Ainda o campeonato não começou e o Sporting já vai na frente: sons africanos no estádio, só o rugido do Leão.
Arquivo mensal: Agosto 2010
Mulher aranha
Pelos vistos anda uma parte (pequena espero) da blogoesfera portuguesa às voltas com a questão dos anónimos. São burros, uns idiotas. O blogue é criado para lá escrever o que bem entende o seu ou seus autores. Até pode nem ter possibilidade de comentários. É uma escolha. Assina-se com o nome que se entende. E escreve-se sobre o que se quer. Inclusive política e defendem-se as ideias que se quer. Que eu saiba concordar ou defender as ideias do governo é tão possível como o seu contrário. E não é ilegal fazê-lo, nem está na clandestinidade quem o faz.
Podemos não gostar de certas ideias. Temos bom remédio: NÃO VAMOS AO DITO BLOGUE. Somos livres de ler ou não, os bloggers são livres de escrever o que quiserem, até podem decidir deixar de escrever.
A menos que o vosso problema seja quererem determinar quem escreve e o quê? Será isso? Se for isso jamais se adaptarão a esta coisa chamada blogoesfera e terão muita acidez de estômago. Tomem umas rennies.
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Saudação a Maria Belmira em 20-7-2010

A tua mãe aqui tinha a idade que tu tens
E trouxe a voz da terra ao espaço do salão
Há códigos na ligação entre filhas e mães
Para os quais não há chave ou explicação
A maneira como coloca o lenço é diferente
A linguagem gestual já faz parte da pessoa
No Lavre, em Montemor entre a sua gente
Ou no meio dos desconhecidos de Lisboa
O seu olhar é profundo como o horizonte
É paisagem revelada em ondas de ternura
Como se a vida fosse resumida no monte
Nas gramáticas do encontro e da procura
No ímpeto e no fulgor deste seu sermão
Há as velhas histórias repetidas à lareira
Ligando dois mundos como em oração
No ritual da sua vida tão plena e inteira
E nada mais
Para quem só conhece os bastidores da política e da Justiça através do que chega à comunicação social (o meu caso, o de quase todos), o entendimento da actualidade passa por estabelecer uma hierarquia de sentido. Por exemplo, faz sentido que existam provas criminais, em sede policial ou judiciária, contra um primeiro-ministro e tal informação não chegar logo à oposição, ao partido do próprio e ao Presidente da República? Tendo em conta a quantidade de indivíduos implicados nessa recolha, posse e gestão, é assim a modos que impossível não acontecerem fugas de informação endereçadas, em primeiro lugar, aos maiores interessados. Vai daí, se esse mesmo primeiro-ministro não se demite apesar da quantidade, duração e gravidade das suspeitas lançadas contra ele, temos um sinal que torna credível a sua inocência. Se a isto se soma a inexistência de confirmação das suspeitas pelas autoridades, então estamos apenas no combate político, muito provavelmente. Um combate político ínvio, sórdido e sinistro.
Muito provavelmente, mas não absolutamente. É que há sempre espaço para dúvidas. Consoante o posicionamento político, a educação e a capacidade cognitiva, escolhem-se as interpretações que confirmam os preconceitos e os objectivos. Por mais evidentes que sejam os factos, haverá quem os recuse, quem se negue até a reconhecê-los. Neste caso do Freeport, o que tem mais importância, em tudo o que até agora foi sendo conhecido, vem dos procuradores Vítor Magalhães e Paes de Faria: as suas assinaturas no despacho que conclui pela acusação de Charles Smith e Manuel Pedro por tentativa de extorsão – e nada mais.
