Cá por casa

cidadão presente ofereceu-nos uma mui bem trabalhada prosa a dar forma a variado comentário político. Last but not least, recorda Rita Levi-Montalcini, mais um cérebro judeu a fazer a diferença.

j.coelho volta a ser leitura de grande proveito, desta vez sobre os recursos marítimos. Para além do seu detalhado levantamento, acrescento que poderíamos ter na indústria da água o mesmo tipo de envolvimento político e social que os americanos tiveram quando decidiram ir à Lua. A água vai ser um dos mais decisivos recursos naturais para lidar com o aquecimento global e o crescimento da população, tanto a doce como a salgada. A doce para a agricultura e consumo, a salgada para alimentação, ciência, energia e transformação em água doce. Nada seria mais conforme à nossa História, e à nossa alma universalista e humanitária, do que este regresso aos descobrimentos aquosos.

Coisas infelizes numa revista chamada Happy
é um pinga-pinga de comentários há dois anos. E isto sem qualquer participação do autor, José do Carmo Francisco, o qual tem ali o seu mais feliz sucesso blogosférico.

Bota-abaixismos, catastrofismos, paranóias e conspirações

O Governo não interiorizou ainda que vamos empobrecer décadas? Não o explica aos Portugueses?

[…]

O Governo não tem aprovadas soluções nenhumas para sectores estratégicos, num momento em que da economia ao social nada ficará na mesma. E isso mete medo, por todos nós e, em particular, pelas gerações mais novas. O Governo não interiorizou ainda que vamos empobrecer décadas? Não o explica aos Portugueses? Não entende que a planificação é urgente e que as campanhas eleitorais que se avizinham não podem sobrepor-se a respostas necessárias à coesão social e a uma sustentabilidade mínima para o País?

Afinal andamos à deriva, foi esta a confissão do Primeiro-Ministro. Poucos ouviram.

O nosso amigo z trouxe este notável texto de Paula Teixeira da Cruz. Notável, antes de mais, pela autora; a qual sofreu recente tragédia, ou tragédias, na sua vida pessoal. Manteve-se, porém, com a sua actividade política e de intervenção pública. É tal revelador de admirável carácter, e exemplo de coragem. E notável porque o seu texto é representativo de um estado de psicose colectiva que atinge faixas da direita e da esquerda por igual, só variando nas referências. No caso da direita, o pólo aglutinador é Cavaco; no caso da esquerda é a tribo de cada qual. E corresponde ao extremar das características que têm moldado o perfil disfuncional da vivência cívica em Portugal ― gerado no salazarismo e que permanece como maldição endémica ― onde a ignorância e a cobardia oprimem a inteligência.

Continuar a lerBota-abaixismos, catastrofismos, paranóias e conspirações

Um livro por semana 117

anotacao-do-mal-jaime-rocha

«Anotação do mal» de Jaime Rocha

O ponto de partida da narrativa é uma rua: «A rua sobrevive como pode nos escombros, é uma sombra do que foi, no tempo em que eu passava por debaixo das arcadas, de sandálias. Ia à loja, ao pão, comprava cigarros, remédios, jornais». Nessa rua habitada pela mulher («uma mulher com um gancho no pescoço») e pelo velho («apenas um velho se prepara para atravessar o alcatrão»), surge uma realidade sórdida («Havia ali uma convulsão, uma ruptura com a realidade») que é o resultado de algumas mutações: «O seu passado foi noutro lugar, um sítio que deixou de existir. As casas ruíram, as pessoas mudaram de país, de língua, o gado adoeceu». Frente ao cemitério a história salta dos livros e aparece na rua: «um quadro com duas mulheres deitadas nos roseirais, duas mulheres de Dresden». São as migrações: «Um viúvo com uma filha que se mudou para uma vila distante, no fim da Europa, onde existe uma floresta». Eles chegam à rua: «Pode ser cigano ou então da Lituânia ou da Roménia». O narrador decide morrer: «Decidi morrer para não assistir ao desaparecimento das casas. O cemitério tem estado agitado, os coveiros não descansam um segundo». Texto premiado pelo PEN Clube português no passado mês de Dezembro, há neste minucioso registo de uma rua que representa uma civilização em crise, uma reflexão enunciada: «Este acontecimento fez-me reflectir sobre a morte das árvores, sobre o espaço que ocupam, sobre as casas e o tempo».

