Bota-abaixismos, catastrofismos, paranóias e conspirações

O Governo não interiorizou ainda que vamos empobrecer décadas? Não o explica aos Portugueses?

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O Governo não tem aprovadas soluções nenhumas para sectores estratégicos, num momento em que da economia ao social nada ficará na mesma. E isso mete medo, por todos nós e, em particular, pelas gerações mais novas. O Governo não interiorizou ainda que vamos empobrecer décadas? Não o explica aos Portugueses? Não entende que a planificação é urgente e que as campanhas eleitorais que se avizinham não podem sobrepor-se a respostas necessárias à coesão social e a uma sustentabilidade mínima para o País?

Afinal andamos à deriva, foi esta a confissão do Primeiro-Ministro. Poucos ouviram.

O nosso amigo z trouxe este notável texto de Paula Teixeira da Cruz. Notável, antes de mais, pela autora; a qual sofreu recente tragédia, ou tragédias, na sua vida pessoal. Manteve-se, porém, com a sua actividade política e de intervenção pública. É tal revelador de admirável carácter, e exemplo de coragem. E notável porque o seu texto é representativo de um estado de psicose colectiva que atinge faixas da direita e da esquerda por igual, só variando nas referências. No caso da direita, o pólo aglutinador é Cavaco; no caso da esquerda é a tribo de cada qual. E corresponde ao extremar das características que têm moldado o perfil disfuncional da vivência cívica em Portugal ― gerado no salazarismo e que permanece como maldição endémica ― onde a ignorância e a cobardia oprimem a inteligência.


O fenómeno não tem exclusivo algum nacional, antes acontece em todos os países desenvolvidos por causa da crise financeira e económica. Caracteriza-se por um dramático aumento das patologias ligadas ao stress, ansiedade, depressão e paranóia. Conduz também a um aumento da violência doméstica, resultando das perturbações psíquicas se intensificarem com as dificuldades económicas. Como a comunicação social se tornou imediata e ubíqua a custo zero, o consumo de notícias negativas está na origem de parte destes problemas, pois os indivíduos são confrontados com a ansiedade dos próprios jornalistas e líderes de opinião, os quais sofrem dos mesmíssimos problemas. Gera-se uma bola de neve, onde a comunicação social assusta o público e depois se assusta ainda mais por ver o público assustado. Por sua vez, o público fica cada vez mais assustado ao constatar a sua impotência perante o agravamento da percepção da situação.

Este é um jogo de espelhos que se vão deformando um ao outro a cada reflexo. O resultado ganha ainda mais intensidade na sociedade da informação, onde cada um vocaliza o seu discurso para quem o apanhar. Leia-se uma qualquer caixa de comentários de um jornal nacional. Basta um ou dois indivíduos para simularem uma mole de pré-revolucionários assassinos ou membros de seita apocalíptica demente. O anonimato, o registo escrito, a obsessão com as notícias, a ausência de capacidades críticas, a iliteracia, a novidade da interacção digital e a particular circunstância psico-emocional de cada um, chegam e sobram para um fluxo de intoxicação mental onde a racionalidade se dilui no vazio esquizóide.

A autora está nessa situação, e cumpre com a sua palavra: confessa que anda à deriva através de um cândido mecanismo de projecção em Sócrates; talvez o único político que, factualmente, não mostra andar à deriva ― e daí ter ele falado em navegação à vista, o que é completamente diferente, para além de ser obrigatório bom-senso. Fica, pois, a faltar uma segunda confissão, Paula: aquela onde reconhecerias que calhando Sócrates ser do PSD, e ser primeiro-ministro, neste momento estarias a agradecer à Providência por haver quem encare com tanto realismo e determinação uma crise para a qual ninguém, mas ninguém nesta galáxia e arredores, tem uma solução para apresentar. E calhando também Cavaco ser do PS, e estar a tentar denegrir a imagem de um Governo PSD para favorecer o seu partido, talvez fosses das primeiras a protestar com indignação, confessa lá.

36 thoughts on “Bota-abaixismos, catastrofismos, paranóias e conspirações”

  1. Não te iludas Valupi, cada um a fazer o seu lugar na orquestra, eles, psd, andam todos à caça do mesmo agora: o Poder, e o carcanhol claro.