Perguntas simples
Caminho (Miguel Torga)

Sobre tudo o mais
Um cântico erguido
Das regras gerais
Sempre distinguido
Sem palavras iguais
Nem a fazer ruído
Deixou os sinais
Para ser seguido
Sobre tudo o mais
O amor à terra
Vinhedos, pinhais
A paz e a guerra
Searas e olivais
A neve na serra
Rebanhos, animais
O que a vida encerra
Sobre tudo o mais
Um cântico erguido
Miguel Serras Pereira, és um labrego
Miguel Serras Pereira, no dia 28 de Julho falaste comigo pela primeira vez em mais de 100 ou 200 anos. O Luis Rainha fez uma ligação a um texto meu, por isso fui conversar com ele, e só com ele, a propósito do que escreveu. Isso quer dizer que não fui lá falar contigo, nem de ti, nem de nada que te dissesse directamente respeito. Pois tal não te impediu de invadir a conversa, tinhas considerações importantes a meu respeito para divulgar:
– Que eu não dava a cara nem o nome.
– Que eu era anónimo.
– Que o meu anonimato estava ao serviço do poder, defendia o poder do momento e consistia na denúncia dos opositores desse tal poder.
– Que o meu anonimato era uma auto-destituição da cidadania e dos meus essenciais direitos de defesa.
– Que eu podia ser acusado de agir a mando, ou por encomenda, do Governo de Sócrates e não teria como me defender enquanto anónimo.
– Que, ao escrever o nome de terceiros em opiniões que sejam insultuosas, tenho o dever de escrever o meu nome.
– Que eu sou um agressor anónimo.
Tendo em conta que nunca antes havíamos trocado uma palavra, e que “Valupi” é um dos meus nomes, concluí estar perante um labrego. Um labrego, no significado que lhe dou nesta problemática das identidades no meio digital, é alguém que prefere a aparência à confiança, um palonço que dispara primeiro e nem sequer chega a perguntar depois. Alguém como tu, Miguel Serra Pereira. Mesmo assim, respondi-te – mas deixei-te a falar sozinho porque tinha bem mais o que fazer com o meu precioso tempo.
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Vinte Linhas 522
Seis pintores no Largo do Carmo
Até ao próximo dia 29 de Agosto, no Largo do Carmo, entre as 10 e as 20 horas, estão expostos trabalhos de seis pintores: Márcio Bahia, Ruslam Botiev, «Cartier», Oleh Basyuk, Rui Andrade e Oliveiros Júnior. O título genérico desta mostra é «Lisboa – outros olhos que me vêem» e tem a ver com o facto de todos os seis artistas vindos do estrangeiro residirem em Portugal.
O quadro que reproduzimos como convite à deslocação ao Largo do Carmo é de Oleh Basyuk (n.1965) que chegou da Ucrânia e vive em Lisboa desde 2000. Está fixo no Miradouro de S. Pedro de Alcântara. Marcos Bahia (n.1983) vive em Portugal desde 2007 e alguns dos seus quadros mostram a memória feliz de Portugal no Brasil – Ouro Preto e Baía, por exemplo. Ruslam Botiev (n. 1963) vive em Portugal desde 2002, está no Largo do Carmo e dá-nos uma luz mongol de cavaleiros infatigáveis, navios à procura do novo mundo e guerreiros donos de formidável energia contra os invasores da sua terra. «Cartier» é o nome artístico de Paulo Ramos (n.1977) que vem da joalharia e se afirma nos quadros de grande formato onde organiza a desordem do Mundo. Oliveiros Júnior vem de São Paulo (Brasil) e vive em Portugal desde 2008. Traz memórias de índios acossados pelo progresso que sistematicamente os empurra e faz desaparecer no horizonte da História. Rui Andrade, nascido no Brasil, é o último artista da série. Os seus quadros transportam o ritmo, a cor e a vida dos seus lugares de origem. Lá onde a alegria das mulheres baianas faz de cada encontro uma festa que salta ruidosa do limite dos quadros para as ruas da cidade.
Corrijam a realidade, vá lá
Uma das cenas mais curiosas da opinião publicada, profissional ou amadora, diz respeito às proclamações do fim político de Sócrates e da ruína do PS. Essa mania, esse autêntico culto de personalidade a contrario, dura desde os princípios de 2008; com a crise na Saúde, as coboiadas na banca laranja e o começo das movimentações conspirativas com origem em Belém ou círculos próximos. É espasmo ancestral, a projecção mágica no adversário de uma maldição. Há quem a lance com regularidade diária, estão viciados.
