Vinte Linhas 519

Os microfones à frente do nariz

No «Diário de Noticias» de 1-8-2010, na última página, surge uma senhora, presidente da UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, a afirmar que uma senhora autarca de Rio Maior foi «agredida pelo marido, o pai dos filhos e a quem jurou fidelidade e carinho».

Entretanto na página 6 do «D. N.» refere-se, por outro lado, que a senhora autarca em causa é viúva desde 1999, situação verificada quando tinha a idade de 33 anos pois, se tem hoje 44 anos, nasceu em 1966.

Partindo do princípio que é esta a verdade verdadeira (tal como também a li nas páginas do semanário regional O MIRANTE) quem está errada é a senhora da UMAR que, ao jornalista Alfredo Teixeira, inadvertidamente, referiu o namorado não como tal mas como marido e pai dos filhos.

Terá sido a força do lugar-comum, do cliché, do dito normal. Terá sido uma distracção, um lapso, uma facilidade impensada. Mas é sempre grave falar sem saber. Tal como na canção popular – «Ninguém diga o que não sabe nem afirme o que não viu!».

Isto não apaga nem invalida outro erro na mesma página do «Diário de Noticias» que integra uma legenda da foto desta autarca num banco de jardim: «Aos 36 anos, Isaura Matos, viúva, teve de reconstruir a sua vida.» Se tem hoje 44 anos nasceu em 1966 e obviamente tinha 33 anos em 1999 (como consta do texto) e não 36 anos (como consta da legenda).

Há gente que não pode ver um microfone à frente do nariz. É um perigo.

Combate de Blogues 17º

Esta edição do Combate de Blogues tem a boa novidade da presença da Ana Matos Pires. Para além disso, permite voltar a constatar que a direita portuguesa é um deserto de talento político até nas gerações mais novas. Rodrigo Moita de Deus canaliza o seu cinismo para tentativas de humor, a sua verdadeira vocação. Miguel Morgado transforma o seu cinismo em sectarismo e vulgaridades emocionadas, pecha ainda mais infeliz por vir de um académico. Ambos são cínicos, descrentes de um acordo com os opositores, soberbos no seu conservadorismo. Isso leva-os para um estado de permanente frustração e primarismo intelectual. Em vez de começarem por reconhecer o que é comum – no caso do Freeport, por exemplo, que há uma responsabilidade moral do PSD e do CDS na conspiração inicial e no aproveitamento subsequente, e que não há provas de ilegalidades, apenas boatos – partem para as vantagens imediatas que descortinam nas situações e para o mecânico denegrimento dos adversários. Nada mais lhes ocorre. Não pensam a comunidade, apenas reagem ao conflito.

Esta forma de fazer política está caduca. Ou talvez nem tenha já nada a ver com a política, apenas com o espectáculo.

Hebdomadarius

Marcelo, sempre que pode, espalha a ideia de que Sócrates é um reles aldrabão, um pilha-galinhas, um mentiroso que está quase a ser apanhado. Nem sequer uma indignação colectiva como aquela que se levantou contra o desfecho absurdo e infame do processo Freeport o demove. A campanha negra continua, nesta direita decadente e sequiosa de vingança, agora com a esperança de que o juiz de instrução volte a montar o circo.

E quer este homem ser Presidente da República. As inventonas de Belém passariam a ter uma periodicidade semanal.

Vinte Linhas 518

Dissertação para Daniela Passeira sobre uma fotografia

Esta fotografia a preto e branco sobreviveu a uma inundação num quarto andar e daí não estar muito explícita nalguns centímetros quadrados mas, no essencial, estão todos: a Ivone Chinita, o J. H. Santos Barros e as gémeas. A fotografia terá sido tirada em 1981 ou 1982 e foi-me oferecida pelo casal na sua casa da Rua do Patrocínio. Só hoje a encontrei, assim como está, algo danificada mas ainda capaz de me emocionar. Há um livro da Ivone Chinita, «Peste Malina» que tem uma parte desta fotografia na contracapa mas não sei dele. Hoje encontrei a fotografia e apresso-me a elaborar a memória justificativa desses tempos breves. As gémeas da Ivone e do Zé tinham 9 anos em 1983 quando o casal morreu em Espanha, logo devem ter 36/37 anos agora. A tua idade, Daniela. Sei que continuas com uma memória muito forte das gémeas pois foram tuas colegas e não é fácil a nossa separação das nossas memórias que, a partir de certa idade, se colam de modo irremediável àquilo que somos. Dizem que o indivíduo que abalroou a viatura era emigrante português e vinha a conduzir sem parar desde a Holanda e o acidente foi no Sul de Espanha. Foram as circunstâncias mas as coisas não são assim tão fáceis de perceber. Eu não sou capaz de pensar sequer no que seriam as minhas filhas hoje com 32 anos e 25 anos e o meu filho hoje com 29 anos se tivessem perdido os pais com 9 anos de idade. Fico arrepiado, fico sem palavras. Mas tinha prometido revelar-te esta fotografia logo que ela aparecesse e aqui estou a cumprir a promessa. Não está em boas condições mas é única e insubstituível. Aqui tens a fotografia possível das gémeas, das tuas gémeas, tal como as deixaste de ver tão de repente.

