O programa Roda Livre, da TVI24 (ainda a anunciar Vital Moreira no elenco), reúne Vasco Pulido Valente, Rui Ramos, Correia de Campos e Henrique Garcia. O moderador está lá para garantir o festim de chicana contra o Governo, PS e Sócrates, não faz rigorosamente mais nada. O Vasco comporta-se com a senilidade que as palavras escritas escondem e a voz não disfarça. E o Rui Ramos revelou-se, ao vivo, uma surpreendente fraude intelectual.
Neste ambiente de hostilidade desbragada, Correia de Campos tenta apresentar factos, números e argumentos. Para nada. Do outro lado há opiniões, percepções e vitupérios, sem carência de base real ou imunes ao contraditório objectivo. Por isso, anteontem, ele acabava invariavelmente a rir-se da fantochada onde estava metido.
Mas o cúmulo atingiu-se quando Henrique Garcia introduziu o tema do computador Magalhães, o qual, nas suas palavras, estava cheio de erros gramaticais. É importante notar que esta ideia é transmitida publicamente no dia 12 de Março de 2009 pelo responsável editorial da TVI24. Ou seja, não se trata de um episódio de má informação ou falta dela, é antes a deliberada intenção de mentir. Pois foi isto que aconteceu: quando Correia de Campos começou a falar, os outros três começaram a vaiar, literalmente! Estavam em regime de pateada, boicotando o discurso do orador antes mesmo de ele ter conseguido ligar duas sentenças. Foi uma situação extraordinária, nisso em que ela revela, de modo obsceno, as actuais disfunções de tanta gente com que crescemos, ou amadurecemos, intelectual e jornalisticamente, e agora se apresenta alucinada, espumando a sua frustração e ressabiamento para cima dos telespectadores e interlocutores. Não têm a mínima noção do que assim revelam da sua intimidade, ou parece não se importarem com algum critério de aferição da honestidade. Supremo encanto da merenda, quando chegou a vez do Vasco e do Rui falarem das supostas desgraças linguísticas do Magalhães, nada se ouviu sobre o assunto. O Rui apenas reconheceu que o computador era um sucesso junto das crianças, e o Vasco queria cascar nos professores. Quer-se dizer: há idosos analfabetos em lares insalubres que teriam algo de mais valioso a dizer do que este par de jarras.
Estamos a assistir a um fenómeno colectivo onde há um efeito de contágio. O delírio de Pacheco Pereira, de que os outros são cópia, é a expressão mais acabada da patologia originada pelo desabamento da direita, tanto no plano partidário, como no plano ideológico. Mas as causas mais fundas do actual desespero e paranóia ligam-se à qualidade política do Governo, que promete levar o PS a vencer as eleições apesar da contestação artificial e das campanhas negras, e aos acontecimentos no BCP, BPN/SLN e BPP. Uma rede vastíssima de cumplicidades, de empresas a indivíduos, sente-se ameaçada, entrou em pânico e teme o pior das investigações. Sócrates tem de ser condicionado, ou afastado, a todo o custo, pois o que está em jogo são casos de polícia e prisão que atingem a elite nascida do cavaquismo e os negócios que ela alimentou nos últimos 20 anos.