(Editora: Sextante, Design: Henrique Cayatte/Susana Cruz)

Vinte Linhas 339

E dizia o parvalhão «O sal de Rio Maior não salga!»

A cena tinha algo de patético: o emigrante português em Paris desde 1979 nunca tinha ido a Rio Maior, não conhecia as salinas e acabava de oferecer um saco de plástico com sal de Rio Maior a uma prima quando o marido da dita cuja, parvalhão até dizer chega, se saiu com um inesperado «O sal de Rio Maior não salga!»

Vivemos tempos complicados, a nossa civilização apresenta sinais de óbvia doença como por exemplo a excessiva atenção dispensada aos animais desprezando ao mesmo tempo as pessoas ou a febre da chamada «bricolage» que leva milhares de pessoas a desprezarem o saber e a competência dos pintores, ladrilhadores ou carpinteiros para fazerem eles mesmos aquilo que deveria ser feito por profissionais competentes. Outra doença é a mania de ter opinião como se ter opinião fosse um valor acrescentado na nossa vida – e não é. Há mesmo pessoas que perdem tempo a responder a inquéritos sobre Pinto da Costa, Carolina Salgado, o caso Freeport, o treinador do Benfica ou outros assuntos afinal não prioritários porque não dependem nem deste escrutínio nem desta opinião avulsa. É neste contexto geral que eu vejo a frase do parvalhão, marido da prima do emigrante a quem eu, ingénuo português de Portugal, fui mostrar as salinas de Rio Maior. Esse parvalhão tentou passar por cima da memória de todos nós que (como eu) conhecem o sabor do sal das salinas de Rio Maior desde a infância ou os camiões que levam para toda a Europa comunitária o excelente sal nascido daquele poço tão especial e tão antigo. Esse parvalhão não percebe que a sua opinião não conta para ninguém nem talvez para ele mesmo. Conclusão definitiva: para falar por falar é melhor estar calado.

Do fundo da toca

Sócrates foi convincente e reforçou a ideia, mesmo em cidadãos que não são PS, de que é um grande político e o político de que Portugal precisa ― e ele é, seguramente, a última oportunidade para que isto venha a ter saída, enquanto país.

A não percepção disto, em nome da luta partidária, pura e dura, é um erro terrível, até porque quem o pratica não entende que se abriram as portas para o bota-abaixo total. A luta de interesses é enorme, o que está em jogo não é, por parte dos maiores críticos e urdidores de intrigas, o bem-estar do país mas sim a defesa, desesperada, dos muitos e muitos milhões que vão (estão indo) à vida.

Não se compreende a “surdez” perante coisas tão absurdas como um Joaquim Coimbra a dizer que achava que BI (de Banco Insular) queria dizer bilhete de identidade ― em plena Comissão da Assembleia da República, meus senhores! e sabendo que estava a ser filmado… ― que outro interveniente no processo diga da fuga de documentos em contentor na véspera da busca da PJ, and so on and on… E que não se veja nenhum órgão de CS a “investigar”, que não surjam fugas de informação, quebras de segredo de justiça, que Marcelo não largue uma palavra que seja sobre a matéria, que a Guedes não entre na matéria no seu “reputado” jornal de 6ª feira…mas que se continue, obtusivamente, a caça ao homem na figura do 1º Ministro…

Estamos num momento decisivo da nossa história ― em que, ou damos um passo em frente, ou nos deixamos ficar enredados na treta, num país da União Europeia onde presidentes de Câmara escolhem o 25 de Abril para inaugurar praças em homenagem a Salazar… E, em nome da razão, não vejo outra figura que seja capaz de levar isto avante que não seja José Sócrates. Por muito que não me agradem alguns tiques do senhor.

__

Oferta do nosso amigo j.coelho

É mentira mas é verdade

Certa história, que remonta a suposta experiência no século XIX, diz que uma rã saltará para longe caso seja lançada para o meio de água a ferver. Contudo, caso se coloque essa mesma rã em água fria, ela ficará quieta. Então, pode começar-se a aquecer a água lentamente. A rã continuará imóvel, pois vai adaptando o seu corpo à lenta mudança de temperatura. O aumento continua até que a água atinge o ponto de ebulição. E coze a rã que continuou imóvel a tentar suportar o calor até ao fim.

