esquerda quem pugna pela igualdade efectiva entre as pessoas : igualdade política (cidadania), igualdade económica (redistribuição da riqueza), igualdade moral (respeito da liberdade e da dignidade da pessoa humana).

    Em contrapartida, situa-se à direita quem se contenta com uma proclamação no papel da tríade liberdade-igualdade-fraternidade, na qual vê essencialmente uma metáfora destinada a ilustrar a fatalidade da ordem pré-existente, ordem que pensa só dever ser modificada marginalmente e formalmente, de maneira a que tudo fique na mesma. Esta visão direitista das coisas esconde-se por detrás da sacralização de ideias (mal) feitas : a « liberdade individual » (que assenta num contra-senso e serve de disfarce ao egoismo puro e simples) e a « propriedade privada » (expressão barroca de muito difícil entendimento, que se procura fazer passar por um pleonasmo).

    A linha de separação situa-se, quanto a mim, na exigência de efectividade, ou seja na vontade de ver realizadas concretamente as ideias abstratas que temos sobre o que deve ser a sociedade.

    Curiosamente, penso que esse é precisamente o ponto mais desprezado, sobretudo em Portugal.

    Finalmente, a nível do discurso, julgo que a maioria das pessoas de esquerda admite que a distinção terá nascido com a revolução francesa, precisamente acerca das questões levantadas pelo cumprimento do seu programa. Pela parte que me toca, tenho muitas dúvidas a esse respeito. Julgo que a ideia já vem de longe e que se enraiza nas reflexões dos antigos em torno da justiça (uma espécie de igualdade, dizia Aristóteles), e talvez também numa arte essencialmente prática inventada pelos Romanos, a que chamaram arte jurídica.

    Qualquer semelhança entre as considerações expostas acima e em discussões passadas com o Valupi é pura coincidência…

  2. Os de esquerda são os que se encontram agora confortávelmente no centro. Os de direita seguem esta aproximação com uma expressão de enlevo.

    (É claro que existe outra esquerda, mas não há partido algum suficientemente íntegro para os poder representar).

  3. joão viegas, elaboraste dentro dos clichés. Por exemplo, a direita pode querer reformas contra o desejo conservador da esquerda. Veja-se o conflito à volta do papel do Estado.
    __

    Morto de Riso, de que outra esquerda falas?

  4. Ai, Valupi.

    Era bom leres antes de comentar. Eu não disse, nem penso, que se trata de uma questão de “conservadorismo” em abstrato, mas apenas em relação à questão que permite a verdadeira separação das aguas, que é da igualdade efectiva.

    Outra questão é dizer que a direita burguesa moderna também nasce da revolução, o que implica que ela traz alguma melhoria (incompleta, insatisfatoria), sob o manto de uma modificação formal da ordem social.E também pode suceder que as forças que se reclamam da esquerda sejam contra-producentes e que acabem, de forma paradoxal, por favorecer a restauração de desigualdades tipicas da ordem antiga.

    Por isso mesmo considero que existem dois principios fundamentais :

    – O discurso da direita burguesa (por exemplo o liberalismo economico) deve ser tomado muito a sério, e não diabilizado estupidamente, pois ele implica sempre uma parte de cedência, ou seja em termos rigorosos “uma ponta por onde se lhe pegue” ;

    – as pulsões da esquerda devem ser juguladas pelo realismo, sob pena de se tornarem cumplices dos piores retrocessos.

    Se foi isto que quiseste dizer (mas que não disseste) no teu comentario, concordo.

    O que me interessa é que a esquerda se define, quanto a mim, a partir desses dois principios, que a direita não subscreve senão formalmente (negando o segundo termo) : IGUALDADE EFECTIVA.

    You know better than that…

  5. Mas o liberalismo de direita também defende a igualdade efectiva, homem. O debate situa-se na definição dos conceitos. Para essa esquerda que descreves, a igualdade seria a jusante, para a direita, a montante.

  6. Como sempre se identificou: quem é de Direita abomina a Igualdade e está-se nas tintas para a Justiça, preferindo sempre o privilégio e o preconceito; quem é de Esquerda bate-se pela Igualdade, mesmo que isso possa não ser justo, mas abomina o privilégio e o preconceito.

