Vinte Linhas 518

Dissertação para Daniela Passeira sobre uma fotografia

Esta fotografia a preto e branco sobreviveu a uma inundação num quarto andar e daí não estar muito explícita nalguns centímetros quadrados mas, no essencial, estão todos: a Ivone Chinita, o J. H. Santos Barros e as gémeas. A fotografia terá sido tirada em 1981 ou 1982 e foi-me oferecida pelo casal na sua casa da Rua do Patrocínio. Só hoje a encontrei, assim como está, algo danificada mas ainda capaz de me emocionar. Há um livro da Ivone Chinita, «Peste Malina» que tem uma parte desta fotografia na contracapa mas não sei dele. Hoje encontrei a fotografia e apresso-me a elaborar a memória justificativa desses tempos breves. As gémeas da Ivone e do Zé tinham 9 anos em 1983 quando o casal morreu em Espanha, logo devem ter 36/37 anos agora. A tua idade, Daniela. Sei que continuas com uma memória muito forte das gémeas pois foram tuas colegas e não é fácil a nossa separação das nossas memórias que, a partir de certa idade, se colam de modo irremediável àquilo que somos. Dizem que o indivíduo que abalroou a viatura era emigrante português e vinha a conduzir sem parar desde a Holanda e o acidente foi no Sul de Espanha. Foram as circunstâncias mas as coisas não são assim tão fáceis de perceber. Eu não sou capaz de pensar sequer no que seriam as minhas filhas hoje com 32 anos e 25 anos e o meu filho hoje com 29 anos se tivessem perdido os pais com 9 anos de idade. Fico arrepiado, fico sem palavras. Mas tinha prometido revelar-te esta fotografia logo que ela aparecesse e aqui estou a cumprir a promessa. Não está em boas condições mas é única e insubstituível. Aqui tens a fotografia possível das gémeas, das tuas gémeas, tal como as deixaste de ver tão de repente.

27 thoughts on “Vinte Linhas 518”

  1. abraço emocionado…
    autentico retrato nossas vidas, temores, angustias….
    “isto”, relevante nivel individual ,
    nada o é comparado barbaridades historicas em que fomos “re”criados nossa juventude
    e naquelas fomos comtemporaneos
    ou mesmo relativamente “participantes”…
    enfim…
    vidas são complicadas…
    abraço

  2. Por isso, Caro JFK,

    Digo que se está sempre com saudades dos filhos, mesmo quando eles estão à nossa frente, lindos, sorridentes, alheios a estas misérias humanas materiais, que consomem os terrenos.

    Essa saudade dói, parte o coração, só de pensar que de repente podemos desaparecer e os deixamos sem amparo.

    Vida complicada sim, todo o tempo com os nossos entes queridos é pouco, muito pouco e quando os vemos estendidos, a memória dispara e começa a dizer-nos o que deviamos ter dito antes antes da partida. Aquela cruz que Cristo carrega era muito pesada, mas acho que nem todos se aperceberam disso ao longo dos séculos, do tempo. É uma cruz que continua tão actual, apesar de haver quem persista em cortar um pouquinho aqui e ali, mas depois, quando se trata de fazer a travessia, falta o «pedacinho».

    Este seu texto é bonito. É o primeiro que me toca, porque é sentido. Não é plástico.

  3. É isso mesmo. O medo arrepia e faz-nos crescer no amor para com os nossos. Sim, é um texto muito bonito Sr. JFK.

  4. :) É verdade, José Francisco. São as minhas gémeas, as das minhas memórias. Tenho muita pena que as minhas tentativas para as contactar não tenham tido sucesso, mas a vida é assim mesmo. Guardo boas memórias delas, dos anos em que brincámos juntas. Foi de facto um episódio muito triste a morte dos pais, sendo elas tão pequenitas, que nos chocou a todos e mudou as suas vidas para sempre.
    Obrigada pelo seu carinho, JCF.
    Daniela

  5. Um abraço a JCF por trazer aqui esta foto do Santos Barros, um grande poeta, açoriano, esquecido como tantos outros daquele arquipélago. A morte é sempre trágica, mas é mais dificil de aceitar quando nos apanha novos, como aconteceu à Ivone Chinita e ao Zé Henrique.
    Por ironia, não era suposto o S.Barros fazer essa viagem, mas uma desistência de última hora por parte de um dos ocupantes do carro levou-a a ir até Espanha. Na manhã seguinte ao acidente – creio que perto de Málaga – fui, como combinado préviamente, a casa dele na Rua do Patrocínio. Uma amiga dele acolheu-me e disse-me que ele não estava, resolvera ir com a mulher. Mas deixara recado para mim, que entrasse e levasse os livros que ele separara – andávamos às voltas com a famigerada questão da existência, ou não, de uma literatura açoriana.
    A época não era de comunicações rápidas como agora. Creio que só na tarde desse dia (era um sábado ou um domingo de manhã?) é que chegou a Portugal a noticia do acidente.
    Das gémeas soube que tinham ido para casa dos avós maternos, no Alentejo, mas perdi-lhes o rasto entretanto.