Somos assim, não somos? Se alguém nos disser que daqui por cinco ou dez anos vamos estar enfiados numa vida de conflitos, agressões, violências, vergonhas e indignidades, e que não vamos conseguir ― ou querer! ― sair dela, acharemos impossível. A mera possibilidade nos parece ofensiva. Contudo, se nos acontecer devarinho, ao longo desse tempo, com altos e baixos, esperanças e desilusões, medos e negações, chegamos lá. Lá onde o aleatório das circunstâncias finge ser destino. Lá onde ficamos imóveis a ver a liberdade evaporar-se.

Claro, não somos todos assim. E o tema pode ser apenas relativo a algo tão banal quanto o inevitável stress. Speak inglês?

Sócrates, entre vistas

Atendendo ao momento ― pânico económico e terrorismo político-jornalístico em ano triplamente eleitoral ― pode ter sido a sua melhor entrevista audiovisual de sempre. Surpreendente frescura, descontracção, bonomia, consistência, coerência e assertividade na instauração da confiança pessoal. Também uma superior gestão da guerra aberta com (e por) Cavaco, a qual obriga a este jogo diplomático dos subtextos dado o melindre institucional da questão.

No que diz respeito ao caso Freeport, e tendo apenas como critérios a linguagem corporal e os sinais da fala, é impossível ter dúvidas quanto à sinceridade das suas afirmações. O resto ― isto é, a verdade oficial ― saberemos quando a investigação acabar. Adiante.

Os analistas repetiram-se, mais não sabem fazer. E os analistas falam de si, das suas neuroses, das suas caladas angústias. Falam a partir desse lugar onde não há cautela porque não há responsabilidade. Por isso cantam de galo, imaginam-se ministros das obras feitas, importa nunca esquecer. Senão, estariam a participar na criação de soluções.

É só isto. E é isto.

Vinte Linhas 341

Em 15 de Julho de 1997 as garrafas de águas choviam aos nossos pés

Esta situação (mais uma…) de uma arbitragem contra o Sporting Clube de Portugal (anular um golo limpo num momento decisivo) sugere-me uma ideia – Guimarães fez-me lembrar a Nazaré. Porque o árbitro é o mesmo, a situação repete-se. Vejamos: em 15-7-1997 na Nazaré foi disputado um decisivo jogo Sporting-Boavista para atribuição do título de campeão nacional de juniores dessa época. O Sporting tinha uma bela equipa: Nuno Santos, Travassos, Caneira, Valente, Orlando, Gomes, Kakinda, Assis, Gabriel, Vargas, Simão Sabrosa, Nuno Moreira, Alhandra e Paulo Costa. O Sporting marcou primeiro por Gabriel mas o Boavista na segunda parte deu a volta ao jogo. Segundo o jornal «A Bola» (fundado por Ribeiro dos Reis, apaixonado pela arbitragem) passo a citar «o Boavista apelou a todas as suas reservas físicas e anímicas para operar a reviravolta. Com alguma sorte e a ajuda do árbitro que lhe perdoou uma grande penalidade aos 85 minutos – braço na bola de Nuno Gomes».

Quando acabou o jogo eu atravessei o relvado ao lado de Aurélio Pereira e desci as escadas de acesso às cabinas do estádio municipal da Nazaré para entrevistar o treinador e o capitão da equipa – Caneira, esse mesmo mas 12 anos mais novo. Estava eu, o Aurélio Pereira e os dois guardas da GNR local ao lado do árbitro. As garrafas de água choviam aos nossos pés e o árbitro dizia. «Não percebo porque razão atiraram estas garrafas de água…» Entretanto o treinador do Boavista (Queiró) dizia sorridente para Rui Palhares do Sporting: «Pensava que eras tu a trazer o árbitro mas fomos nós!»

As pessoas não mudam e quando mudam é para pior. Isso já eu sabia. Apenas confirmei.

Quo vadis, Cavaco?

A ruína do PSD, e da direita em geral, deixou Cavaco numa perigosa situação: está a ser pressionado, em crescendo, pelas forças da reacção (ah pois, é este o exacto nome) para assumir a liderança da oposição. Por outro lado, detém poderes políticos e sociais que podem ter grande, até decisiva, influência nos resultados eleitorais que se avizinham. Aliás, desde o foguete de Ano Novo, a verdade como arma de arremesso, que temos um Presidente a endossar o discurso da direita, da partidária à popular.

