Frente Unida dos Imbecis

O que se passou no processo que levou à brutal censura de um anúncio da Antena 1 prova como a democracia é frágil. Não sei se a virose agitprop teve origem no Nuno Ramos de Almeida, mas a favor desta tese está a data de publicação, 19. Ontem de manhã, Pacheco Pereira acrescentou veneno ao que tinha nascido podre e deu-se uma explosão no final da tarde. Pelo meio, o PSD alinhou com a esquerda imbecil, partido invertebrado que actualmente é, e Carvalho da Silva disse esta coisa fabulosa; que fica como programa de abolição da singularidade humana e manifestação psicótica:

A concepção individualista apresentada no spot não configura a missão de serviço público a que a rádio pública está adstrita, antes parece reflectir uma atitude de subserviência a posições de incómodo manifestadas pelo Governo relativamente à contestação das suas políticas.

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Do adubo

A bosta é natural e alimenta muito bicharoco. Entra na economia do sistema vegetal e sai da vegetação dos economistas. Também a real bosta que é a TVI veio enriquecer as nossas opções lúdicas na versão 24. Nada se perde.

É o caso do Prolongamento, onde se encontram reunidos Pôncio Monteiro, Fernando Seara e Eduardo Barroso, os três sob a desculpa de irem falar de futebol. Mentira. Eles são mantidos naquele espaço apenas para não andarem à solta na cidade. Pelo menos durante duas horas, uma vez por semana, ficam num ambiente controlado, monitorizado por um auxiliar de enfermagem e vigiados por várias câmaras de televisão; assim descansando familiares e amigos que podem aproveitar para ir jantar fora, ao cinema ou pôr a conversa em dia.

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Vinte Linhas 330

De como a ASAE me estragou o Dia do Pai ou «Não se pode exterminá-lo?»

Vinha eu embalado num dia quase feliz pois ainda pude almoçar com o meu pai no Dia do Pai e receber três beijinhos dos meus filhos (um deles por telefone) quando de súbito levei um murro no estômago e fiquei com o resto do dia estragado. Parei na Espinheira para um lanche que supunha agradável mas soube que a Associação Cultural e Recreativa de São Salvador / Espinheira foi multada pela ASAE em 4.500 euros por não ter livro de reclamações e por não ter o snooker aferido. É espantoso como aqueles «cérebros» são capazes de castigar assim os indefesos corpos gerentes da Associação. Um livro de reclamações tem justificação para um café que existe para ter lucro mas para uma associação que trabalha desde 1-5-1974 e está aberta desde as 8 da manhã às 11 da noite para apoiar os 180 habitantes das duas localidades é uma brutalidade monstruosa e desajustada para uma equipa de dirigentes que se preocupa em manter uma escola de karate e um espaço de ginástica de manutenção para a terceira idade. Podiam ao menos (se tivessem um pouco de bom-senso) avisar que, apesar de a Associação não ter fins lucrativos mas como único fim o bem-estar da população quase toda idosa, se tornava obrigatória (mesmo assim) a apresentação de um livro de reclamações. Mas não. Bom-senso eles não têm nem fazem ideia do que seja. Querem é passar a multa. Agora lá vai a Associação organizar uma noite de fados e guitarradas para angariar fundos para pagar a multa da ASAE. E eu pergunto: então e a Junta de Freguesia, a Câmara Municipal e o Governo Civil não podem fazer nada para ajudar a Associação? Eu revoltado digo como o Vanigen encadernador na peça de Karl Valentim: «E não se pode exterminá-lo?»

Um livro por semana 112

«O Marquês da Bacalhoa seguido de A execução do Rei Carlos» de António de Albuquerque

Esteve para se chamar «Enseada Azul» este hoje clássico da literatura de combate contra a Monarquia. Abre um dos capítulos com: «Achava-se ali, nesse à-vontade incomparável das praias, todo o vício elegante, vaidoso e snob da linda e vasta Enseada Azul e se à primeira vista parecia reinar entre os frequentadores da praia uma geral promiscuidade, era um completo engano. Havia profundas separações; barreiras vedando o acesso aos desconhecidos e aos possidónios».