  6. … é muito estranho quando…

    Estão quase a fazer cinquenta anos que iniciou a guerra colonial, na passada semana, fui contactada pelo CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS da Universidade de Coimbra, para a autorização da publicação, de uns poemas dos meus pais numa antologia que pretendem que seja uma forma de assinalar os 50 anos do início da Guerra Colonial. Com a satisfação que sempre fico quando se lembram deles procurei logo responder ao solicitado… e é nessas alturas que de uma forma mais intensa recordo os meus tempos de infância e tudo o que tive e me foi tirado… trabalho sempre doloroso… acabei por comentar com uma colega de trabalho o sucedido e hoje de manha em tom de brincadeira disse-me, que eu estava na NET, tinha encontrado a fotografia que eu não tinha até agora, tenho sim a outra a que estamos no mesmo sítio com a minha mãe (IVONE CHINITA).

    GOSTAVA muito de contactar com a Daniela… é muito estranho quando… de repente descobrimos que alguém se lembra de nós e que até sente saudades… pensamos sempre ser os únicos! Engraçado como um pais tão pequeno ás vezes fica tão grande!

    Os melhores cumprimentos,

    Ana Barros

  7. Estou aqui, Ana! Sou real, procuro-te e sim, tenho saudades. :) Após várias tentativas e sempre com a colaboração do José do Carmo Francisco, quando já pensava não ser possível, eis que apareces tu!
    Por favor contacta-me através de e-mail (danielapasseira@gmail.com) ou Facebook (Daniela Passeira). Temos muito que pôr em dia, miúda! ;)

    Ao José do Carmo Francisco um grande bem haja pelo carinho e amizade que colocou nesta minha busca pelas gémeas, mesmo sem me conhecer pessoalmente. Afinal nada foi em vão, o puzzle está resolvido. São pessoas como o José que fazem a diferença neste mundo. Bem haja!

  8. Ó pá, tu és um cabeça de burro, não podes estar aqui. Tu não pertences; vai vomitar ódio para outro lado!

  9. Quanto à Daniela Passeira ok, apenas fiz o meu dever, sempre de boa fé. Ainda acredito nas pessoas e não era por esse contacto chegar de Macau que eu ia deixar de lhe dar importância. Mas atenção – acredito em pessoas, não em fantoches. A Internet tem destas coisas – aparece sempre um «mete nojo» que não foi convidado, um cabeça de burro.

  10. o teu problema é quereres ser grande com gestos pequenos. demagogia, lamechice & exploração das fragilidades alheias, servem para endrominar uns quantos ingénuos seguidores que brevemente serão convertidos em veneradores e sócios do clube privado do grande prosopoeta reformado do sindicato dos bancários.

  11. e não há um admirador do prosopoeta que me ajude a encontrar o gato? bute lá minha, era fixe reencontrar aqui o peluche ou mesmo a maddie.

  12. Sintomas da Doença de Alzheimer

    11.º O discurso repetitivo

    A repetição frequente de palavras, frases, perguntas ou actividades é uma característica da demência e da doença de Alzheimer. Esse comportamento repetitivo é provocado, por vezes, pela ansiedade, stress, ou para alcançar o conforto, segurança ou familiaridade.

    25.º A imitação ou o comportamento infantil

    Os especialistas afirmam que quem sofre da doença de Alzheimer fica completamente dependente de um determinado indivíduo e imita-o de forma infantil, chegando até a segui-lo como uma espécie de “sombra”. Este comportamento surge, muitas vezes, pelo receio em encarar a forma confusa como o mundo é percecionado e pela necessidade de ter por perto uma pessoa em quem se confia totalmente.

    Pobres de nós que os aturamos!!! Mas temos de os tentar compreender…

  13. começam a chegar os devotos prá procissão da galinha frita e com um bocado de sorte ainda temos auto de fé presidido pelo prosopoeta.

  14. “Pobres de nós que os aturamos!!!”

    oh dona chinita! atão isso são modos de se referir a doentes de alzheimer?

  15. Sim, aturar. Significa:

    verbo transitivo
    1.suportar com custo ou resignação; aguentar; tolerar
    2.sofrer

    verbo intransitivo
    1.persistir
    2.durar muito
    3.permanecer durante muito tempo

    (Do lat. obturáre, «tapar; fechar»)

    Pouco a pouco, a doença vai desfazendo a personalidade do paciente.

    Desde a fase inicial, com os primeiros esquecimentos e, em muitos casos, apatia e depressão, até as mais avançadas, nas quais há uma deterioração física maior e se observam também transtornos do comportamento, o doente e a sua família passam por um grande processo emocional.

    Por conhecer a doença, digo, que são os outros (nós), quem mais sofre. Pois o doente felizmente ou infelizmente vai perdendo a noção da sua realidade.

  16. prontes, já começaram a atirar diccionários e agora as obras completas do prosopoeta que diz sempre o mesmo, síndrome de alzheimer segundo a senhora que se lamenta de os aturar.

  17. Voltei atrás e (como era de esperar!) as 24 notas (comentários) estão todas. Ninguém as fez fugir. Num outro texto mais à frente há a insinuação de que foram apagadas algumas mas não é verdade. Nem podia ser. Está tudo conforme.

  18. No texto «Vinte Linhas 604» apareceu um cararu a dizer que este «post» tinha desaparecido. Não há pachorra. Aparece cada um…

  19. Ao fazer uma pesquisa na internet, deparo-me com a fotografia do meu tio José Henrique Santos Barros, irmão da minha mãe, e as minhas primas de quem não sei o paradeiro.

    Como o tempo passa, ainda me lembro perfeitamente do dia em que uma pessoa nos foi bater à porta e nos informou do acidente…

    Obrigado pela foto

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