Não vale tudo

No fundo, Sócrates até pode ter cometido alguma ilegalidade. Não sabemos e dificilmente alguma vez saberemos. A investigação nasceu torta e, como diz o povo, o que nasce torto dificilmente se endireita. Fabricaram um processo-crime com fins políticos e pessoais, o que, desde logo, amputou a investigação de um elemento essencial para a descoberta da verdade: cabeça limpa, sem preconceitos, e espírito crítico na análise dos factos. Como o objectivo não era descobrir a verdade mas antes queimar um adversário político, a investigação ficou coxa à nascença e coxa morreu ontem.

Ricardo Sardo

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O Ricardo, para além de ter feito um muito útil resumo do caso Freeport, toca numa dimensão fundamental daquela que se tornou numa gravíssima questão de Estado: os que aproveitaram o sistema judicial para lançar ataques mediáticos, e políticos, contra o Primeiro-Ministro cometeram duplo crime ao violar direitos de terceiros e ao perverter o sentido da própria investigação. A este prejuízo temos de somar outro impossível de avaliar nas suas múltiplas e desvairadas consequências, aquele que resulta de aumentar a distância entre a população e os seus representantes governativos. Reforçando as suspeitas genéricas de corrupção, validando as piores calúnias e as mais arreigadas atoardas acerca da actividade política, os mandantes e executores da campanha negra escolheram intencionalmente a política da terra queimada. Que essa tenha sido a preferência de figuras sinistras e decadentes como José António Saraiva, Eduardo Dâmaso, casal Moniz e José Manuel Fernandes, talvez nem justifique um laivo de surpresa. Mas que essa tenha sido a estratégia do PSD e da Presidência, acolitados pela restante oposição, fica como o maior escândalo da democracia portuguesa.

Portugal é um país pobre na sua economia, na sua intelectualidade e na sua cidadania. As causas são seculares, mas os efeitos moldam o presente. Este é um terreno fértil para a irracionalidade e as conspirações. Quem escolheu a via do assassinato de carácter contava com as nossas misérias para incendiar o Estado de direito e chegar ao Poder através de manobras nos bastidores. Ao mesmo tempo, vestiam as alvas togas da superioridade moral, reclamavam um direito natural à apropriação dos recursos nacionais em nome da Verdade. A perversidade desta estratégia não pode ser maior. Os seus responsáveis pertencem à elite financeira e social, são indivíduos privilegiados que, por isso mesmo, devem ser ainda mais rigorosa e implacavelmente responsabilizados. Em vez de ajudarem a Justiça a ser justa, promovendo uma cultura de confiança nas instituições e nas pessoas, serviram-se das injustiças para envenenarem o ambiente político e social.

Mas os crápulas não têm emenda. Voltarão a repetir as pulhices, que nascem das ocasiões geradas pelas suas relações no topo da pirâmide social, assim que puderem. E de forma crescentemente violenta, se possível for, pois estão cada vez mais ressentidos e ressabiados. Como nada lhes acontece, não há penalização para as suas manigâncias conspirativas, a situação aparece-lhes como um jogo – para a próxima, tentarão dar menos erros… O antídoto para esta força negra é o corajoso e integral envolvimento dos cidadãos na política. Pouco importa se à esquerda ou à direita, nos partidos ou fora deles, é nos cidadãos que vamos encontrar os pilares da democracia e da liberdade. Este é um critério muito simples de aferir e pode enunciar-se assim: ser cidadão, na plena assunção dos seus direitos e deveres, implica fazer frente àqueles para quem vale tudo. O cidadão suporta as calúnias e as difamações, tanto dos ranhosos como dos imbecis, para defender a comunidade de si própria.

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O desafio que o Miguel lança ao Pacheco é exemplar desta atitude de tolerância zero que a cidadania exige. Andamos há dois ou três anos a ler e a ouvir uma ininterrupta catilinária contra a entidade Gabinete do Primeiro-Ministro. Segundo o Pacheco, trata-se de um pardieiro de criminosos. Quantos queixas foram apresentadas nas autoridades, então, pelo deputado? Se não o fez, por que espera? Está a ser impedido no acesso a alguma informação? Acaso desconhece que os deputado têm direito a porte de arma, pelo que pode avançar destemido por esses longos corredores da Assembleia à procura das provas contra o Gabinete? Ou tudo não passará da megalomania podre de um dos maiores mentirosos no espaço público? Sim, a última pergunta é de retórica.

