Vinte Linhas 520

Em Vila Franca os grilos não cantavam ao domingo

Vivi no Bairro do Bom Retiro entre 1961 e 1966. Todos os domingos, depois da missa do senhor padre Moniz e da JOC do senhor Vladimiro, íamos ver os juniores ou os principiantes no Campo de Cevadeiro mesmo ao lado do Quartel dos Marinheiros. À noite descíamos á Vila e esperávamos a chegada de uma carroça pequena com um oleado a proteger os jornais da chuva. A loja que vendia os jornais era ao lado da Câmara Municipal mas os jornais vinham de Lisboa de comboio e a estação era paredes-meias com o cais do Tejo povoado de barcos Avieiros e batelões da areia.

Ao domingo os jornais de Lisboa desse tempo (Popular, Lisboa, República) faziam uma edição especial ao fim da tarde com os resumos telefonados dos jogos do Nacional da I Divisão, a classificação e a lista dos melhores marcadores. Lourenço e Figueiredo competiam com Eusébio e Artur Jorge.

No caso particular do Diário Popular (onde me estreei em Agosto de 1978) acontece que, além das notícias frescas do dia (mas visadas pela Censura) a edição de domingo incluía uma crónica assinada por Santos Fernando sob o sugestivo título de «Os grilos não cantam ao domingo». Atarefado e ajoujado ao peso do Curso Geral do Comércio, eu nenhum tempo tinha para outros livros além dos da Escola Técnica. Mas aquela crónica de humor era, muitas vezes, o esplendor do absurdo. Só mais tarde vim a saber que Santos Fernando foi amigo de Luís Pacheco, Vítor Silva Tavares e Ferro Rodrigues (pai). Foi numa dessas crónicas de domingo que li em 1966 uma das frases da minha vida até hoje: «O humor é uma lágrima entre parêntesis».

5 thoughts on “Vinte Linhas 520”

  1. maravilha estas tuas notas…
    gosto do “esplendor do absurdo”
    e do conceito ao lado, “o absurdo no seu esplendor”
    creio não sinónimos…
    este,
    não sei porquê,
    fazem-me lembrar uns tantus dilequentes intelectuais da nossa praça
    muito activos tempos que passam…
    abraço

  2. Estranho, ou curiosamente doentio em tempo de alzheimers, mas não me lembro de alguma vez ter existido nesse local e nessa altura um estabelecimento militar que respondesse ao apito de Quartel de Marinheiros. Vamos lá pôr isso a claro como se faz com a idade do Benfica, ou então vou-te chamar dilequente sem cura nem emenda, como o Aires.

    Uma espécie de quartel da marinha, sim, havia um nesses tempos lá para o pé do Alfeite, mas esse nem se chamava Quartel com maíuscula, chamava-se Corpo. Vai ao 31 da Armada, os gajos explicam-te isso se bateres à porta e disseres que és da Direita. E pois, o humor é uma lágrima, e deve ser por isso que nunca te vi lavado delas quando me chamas maloio. A mim e aos outros.

    Seu sacana de perfeccionista, vá lá mais um abracito.

  3. «O humor é uma lágrima entre parêntesis».»

    Senhor JFK,

    Permita-me, com alguma experiência que a Vida já me foi dando: a lágrima é simplesmente o humor cansado de não conseguir chegar a bom porto.

    cada vida, cada experiência, não crê assim?

  4. O nome oficial era «Grupo nº 1 de Escolas da Armada» e «Escola de Alunos Marinheiros» mas toda a gente dizia Quartel dos Marinheiros. Trata-se da diferença entre designação formal e designação popular – o meu registo não podia ser outro. Trata-se de uma memória, de uma recordação, não tem que ser 100 por cento rigorosa.

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