    Contudo, já que a Esquerda e a Direita não constituem lugares, mas tonalidades, admitindo matizes e intensidades distintas, há que acrescentar que existe uma larga faixa de intersecção entre as formas mais suaves das duas, onde se situam aqueles que prezam acima de tudo a Justiça – mesmo que isso possa adiar a Igualdade! – e a elevam sempre a fiel do julgamento sobre o privilégio e o preconceito! Esse “lugar” é tão ou mais vasto do que a Esquerda e a Direita juntas, embora menos apelativo emocionalmente, e chama-se o Centro.

    (apaguem o comentário anterior “gralhado”, por favor)

  7. pela mao que usam para roubar , se usarem a esquerda sao de esquerda , se for a direita sao de direita. os de centro sao ambidestros. todos os contribuintes sabem isso…

  8. Bom Valupi, vejo que afinal sempre leste o que eu escrevi.

    Mas estas enganado, redondamente enganado. A direita não defende a igualdade efectiva. Concedo que às vezes usa o argumento de forma retorica (por exemplo na teoria economica), mas quando vais ver de perto, verificas sempre que a direita não quer a igualdade efectiva.

    Ela concorda com a igualdade de principio, abstrata, ideal. Por exemplo assina de olhos fechados a lenda que reza que os homens nascem todos livres e iguais (o que é uma completa fantasia). Mas de cada vez que se fala em medidas concretas para restabelecer a igualdade na pratica, por exemplo nas dimensões que disse acima (politicamente, economicamente, moralmente) a direita é contra. Ela concorda que a tia Ermelinda, que nasceu na Beira Trasmontana para lavrar a terra e levar pancada do marido NASCEU livre (no papel) e igual a ti , caro Valupi, que és um produto urbano muito refinado e também a mim que sou outro. Mas experimenta imaginar medidas que façam com que ela tenha tantos bens como tu, e tantos poderes, e tantos beneficios, e vais ver que as pessoas de direita acham todas que tais medidas são contra natura.

    Ora bem, eu sou de esquerda enquanto acredito que não sou mais, nem menos, do que a tia Ermelinda e que não mereço menos, nem mais.

    Podes andar à volta com a questão o tempo que quiseres. Vais sempre chegar à conclusão que a diferença entre esquerda e direita esta aqui.

    Mas que é uma boa pergunta, em Portugal em 2011, é claro que é…

  9. Marco Alberto Alves,

    So agora li o seu comentario. Concordo mas falta acrescentar que a existência da zona cinzenta remete, unicamente, para uma questão de eficacia, que é a prova de realização das intenções. Nenhuma ordem se consegue modificar senão a partir das forças que fazem o seu equilibrio. Portanto é natural que a esquerda autêntica seja realista, ao mesmo tempo que é compreensivel que as forças conservadoras se apoiem, também elas, nas forças que a sustentam.

    A arte de compôr com isso chama-se politica. Faz-se sempre ao “Centro” assim entendido mso que, felizmente, tende sempre para o fazer evoluir. Umas vezes a bem, outras a mal. Mas sempre com realismo.

    O que é complicado, hoje como sempre, é distinguir a arte politica da arte circense, que lhe anda associada em virtude de um princpio antigo, realista, que diz que o homem não vive apenas de pão…

  10. Nunca é tarde para ler, nem para aprender. Duas frases bem interessantes nos teus comentarios, Valupi :

    1. “Veja-se o conflito à volta do papel do Estado”. Veja-se, aprofunde-se, e procure-se discernir os diversos entendimentos que podem ter as palavras “Estado” e “papel”. Não sei bem ao que te referes mas, posto que o explicites, tenho a certeza de poder seguramente indicar-te onde é que fica a esquerda, e onde é que fica a direita.

    2. “Para essa esquerda que descreves, a igualdade seria a jusante, para a direita, a montante.” Nem mais, Valupi, nem mais. Por onde se percebe em que medida é que a revolução francesa pode ter sido importante na definição de “esquerda” e “direita”.

    Outra definição, por conseguinte, que me parece ir dar no mesmo mas que tem o mérito de utilizar as tuas proprias palavras : “a esquerda e a direita definem-se como uma forma de tomar posição, na assembleia (que neste caso é também um simbolo), perante uma promessa que corre o risco de revelar-se um logro”.

    Fim da minha (longa) hora de almoço.

  11. joão viegas, por Estado entenda-se a estrutura que regula a vida comunitária, e por papel a tipologia da sua intervenção. Assim, o debate usa as fórmulas “mais Estado” e “menos Estado” para indicar os modelos conflituantes.