    Hoje no Publico, que eu não comprava há milénios, a Helena Matos perverte absolutamente a entrevista do Socrates e transforma-a no que ela gostava que tivesse sido um exercício de desconstrução psicanalítica, implacável manipulação.

    A Paula Teixeira da Cruz não aprendeu nada a ver o filho morrer à sua frente, a jogarem cartas. O sétimo selo.

  2. Z, devias ter vergonha. A única coisa que desejo é que nunca passes por situação idêntica. Tenho para mim que há coisas sagradas, e o sofrimento e perdas alheias é uma delas.

  3. Valupi, seguramente encontrarás os problemas que descreves em todos os partidos, desde a nossa amiga Carmelinda até ao professor de desenho, passando pelo PS, PSD.

    Numa coisa tens razão “mas ninguém nesta galáxia e arredores, tem uma solução para apresentar.” isso incluindo o PS. Por isso só nos resta uma coisa auto-gestão ou então Anarquia. Que te parece? A mim parece-me bem varrer esta troca que compõe os partigos em Portugal, todos sem excepção.

  4. este anda lá a mamar há mais de 30 anos, a voz de Argel a render até a reforma, cumplice de tudo o que isto é agora, mas gostava de mais umas benesses: um tapetezinho vermelho para aquecer a alma toldada pela sombra da foice. O sétimo selo,

    Jorge Sampaio: a ti é que agradeço pá, em vez de estares estirado na Tapada das Necessidades a fumar um cigarro de olhar poisado no Tejo andas a dar a cara e com propostas. Mas é tudo um enjôo, triste sapiens.

    Valupi: não sei se aguento a tusa por causa do enjôo, mas passámos por duas instâncias ideólogicas que corromperam toda a conviviabilidade no século XX: uma toda a gente sabe, a cretinice da sobrevivência do mais apto que ainda por cima é uma má tradução do survival of the fittest spenceriano já de si enviezado, e a outra foi a ditadura subtil do fisicalismo (physical realism como tese metafísica) no final do século XX, que teve a sua expressão nítida na agenda Sokal.

    Se quiseres pensa um dia nisto, é interessante,

  5. z,
    nunca esteve tão mal quanto no seu primeiro comentário.

    e se me responder que ‘já me topou’, deixe-me adiantar-lhe que eu a si também.

    um pouco de decoro, de decência e de humanidade não lhe faziam mal nenhum.

    se alguma consideração tinha por si, perdi-a completamente.

    o que para si é indiferente, claro. nem me conhece.

    eu é que o passei a conhecer – e daí a minha total indiferença pelo que venha a escrever a partir de hoje.

  6. Se não estivéssemos na UE, já se ouvia o tilintar das espadas de generais golpistas, para entregar isto outra vez a um messias papa-hóstias de tarrafal à cinta. Duvidam?

    O presidente da câmara PSD de Santa Comba vai inaugurar no próximo dia 25 DE ABRIL lá na terrinha dele uma praça António de Oliveira Salazar. É o mesmo autarca PSD que quer fazer o Museu Salazar.

    A Manela Ferreira Leite escolheu para a uma campanha publicitária, em grandes outdoors com letras garrafais, um slogan salazarista dos anos 30: POLÍTICA DE VERDADE.

    Claro, não são fascistas, nem ele nem ela, mas gostam muito de brincar com o pipi da mamã…

  7. Z Topas-me o quê? Gente sem carácter e e que explora o dramas alheios é coisa que não falta e tu és um deles. As palavras ficam com quem as profere.

  8. Nik essa tua estória da associação, do autarca de Santa Comba Dão ( e não Santa Comba, pois Santa Comba … há mais) da MFL e do Salazar é tão imbecil como o acto do autarca.

    Mas se te aprazem as comparações com o Botas, quem estava no governo quando a policia foi a um sindicato de professores na Covilhã? Era a MFL? Quer parecer-me que não.

  9. Há também o olho, mas este Ibn é melhor, é o piolho do Aspirina. De cabeça achatada, tipo piolho da púbis. Tens lêndeas? Vá lá, porta-te bem.

  10. Oh , pá , V , vê lá se escolhes melhor as imagens: imaginei logo o socras agarrado à ancora que nos há-de levar ao fundo…preferia andar à deriva , podia ser que encontrássemos uma qualquer exótica e fértil ilha deserta.