Além do Rei, a Rainha é posta em causa, sendo-lhe atribuída uma ligação a uma das mulheres da corte a quem dirá: «Não sejas criança. Vai desembaraçar-te desse aparatoso vestido e volta depressa…anda. A ti adoro-te, bem o sabes, e ninguém incarna para mim o amor como a tua fragilidade voluptuosa, sincera e ardente». As relações entre as personagens e as figuras reais são evidentes: o Bacalhoa é D. Carlos, João Franco é João Nunes dos Santos, Mouzinho é o coronel Luna, Soveral é Álvaro Negrão.

Sobre «A execução do Rei Carlos», óbvio desenlace do livro anterior, escreve Paulo da Costa Domingos «Limpando os escolhos literários, subsiste na sua pungência original uma passagem da nossa história, das difíceis de se omitir a parte maldita».

Para fugir à polícia de João Franco os livros foram compostos numa «catraia» (pequena oficina) na Rua do Arco do Bandeira embora apareçam em 1908 e 1909 como sendo impressos em Bruxelas. António de Albuquerque era descendente de Afonso de Albuquerque e morreu em 1923 em Sintra depois de pedir perdão à Rainha e a Deus.

(Editora: Frenesi, Prefácio e Capa: Paulo da Costa Domingos, Assistência editorial: Telma Rodrigues, Caricatura: Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro)

Não enfies a inteligência no preservativo

Defender a Igreja é um dos meus pecados favoritos. Porque ela não tem defesa, daí o luxo (ou luxúria) a que me entrego apaixonadamente. E também porque nem sequer cristão sou, quanto mais católico, daí o gozo supremo da peleja. Os temas do aborto, eutanásia e preservativo são ocasiões de flame wars onde não se fazem prisioneiros nem se vira as costas ao inimigo. E o inimigo é só um: a luta da inteligência com ela própria.

Ana Matos Pires e Carlos Amorim Abreu formam um par de opostos que atinge a perfeição dos contrários. Opostos em tudo menos na banalidade de uma inteligência acrítica quando o assunto é religioso. As suas reacções são intelectualmente infantis, manifestando profunda ignorância acerca da própria natureza de uma instituição religiosa. Eles representam a mediania, a enorme mole das opiniões comuns. Para esta gente a Igreja faz muito mal em ter valores e ideias próprias, há muito que deveria ter adoptado as ideias e valores deles. Sim, estamos no domínio das liberdades, e estas explosões emocionais nascem do desejo de retirar a liberdade de expressão e vivência às religiões.

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Vinte Linhas 329

Mais de 9.000 livros perdidos na British Library

A notícia deixou-me, como é costume dizer-se na brincadeira, de olhos boquiabertos… Então aquela santa instituição chamada British Library deixou perder mais de 9.000 livros alguns deles perfeitamente insubstituíveis. Vejamos: um guia da cidade de Roma editado no século XVII, a edição de 1876 da «Alice no país das maravilhas» de Lewis Carrol, os «Cantos» («Canzoni») de 1911 de Ezra Pound, «O retrato de Dorian Gray» de Óscar Wilde na edição de 1891, uma carta astrológica de Moses Ben Maimon datada de 1555 e um livro de Wolfgang Musculus de 1556 intitulado «Sobre os cristãos». Todos os livros são mais que valiosíssimos e também impossíveis de substituir.

O mais engraçado é que isto não tem graça nenhuma. Corria o ano de 2006, o calendário marcava o dia 27 de Julho e estive uma manhã quase inteira a responder a uma bateria de perguntas antes de me concederem o cartão de leitor nº 631480 com validade até 27 de Agosto desse ano de 2006. Quiseram saber quem eu era, mostrei a carteira profissional de jornalista e expliquei que estava a ajudar o meu filho recolhendo elementos para a sua tese de mestrado sobre o Marquês de Alorna e o Estado da Índia. Depois obrigaram-me a indicar um parente em Londres com a sua profissão, o seu local de trabalho, a sua morada e o seu número de telefone. Senti-me incomodado por tanta pergunta, por tanta especial vasculhar na minha privacidade (até pediram o número do meu cartão de crédito torcendo nariz ao facto de ele ser apenas silver…) e duas horas depois lá me concediam o cartão. Fiquei irritado, fui tratado como um suspeito mas as exigências são só para alguns. Pelos vistos os tipos que roubaram aqueles livros todos não foram incomodados como eu.

