Um livro por semana 117

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«Anotação do mal» de Jaime Rocha

O ponto de partida da narrativa é uma rua: «A rua sobrevive como pode nos escombros, é uma sombra do que foi, no tempo em que eu passava por debaixo das arcadas, de sandálias. Ia à loja, ao pão, comprava cigarros, remédios, jornais». Nessa rua habitada pela mulher («uma mulher com um gancho no pescoço») e pelo velho («apenas um velho se prepara para atravessar o alcatrão»), surge uma realidade sórdida («Havia ali uma convulsão, uma ruptura com a realidade») que é o resultado de algumas mutações: «O seu passado foi noutro lugar, um sítio que deixou de existir. As casas ruíram, as pessoas mudaram de país, de língua, o gado adoeceu». Frente ao cemitério a história salta dos livros e aparece na rua: «um quadro com duas mulheres deitadas nos roseirais, duas mulheres de Dresden». São as migrações: «Um viúvo com uma filha que se mudou para uma vila distante, no fim da Europa, onde existe uma floresta». Eles chegam à rua: «Pode ser cigano ou então da Lituânia ou da Roménia». O narrador decide morrer: «Decidi morrer para não assistir ao desaparecimento das casas. O cemitério tem estado agitado, os coveiros não descansam um segundo». Texto premiado pelo PEN Clube português no passado mês de Dezembro, há neste minucioso registo de uma rua que representa uma civilização em crise, uma reflexão enunciada: «Este acontecimento fez-me reflectir sobre a morte das árvores, sobre o espaço que ocupam, sobre as casas e o tempo».

(Editora: Sextante, Design: Henrique Cayatte/Susana Cruz)

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