    Não foi a Revolução Francesa que estabeleceu, conceptual e ideologicamente, a dicotomia entre esquerda e direita. Por exemplo, não encontrarás nenhum republicano de direita que renegue os principais valores e ideal da Revolução Francesa.
    __

    Marco, o inquérito está muito fixe – e muito norte-americano.

  12. Ola,

    Muito rapidamente :

    1. Se é assim, então parece logico a esquerda querer “mais Estado” (ou, como se diz agora, “melhor Estado”). Mas a definição de “papel” requer mais subtileza. Por exemplo, a teoria economica neo-liberal radica em parte numa critica que nasce da interrogação sobre a eficacia do Estado utilizar “papel” (de maneira alegadamente exclusiva, ou principal).

    2. Tenho pena mas, historicamente, a distinção vem mesmo da Revolução francesa. Vê por exemplo o que dizem aqui : http://en.wikipedia.org/wiki/Left-wing_politics#History_of_the_term. Repara que eu não tenho nenhuma dificuldade em conceder que a direita burguesa se identifica com os “ideais” da Revolução francesa. Digo é que ela so os quer na medida em que permanecem ideiais. Não aceita que eles devam, ou possam, realizar-se efectivamente. Precisely my point.

    3. Fiz o teste do Marco e deu que eu era “liberal (left)”. Não sei se quoderatdemonstrandume(*) a partir do meu resultado, mas noto com interesse que a esquerda é, para os anglo-saxonico, “liberal”. Mais uma prova de que estamos a falar duma questão de “propriedade” no uso da palavra “liberdade”. Curiosamente, os anglo-saxonicos não perderam completamente a noção de que ela esta initimamente ligada à questão da igualdade…

    Boas

    (*) Do verbo quoderatdemonstrandumar, que me dispenso definir porque tu és um produto urbano refinado, que até tem dicionarios em casa e tudo

  13. @João Viegas, o teste não é “meu”, só achei interessante trazê-lo para a discussão.

    Quanto à “liberalidade”, os norte-americanos fazem a distinção entre liberalismo económico e liberalismo social (drogas, minorias, serviço militar, essas coisas), e penso que é a esse que se referem com o “liberal (left)”.

  14. Que raio de pergunta, ó Valupetas! Mas isso ainda existe? A esquerda e a direita? Então tu já não «nos» explicaste que o espectro político é constituido apenas por «imbecis» e «ranhosos», a que se acrescenta o centrão aldrabão e esquizofrénico de que tu fazes parte? Aliás, basta reparar numa das tuas intervenções para confirmar como a aldrabice e a esquizofrenia são, de facto, o que melhor caracteriza o discurso de tipos como tu. Serves-te de uma cassete de direita (mais concretamente da cassete liberal) para determinares que no que diz respeito ao Estado e às suas funções quem é de esquerda é conservador e que quem é de direita é reformador (ou «progressista», sabe-se lá, não é Valupetas?). O que esta tua manipulação barata revela é a confusão ideológica própria de quem papagueia o discurso do poder e que é incapaz de pensar para além dos soundbytes da propaganda ou do momento. Aliás, tendo em conta esta tua classificação «original» o que se pode concluir do posicionamento político do Pinto de Sousa, dizendo-se ele um tipo «moderno» e «reformador»? Pois é… não é Valupetas?
    Portanto até tens razão num ponto: é preciso definir claramente os conceitos e saber quem os define, pois dessa forma percebe-se melhor que por detrás destes conceitos tão «actuais» e tão «esclarecedores» (como «ranhosos» e «imbecis», ou «reformador» ou «conservador» – de quê e para quê é o que importa esclarecer) se escondem as mesmas ideologias de sempre. No caso do centrão aldrabão e esquizofrénico pode-se assim concluir que todo o discurso à volta das «reformas» apenas visa promover a crescente neoliberalização da sociedade. Mas claro, como há quem goste de mascarar a realidade e as suas práticas (como é o caso do Valupetas e do Pinto de Sousa), a «neoliberalização» em curso tem outro nome: chama-se agora «responsabilidade». Daí que hoje em dia, em Portugal, e segundo o manual de teoria política aldrabão, ser-se de esquerda é ser-se irresponsável (ou «imbecil», segundo o outro manual aldrabão) e ser-se de direita é ser-se anti-patriota (ou «ranhoso», segundo o outro manual aldrabão). E ser-se nada, um pau-mandado, ou aldrabão é ser-se «responsável» e defensor do superior «interesse nacional».

