E nada mais

Para quem só conhece os bastidores da política e da Justiça através do que chega à comunicação social (o meu caso, o de quase todos), o entendimento da actualidade passa por estabelecer uma hierarquia de sentido. Por exemplo, faz sentido que existam provas criminais, em sede policial ou judiciária, contra um primeiro-ministro e tal informação não chegar logo à oposição, ao partido do próprio e ao Presidente da República? Tendo em conta a quantidade de indivíduos implicados nessa recolha, posse e gestão, é assim a modos que impossível não acontecerem fugas de informação endereçadas, em primeiro lugar, aos maiores interessados. Vai daí, se esse mesmo primeiro-ministro não se demite apesar da quantidade, duração e gravidade das suspeitas lançadas contra ele, temos um sinal que torna credível a sua inocência. Se a isto se soma a inexistência de confirmação das suspeitas pelas autoridades, então estamos apenas no combate político, muito provavelmente. Um combate político ínvio, sórdido e sinistro.

Muito provavelmente, mas não absolutamente. É que há sempre espaço para dúvidas. Consoante o posicionamento político, a educação e a capacidade cognitiva, escolhem-se as interpretações que confirmam os preconceitos e os objectivos. Por mais evidentes que sejam os factos, haverá quem os recuse, quem se negue até a reconhecê-los. Neste caso do Freeport, o que tem mais importância, em tudo o que até agora foi sendo conhecido, vem dos procuradores Vítor Magalhães e Paes de Faria: as suas assinaturas no despacho que conclui pela acusação de Charles Smith e Manuel Pedro por tentativa de extorsão – e nada mais.

13 thoughts on “E nada mais”

  1. Sim, claro…
    Mas, já agora
    era importante também saber do Venerando
    saber se vai receber o sr. Dr. Palma
    e, em geral,
    qual a sua opinião sobre a existencia dum Sindicato dos magistrados do MP
    que funções deve representar
    – contra poder ao PGR? –
    não esquecendo SExa. aqueles serem um orgão de soberania…
    Dos Farias e Magalhães
    retirámos já bastante do seu (des)carácter
    nestes 2 anos de suas intervenções artisticas ininterruptas…
    abraço

  2. É pena a CS não dar amplitude a este tipo de noticias:

    “Portugal vai ter mais 16 centrais de produção de electricidade a partir dos lixos, apurou o DN junto do Ministério do Ambiente. As novas centrais entrarão gradualmente em funcionamento nos próximos dois anos e juntam-se às nove já existentes, prevendo-se que venham assegurar uma produção energética superior a 140 mil megawtts (Mw) por ano.”

    In DN 06-08-2010

  3. Entre o delírio e a alucinação, um pasquim proclama «Freeport – Agora é que isto vai começar!». Para eles haja o que houver nunca acaba…

  4. Como a montanha pariu um rato, ficou um despacho armadilhado para que a comunicação social e a oposição possam continuar a fazer render o peixe. Mas a verdade é que o entusiasmo se desvaneceu porque a maioria de nós está farto de palhaçadas e guerras paroquiais.

  5. Caro Valupi,
    “É que há sempre lugar para dúvidas. Consoante o posicionamento político……”.

    Caso exemplar do dito nestes parágrafos acima referidos é a crítica de FJV “sondagens” ao post do Tomás Vasques “Os portugueses estão cansados de circo”. Começa FJV por dizer que sobre o caso Freeport, está convencido que a justiça andou mal, que o PGR meteu os pés pelas mãos. Temos mais uma convicção e um convicto.
    Depois conclui na crítica central a TV dizendo: “E acontece que a opinião pública não é propriamente o fiel da balança quando se trata da lei”. Resumindo, para o esperto FJV que se tem por gostar de “bater” nos políticos e para isso coloca-se num posicionamento estilo anarco-literário: quando se trata da Lei o PGR é trapalhão e porta-se mal, quando se trata da opinião pública esta não conta face à Lei.

    Trata-se de uma verdadeira manipulação intelectual. Se se não aceita como boa a decisão de quem de direito deve interpretar e aplicar a Lei todas as dúvidas, suspeitas e convições pessoais são possíveis, conforme o posicionamento político. E, sobretudo, quando esse posicionamento é mal disfarçado.

