O triunfo dos escaganifobéticos – IV

Uma das principais características da esquerda imbecil é a sua concepção simplista e hipócrita do poder. Ser hipócrita é grave, porque alimenta a permanente manipulação demagógica e populista. Mas ser simplista é trágico, porque do simplismo nasce a incapacidade de auto-crítica, fonte de todos os fundamentalismos e violências. Veja-se o caso de dois dos mais notáveis representantes da esquerda imbecil, Rui Tavares e Daniel Oliveira:

O que escrevi até aqui relaciona-se com o lado político do caso. Mas o aspecto moral é mais grave. O erro de percurso do político preocupa-me menos do que o pecado contra a liberdade de expressão. Vindo do primeiro-ministro, este pecado acaba por infectar toda a cadeia de comando e degradar a qualidade da democracia que temos. Há valores mais altos do que a ofensa que o primeiro-ministro possa sentir; um deles é o direito de não ter medo de ofender os poderosos.

É pois uma vitória amarga para o cronista que, ainda antes do processo começar, o primeiro-ministro tenha já confirmado o essencial da crónica. Seja como for, neste caso entre um Sócrates e um Tavares, eu não poderia deixar de estar do lado do Tavares. E não é por nepotismo: ele não é meu primo, nem filho do meu tio.

Rui Tavares

A semana passada, José Sócrates juntou-se ao clube dos que querem calar a crítica na barra do tribunal. Processou o colunista João Miguel Tavares por, no “Diário de Notícias”, ter escrito que não tem grande apreço pelo comportamento do primeiro-ministro na sua vida política e cívica. Para Sócrates, o Freeport é excelente para teorias da conspiração. Mas a condição deste jogo é que ninguém, usando desse direito universal que é o da liberdade de opinar, o ponha em causa. Pois eu repito o que Tavares escreveu: Sócrates não é um político sério e falta-lhe autoridade moral em quase tudo. E é, acima de tudo, como Jardim, um homem que vive mal com a liberdade dos outros.

Daniel Oliveira

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Re-Intermitência

 

 

 

 

 

“O teu filho é, de facto, um bebé espantoso”, digo, ternura embevecida, a N., amiga de uma infância feliz. “É muito parecido contigo”, exponho. “Mas vai ter os olhos do falecido pai”, acrescento. E passo-lhe para a mão, emoção incontida, uma caixa com um par de olhos azuis mortos dentro.

We need help from the media

Não existe nenhum Jon Stewart português, mas existem muitos fogos cruzados na comunicação social. A expressão campanha negra pode ser tomada em vários sentidos, porém, no seu principal, consiste na reunião de estratégias de destruição moral para ganho político e de sensacionalismos e perversão da Justiça para ganhos financeiros através do mercado. O que têm de comum as duas modalidades é o dano que se inflige à comunidade, à saúde moral da democracia e à confiança nas autoridades. Pacheco Pereira e a TVI, só para dar dois incontornáveis exemplos, não precisam de estar alinhados, sequer terem algum contacto, para alimentarem em conjunto a campanha negra. Basta continuarem a explorar as fragilidades decorrentes do exercício governativo e dos processos legais em investigação. O que eles fazem obedece ao princípio do quanto pior, melhor, captando audiências entre os grupos mais fragilizados cognitivamente, os ressabiados e os tontinhos.

Este paradigmático momento de Jon Stewart no programa Crossfire, a dizer algumas verdades cabeludas em 2004, serve como uma luva para o que se passa em Portugal desde 2006. Precisamos de ajuda da comunicação social, tanto para colocar as questões mais difíceis aos políticos, e para investigar com liberdade e rigor qualquer assunto de interesse público, como para os proteger das campanhas negras no serviço que nos prestam. Não entender isto é não fazer a menor ideia do que seja a democracia.

Vinte Linhas 57

Cronistas – Cuidado com a amizade

O escritor brasileiro José Lins do Rego (1901-1957), autor do hoje romance clássico publicado em 1932 «Menino de engenho», tinha muitos amigos e a Fundação Joaquim Nabuco editou em 1982 um número especial da Revista «Ciência e Trópico», assinalando os 80 anos do seu nascimento.

Um dos seus numerosos amigos, o escritor Ledo Ivo, depois de lhe chamar «um dos brasileiros mais povo e até mais Zé-povinho» escreveu «Uma vez foi na Suécia com a selecção que disputava a Copa do Mundo. Ficou ao lado do rei, na disputa memorável. E quando um golo de Garrincha desmoralizou para sempre a superioridade racial dos vikings, ele se virou para sua majestade e lhe disse no mais castiço português da Paraíba: «Seu rei, com o Brasil ninguém pode!»