Pois bem, vamos lá ver. Vivemos o pleno apertar do cinto com as medidas de austeridade em acção, prevê-se um 2011 tão ou mais rigoroso, o desemprego é o que é, consta que o Governo não governa, o desgaste do PS não pode ser escondido, o PSD tem uma cara nova, está fresco e diz-se capaz de nos salvar a todos com umas alteraçõezinhas na Constituição, o CDS é um poço sem fundo de virtudes, o BE espalha soluções geniais para resolver qualquer crise que se lhe ponha à frente, o PCP é aquela máquina que não pára de crescer fruto da superioridade do seu projecto de sociedade e o Freeport vai ficar connosco por mais um lustro, pelo menos.
Só falta que aqueles que andam há anos a avisar a malta do fim de Sócrates venham agora explicar à realidade que ela está enganada. É que é muito chato quando a realidade se engana, uma pessoa pode até nunca mais conseguir encontrar o caminho de casa.
Afinal – II
Afinal, exulta Cerejo, os titulares do inquérito foram mesmo impedidos de chegar à verdade pelos ditames sinistros de Cândida Almeida. As suas 27 inúteis perguntas não puderam ter as 27 inúteis respostas, o que os deixou em modo de vendetta. Foi por isso que assinaram um despacho daqueles, aquele despacho que assinaram. Poderiam ter batido à porta de Pinto Monteiro para se alargar o prazo? Não, a Cândida não deixava. Poderiam ter denunciado, na ocasião, um impedimento tão grave à sua investigação como este para o Sindicato, o Conselho Superior ou o Cerejo? Não, a Cândida não deixava. A única coisa a fazer era chapar com as perguntas e dizer ao mundo que o Ministério Público português concluía pela eterna suspeição de José Sócrates, actual primeiro-ministro de Portugal. Essa vergonha, já a Cândida deixava.
Lá para terça ou quarta-feira, voltaremos a ter uma peça do Cerejo, o Cruzado. Dirá aos leitores do Público que os procuradores têm fotos de Sócrates a receber envelopes castanhos num tasco do Montijo. Até convidaram Cândida Almeida, várias vezes, para ir ao seu gabinete ver o álbum de fotografias, mas ela fez sempre cara esquisita e abalou espavorida. Será o Afinal – III.
Vinte Linhas 521
Joly Braga Santos nasceu de facto no século XX
Agora, terminado o Festival ao Largo que decorreu entre 26-6-2010 e 27-7-2010 no Largo de São Carlos, em pleno Chiado, com os seus 29 espectáculos ao ar livre envolvendo músicos, bailarinos, cantores, maestros e coreógrafos portugueses e estrangeiros, gostaria de chamar a atenção para um assunto que tem a ver com o programa. Aliás programa brilhantemente comentado por Jorge Rodrigues antes e durante os diversos espectáculos.
Não estive em todos mas procurei tirar o máximo partido do facto de morar perto do Largo de São Carlos. Mas fosse por isto ou por aquilo, fixei-me mais no texto do último espectáculo, a «Noite de Macau» com a Orquestra Sinfónica Juvenil de Macau sob a direcção do maestro Veiga Jardim e com a pianista Ieng-Ieng Lam. A Orquestra executou peças de César Franck, Doming Lam, Hua Yanjuan e Joly Braga Santos.
Aqui é que bate o ponto: o programa refere que Joly Braga Santos nasceu em 1824 mas está errado pois a data correcta é 1924. Aliás é fácil de perceber pois os números referidos no programa (1824-1988) davam uma vida de 164 anos, obviamente fora do contexto da vida real de Joly Braga Santos.
Talvez sinal dos tempos, a verdade é que os revisores estão em vias de extinção nos jornais, nas editoras, nas revistas e, pelos vistos, nos programas musicais. Lembro-me de trabalhar no jornal «Sporting» onde muitas vezes passei largos minutos às voltas com os golos do hóquei em patins. A soma dos golos da equipa tinha que ser igual à soma da lista dos marcadores. Conclusão: a data do Joly Braga Santos não é 1824.