  11. Z a sua referência à Paula Teixeira Pinto é perversa. Deveria demonstrar mais respeito pelas tragédias do outros, pois, nunca sabemos quando a mosca nos cai no prato.

  12. ui, está tudo tão chocado por eu ter ousado nomear o inominável. Pois mantenho exactamente o que escrevi:

    «A Paula Teixeira da Cruz não aprendeu nada a ver o filho morrer à sua frente, a jogarem cartas. O sétimo selo.»

    sem-se-ver, obrigado pela indiferença,

  13. e acrescento o seguinte: eu não estou a congratular-me com a desgraça da senhora, estou a dizer que ela não aprendeu nada senão não teria escrito um texto desonesto para fazer valer a sua força política, e quem não vê isto é porque não vê,

  14. Estas virgens (das orelhas) indignadas com a referência, aliás despropositada e de gosto duvidoso, ao filho de Paula Teixeira Pinto não têm o mínimo sentido das proporções nem do ridículo. Denotam uma noção tacanha do que é a compaixão. O facto de nos condoermos com a desgraça alheia não nos impõe nenhuma mordaça.

    Estas virgens indignadas fazem-me lembrar certas regateiras que se valem do pretexto mais fútil para se declararem ofendidas, fazerem a sua demagogia barata… e chamarem puta badalhoca à cliente ou à vizinha.

    Os tugas são muito dados a tabus. P. ex., não se deve falar na desgraça alheia, que nos pode acontecer a nós; não se deve falar na morte, que podemos morrer, etc. E deus castiga quem o fizer!

    O fraco gosto da referência fica, como diz Pinto da Costa, com quem a fez. Daí aos comentários ofendidos e escandalizados que se seguiram, vai o tradicional passo da mentalidade supersticiosa, pacóvia e fadista dos portugas.

  15. concordo que é de gosto duvidoso Nik, mas compreenderás que é preciso chocalhar também os tabus por causa dos exercícios de manipulação que andam por aí e vão desenrolar-se ainda mais, e além disso mantenho o que escrevi, mas sobre isso acho que já não há mais a dizer,

  16. Acho que a referência á morte do filho da Paula Teixeira da Cruz era dispensável, apesar de ter sido ela que proporcionou este comentário, pois mesmo de luto ela não se coibiu de sobrepor os seus interesses pessoais e políticos através da desonestidade.
    Quem efectivamente sente estes dramas com intensidade, deixa de dar valor a tudo, em particular a esta coisa mesquinha que é a politica, mesmo que se dependa dela e dos interesses que ela encerra, como é o caso da Paula Teixeira da Cruz!

  17. Mete-me muito nojo a oposição de bolinhas de cristal escondidas e mágicas varinhas de condão.

    Perceberam a gravidade da crise muito antes dos governantes mas continuaram a dizer que a crise financeira não ia provocar mais do que abrandamento da economia. Esganiçaram-se a criticar o último orçamento de estado porque o crescimento do PIB não ia ser de um e qualquer coisa mas sim zero e picos. Fiaram-se nas visões, erraram também.

    Agora o governo não existe porque não toma medidas ou são pouco eficazes, mas soluções népia, propostas viste-las. Tomara, não têm nada para acrescentar além da defesa de alguns outros interesses que ainda não tenham sido contemplados. Só estão à espera de chegar ao poder e, armados de varinha de condão, vá de fazerem a sua magia.

    Isto não passa de dormência intelectual, cidadania rasteira e ilusionismo social que muitos se esforçam por manter e difundir. É um foguetório opinativo inconsequente travestido de política. Acontece que estes políticos não raras vezes são pagos e só estão preocupados ou em denegrir o trabalho dos outros, ou que venha algum papão para lhes roubar as ideias. Tristeza. Não devia ser utilizada nenhuma parte dos nossos impostos para isto.

  18. Agora apetece-me dizer o seguinte, só para raiar de sangue os olhos a umas bestas piedosas que pululam nesta caixa: esta Paula qualquer coisa, Teixeira Pinto por parte do homerm de quem se divorciou à chapada e à canelada, está a tentar reagir aos dramas que viveu, primeiro o divórcio, depois a trágica morte do filho, com um arreganho de militância sectária, aparentemente o último rempart que lhe resta. Ela que arranje mas é um homem, de preferência da esquerda, que são bons na cama, e aquilo passa-lhe.

    Está bem assim para vomecês?

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