12 a 1 é melhor do que 7 a 1

Que o Bayern tenha varrido o Sporting do mapa europeu com o resultado de 12-1, é apenas uma das várias provas da falência da mecânica quântica e do acerto de Einstein quando resolveu chibar-se a respeito de Deus não jogar aos dados. 12 para 1 corresponde à proporção das diferenças entre a Alemanha e Portugal no que concerne ao PIB*, filósofos que saibam ler alemão** marcas de cerveja*** e gajas loiras****, factores estes, todos eles e cada um, críticos para qualquer equipa de alta, mesmo média, competição.

Falar no 7-1 é que não. Isso, por favor, é sagrado e só para recordação caseira. Também vendo um autógrafo do Manuel Fernandes, se insistirem muito e pagarem a pronto.

__
* Sei lá.
** Mais coisa, menos coiso.
*** Hã?
**** Pois.

A lei de José Eduardo Martins

Paulo Ferreira diz que o Governo e o Estado são cúmplices de:

– [alinhar na] encenação que ditadores, protoditadores e governantes pouco escrupulosos gostam de se atribuir

– [receber] aqueles que se confundem com o Estado, que pensam que são donos dele

– [aceitar] aqueles que medem a sua importância, o seu poder e a sua influência pelo número de motas de polícia que abrem caminho nas ruas e avenidas, com absoluto desprezo pelos incómodos que esses caprichos causam a milhares de pessoas

mimar governantes sem credenciais democráticas ou humanistas

Também mostra ter informações que põem em causa a necessidade de tanta segurança:

Dir-se-á que é a segurança que motiva o aparato. Mas afinal que perigos ameaçam a vida de José Eduardo dos Santos? Teme-se um atentado da UNITA? Dos separatistas de Cabinda? De quem, afinal?

Termina com uma interrogação que nos leva para o cerne do problema:

Mas seria de esperar outra coisa de um país que hoje é governado por um primeiro-ministro que aceitou que fechassem a Praça Vermelha para fazer a sua mediática corrida matinal em Moscovo?

Concordo com o Paulo, é má-onda fechar a Praça Vermelha, seja lá para o que for. Nisso Sócrates fez cagada, não vale a pena tentar esconder (para mais tendo em conta o tamanho da puta da praça). E talvez explique por que razão ainda não conseguiu voltar à China. É que os chineses também têm praças, e são supersticiosos. Portanto, fixe, Ferreira, bem dezido. Não há dúvida de que à imprensa livre ninguém põe a pata em cima; apesar do PS e tal.

Ah, já me esquecia. Se porventura estás a insinuar, ou a declarar, que o Governo do meu país é cúmplice de criminosos, isso piaria muito fino. Claro que eu não acredito nisso, até porque tu escreves num jornal de referência. Mas se estivesses mesmo a querer dizer que os nossos governantes são criminosos por anuência, associação e promoção, vamos imaginar essa imbecilidade, era até caso para fazer uma pequena adaptação à lei de José Eduardo Martins – e convidar-te a resolver o assunto dentro do Parlamento.

Um livro por semana 110

«Sidónio Pais – Ídolo e Mártir da República» de Rocha Martins

Rocha Martins (1879-1952) foi sempre um jornalista apaixonado pela História. Começou no Diário Popular, passou por A Vanguarda, Jornal da Noite, Ilustração Portuguesa e República. Fundou os semanários ABC em 1920 e Arquivo Nacional em 1932.

Neste seu livro, escrito entre Abril e Outubro de 1921, Rocha Martins faz a sua reconstituição do tempo entre a «revolução» de Dezembro de 1917 e 14 de Dezembro de 1918, dia em que o presidente Sidónio Pais foi morto a tiro por José Júlio Costa.

Sobre o fascínio exercido por Sidónio junto das mulheres escreve o autor: «Sidónio Pais conseguira, em poucos meses, captar o maior elemento de triunfo que existe: a Mulher. Não havia uma só que não adorasse o gesto nobre desse homem esbelto e, com o fetichismo da raça, com a paixão do instinto pelo seu futuro, não o julgasse um ser de eleição pronto a remediar todos os seus males. A correspondência recebida pelo Presidente da República tem o aspecto sacro de um livro de orações em favor da Pátria. A mulher é quem guarda o lar, quem o deseja tranquilo, alegre; é ela quem cuida dos filhos e por eles teme; a portuguesa, na sua maioria dona de casa, receando perder o esposo, sonhando sempre com melhores dias, encontra em Sidónio uma esperança e não queria desiludir-se. Era a eterna continuação da lenda medieval do príncipe matando o dragão para salvar a princesinha».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Vinte Linhas 327

«Os Galegos nas Letras Portuguesas»

A partir das palavras de Fernando Venâncio no semanário «Expresso» de 1-12-2007 organizou Rodrigues Vaz este livro de 234 páginas que inclui autores tão diversos como Sá de Miranda e Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Teixeira de Pascoaes, Ramalho Ortigão e Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis e Francisco José Viegas, Wanda Ramos e Fernando Assis Pacheco.

Escreve Fernando Venâncio no intróito deste livro: «Na península que habitamos, na Europa, mesmo no mundo inteiro, nada nos é mais próximo do que a Galiza, nada deveria ser-nos também, mais caro. Temos ali uma irmã de cultura, no idioma, no modo de ser. Por ali se prolongam tranquilamente as nossas paisagens. Foi dali que, num dia longínquo, nascemos como país, depois de séculos em que o nosso Norte era somente o Sul da Galiza». A edição (Pangeia Editores) conta com ilustrações de Helena Justino e o apoio da Xunta de Galicia.

