Da vergonha

A sua licenciatura manhosa, os projectos duvidosos de engenharia na Guarda, o caso Freeport, o apartamento de luxo comprado a metade do preço e o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira não fazem necessariamente do primeiro-ministro um homem culpado aos olhos da justiça. Mas convidam a um mínimo de decoro e recato em matérias de moral.

[…]

Numa coisa estamos de acordo: ele tem vergonha da democracia portuguesa por ser “terreno propício para as campanhas negras”; eu tenho vergonha da democracia portuguesa por ter à frente dos seus destinos um homem sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático.

João Miguel Tavares

Quando saiu este texto, subiu-me o fel à boca. Porque é um texto odioso, alucinado. Toma partido pelas suspeitas, construindo com elas as conclusões. Nem as investigações entretanto feitas, que nada revelaram de errado no percurso e currículo de Sócrates, nem as investigações a decorrer, que obrigam a uma espera, contam para suspender a sentença: Sócrates já é culpado, e para sempre será tirano. Quem o diz é um jornalista, daqueles com opinião.

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Esquerda de masoquistas by Nik

Há uma esquerda, que não se limita aos partidos de Louçã e Jerónimo, tendo também os seus representantes no PS, noutras agremiações e entre muita gente sem simpatia partidária, que sofre, sempre sofreu, de uma idealite aguda, agravada de uma profunda incompreensão do que é a política hoje, do que ela foi ontem e será amanhã.

É uma gente que, mesmo nascida depois da ditadura salazarista, só gosta de estar na oposição, indefinidamente, para sempre. Para eles a acção política é só o protesto, a denúncia, a defesa, a resistência a um estado de coisas inaceitável. Preferem deitar ao lixo os seus votos, ou não votar de todo, a interrogar-se seriamente sobre a validade dos seus próprios ideais, supostamente belos e nobres. Ideais que se confrontam permanentemente com uma realidade que não compreendem e recusam. Têm a sensação que está tudo sempre a piorar, desde o começo dos tempos.

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Vinte Linhas 336

«Salão Portugal» de Vítor Serpa

São 15 viagens à infância do autor: «O meu mundo era Lisboa; o meu país, Belém; a minha aldeia, a Travessa da Memória». Esta infância, tempo no qual não há preço nem para os beijos nem para as lágrimas, tem uma geografia: «A fronteira sul era o Tejo, a norte era a Ajuda, a leste era a Boa-Hora, a poente o Restelo. Os meninos que lá viviam não brincavam connosco nem faziam trocas dos bonecos da bola». Cromos entre o «não tenho» e o «fica para a troca»: «o Ramin, o Falé, o Rita, o Paz, o Rocha». Nesta infância há diferenças entre dona e senhora: «a mulher do peixe, varina velha e cansada, não se chamava dona mas senhora». Aprende-se o primeiro amor (Leila) que veio com o circo Filadélfia, chamava-se Dores e desapareceu numa manhã de nevoeiro. Aprende-se o segundo amor (Sissi) no Salão Portugal: «Na minha frente a deslumbrante visão da Romy Schneider, haveríamos de andar de mão dada». A Escola Primária («os heróis da Pátria eram vizinhos de Deus») faz a ponte para a memória do atentado contra D. José: «Saíra o rei por amor. Outros terão saído por ódio. Tudo acabou em cinzas e sal». Da montra da D. Vitória onde Cochise, Zorro, Silver, Jim Clarck, Buda e a Senhora de Fátima vivem em fantasia, a narrativa salta para a verdade da viúva de 26 anos com o marido morto em Tete que, farta de ser chamada «gaja, mulherzinha e reles» se lança à linha do comboio deixando um bilhete: «Amar-te-ei sempre. Ainda mais na morte do que na vida. Laura» No tempo definido («operários presos pela PIDE, crianças internadas com tuberculose») o registo dual do texto oscila entre a vida («o Matateu foi para o Atlético») e a morte: «Que orgulho pode uma mãe ter pela morte de um filho? Só porque militares fardados lhe chegaram à porta e lhe dizem que o filho morreu pela Pátria?» Entre a vida e a morte, fica o lugar do sonho: «Era a Baixa de Lisboa. As mulheres, elegantes. Os homens, ricos. Os carros, luminosos. As montras, apetecíveis».

(Editora: Dom Quixote, Capa: Henrique Cayatte, Fotos: André Alves e Horace Bristol)

Intermitência

 

 

“Quero, desesperadamente, o teu sexo”, revela-me, fome e excitação, C. “Sim”, respondo. “Sempre me pareceu, sobretudo depois de olhar com atenção para o aspecto do teu rosto, que um pénis se encaixava melhor no conjunto do teu corpo”, acrescento.