Um livro por semana 111

«De Tempos a Tempos» de Júlio Conrado

Júlio Conrado (Olhão, 1936) é um autor multifacetado (romancista, contista, poeta, ensaísta, biógrafo, contista e tradutor) que publica regularmente desde 1963 e tem textos seus traduzidos em francês, alemão, inglês, húngaro e grego.

Este «De Tempos a Tempos» junta dois livros num volume: antologia pessoal e antologia crítica. Escreveram sobre a obra de Júlio Conrado (entre outros) os seguintes críticos: Ramiro Teixeira, Ernesto Rodrigues, Serafim Ferreira, Maria Estela Guedes, Annabela Rita, Manuel Villaverde Cabral, António Augusto Menano, José Fernando Tavares, Cristina Robalo Cordeiro, João Rui de Sousa, Maria Fernanda de Abreu, Fernando J. B. Martinho, Eugénio Lisboa, Liberto Cruz, Manuel Simões, António Cândido Franco, Urbano Tavares Rodrigues, João Gaspar Simões, Duarte Faria, Luís Miranda Rocha, Maria Alzira Seixo e Fernando Venâncio.

Duas cartas de Fernando Namora e de Eduardo Lourenço completam o volume que inclui uma entrevista conduzida por Luís Souta na qual Júlio Conrado afirma: «Considero-me um ficcionista. Se bom, se mau ou assim-assim, outros o dirão. Mas o ensaio e a crítica são áreas fascinantes que eu não julgo incompatíveis com a ficção e a prova é que, estando a publicar dois romances, anda por aí mais um livro de ensaios, Ao Sabor da Escrita. Não se trata de uma questão de jogo mas sim de interesse intelectual. Tenho sabido separar as águas quando critico a «concorrência». E sou dos que mais tempo na sua vida consagrou a divulgar, através da crítica e do jornalismo cultural, a obra alheia. Pouco devo aos meus contemporâneos. Eles sim, devem-me bastante».

(Edição: Roma Editora, Capa: David de Almeida, Organização: Annabela Rita)

Sócrates e o culto da personalidade

Existe um culto da personalidade à volta de Sócrates, é indesmentível. Começou em 2006, com as corridinhas a assustarem os pançudos, as tareias no Parlamento a envergonharem os palonços e a evidência de que o homem ia mesmo tentar reformar alguma coisa. E o culto cresceu. Cresceu como nunca se tinha visto em Portugal. Até no PS há militantes e deputados que alimentam o culto da personalidade a Sócrates, veja-se o ponto a que isto chegou. O Alegre, por exemplo, é um deles. E outros que estão com ele, que até chegam a votar contra o partido na Assembleia da República ou sonham com a perda da maioria absoluta, não se cansam de falar em Sócrates. Mas onde o culto da personalidade atinge o seu histerismo é na oposição. À direita, o mais destacado cultor é o Pacheco, coadjuvado pelo Zé Manel e pasquim, a que se juntou o Sol, TVI e Correio de Manhã, pelo menos. À esquerda, PCP, BE e sindicatos amigos, vocacionados para cultos da personalidade desde o berço, não deixam os seus créditos por manipulações alheias. Todavia, nada se compara com o paroxismo que acaba de ser alcançado pelos professores:

Sou professor não voto em Sócrates

Os professores consideram que a governação de Portugal é matéria da exclusiva responsabilidade de um indivíduo. Não há partidos, não há militantes, não há programas, não há eleições, não há Parlamento, não há sociedade, não há comunidade, não há Pátria, não há nada para além de um nome, uma cara, um poder que se projecta absoluto, um monarca.

Espero que os professores não andem a ensinar estas porcarias aos seus alunos. Para isso, mais vale que ocupem o seu tempo em manifestações, onde podem dar largas ao culto da personalidade de Sócrates com aqueles cartazes tão giros que o procuram ofender, precisamente, na sua personalidade. Os alunos, assim livres da influência destes professores, terão até tempo para aprender alguma coisa de política.

