Vinte Linhas 57

Cronistas – Cuidado com a amizade

O escritor brasileiro José Lins do Rego (1901-1957), autor do hoje romance clássico publicado em 1932 «Menino de engenho», tinha muitos amigos e a Fundação Joaquim Nabuco editou em 1982 um número especial da Revista «Ciência e Trópico», assinalando os 80 anos do seu nascimento.

Um dos seus numerosos amigos, o escritor Ledo Ivo, depois de lhe chamar «um dos brasileiros mais povo e até mais Zé-povinho» escreveu «Uma vez foi na Suécia com a selecção que disputava a Copa do Mundo. Ficou ao lado do rei, na disputa memorável. E quando um golo de Garrincha desmoralizou para sempre a superioridade racial dos vikings, ele se virou para sua majestade e lhe disse no mais castiço português da Paraíba: «Seu rei, com o Brasil ninguém pode!»

Este é o texto que o escritor Ledo Ivo assinou no livro de homenagem a José Lins do Rego; agora vamos ver a realidade concreta. Primeiro erro crasso de Ledo Ivo: José Lins do Rego faleceu no Rio de Janeiro em 1957 e o Campeonato do Mundo da Suécia foi disputado em 1958. Segundo erro crasso de Ledo Ivo: Garrincha não marcou nenhum golo na final do Mundial de 1958 entre Suécia e Brasil pois os autores dos golos brasileiros foram Vavá, Pelé e Zagalo.

O título desta crónica pode parecer insólito mas afinal está certo. Todo o cronista tem que ter muito cuidado com os exageros da amizade. A verdade é muito mais importante do que a amizade. Nenhuma amizade justifica uma mentira, mesmo uma mentira piedosa. O cronista, qualquer cronista precisa de ter as suas amizades bem vigiadas.

4 thoughts on “Vinte Linhas 57”

  1. Pois é, senhor José Francisco. Esse Ledo Ivo é um sacripanta e um mentiroso de primeira. Tal como Machado de Assis que pôs o Brás Cubas a contar a sua vida depois de morto ou como um tal de Franz Kafka que aldrabou gerações inteiras a dizer que um tipo qualquer se tinha transformado em escaravelho ou em barata ou lá o que foi.
    Era mandá-los prender a todos para ver se aprendiam.

  2. Lenor se não sabes livros de homenagem ou números especiais de revistas são recolhas de textos de diversa índole – logo as crónicas cabem. Quanto ao gargantilho vá pregar para outra freguesia – não tem nada a ver a mentira real com a fábula ou a metáfora ou outra qulquer figura literária. Vai pôr a gargantilha no prego!

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