Este é o texto que o escritor Ledo Ivo assinou no livro de homenagem a José Lins do Rego; agora vamos ver a realidade concreta. Primeiro erro crasso de Ledo Ivo: José Lins do Rego faleceu no Rio de Janeiro em 1957 e o Campeonato do Mundo da Suécia foi disputado em 1958. Segundo erro crasso de Ledo Ivo: Garrincha não marcou nenhum golo na final do Mundial de 1958 entre Suécia e Brasil pois os autores dos golos brasileiros foram Vavá, Pelé e Zagalo.

O título desta crónica pode parecer insólito mas afinal está certo. Todo o cronista tem que ter muito cuidado com os exageros da amizade. A verdade é muito mais importante do que a amizade. Nenhuma amizade justifica uma mentira, mesmo uma mentira piedosa. O cronista, qualquer cronista precisa de ter as suas amizades bem vigiadas.

Salvem o fascismo

salazar-fascismo

Manuel Alegre disse, de umas directrizes banais relativas ao profissionalismo das funcionárias da Loja do Cidadão em Faro, o seguinte:

é uma coisa de cariz fascizante, totalitário, contra a liberdade individual, é inconstitucional, tem que ser revogada sob pena de qualquer dia numa repartição alguém querer dizer como usar o cabelo e que livro ler, estas coisas são sinais, multiplicam-se estes sinais, tem que ser levado a sério

Manuel dispõe de poder suficiente para aparecer na comunicação social sempre que quiser. Reúne à sua volta algumas figuras públicas com importância política dentro do PS e à volta dele. No Parlamento, comporta-se como líder independente, votando como lhe dá na real gana. Fora do Parlamento, é parte da oposição ao Governo, deixa-se manipular pelo BE, ameaça criar um novo partido, não se envergonha de apoiar figuras como João Palma, Presidente do Sindicato dos Magistrados. Correm boatos de que está a tentar negociar, ou forçar, o apoio do PS a uma nova candidatura presidencial. Sempre que abre a boca, salta cá para fora o milhão de votos, seguido ou antecedido do 25 de Abril, da esquerda e da sua magnífica pessoa. A sua pessoa, é o próprio a lembrá-lo sem descanso, tem muita importância para a sua pessoa.

Pois bem, o homem faz 73 anos em Maio. Existe a possibilidade de que ainda se imagine a chefiar a Frente Patriótica de Libertação Nacional, tendo em conta que se apresenta no papel de salvador da democracia portuguesa, chantageando o próprio partido onde ganhou a vida. E que terá ele para mostrar? Que feitos, ideias, meros acontecimentos relacionados com as suas funções políticas, pode Alegre referir que tenham contribuído para algum salto qualitativo na sociedade? Não há memória de nada, nadinha, nicles. Tem sido funcionário do PS, profissional do Parlamento, apenas mais um daqueles cidadãos que contribuíram de alguma forma para a mudança de regime, como largos milhares, e depois ficaram com privilégios oligárquicos e vaidade infinita, como algumas centenas. Se porventura viesse a ocupar a Presidência da República, realizando a soberba de se apresentar ao povo como rei-trovador, a boçalidade pacóvia seria torrencial ― e os riscos de intervenções populistas, e dementes, seriam tantos quantos os dias em que tivesse poder político para tal.

Se isto é assim, e não parece que venha a melhorar, antes pelo contrário, vamos combinar uma coisinha, Manuel Alegre de Melo Duarte: diz as maiores bacoradas que te surgirem na moleirinha sobre o Governo, Sócrates, o PS e a esquerda, fogo à peça, mas não apagues o fascismo da História. Por favor. Não nos estragues essa tão útil memória, que tanto revela dos nossos avós, pais e irmãos.

Sim, poeta, quando te permites relacionar o fascismo com um episódio de legítima e bondosa ― mesmo que discutível, como tantas outras dimensões da vida social e profissional ― regulação da aparência de quem serve o público representando o Estado, estás a ofender as passadas, presentes e futuras vítimas de todos os tiranos e seus cúmplices. E pior: estás a reduzir o fascismo aos conflitos morais inerentes à democracia. Isso é grotesco e, se tivesses um pingo de sensatez, chegava para que pedisses perdão pela desonra que cometeste cego e bruto.