Que nome vamos dar a quem foge do Parlamento?

O BE saiu do Parlamento porque o Chefe de Estado de Angola lá entrou. Pelas seguintes razões:

Fernando Rosas acusou ainda o regime angolano de ser “oligárquico, assente na corrupção e com chocantes desigualdades sociais”

E, súbito, a muitos, e a muitos até agora simpatizantes do Bloco ou em aproximação, caiu uma chuvada de lucidez: o BE é um bando de perigosos irresponsáveis. Porquê? Porque também representam o Estado português ao mais alto nível – ou ao mais fundamental nível – ao terem representação parlamentar. Estás de acordo? Tens de estar, tira agora o resto das conclusões: ao se recusar a receber o Presidente de Angola no Parlamento, o BE está a afirmar a ilegitimidade do poder político angolano. E que tipo de relações se pode ter com um Estado a cujos representantes não se reconhece o direito de representação? Se o BE não recebe Eduardo dos Santos no Parlamento, servindo-se de critérios tão vagos e ambíguos, como seriam as suas relações com a enorme maioria dos países mundiais, inevitavelmente abrangidos pelos mesmos critérios, caso fosse Governo? Os eleitores aguardam um rápido esclarecimento.

Entretanto, o papagaio-mor do partido, Daniel Oliveira, vendo-se à beira do abismo lógico, resolveu dar um passo em frente: afirmou que Eduardo dos Santos é um criminoso. Ter estado presente no Parlamento, então, significaria ter sido cúmplice dos crimes que o BE já averiguou e encaminhou para as autoridades nacionais e internacionais (presumo, fazendo fé na honestidade intelectual deste arauto da verdade). Fez muito bem o BE, canta o Daniel, e tal imbecilidade abre-nos o apetite para as seguintes perguntas: o BE aceita partilhar o Parlamento com deputados e partidos que foram ao beija-mão do criminoso?; o BE aceita ter um Presidente da República que convida criminosos para visitas de Estado?; o BE tem planos para alterar a política interna angolana? Os eleitores, e as autoridades angolanas, aguardam um rapidíssimo esclarecimento.

Para mim, é tudo muito mais simples. Sendo o Parlamento a sede da democracia, quem foge dele foge dela.

7 Reasons Leaders Fail

Dilbert.com

Serão os filhos culpados pelas ignorâncias e limitações dos pais? Idem para os empregados em relação aos patrões. Em Portugal é raro encontrar um patrão inteligente, o que é diferente de encontrar um patrão com sucesso. O sucesso é um conceito fluido, adaptável à circunstância de cada um e à sorte que tudo rege. Mas a inteligência é uma capacidade que remete para o outro, para essa arte de criar comunidades. Aqui o sucesso não nasce da sorte, mas da atenção, da humildade e da coragem.

Os portugueses urbanos não sabem criar comunidades, são profundamente incultos, e isso leva a que sejam inevitáveis tiranetes, ou capatazes mesquinhos, no exercício das chefias. Donde, a necessidade de fazer uma revolução que comece por cima, pelas lideranças. E este artigo, tão elementar, chega e sobra para essa alquimia.

Queda livre

O programa Roda Livre, da TVI24 (ainda a anunciar Vital Moreira no elenco), reúne Vasco Pulido Valente, Rui Ramos, Correia de Campos e Henrique Garcia. O moderador está lá para garantir o festim de chicana contra o Governo, PS e Sócrates, não faz rigorosamente mais nada. O Vasco comporta-se com a senilidade que as palavras escritas escondem e a voz não disfarça. E o Rui Ramos revelou-se, ao vivo, uma surpreendente fraude intelectual.

Neste ambiente de hostilidade desbragada, Correia de Campos tenta apresentar factos, números e argumentos. Para nada. Do outro lado há opiniões, percepções e vitupérios, sem carência de base real ou imunes ao contraditório objectivo. Por isso, anteontem, ele acabava invariavelmente a rir-se da fantochada onde estava metido.