Mare Nostrum

É inquestionável a vantagem de ter submarinos, e modernos, nas forças militares portuguesas. Vão ser dois, mas poderiam ser três ou mais, haveria o que fazer com eles. Tal como ganhávamos em ter mais aviões de vigilância marítima, helicópteros, navios e lanchas. Óbvio. E, finalmente, o porta-aviões. Ninguém nos levará a sério sem esse aeroporto flutuante.

Não vale tudo

No fundo, Sócrates até pode ter cometido alguma ilegalidade. Não sabemos e dificilmente alguma vez saberemos. A investigação nasceu torta e, como diz o povo, o que nasce torto dificilmente se endireita. Fabricaram um processo-crime com fins políticos e pessoais, o que, desde logo, amputou a investigação de um elemento essencial para a descoberta da verdade: cabeça limpa, sem preconceitos, e espírito crítico na análise dos factos. Como o objectivo não era descobrir a verdade mas antes queimar um adversário político, a investigação ficou coxa à nascença e coxa morreu ontem.

Ricardo Sardo

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O Ricardo, para além de ter feito um muito útil resumo do caso Freeport, toca numa dimensão fundamental daquela que se tornou numa gravíssima questão de Estado: os que aproveitaram o sistema judicial para lançar ataques mediáticos, e políticos, contra o Primeiro-Ministro cometeram duplo crime ao violar direitos de terceiros e ao perverter o sentido da própria investigação. A este prejuízo temos de somar outro impossível de avaliar nas suas múltiplas e desvairadas consequências, aquele que resulta de aumentar a distância entre a população e os seus representantes governativos. Reforçando as suspeitas genéricas de corrupção, validando as piores calúnias e as mais arreigadas atoardas acerca da actividade política, os mandantes e executores da campanha negra escolheram intencionalmente a política da terra queimada. Que essa tenha sido a preferência de figuras sinistras e decadentes como José António Saraiva, Eduardo Dâmaso, casal Moniz e José Manuel Fernandes, talvez nem justifique um laivo de surpresa. Mas que essa tenha sido a estratégia do PSD e da Presidência, acolitados pela restante oposição, fica como o maior escândalo da democracia portuguesa.
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Um livro por semana 193

«Andanças de pedra e cal» de Álamo Oliveira

Neste seu 17º título de poesia Álamo Oliveira (n. 1945) começa por citar «Viagens ao pé da porta» de Vitorino Nemésio mas as viagens do primeiro capítulo são as do Mundo. O poeta parte com a sua ferramenta invisível («na oficina da poesia o silêncio dói») e passa pelo Corvo («quando chove há um búzio de abrigo para cada um»), por S. Jorge («vista de cima é a exclamação do silêncio»). Vai a Genéve («outubro está no tempo preciso da suíça») e a Struthof («ali não é o frio que adoece nem a fome que dói») antes de passar a Tulare («nenhum índio usa já a palavra de fumo»), Berkeley («nada é mais universal que a universidade do amor») e S. Francisco («a Califórnia é um deserto muito cheio de gente». Por fim o Brasil: Rio de Janeiro («não consigo rir do cheirinho favelado da pobreza») e S. Paulo («vou chamar-te amazónia de betão sem qualquer pudor lírico»).

A segunda parte é uma viagem dentro da Ilha Terceira. Passa pelo teatro angrense («casa dos espíritos: o actor treme / pelas palavras que não tem / e pelo rosto que não é seu») e pela oração na rua («a casa do divino está pintada de fresco / como primavera coroada de encanto») mas desagua em duas referências culturais maiores: António Dacosta («só para destoar dacosta abria / as gavetas da memória / e retirava verdes e mais verdes / para pintar o rosto de cidade») e Vitorino Nemésio: «mas isto era antes das tias / na varanda da casa / com as suas mantilhas e terços de lágrimas / ouvirem anjos deslumbrantes a tocar trindades / nas torres da matriz».

(Editora: BLU, Capa: Rui Melo, Design: Vítor Melo, Foto: Eduardo B. Pinto, Apoio: Governo dos Açores, Junta de Freguesia do Raminho)

A Golpada

Desde que se prenunciou a eleição de José Sócrates, em 2005, que o País vive em permanente ambiente de golpada. E é em ambiente, agudo, de golpada que actualmente vivemos.

Trata-se, em suma, de derrubar o Primeiro Ministro eleito, substituí-lo por um dirigente do Partido Socialista, escolhido pelos Senhores jornalistas, para um Governo que se dedique a preparar as próximas eleições, de que saia vencedor um dirigente do PSD designado pelos Senhores jornalistas. De preferência, um Primeiro Ministro e um Governo suficientemente fracos que reconduzam o País ao habitual e apetecido estado de desgoverno em que ninguém governa e todos mandam, nos seus assuntos, a partir das suas quintas, tudo com o habitual embrulho de escândalos que vendem jornais e promovem jornalistas.

Os golpistas – que visam irrelevar os efeitos, jurídicos e políticos, de uma eleição, anular o sentido do voto dos portugueses – acoitam-se em duas corporações, sem sombra de legitimidade democrática, mas poderosas, pelas suas auto-proclamadas isenção e imparcialidade: os jornalistas e o Ministério Público, que mutuamente se alimentam e se promovem.
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