  15. joão viegas, a distinção “conceptual e ideológica”, tal como hoje a entendemos e a aplicamos aos partidos políticos, não nasce na Revolução Francesa. É algo posterior, dos finais do século XIX e estabilizada no começo do século XX.

  16. Valupi, estaras a tentar ser mais teimoso do que eu ? Olha que não consegues…

    Eu nunca disse que a diferença entre esquerda e direita, tal como a concebemos hoje, tem a ver com a maior ou menor adesão aos ideais da Revolução francesa.

    Digo antes que ela se refere aos dois lados da assembleia (salvo erro da Convenção) quando se debateu o direito de veto do rei. Ora a questão consistia em saber se o direito de veto era ou não compativel com a realização dos ideais proclamados a seguir à tomada da Bastilha.

    Nessa discussão todos se identificavam (alguns talvez com hipocrisia, mas adiante) com os ideais da Revolução, mas uns satisfaziam-se com uma situação em que esses ideais não passavam disso mesmo (ideias, papel), enquanto outros exigiam mais…

    Não é por acaso – e esta longe de ser inocuo “conceptual e ideologicamente” – que este episodio serve de referência, ainda hoje, para definirmos o que designamos por “esquerda” e “direita”.

    E ja agora uma nota para o Marco : a distinção entre o sentido “economico” e “politico” não tem grande cabimento. Nessa matéria, remeto-o para a dificuldade que apontei logo no meu primeiro comentario acerca da sacralização da “liberdade individual”.

    Os anglo-saxonicos sabem, e experimentam todos os dias na sua terminologia, porventura mais rigorosa do que a nossa, que a liberdade não se confunde com o egoismo. Que alguns economistas, anglo-saxonicos e outos, optem deliberadamente por ocultar o problema, não é um problema especificamente anglo-saxonico, mas um problema que tem a ver com a nossa reverência idiota em relação à “economia”, com a sua pretensão a ciência e a ignorância que permite que esqueçamos que ela nasceu, e nunca deviar ter deixado de ser, “economia politica”…

    E agrora, atrevam-se a discordar, atrevam-se !

  17. joão viegas, tenho novidades para ti: estamos na Internet! Quer dizer que a reprodução da informação disponível é ainda mais redundante. Acontece que começaste por dar o exemplo da Revolução Francesa logo no teu primeiro comentário, onde justificavas um argumento relativo ao presente, daí esta pequena troca de galhardetes. Contudo, se queres apenas realçar as origens históricas do eixo esquerda-direita numa assembleia, tens de ir um bocadinho mais atrás e sair de França.

  18. Valupi, quando saíres de França à procura do sentido esquerda / direita pára aí por volta da queda do império romano do ocidente e fala com o amigo Agostinho, o pobre não conhecia a gravidade para além do que caía no chão e se era de quebrar, quebrava.

    O bom do Agostinho tinha um problema idêntico ao teu, porque existiam corpos que não iam ao fundo mas também não flutuavam, acreditava que havia uma relação, e na realidade havia, só que ele não sabia, julgou que seria amor entre o sólido e o líquido, estava errado mas não muito.

    A solução do teu problema pode ser este: é de esquerda um tipo de direita quando há uma revolução de esquerda, e é de direita um tipo de esquerda quando um ditador toma o poder.

    Kápix

  19. Vivi em Vila Franca de Xira entre 1961 e 1966 num Bairro (Bom Retiro) vizinho do colégio Sousa Martins. Esquerda eram os meus colegas da Escola Comercial/Industrial cujos pais estavam presos em Caxias; direita eram os pais de muitos alunos do colégio que vinham do Alentejo ao fim de semana e diziam uma palavra de arrepiar – «criadagem». Nesse aspecto pouca coisa mudou. Os filhos dos «homens que nunca foram meninos» continuam por aí, resistem. Os outros não sei se ainda dizem «criadagem» porque já não tenho pachorra para os ouvir.

  20. Caro Vulpi (primeiro foi gralha, mas depois achei que era mais do que gralha),

    Escusas de invocar a Internet que a informação necessaria e suficiente para responder à pergunta que colocaste esta de facto aqui mesmo debaixo do teu nariz, nesta caixa de comentario, de maneira que se continuas sem saber como responder, não sera falta de informação, mas falta de outra coisa, que se calhar não começa por “in”, ou não acaba por “formação”…

    Boa continuação

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