Mas o cúmulo atingiu-se quando Henrique Garcia introduziu o tema do computador Magalhães, o qual, nas suas palavras, estava cheio de erros gramaticais. É importante notar que esta ideia é transmitida publicamente no dia 12 de Março de 2009 pelo responsável editorial da TVI24. Ou seja, não se trata de um episódio de má informação ou falta dela, é antes a deliberada intenção de mentir. Pois foi isto que aconteceu: quando Correia de Campos começou a falar, os outros três começaram a vaiar, literalmente! Estavam em regime de pateada, boicotando o discurso do orador antes mesmo de ele ter conseguido ligar duas sentenças. Foi uma situação extraordinária, nisso em que ela revela, de modo obsceno, as actuais disfunções de tanta gente com que crescemos, ou amadurecemos, intelectual e jornalisticamente, e agora se apresenta alucinada, espumando a sua frustração e ressabiamento para cima dos telespectadores e interlocutores. Não têm a mínima noção do que assim revelam da sua intimidade, ou parece não se importarem com algum critério de aferição da honestidade. Supremo encanto da merenda, quando chegou a vez do Vasco e do Rui falarem das supostas desgraças linguísticas do Magalhães, nada se ouviu sobre o assunto. O Rui apenas reconheceu que o computador era um sucesso junto das crianças, e o Vasco queria cascar nos professores. Quer-se dizer: há idosos analfabetos em lares insalubres que teriam algo de mais valioso a dizer do que este par de jarras.

Estamos a assistir a um fenómeno colectivo onde há um efeito de contágio. O delírio de Pacheco Pereira, de que os outros são cópia, é a expressão mais acabada da patologia originada pelo desabamento da direita, tanto no plano partidário, como no plano ideológico. Mas as causas mais fundas do actual desespero e paranóia ligam-se à qualidade política do Governo, que promete levar o PS a vencer as eleições apesar da contestação artificial e das campanhas negras, e aos acontecimentos no BCP, BPN/SLN e BPP. Uma rede vastíssima de cumplicidades, de empresas a indivíduos, sente-se ameaçada, entrou em pânico e teme o pior das investigações. Sócrates tem de ser condicionado, ou afastado, a todo o custo, pois o que está em jogo são casos de polícia e prisão que atingem a elite nascida do cavaquismo e os negócios que ela alimentou nos últimos 20 anos.

Um aviso com 86 anos

Aviso por Causa da Moral

Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim – exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor…

Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más – boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível. Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.

Tudo o mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.

António Nogueira, Europa, 1923

Abre-me essa pestana

Primeiro, lê este. Demora 2 minutos, menos se não sabes inglês. Depois vai fazer um chá, passeia, fuma um cigarrito, dá comida ao gato, perde-te a olhar para quem passa. E volta para ler este.

É que temos de acabar com a tanga do dualismo razão-emoção. As emoções são racionais, mecânicas. E a razão tem sentimentos que o próprio coração desconhece.

Alguém do Bloco que vá dar uma ajuda ao homem, faxavor

O Daniel Oliveira está a ser reduzido a picado. Começou aqui a sangria, pelo Jairo Entrecosto, um nome que é um destino. Este amigo voltou à carga. E um outro trouxe este artigo.

Ora, a questão é veramente simples. O Bloco é populista, todos o sabem, e por isso é moralista, a lógica do seu extremismo, e por isso é antidemocrático, dado que a democracia é amoral, e por isso é imbecil, recusando-se a receber o Rei de Espanha porque… qualquer coisa, e por isso é cobarde, fugindo da afirmação da sua posição em relação a Angola dentro do Parlamento, e por isso não deve ser Governo, nem sequer em coligação. Isto é cristalino: até o PCP oferece mais confiança do que o BE. Se o PCP é um análogo da Igreja, simétrico antropológico, o BE é a exacta cópia de uma seita, daquelas que acreditam em naves espaciais a reboque de cometas onde todos os eleitos irão entrar em direcção ao Reino.

Vinte Linhas 328

O vestido é a bandeira da Primavera

Na cidade não há amendoeiras em flor mas eu vejo no teu vestido de hoje o anunciar da Primavera. O escuro do fundo do tecido contrasta com o verde e o grenat das imagens sucessivas, redondas e repetidas na vertical. Parecem pétalas de flores que o vento agreste dispersa na tarde quente da cidade.