10 thoughts on “Não vale tudo”

  1. Os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI, sobe o dossier Freeport, fizeram-me lembrar as classificações dadas pelas agências de rating à Islândia, dias antes de esta entrar em falência. Ainda estava pálido. Esse gajo é um tipo desonesto…

  2. Concordo no essencial mas gostava de juntar um aspecto muito curioso (folclórico) a nível da minha pessoa: sempre disse que a personagem que escreveu a carta anónima nunca conseguiria derrubar Sócrates porque me tentou «derrubar» a mim (sou uma fraca figura) e não conseguiu. O «argumento» era que a entrevista que fiz no jornal «Sporting» ao presidente da Câmara de Alcochete (o outro) vinha alterar a correlação autárquica. Não percebeu o pobre que eu fiz a entrevista por ordem do chefe de redacção e, logo, do director. Acabei afastado alguns anos mais tarde mas isso é outra história, não tem a ver com a carta anónima e o seu autor.

  3. Politica canalha

    Assente e aceite, baseada em lugares comuns, engodo fácil para néscios e gente amoral,
    está a utilização sistemática da insídia, da calúnia, do vilipêndio para atingir adversários
    políticos, vender jornais, gastar horas de televisão e, enquanto dura, promover figuras
    públicas, com estatuto de «justiceiros». Algumas pessoas, que, passada a «onda»,
    voltam necessariamente à vulgaridade.
    São conhecidos os jornalistas, comentadores e pivôs de televisão que alimentam estes
    processos.
    Cientes das «verdades» insofismáveis de ditados populares como «não há fumo sem
    fogo», «quem anda à chuva é que se alaga» etc., e cientes do peso que estes têm
    na formação do pensamento dos mais incautos, lá estão eles sempre disponíveis,
    pressurosamente disponíveis, para nos dar conta da «riqueza» do seu pensamento
    enquanto arrastam a barriga pela lama, numa volúpia irreprimível.
    Bom, assim é, assim será. Agora, o que não se pode esquecer e perdoar é uma
    campanha política para as eleições europeias e legislativas conduzida na base
    destas «técnicas» e que teve como protagonistas a anterior direcção do PSD, presidida
    por Manuela Ferreira Leite e assessorada por Pacheco Pereira.

    Politica canalha.

    Para memória futura.

  4. Inteiramente de acordo, está mais do que na altura de abrir guerra à insinuação gratuita. Não pode continuar a ser esta a via escolhida por gente ou eleita pelos portugueses ou em lugares de enorme responsabilidade e paga pelos nossos impostos para serem sérios e responsáveis às segundas, quartas e sextas e que nos restantes dias, a troco de um qualquer subsídio de sobrevivência política, praticam guerrilha às instituições e assassinato do carácter de quem bem lhes apetece, mutilando a confiança da sociedade e condicionando sub-repticiamente os direitos de cada um. Tudo de forma intencional e deliberada na prossecução do egoísta e ignorante objectivo do quanto pior, melhor. Melhor para alguns, os que aparecerão depois como salvadores da pátria e que, perante o caos, se julgarão com plenos direitos e o dever de implementarem as injustificadas, inadmissíveis e impopulares medidas e propostas que preconizam e que os impede de chegarem ao poder de outra forma. Ou apresentam provas a quem de direito das gravíssimas acusações que constantemente alardeiam ou alguém terá de os apear dos poleiros que utilizam para cantar de galo.

  5. “Mas os crápulas não têm emenda.
    Voltarão a repetir as pulhices, que nascem das ocasiões geradas pelas suas relações no topo da pirâmide social, assim que puderem.
    E de forma crescentemente violenta, se possível for, pois estão cada vez mais ressentidos e ressabiados.
    Como nada lhes acontece, não há penalização para as suas manigâncias conspirativas, a situação aparece-lhes como um jogo – para a próxima, tentarão dar menos erros…
    O antídoto para esta força negra é o corajoso e integral envolvimento dos cidadãos na política. Pouco importa se à esquerda ou à direita, nos partidos ou fora deles,
    é nos cidadãos que vamos encontrar os pilares da democracia e da liberdade”…

    Tá qui tudo dito, Val…
    abraço

  6. É com estas que percebemos o porquê do país não sair da cepa torta. Potencial temos, mas faltam políticos, jornalistas, gestores, juristas (juízes, procuradores, advogados), polícias e um povo à altura.
    Abraço.

  7. Infelizmente é nas últimas 3 palavras deste último comentário que reside a minha maior frustração e algum desânimo, termos/sermos um povo à altura.

  8. Todos nós sabemos que as baratas rastejam: ou andam pelo chão ou trepam às paredes e adoram a escuridão. Estamos À ALTURA, CLARO.

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