E o homem não está desprovido de máquina amplificadora, olá. O Público é um aliado subterrâneo da Presidência, prestando-se a qualquer serviço. Os serviços tenderão a ser cada vez mais sofisticados e organizados, como se comprova pela simples leitura do que vai escrevendo Joaquim Vieira na resposta aos leitores. Os exercícios de malabarismo do Provedor do Leitor para não assumir o óbvio são até confrangedores. E o óbvio é que o Público é parte integrante da oposição, subordinando o interesse jornalístico geral, e ideal, aos objectivos políticos que persegue. Os seus editoriais e interpretações políticas não admitem dúvidas sobre o actual posicionamento. É por isso que não aparecem notícias sobre individualidades ligadas aos escândalos factuais ocorridos na banca, no Governo de Durão e Santana ou nos financiamentos partidários do PSD e CDS. Não se faz investigação em nenhuma dessas vastíssimas problemáticas que já se estabeleceram como matéria criminal, preferindo-se a torrencial construção de suspeitas sobre o carácter de Sócrates, valendo tudo desde vasculhar as pedras que pisou a caminho da escola primária até inventar compras a metade do preço. Porquê esta vergonhosa duplicidade? Talvez para não agastar um Presidente da República que confia no cidadão Dias Loureiro e o considera digno de pertencer ao Conselho de Estado. Se este é o critério, o melhor é mesmo não entrarem jornalistas do Público nos casos SLN, BPP e BCP, não vá isso obrigar mais algum amigo do cidadão Cavaco Silva a ir ao Palácio de Belém para ser visto a bater no peito e a jurar inocência e santidade.

Continuar a lerQuo vadis, Cavaco?

Vinte Linhas 338

Aurélio Lopes – «Videntes e confidentes» sobre Fátima mas não só

Foi lançada a mais recente obra do antropólogo Aurélio Lopes em edição da Cosmos «Videntes e confidentes – um estudo sobre as aparições de Fátima». Já no seu primeiro livro («Religião Popular do Ribatejo») o autor tinha estudado este tema que divide aqui em quatro capítulos: «Mulheres e Deusas», «Aparições», «Fátima» e «A construção do Sagrado». Além de Fátima são estudadas nestas páginas as aparições de Vilas Boas, La Salette, Lourdes, Vilar Chão, Ladeira do Pinheiro, Madjugorje e Escorial. Joaquim Garrido, em nome da Editora, referiu que a Cosmos tem um passado rico e um futuro promissor tendo este livro sido recusado em Fátima – o que é um bom princípio. Francisco Moita Flores afirmou que este é um livro a ler sem preconceitos porque o mundo não é a preto e branco e o Concílio de Trento já passou mas em Portugal ainda não. O escritor Domingos Lobo comentou ser este um livro em contra-ciclo pois neste tempo precisamos de ilusões e não de dúvidas. Embora não presente, Frei Bento Domingues afirma no prefácio que aprendeu muito jovem que podia-se ser católico e não acreditar em Fátima, recorda que sempre se irritou tanto com a apologia oficial das aparições como a visão do fenómeno como uma invenção dos padres recomendando a obra de Aurélio Lopes como um estudo isento dum fenómeno que ultrapassa em complexidade o que a ignorância e a crendice podem supor. Aurélio Lopes referiu por fim que Fátima é um caso de religiosidade popular que envolve milhões de pessoas em todo o Mundo e é um objecto social, não apenas religioso. Porque a verdade não é linear, há muitas maneiras de interpretar a realidade e só acontece aquilo em que acreditamos.

Campanha branca

Este vídeo feito pela TVI dispõe bem e recomenda-se a deprimidos, mal-amados e sócios do Benfica. É mais uma peça da campanha branca, aquele fenómeno onde se tenta atacar Sócrates com estratagemas ribaldeiros e se acaba a contribuir para o seu sucesso. Neste caso, é tudo imbecil como manda a lei não escrita do nosso atraso de vida. Liga-se uma manobra de marketing da SONAE/Optimus com a pulsão destrutiva dos que farão qualquer tonteira para manter o marasmo nacional, e nasce o melhor que a oposição consegue produzir: a completa instrumentalização do Público e seus jornalistas para criar factos políticos artificiais. Belmiro de Azevedo e Carvalho da Silva de mãos dadas e a rir, cirandando nas eiras e beiras dos seus ódios ao engenheiro, é o quadro desta operação debochada.