Paulo Bento forever
Se está partido, chamem os partidos
O Ministério Público está partido. Por causa de uma entrevista e de uma carta aberta? Não, pá… É a Judiciária, estúpido! Como explica o inefável Rui Cardoso, em Março passado, há muito que o Sindicato dos Magistrados sabe que a Judiciária se deixa governamentalizar – portanto, que está corrompida e é corruptora. Solução: ir parar às mãos do Ministério Público. Membros ilustres dessa instituição já mostraram todo o potencial da sinergia: passa-se a poder fazer, com regularidade, escutas ilegais a um primeiro-ministro, as quais podem decorrer sem informação, nem pedido de autorização, ao Presidente do Supremo durante meses. Se isto se faz ao chefe de Governo, imagine-se o que não se fará ao porteiro do Ministério. Que tal? Dá ou não dá jeito? Como são os próprios magistrados a alimentar os jornalistas que fazem as campanhas de difamação e calúnia, ao ponto de já se falar num negócio chorudo de venda de informações em segredo de justiça, o entusiasmo do SMMP ganha sugestivos e abismais contextos.
De facto, Aveiro provou que se pode dar um golpe que decapite um Governo, ou um partido, com toda a facilidade e, pasme-se, legitimidade. A partir do momento em que se dispõe de elementos relativos à privacidade de um político, até uma conversa com a sua avó querida pode ser usada para manobras de assassinato de carácter. Não terá essa conversa sido feita em código e diga respeito a casas oferecidas pela máfia? Tem de se investigar, mas sem pressa, devagarinho, de modo a não assarapantar a ladroagem. Para obter os lúbricos segredos de um governante basta ter um pretexto, uma razão inquestionável; por exemplo, escutar um seu amigo de plena confiança, comunhão política e frequente contacto. Não irão os cabrões dizer alguma coisa que se pareça com um atentado ao Estado de direito? Olá se não vão, passam o dia a pensar nisso! E mesmo que legalmente a operação seja um fiasco, que apareça alguém a defender a Constituição e a democracia, o alvo nunca mais consegue limpar as nódoas. A porcaria continuará a ser lançada pelos porcalhões.
O PSD aproveitou ao máximo a espionagem política que lhe foi oferecida, como reagiria se fosse a vítima? Com histerismo e violência, claro. Dada a quantidade de advogados, magistrados e professores de Direito que são de direita, calhando apanharem uma conspiração contra políticos socias-democratas feita à maneira dos casos Freeport ou Face Oculta, o banzé seria tal que poria em risco a estabilidade dos anéis de Saturno. Assim, como não é com eles, estão calados a gozar o prato ou berram no coro. São raras as vozes à direita que se respeitam, que não abdicam da defesa da honra alheia, o que também explica muito dos últimos 25 anos em Portugal. Agora, o PSD volta a ter uma oportunidade de se regenerar: conseguir sanear o Ministério Público. Para isso, terá de se unir ao PS no essencial. É no Parlamento que está a sede primeira da Justiça, e cada cidadão deve exigir dos partidos que estejam à altura da gravidade do momento.
Vinte Linhas 520
Em Vila Franca os grilos não cantavam ao domingo
Vivi no Bairro do Bom Retiro entre 1961 e 1966. Todos os domingos, depois da missa do senhor padre Moniz e da JOC do senhor Vladimiro, íamos ver os juniores ou os principiantes no Campo de Cevadeiro mesmo ao lado do Quartel dos Marinheiros. À noite descíamos á Vila e esperávamos a chegada de uma carroça pequena com um oleado a proteger os jornais da chuva. A loja que vendia os jornais era ao lado da Câmara Municipal mas os jornais vinham de Lisboa de comboio e a estação era paredes-meias com o cais do Tejo povoado de barcos Avieiros e batelões da areia.
Ao domingo os jornais de Lisboa desse tempo (Popular, Lisboa, República) faziam uma edição especial ao fim da tarde com os resumos telefonados dos jogos do Nacional da I Divisão, a classificação e a lista dos melhores marcadores. Lourenço e Figueiredo competiam com Eusébio e Artur Jorge.