Vejo no teu vestido uma bandeira a anunciar a estação que se aproxima. Vejo nesta geometria de cores o anúncio da vida a ressurgir depois do longo Inverno que fez das albufeiras repletas grandes lagos interiores na nossa paisagem. Entretanto nasce uma certeza: as barragens vão ter longos meses de desafogo.

O teu vestido de fundo escuro com desenhos a verde e a grenat é um anúncio de leveza, de alegria, de movimento. Basta juntar o som da tua voz, basta fechar os olhos para ouvir nela, dentro dela, no seu volume, o rumor do rio que passa na tua terra e a força do vento que empurra as pedras da serra ali mesmo ao lado.

Basta juntar o vestido ao som da tua voz para termos a luz das amendoeiras em flor em plena cidade, entre eléctricos e ambulâncias, entre carros da polícia e autocarros.

Nos semáforos, nas escadas do Metro, no comboio suburbano, no fim de tarde que se desenha à tua volta o vestido continua a ser uma bandeira da estação que tu anuncias um pouco antes do tempo. A Primavera chegou no timbre e na altura da tua voz, no esplendor do sorriso, no ritmo dos teus passos afirmativos e impetuosos. Caminhas nos passeios da cidade com o mesmo ritmo com que atravessas as ruas da aldeia nos dias de festa. Caminhas como se já ali à frente houvesse uma encosta de amendoeiras em flor.

Peripateta

A real bosta que é a TVI foi a última estação a lançar um canal de notícias e, apesar do atraso, conseguiu o brilharete de não disponibilizar os vídeos dos programas. É o equivalente a lançar-se um novo telemóvel sem possibilidade de envio de SMS. Não se pode, assim, rever o Cara a Cara ontem emitido. Mas uma breve consideração preliminar: para se descobrir a honestidade e capacidades cognitivas de qualquer ser adulto falante de português, basta assistir a este programa com o indivíduo em causa. No final, interrogue-se o co-espectador acerca de Santos Silva. Qualquer resposta que não reconheça as suas superlativas capacidades analíticas, clareza discursiva e cultura política, será um atestado de menoridade intelectual e/ou má-fé. Porque o actual Ministro do Assuntos Parlamentares é um exemplo do melhor que a democracia pode criar, não tendo qualquer dificuldade em desmontar a retórica rançosa da oposição. Já Morais Sarmento é um exemplo do pior que o cavaquismo produziu, subindo ao ringue só para ser espancado sem piedade. O que o salva é um processo auto-anestesiante que lhe permite chegar ao fim do programa sem desmaiar.

Pois ontem viveu-se um momento de rara pureza liceal na televisão portuguesa. Nasceu na cabeça de Morais Sarmento, a qual usou de todos os seus poderes psicossomáticos para que se produzisse uma vibração no ar equivalente à sonoridade da palavra peripatético. E assim foi, ouviu-se dizer que o PS era, ou estava, muito peripatético em relação a uma dada questão. Santos Silva reagiu com surpresa – talvez medo, dada a novidade da utilização do conceito no léxico político – e tentou alertar o seu comparsa para o eventual engano. Debalde, pois Sarmento estava até entusiasmado com o efeito provocado no adversário. Na terceira tentativa de correcção, já com notas de compaixão e etimologia da palavra a ser ilustrada com gestos e dedinhos andarilhos, Sarmento disparou um olhar de indisfarçável e triunfante desprezo, aparecendo nos seus olhos a seguinte legenda: Fodi-te com o peripatético, não foi?… hehehe… Vens para aqui armado em doutor, mas agora levaste na corneta… Cabrão de merda! E lá partiu para a explicação. Que o PS estava… muito… [pausa para entrelaçar as mãos e exibir um esgar de dor] muito… peripatético!… porque… o Governo… [qualquer coisa, da qual nada se percebeu]. O programa acabou logo a seguir, e Santos Silva parecia resignado, abatido. Contemplava os próximos meses, e neles via obrigatórias reuniões semanais com um peripateta do tempo do outro senhor.

Umas palavrinhas para o Paulo Magalhães: atento, espartano e verdadeiro moderador. Promete. E faz uma boa dupla com Santos Silva, pois confronta-o com lhaneza, focando-se no interesse jornalístico.