Que ambiciona a matilha ― Público, TVI, Intersindical, Fenprof, PCP e BE ― que montou a marosca e apareceu a mostrar as favolas no lançamento? Coisas simples e belas: que Sócrates perca a maioria; que Sócrates, ainda antes de perder a maioria, seja demitido por Cavaco; e que Sócrates, ainda antes de ser demitido por Cavaco antes de perder a maioria, seja enjaulado no Tarrafal por causa de uma filmagem que Manuela Moura Guedes ofereceu aos portugueses como símbolo do seu amor pela justiça e respeito pela verdade. Aí sim, finalmente livres, os comunas, os pulhas, os broncos e os reaças poderiam descansar. O cabrão deixava de ser um estorvo, o bolo voltaria a ser fatiado nas proporções pré-2005.

Entretanto, um bicharoco de nome Luciano Alvarez apresentou o plano da luta. E o que escarrapacha é extraordinário. Trata-se de um panfleto político para activistas acéfalos, escrito ao melhor estilo profético das Testemunhas de Jeová. Embriagado ou bêbado com a proximidade do 25 de Abril, imagina a turbamulta a cantar em coro de norte a sul do país [sic], perseguindo Sócrates até à humilhação final, onde o tirano será corrido do burgo pelos decibéis do povo unido. Para lembrar aos acólitos que estamos a lutar contra o fascismo, foi buscar José Mário Branco numa citação desasada; mas que tem o mérito de chamar a atenção para eventuais erros dos bardos-pistoleiros que vão para o palco disparar as suas armas contra o sistema. Só que de eventuais erros, neste grandioso plano Público, Luciano não quer nem ouvir falar. Tem apenas uma preocupação, a abrir e fechar a prosa: informar os autores da música de que ela já não lhes pertence, e qualquer coisa que digam a seu respeito que saia fora da tramóia não será admitida pelo team do Zé Manel.

Alvarez garante que a letra é bem clara e que é um manifesto contra o Governo, toda ela. O que faz antecipar que iremos ouvir muitos professores, muitos sindicalistas e muitos agitadores profissionais do PC e BE a gritar a plenos pulmões que já levam 30 anos de ladroagem no bucho. Vai ser uma autêntica revolução se esta moda de dizer a verdade aos portugueses continuar a espalhar-se.

O lugar do vento

Desde sempre quis saber porque razão se chama moinho a este pequeno navio.

As velas projectam a velocidade que não desloca o moinho mas, pelo contrário, interioriza essa velocidade e transforma-a em farinha de milho e de trigo.

Alguns teimosos ainda fazem pão verdadeiro

porque recusam o pão de plástico do hipermercado.

De vez em quando um cabo trava o movimento das velas

tal como a âncora que imobiliza o navio, no sossego da tarde, no tempo suspenso,

no lugar do vento onde se junta o sal do mar e a argila desta terra singular.

A terra de onde parti e aonde hei-de voltar um dia para descansar perto do lugar do vento, sem obter resposta para a minha dúvida de sempre:

saber porque razão se chama moinho a este pequeno navio.

Um livro por semana 116

penultimos-cartuchos-miguel-martins

«penúltimos cartuchos» de Miguel Martins

O discurso da brevidade sempre fascinou os poetas e os leitores de poesia. Há quem saiba de cór os poemas breves de Carlos de Oliveira («A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da terra») ou a Aldeia de Manuel da Fonseca: «Sete casas / duas ruas / no meio das ruas um largo / no meio do largo um poço de água fria».

Miguel Martins abre este livro numa meditação sobre o Tempo: «Uma das perversidades da velhice consiste em fazer parecer que os minutos são horas e as horas minutos».

Se o ponto de partida é o Tempo, o ponto de chegada é o Paraíso: «Um silêncio antigo, grave; uma imobilidade, como se tudo se achasse agrilhoado a tudo – o Paraíso».

Mas Sonho pode ser o outro nome do Futuro: «O preço do futuro é o presente. Ou, dito de outro modo, o preço do sonho é a vida. E o facto de sabermos que o sonho, como o futuro, nunca o alcançaremos, só torna mais bela a nossa dádiva».

Seja como for a Poesia está sempre presente («O poema é uma escala que os olhos descem enquanto a alma sobe») tal como os poetas: «A diferença entre os pequenos e os grandes poetas é a que separa o ilusionismo da magia».