No caso particular do Diário Popular (onde me estreei em Agosto de 1978) acontece que, além das notícias frescas do dia (mas visadas pela Censura) a edição de domingo incluía uma crónica assinada por Santos Fernando sob o sugestivo título de «Os grilos não cantam ao domingo». Atarefado e ajoujado ao peso do Curso Geral do Comércio, eu nenhum tempo tinha para outros livros além dos da Escola Técnica. Mas aquela crónica de humor era, muitas vezes, o esplendor do absurdo. Só mais tarde vim a saber que Santos Fernando foi amigo de Luís Pacheco, Vítor Silva Tavares e Ferro Rodrigues (pai). Foi numa dessas crónicas de domingo que li em 1966 uma das frases da minha vida até hoje: «O humor é uma lágrima entre parêntesis».
Do vidalismo e da vidalização
uma pergunta a revolucionários que talvez por aí andem
Trata-se de uma pergunta a que os revolucionários não vão responder. Eles estão preocupados é com o Estado de direito em Gaza. Por essa causa, sim, vale a pena lutar e salivar. Já em Portugal, um território americano, os atentados contra a Lei e a Justiça são zangas das comadres capitalistas, imperialistas e fascistas. Venham as golpadas, que reine o vale tudo. Essa será a via mais rápida para a construção do homem novo, o rapazola.
Um livro por semana 194
«A administração do Marquês de Pombal» de Pierre de Cormatin
Pierre Dezoteux, barão de Cormatin, militar de carreira, nasceu em Paris (1753) tendo falecido em Lyon (1812). Viajou pela Europa e pela África entre 1776 e 1780, tendo participado na batalha de Yorktown em 1781 na Guerra da Independência Americana. Como autor ligado ao iluminismo dominava os temas da Economia, da História e da Filosofia e, na linha dos «enciclopedistas» serve-se desses conhecimentos para a abordagem das políticas do Marquês de Pombal. Este livro surge como desagravo à publicação de uma obra de um jesuíta português em Paris intitulada «Memórias do Marquês de Pombal». Para o barão de Cormatin «O agente de uma coroa que em menos de quatro lustros funda tantos estabelecimentos úteis, promulga tão judiciosas leis e opera tantas reformas necessárias é, sem contradição, homem de estado; os das outras cortes, comparativamente com ele, são simples ministros.»
Analisando o estado da Nação portuguesa, o autor começa pela população («Em geral as portuguesas são belas: todas, ou quase todas, têm lindos olhos, bons dentes, o semblante engraçado e são dotadas de espírito») mas acaba por se demorar na riqueza: «no espaço de 60 anos, isto é, desde o descobrimento das minas até ao ano de 1756, saíram do Brasil novecentos e sessenta milhões de cruzados e, todavia, o dinheiro de Portugal era, em 1754, quinze ou vinte milhões; a nação devia então mais de setenta e dois, isto é, Portugal carecia de cinquenta e dois milhões só para pagar a sua dívida».
(Editora: Bonecos Rebeldes, Tradução: Luís Inocêncio de Pontes Ataíde e Azevedo)
Fala José Sócrates, o PM, pode passar-me ao PGR?
Há quem culpe Sócrates por ser inocente. Afirmam que é culpado de não ter interferido nos procedimentos do Ministério Público. Chegam ao ponto de dizer, numa sonsice alarve, que lhe competia ser ouvido mesmo que não existisse razão policial ou judicial para tal. Um pândego sugeriu que o Primeiro-Ministro devia ter solicitado ser constituído arguido de modo a poder limpar o seu nome. Presume-se, pela lógica do argumento, que devia ser Sócrates a dirigir a investigação, caso contrário estaria a deixar dúvidas no ar. Já só falta ser acusado por não existirem provas contra ele. Estamos em pleno delírio laranja.
Mas a Isabel Moreira trata do assunto brilhantemente.