Vinte Linhas 337

Nemésio tem razão, o amigo de Onésimo não

Na crónica de Abril na Revista Ler Onésimo Teotónio de Almeida refere uma conversa com um seu amigo sobre a Margarida de Mau Tempo no Canal que vai à missa em Sexta-Feira Santa, coisa impossível pois (segundo esse amigo) esse dia não tem missa.

Não é bem assim. Tenho a meu favor dois argumentos: a minha memória pessoal e um livro editado em 1850 – Horas da Semana Santa. Nasci em 1951 e lembro-me bem de, com dez anos de idade, ajudar á missa em dia de Sexta-Feira Santa. Era aquilo que em linguagem simples (de sacristão) o meu avô chamava missa seca pois não tinha nem consagração das partículas nem comunhão aos fiéis. Apenas o celebrante tomava uma partícula consagrada no dia anterior. E era naturalmente uma missa muito mais rápida dos que as outras. A minha memória não me deixa mentir.

O livro de 1850 que obviamente estava em vigor quando Nemésio concebeu o romance, ele que nasceu em 1901 e veio para Lisboa em 1919 fazer a tropa, o livro explica textualmente «E omitindo tudo o mais que se pratica nas outras missas prossegue, dizendo: Pai nosso que estás nos céus…» Refere assim na sua página 372 esse «salto» na liturgia pois passa por cima da consagração e a comunhão fica restrita ao celebrante. Conclusão: Nemésio tem razão, o amigo de Onésimo não.

Para mim este episódio vem recordar um dos mais belos salmos que eu tenho memória de ouvir: «Meu Povo, que te fiz Eu ou em que te contristei? Responde-me! Porque te extraí da terra do Egipto, preparaste uma cruz para o teu Salvador.»

Toda a tragédia do Mundo em duas linhas de versos…

Vinte Linhas 20

Crónica quase em verso

Em latim a palavra «verso» significava a volta que dava a charrua ao fim de cada sulco inscrito na terra. Mais tarde, por extensão, a palavra passou a aplicar-se ao próprio «sulco». Depois, muito tempo depois, ganhou o sentido de «linha» de escrita. Talvez com estas palavras fique explicado o meu pendor para as referências agrícolas quando escrevo. Os meus poemas e as minhas crónicas viajam pelos lagares de azeite, pelas vinhas, pelos pomares, pelo lagar de vinho, pelo suor dos ceifeiros, pelo cansaço de quem ao fim da tarde regava uma horta a que chamava «brejo» a partir de um pequeno poço. De onde a água saía puxada por alguém numa picota com uma pedra pequena atada ao balde e uma pedra grande no fim do pinheiro furado ao meio: uma servia para ele entrar de lado na água e a outra para ser mais fácil subir o balde já cheio. Afinal poesia e agricultura são da mesma família. Em ambos os lugares se semeia e se perdem colheitas, em ambos os ofícios há o risco de uma colheita perdida – título de um livro de Carlos de Oliveira. Talvez não por acaso esse mesmo poeta e romancista escreveu e afirmou várias vezes: «Escrever é lavrar numa terra de camponeses e escritores abandonados». Por mim, na modéstia de uma intervenção quase particular, sem holofotes nem referências, respiro de alívio ao descobrir que a minha intuição me colocou, sem eu o saber ou prever sequer, nos caminhos dos versos mais antigos do Mundo. Por isso quando escrevo, quando te escrevo, me coloco ao lado dos mais obscuros agricultores, aqueles que, anónimos e confiantes, regam com o seu suor uma sementeira da qual nada nem ninguém lhes poderá garantir frutos. Mas dão-se por inteiro nessa tarefa.

O triunfo dos escaganifobéticos – III

O Arrastão tem o primeiro sistema de censura escaganifobética no mundo ocidental. É o único a conseguir fazer extrapolações bovinas a partir do fundamentalismo semântico ― assim conseguindo antecipar a Web 3.0 em versão taralhouca. Atente-se no exemplo ocorrido com uma expressão popular:

Larga o vinho -> Censurado porque “mandava o outro comentador parar de beber vinho. Desculpe, mas há limites. O insulto gratuito é um deles. Se quiser replicar a mensagem, deixando de insinuar que o outro comentador – que não conheço de lado nenhum – é alcoólico, terei todo o prazer em aprová-lo.