Entre o Eu e o Mundo, o autor não esquece o tempo dos outros («Se fosse proibido usar as palavras eu e não, a maior parte das pessoas permaneceria muda») nem a filosofia que toda a poesia subentende: «Quem acha que a vida é para levar a sério deve andar convencido de que a morte é a brincar».

(Editora: Tea for one, colecção: Matéria mínima, www.t41editores.blogspot.com)

Asco

Local: SIC Notícias
Data: 16 de Abril de 2009
Hora: 21.50 (mais minuto, menos minuto)
Programa: JORNAL DAS NOVE
Protagonistas: Mário Crespo, António Seguro, Ângelo Correia
Tipologia: Decadência exibicionista
Relato: Crespo interrompe à pressa a discussão sobre os modos de combater a corrupção, o tempo está a acabar e ele quer ainda introduzir um último tema. O facto de Mário Cristina e Francisco Gandarez terem sido ouvidos como testemunhas no processo Freeport. Seguro faz um silêncio e responde devagar, que nada há para dizer. Silêncio. Crespo percebe que a bala acaba de rebentar no cano. Seguro repete que nada há para dizer pois o processo está a decorrer e todas as ocorrências são normais. Crespo afirma que também nada tem para dizer, mas daquele modo canalha que tanto pode ser súbito rebate de consciência como cínica ironia. Passa a bola para Ângelo Correia. E ouve o mesmo. O que, por ser exactamente o mesmo, é já uma outra coisa. Que nada há para dizer. E Ângelo, no melhor momento que lhe recordo, de longe e de sempre, avança. Que é um excelente sinal não estarem a sair notícias, nos últimos dias, sobre o que acontece nos bastidores da investigação. E que esperava que nada mais se soubesse até o processo estar concluído, pois é nesse silêncio público que o apuro da verdade deve ocorrer. Crespo defende-se, diz que todas as informações que aparecerem, sejam elas quais forem, serão noticiadas por ele na SIC, pois essa é a sua missão como jornalista. E é aí que Ângelo, demoníaco, não perde tempo em levar a espada à altura do ombro, termina a faena com golpe certeiro no coração da besta. Diz que o problema até pode nem ser dele, Mário Crespo, mas seguramente será de quem lhe passa essas informações que pervertem o normal andamento da Justiça. Crespo já só consegue balbuciar que isso é que seria, realmente, um assunto interessante a tratar ― assim revelando que, mesmo ferido de morte na sua cidadania e deontologia, continuava o irrecuperável crápula que agora todos reconhecem ser. Perdão: todos, menos o Medina Carreira.

Vinte Linhas 59

Os cuidados intensivos

Desde sempre se tem discutido o que é a poesia e o que é a literatura. Para muitos de nós a poesia vem antes da literatura pela simples razão de que a primeira poesia era cantada de terra em terra pelos antepassados dos trovadores. Por outro lado a literatura só começa a existir quando aparecem os primeiros livros. Ou seja, quando a poesia começa a poder ser repetida. Cada livro é como se fosse um trovador que vai cantar de terra em terra, de casa em casa. Já não vai a voz mas sim o seu registo gráfica, não vai a temperatura mas sim o seu desenho nas letras. Tenho para mim que a poesia é a mais pura modulação da voz do homem. Cheguei a ter uma série de versos que citava de cor. Por exemplo de Carlos de Oliveira: «A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da terra». Ou de José Gomes Ferreira: «Viver sempre também cansa!» Ou ainda de Carlos de Oliveira: «O sal é o mar servido nas nossas praias domésticas de linho».

Hoje gostaria de compartilhar convosco um breve poema dum autor grego (não sei se homem se mulher) que assina S. Kharkianákis e que a mão amiga de Maria Estela Guedes me ofereceu. «A poesia, irmã, não é nem canção nem reflexão. Poesia é cuidado intensivo aplicado à criação em sangue. E sobretudo registo de como a vida conduz à morte». O que estas crónicas pretendem ser é também isso mesmo: o intervalo possível entre canção e reflexão, entre a simples narrativa e a complicada filosofia a tentar compreender o que somos. Mas como o que fazemos não passa de uma apoteose efémera lá voltamos, mais uma vez, teimosos, a ver se, com o nosso sangue pisado, conseguimos escrever para não morrer.