A entrevista ao Procurador-Geral da República
1. São 17,30 horas. A entrevista do PGR deu azo a comentários de todos os lados. De todos? Não. Curiosamente, o Sindicato dos Magistrados do Ministério está calado, a examinar tranquilamente as declarações, o que é, no mínimo surpreendente, sobretudo quando se recorde a rapidez de pronúncia da agremiação relativamente a qualquer tema que, mesmo que longinquamente, ponha em crise as suas finalidades estatutárias, de mais cantina, mais barbeiro e mais impunidade.
Este será o dado mais interessante nesta nova história e também um factor de alguma esperança: é que, descontando as hipóteses de o Dr. Palma estar a banhos ou de o Sindicato se encontrar a congeminar alguma especial patifaria contra o Dr. Pinto Monteiro (algum FREEPORT?), resta uma esperança – que aquela rapaziada tenha imaginado que aquilo é a sério ou, ao menos, que aquilo pode acabar em sério.
É que, ao contrário do que se supõe, a coragem não é precisamente o forte desta gente – sem os seus joguinhos de bastidores, os seus segredos de justiça (de justiça, oh céus!), ficam nus em toda a sua incapacidade.
Esperemos.
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A Cândida e o cândido
Marcelo Rebelo de Sousa tem 61 anos. Encontramos no homem uma raríssima síntese: genuína elite genuinamente popular. Isso faz dele, virtualmente, um mediador inigualável entre os poderes fácticos e o Povo. Está à-vontade com os mais ricos e os mais pobres, os mais cultos e os mais ignorantes, os extremistas e os moderados. Com todos consegue comunicar, a todos consegue entender. Ainda por cima, pelo berço, transporta um pedaço do Estado Novo, o que lhe permitiu estabelecer ainda mais pontes e consensos. Já era uma estrela em ascensão na política antes do 25 de Abril e nunca mais se afastou da ribalta. Pergunta que nos interessa: que tem feito com tamanho tesouro cultural, social e político à disposição? Face ao que o vemos fazer na televisão, nas homilias, faz manigâncias. Tão-só.
No domingo passado, assistimos a mais uma. Falando de um caso que tem uma pública origem política, e alimentou caluniosamente dois ciclos eleitorais, Marcelo nem sequer toca ao de leve nessa teia de causalidades. Não pede responsabilidades, não identifica cúmplices. E pior, muito pior: ao falar da estratégia da asfixia democrática, a qual estava montada em cima do aproveitamento dos ataques ao carácter de Sócrates, mostrou-se pesaroso por ter falhado. Foi esse o único problema, o azar de o eleitorado não ter engolido as patranhas. Nenhuma censura de ordem moral há a fazer, depreende-se tanto do tom como do silêncio. É isto a política para o Professor e para a direita sem alma – os truques, as rasteiras, os golpes palacianos que mantêm a dopamina em níveis suportáveis.
A respeito do despacho dos procuradores desasados, Marcelo apontou as armas num único alvo: Pinto Monteiro. O actual Procurador-Geral da República é persona non grata junto dos sociais-democratas desde que resolveu cumprir a Lei e a Constituição, recusando entregar Sócrates aos carrascos da Lapa. Está marcado para cair por ter ousado fazer frente aos barões do PSD. Só isso explica o extraordinário de ouvirmos um dos portugueses que mais e melhor conhecerá os bastidores do Ministério Público, e a complexidade e melindre dos seus conflitos internos, a aumentar o clima de intriga à volta do caso. A sua referência a Cândida Almeida, sugerindo que ela aprovou a inclusão das perguntas por fazer, não tem como objectivo esclarecer seja o que for, é apenas o instinto do escorpião a picar o sapo que o carrega até à outra margem. Cândida, também alvo de difamações por se dizer que protegeu Sócrates nestes anos todos, ficou de repente como cooperante da armadilha que o quer continuar a entalar. Como é óbvio, Marcelo não tem medo que a Procuradoria se afunde ainda mais em suspeições e boataria, quer é gerar a maior confusão para castigar Pinto Monteiro. Candidamente.