Como é que o sistema detectou o insulto? Através do algoritmo que estabelece só ser possível largar o vinho estando previamente na sua posse. Nada de mais lógico. Daqui para a frente, entra uma parte verdadeiramente enigmática, pois não temos forma de descobrir o nexo entre a posse do vinho e a condição de alcoólico. Aliás, nem sequer se entende a associação entre a posse do vinho e a ingestão do mesmo, embora deva ser fenómeno relacionado com a gratuitidade referida. O poder deste índex censório desafia as capacidades mentais do cidadão comum, é só para malta que esteja na vanguarda da esquerda revolucionária. Mas também não se deve perder muito tempo a pensar nisso, serão segredos da vocação.

Para ti, que precisas de comentar no Arrastão e não queres ver o teu esforço desperdiçado, segue listagem das expressões a evitar, mais a respectiva explicação escaganifobética:

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Vinte Linhas 99

Saudação breve a Ana Carolina

Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer. Tu não sabes mas, minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos e fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes mas nessa tarde choveu muito. As terras finalmente encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade. E tu dormias descansada nos braços do teu avô dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tua não sabes ainda mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas». Pequena e indefesa tu, oh! Ana Carolina não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha onde ficaste e Lisboa onde te escrevo esta saudação breve e emocionada. Vejo naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer um anúncio de vida e de alegria contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de alegria. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura. Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro do asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.

Re-Intermitência

 

 

 

 

“Dizem que sou, na cama, um verdadeiro cavalo”, digo, vaidade e sedução, a uma morena de saia mini e cabeça sem, na discoteca do bairro. “Queres comprovar”, pergunto. “Sim, vamos a isso”, ouço, pose de desafio, segundos depois. E, já na cama, alguns minutos volvidos, vestido e com ela a olhar-me de pé e embasbacada, relincho com a perfeição que, em miúdo, me fez vencer o concurso de imitações da preparatória. 

O triunfo dos escaganifobéticos – II

Miguel Portas tem a desdita de andar lá fora a ganhar a vida, emigrante, num trabalho bem difícil: rodeado de estrangeirada burguesa, corrupta e imperialista. Agora, após 5 anos de tortura, nem suporta ouvir falar na União Europeia e suas chatices:

José Sócrates e Vital Moreira não querem que nas próximas eleições europeias se discuta Portugal, querem que seja uma grande conversa de sofá sobre assuntos que não têm nada a ver com as nossas vidas. Eles gostariam, mas não vão ter essa sorte. José Sócrates vai ter que responder e começará a responder em 07 de Junho e continuará a responder no final de Setembro ou inícios de Outubro.”

Os assuntos europeus não têm nada a ver com as nossas vidas, diz o cabeça de lista do BE ao Parlamento Europeu. Acredito. Isto é, acredito que o Miguel expressa o seu pensamento com rigor. E que faça todo o sentido ir para a campanha eleitoral fazer as seguintes revelações:

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O triunfo dos escaganifobéticos

Vai para dois anos que ando a remoer numa sugestão da Catarina Campos. Missão difícil, sempre adiada, até ao dia em que li esta declaração. Nela, uma das coqueluches da política-espectáculo anunciava, em registo confessional, a candidatura para uma bolsa de estudo no valor de 7665 euros brutos por mês:

[…] quando alguém próximo me pergunta o que iria eu fazer para o Parlamento Europeu, a minha resposta é “aprender”. Talvez não seja a resposta mais “política” mas é certamente a mais sincera. Aprender é aquilo que sempre mais gostei de fazer. Aprender em público é o que eu tenho feito nos últimos anos. O que vou escrevendo nos jornais ou dizendo na televisão não são opiniões fechadas; são momentos dessa aprendizagem em público. O Parlamento Europeu é provavelmente um dos melhores lugares no mundo para continuar a fazê-lo e tudo o que eu aprender será devolvido ao debate público e, por essa via, aos cidadãos.

Aprender é belo. Não ter opiniões fechadas é lindo. E vender a sonsa balela de que se devolve ao cidadão o que se anda a aprender com os nossos impostos é de subir aos postes e apalpar o cu às lâmpadas. Então, bute lá aprender no Parlamento Europeu, o qual tem magníficas instalações de ensino e refeitórios de encher a pança. Até o Pacheco, outro insigne historiador da cepa do Tavares, quer voltar para lá. O nosso estudante teria companhia no avião e bom conselho em Bruxelas sobre hotéis a evitar e restaurantes a não perder.