Lembretes

– Se a oposição não apresenta projectos e programas alternativos aos do Governo e PS, tal não se deve a qualquer dificuldade no acesso aos meios de comunicação, bem pelo contrário. TVI, SIC, Público, Sol, Expresso e Correio da Manhã, pelo menos, assumiram uma desbragada postura anti-Governo. No outro lado, a oposição aparece a comunicar na RTP, TSF, DN e JN constantemente, entre tantos outros meios, fora os próprios. A explicação, obviamente, é outra: a oposição não tem projectos nem alternativas. Contudo, caso se reclame ser a anterior conclusão não mais do que rasteira propaganda, então terá de se admitir que essas ideias não ganharam favor, nem sequer curiosidade, apesar das circunstâncias extraordinariamente adversas para Sócrates e Governo. Choose your poison.

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Vinte Linhas 335

Homenagem a um mestre da fotografia no Chiado

O espaço belíssimo e acolhedor, composto por uma sucessão de salas em abóbada, tem o nome de «Fábulas» e fica na Calçada Nova de São Francisco nº14, ao Chiado. A exposição de fotografias de Manuel Luís Cochofel (n. Huambo, 1965) intitula-se «Binary Bodies – After Muybridge» e organiza-se numa homenagem à obra do fotógrafo Eadweard Muybridge. Explica Manuel Luís Cochofel: «Uma das características que mais me interessou explorara é o isolar de cada um dos movimentos tornando cada corpo no autor de um gesto que não compreendemos e temos dificuldade em imaginar como se seguirá, se terá continuação e nos deixa uma certa angústia e perplexidade que me interessa gerar».

Em vez de reproduzir apenas as imagens do clássico que pretende homenagear, este trabalho pega em velhas fotografias nas quais se depositou o pó do tempo e vai ampliando umas e fragmentando outras, fazendo de cada rosto uma silhueta, de cada movimento uma suspensão, de cada corpo uma memória difusa.

Já Aragon tinha avisado («Car j´imite, tout le monde imite, tout le monde ne le dit pas») e poetas de grande craveira como Carlos de Oliveira ou José Gomes Ferreira escreveram poemas em forma de imitações de poemas de Luís de Camões – por exemplo. No caso de Manuel Luís Cochofel em vez de imitação trata-se de uma transfiguração.

O local da exposição também convida a essa dicotomia: há nas lajes do pavimento e nos tijolos das abóbadas o peso do que é perene enquanto a fotografia aparece muitas vezes (e quase sempre) como a apoteose do efémero. (A não perder até 30 de Abril).

Um livro por semana 114

«O meu cinzeiro azul» de Henrique Manuel Bento Fialho

A origem deste livro é o Blog antologiadoesquecimento de Henrique Fialho (n. Rio Maior, 1974) e a sua primeira frase em 5-9-2005: «O meu cinzeiro azul está repleto de cinza». O ponto de partida destas reflexões é o tempo actual: «Para o bem e para o mal a religião chama-se hoje economia, a santidade metamorfoseou-se em fama, Deus dá pelo nome de dinheiro. No meio disto tudo, a liberdade, estro da indignação, é sonho, é utopia, é poesia». Neste mundo a poesia tem um lugar: «A poesia mora num lugar muito para lá da palavra, independente das costuras da linguagem. Ela é miopia reveladora». Mas além do lugar tem uma função: «Como entender a função da poesia num mundo que sobrevive à custa de uma constante simplificação das perspectivas que lhe dão forma?». Também a poesia tem uma vitalidade própria: «A poesia é útil como um garfo, um martelo ou uma esferográfica. Mais útil porque está mais presente na minha vida do que qualquer destes utensílios». Esta perspectiva conduz a uma compreensão de toda a poesia: «ver num poema uma representação do universo». Entre o mundo e a poesia, surge o amor: «Quem ama ou odeia nunca está só. Pode amar-se em dor, nunca em solidão. Havendo memória não há morte. Havendo memória há presença. Mas o amor é uma palavra demasiado grande. Tão grande que não cabe num poema». Fica a ideia final: «A poesia, a ser alguma coisa, que seja esse lugar de reencontro do homem consigo mesmo, do homem com a sua condição, lugar de encontro com uma verdade não mais triste porque inútil, nem mais alegre porque pateta, do que a própria vida: um passar por cá, entre a lágrima e o sorriso, entre a dor e o prazer, entre o gelo e a chama, entre a terra e o céu, entre os outros que são aqueles entre os quais também nós nos encontramos».

(Editora: Canto Escuro, Ilustrações: Cristóvão Crespo, Grafismo: Mário Pedro)