  6. Valupi, se está plenamente convicto da inocência de Sócrates neste processo desde que dele teve conhecimento, e mais agora depois do despacho de arquivamento, não consigo entender por que é que ainda sente essa regular necessidade quase (talvez o “quase” esteja aqui a mais) obsessiva de fazer comentários sobre o caso Freeport, ou melhor, sobre a suposta cabala por detrás dele. Para quem tem tamanha certeza, essa necessidade mais parece um sinal de fraqueza de quem, afinal, no seu íntimo não está assim tão seguro e precisa desesperadamente de convencer os outros. Eu nunca quis acreditar que isso se passasse consigo, sendo franco, mas este post fez-me pensar. Apanhou-me desprevenido, confesso. Caramba, agora vem falar de “hierarquia do sentido”? Falar agora em sentido ou lógica, num processo tão emaranhado e com tantas sombras, é surpreendente vindo si. Não tinha tantos outros argumentos mais convincentes? Se é tudo cristalino como água, por que perde ainda tanto tempo e palavras com o Freeport? A sério, explique-me lá. E se vamos falar de lógica, esta também poderia ser aplicada em tantos outros momentos do processo. Que lógica tem um processo desta envergadura ter estado quase que esquecido durante um bom par de anos? Nenhuma. Que lógica tem estabelecer-se um prazo para final de investigação sem acautelar a própria eficiência da mesma? Nenhuma. Que lógica tem Cândida Almeida não ter achado necessário ouvir o PM, quando até admitiu que as perguntas elaboradas eram pertinentes? Nenhuma. E podia ficar aqui a tarde toda. Claro que me baseio, tal como vocês, pelos vistos, no que vem na comunicação social, por isso tenho tanto legitimidade em “pegar” em certas notícias que vêm a público como o Valupi.

  7. E só quero acrescentar isto: em vez de se preocupar ainda tanto em clamar pela inocência de Sócrates – tenha calma, homem, em termos judiciais o PM já nada pode temer deste caso – poderia antes fazer uma reflexão do que este caso representou para descredibilizar ainda mais a Justiça, tanto foi o triste protagonismo dos procuradores. Já ninguém quer saber da inocência ou não de Sócrates, isso já lá vai, o que interessa agora é condenar a forma como certos responsáveis da Justiça lidam com os processos que têm entre mãos e a falta de noção do que é devem ou não dizer. Uma grande trapalhada que só nos pode preocupar. Os media limitaram a aproveitar-se disso.

  8. aires, tens toda a razão. Mas o Venerando tem sido parte do problema, ainda por cima…
    __

    Carmen, as boas notícias raramente têm boa imprensa. Azar o nosso.
    __

    jcfrancisco, e vamos lá ver até quando vai durar.
    __

    tra.quinas, realmente, há uma saturação generalizada, resta só saber ao que levará.
    __

    Adolfo Contreiras, bem visto. O FJV é – ou assim me parece – sectário na análise política, o que contrasta com o seu prestígio literário.
    __

    HG, estou plenamente convicto de que somos todos inocentes até prova em contrário. Sócrates, eu, tu. Chama-se a isso acreditar no Estado de direito. Quanto a comentar o Freeport, vives em que região do Universo? Não sabes que esse tema é discutido “obsessivamente” pela comunicação social e pela oposição, e todo o santo dia? Não sabes que há questões gravíssimas que nascem desse caso e que pedem a intervenção dos cidadãos? Tens de te informar melhor, então.

    Partes do estranho princípio de que te quero convencer sem que tal me exponha ao seu simétrico, ser convencido. Se abro o diálogo, estou a convidar as teses opostas, ou divergentes. Ninguém te impede, se optares por assim gastares o teu tempo, de me convencer seja lá do que for. Só há uma condição: tens de o conseguir. Não creio é que o consigas alimentando preconceitos tão estranhos como esse de reclamares teres direito às tuas ideias e conclusões a partir do que vês na comunicação social. Mas claro, que raio de coisa seria essa de não poderes pensar pela tua cabeça? Se o Freeport, para ti, indicia algum tipo de culpa de Sócrates, esse é um problema só teu – quero dizer, é algo com a tua consciência, mas não terá nada de anormal ou ilegítimo.

    Não posso concordar mais contigo quando apelas a uma reflexão sobre a Justiça a partir deste caso. Sem dúvida, como comunidade é o que devemos fazer.
    __

    paulo marques, estou a escrever-te para te informar que não entro em diálogo com quem utiliza o nazismo para proveito próprio.

  9. na verdade, estava a tentar fazer uso de sarcasmo e ironia… parece que falhei redondamente! peço desculpa se te induzi em erro.

  10. paulo marques, acredito, mas usar uma referência ao nazismo para tal é uma violência. Uma violência contra a memória das vítimas dessa demência. Enfim, para mim, pelo menos.

  11. eu não estava a fazer referência ao nazismo: falava de propaganda. e essa foi arma antes, durante e depois da queda desse regime. se a dos americanos até dá lucro… enfim, esclarecidos.

  12. Sim, sei disso. É muito frequente ir buscar-se Goebbels, inclusive citá-lo, para tecer comentários políticos acerca da actualidade. Como se houvesse paralelo possível ou como se fosse inevitável convocar uma figura do nazismo para falar de manipulação das massas através da comunicação. E, por escrúpulo pessoal, não me quero associar a essas conversas, porque me surgem injustas. Afinal, antes e depois de Goebbels se fez propaganda. Até hieróglifos com 5.000 anos podem ser vistos como propaganda…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.