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Alexei Bueno nas Escadinhas do Duque

Tinha que ser escritor este bandeirante

Nome herói de romance em homenagem

Assim a Rússia já não fica tão distante

Numa vida que é também uma viagem

Nas Escadinhas do Duque é rei à mesa

Dá lições de poesia em breve seminário

Entre cerveja e amendoim nasce a beleza

Da Poesia que o Mundo vê ao contrário

Somos poucos aqui um grupo acantonado

Na mesa posta por D. Rosa na sexta-feira

Viajamos num bacalhau bem temperado

Pelo azeite tão puro e leve duma oliveira

No Camões a mulher feia vende cocada

Desesperam por um visto os brasileiros

Que pena a vida não poder ficar parada

Aqui onde os poemas nascem inteiros

Solidão e fragilidade do poder

A maior parte dos portugueses, se posta perante a possibilidade de trocar de lugar com Sócrates amanhã às 9 da matina, assumindo o cargo de Primeiro-Ministro, ficaria cagada de medo. Recusariam de imediato e ficavam incrédulos com o convite. E o mesmo aconteceria se o desafio fosse para daqui a 1 mês, ou 6, ou 1 ano ou 100. Temor e tremor, seria o resultado dessa experiência.

Mas não só no caso do Governo: quantos portugueses aceitariam estar à frente do PSD, por exemplo? Quantos estão dispostos a ficarem expostos? Quantos conseguem sequer falar em público para o público? Quantos arriscam discutir ideias próprias, negociar compromissos com adversários, defender vontades de terceiros? Quantos aguentariam a pressão da responsabilidade máxima e constante? Quantos portugueses fazem alguma ideia da complexidade de chefiar o Governo, ou um partido, ou um destino?

No entanto, parece que não faltam valentes prontos para a função. Manuela Ferreira Leite, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa, Paulo Portas, Santana Lopes, Pedro Passos Coelho, Luís Filipe Menezes, Marques Mendes, Carlos Carvalhas, para ficar pelo passado recente, são nomes que, de uma forma ou outra, têm estado na calha para nos governar. E trazem os seus companheiros e amigos com eles, há muita gente que saliva por gabinetes, secretárias, motoristas, seguranças, repórteres, salamaleques, almoços grátis, conhecer o Mundo e os mundanos. Sempre assim foi e será.

Paradoxo? Não, imbecilidade. Os que tentam derrubar o poder vigente na chã cobiça de o substituir, nesse exercício erradamente designado por oposição, ignoram o que é a solidão e fragilidade do poder. Ignoram por inexperiência ou vício. Esses, claro, são os que mais estranham ver um primeiro-ministro a pedir ajuda à Justiça.

Dixit

 

 

 

 

“Senti, tenho de admitir, ao ouvir-te dizer, alto e bom som, que a tua mulher é uma reles pêga barata, uma enorme inveja de ti. Na verdade, só seria capaz de afirmar tal coisa alguém que recebe, mensalmente, um avultado salário.”

Um livro por semana 115

contos-de-helia-correia
«Contos» de Hélia Correia

Entre Natureza e Cultura – estas duas palavras podem definir, além do talento, a escrita de Hélia Correia. Tendo vivido a infância e a adolescência na Estremadura (serras, planícies e praias) ficou entretanto apaixonada pela cultura grega (teatro, poesia, pensamento) e esse fascínio é uma das características da sua escrita. Este recente livro de contos engloba seis segundo uma escolha pessoal da autora: Eirene, Capadores, Nessa noite, Sul, Doroteia e A compaixão, este último resvalando já para o formato de novela. Vejamos um excerto de Capadores: «A Europa mandava o seu dinheiro, especialmente destinado àqueles que deixassem morrer os animais. Os pastores levavam os rebanhos para o relento e a seguir embebedavam-se para não os ouvirem a chamar. Os camponeses viam os pomares e os favais cobertos pelo mato e só passados uns instantes conseguiam sorrir para a paisagem. Mas passara. Passara tudo. Uma justiça inesperada, quase ofensiva, se exercera sobre as classes sem, no entanto, descobrir a mão. De facto toda a gente se vestia de modo semelhante e, mais do que isso, todos desfrutavam do enorme serão televisivo que não apenas irmanava a noite de pobres e de ricos mas também lhes irmanava os próprios pensamentos. Estavam todos nas mesmas circunstâncias, preocupados com inundações e um pouco divertidos com as guerras que não ameaçavam chegar perto. Tinham todos o mesmo futebol e os mesmos enredos de ficção.»

(Editora: Relógio de Água, Capa: Paulo Scavullo, Foto: Graça Sarsfield)