Fazemos uma única citação breve que pode e deve servir de «apetite» de leitura; eis um excerto do livro «Coisas espantosas» de Camilo Castelo Branco: «Abriu Gregório o seu armazém na travessa de S. Domingos, com uma tabuleta amarela e vermelha, onde se lia este mote em letras verdes O LEÃO DAS ESPANHAS REI DOS PETISCOS. De feito, sobre o dístico, via-se o leão empolgando nas garras um pato assado e um paio de Lamego. Afora este estabelecimento que lavrou créditos não vulgares, Gregório abriu nas hortas de Chelas uma casa chamada RETIRO ADMIRABELE onde os petiscos eram muito melhores que a ortografia».

trust me?

Diz-me o que lês, dir-te-ei em que me podes ajudar. Por exemplo, se lês o Design Observer podes ajudar-me em tudo e mais alguma coisa, porque estarás com a inteligência muito bem nutrida. Imagina que eu preciso de ajuda para compreender o meu trabalho. Seria a oportunidade para me recomendares este texto de Michael Bierut:

When I do a design project, I begin by listening carefully to you as you talk about your problem and read whatever background material I can find that relates to the issues you face. If you’re lucky, I have also accidentally acquired some firsthand experience with your situation. Somewhere along the way an idea for the design pops into my head from out of the blue. I can’t really explain that part; it’s like magic. Sometimes it even happens before you have a chance to tell me that much about your problem! Now, if it’s a good idea, I try to figure out some strategic justification for the solution so I can explain it to you without relying on good taste you may or may not have. Along the way, I may add some other ideas, either because you made me agree to do so at the outset, or because I’m not sure of the first idea. At any rate, in the earlier phases hopefully I will have gained your trust so that by this point you’re inclined to take my advice. I don’t have any clue how you’d go about proving that my advice is any good except that other people — at least the ones I’ve told you about — have taken my advice in the past and prospered. In other words, could you just sort of, you know… trust me?

Vês? A inteligência mede-se sempre pelas vantagens obtidas. Neste caso, para além de se esclarecer em poucas palavras o processo criativo, ainda se recolhe uma lição sobre relações humanas que tem aplicação para lá do ambiente profissional. Sem confiança o criativo não consegue fazer aprovar a sua promessa; ora, pelas mesmíssimas razões, sem confiança também os filhos não acreditam nos pais, os alunos não aprendem com os professores, os cidadãos não se comprometem com a Cidade. E sem confiança não se ama, pois não? Para que quereria eu (ou tu) entregar a vida a quem não amo? Ou porque dizes tu (ou eu) que não amas a quem entregas a vida? A confiança é uma necessidade de que se pode fugir, mas só para admitir que fomos parar a um deserto.

É disso que nos fala este testemunho do Bierut, escondendo-o na aparente futilidade da aprovação de uma peça de comunicação comercial. Porque também os clientes entregam a sua vida ao comprarem ideias, arriscando a reputação, o emprego e a confiança em si próprios. Tal como um amigo entrega a sua vida quando acredita no que ouve do seu amigo, ou no que o seu amigo lhe mostra, dirias ainda com santa paciência, só para me ajudar. Os amigos arriscam o sentido da sua existência, e o tempo que é cada vez mais precioso, ao confiarem. Achas que se pode ser amigo sem confiar?

E assim, apontando para o que está próximo, continuarias a aumentar o meu entendimento do mundo com farta inteligência, agora mandando-me ler On (Design) Bullshit, um texto que aprofunda o anterior e o leva para os pressupostos filosóficos (mas tão fáceis de perceber que até eu iria perceber o que é tão fácil de perceber). Finalmente, porque sabias que eu já tinha visto 12, ou 13, episódios do Mad Men, oferecias-me este presente.

Tortos à direita

A estreia do A Torto e a Direito, na TVI 24, confirma 3 ideias e oferece um bónus:

1ª – A TVI é pirosa. Há um mau gosto estético que é o exacto reflexo de um mau gosto intelectual e de uma completa falta de gosto ético. Os cenários são feios, os programas de produção própria celebram o subúrbio, as notícias são deturpadas à má-fila, as opções editoriais têm como missão satisfazer as exigências do sistema cognitivo de um taxista iracundo e sócio do Benfica. Constança Cunha e Sá encarna na perfeição esta tipologia, apresentando-se ao serviço na edição inaugural não como jornalista, ou moderadora do debate, mas como mais uma alma que tem algo para desabafar sobre os malandros do PS e a tirania em que vivemos. O problema não está em ter opiniões, antes na chatice de, quando questionada sobre os pressupostos objectivos do que despeja, ficar sem saber o que dizer. Porque, de facto, tudo se resume à sua cabecinha, ela nem o TPC tinha feito.

2ª – A direita portuguesa vive a sua travessia do deserto. João Pereira Coutinho, se visto como representante da nova geração de talentos, dá vontade de desligar o televisor e ir lavar a loiça. O seu histerismo, para espectador ver, é pegajoso e tem cheiro. Não é por aí, não é assim, que vamos conseguir introduzir inteligência de direita no debate político. Já temos ressabiados que cheguem, ó Coutinho.

3ª – Fernanda Câncio é uma das personalidades mais úteis na comunicação social actual. É mulher, é jornalista, é íntima de Sócrates e tem no bom-senso a sua principal arma. Sendo mulher, fica como apelativo exemplo que pode inspirar outras mulheres para a intervenção cívica. E nós precisamos muito, mas muito, de mais mulheres com poder político e influência social. Sendo jornalista, tem uma deontologia que promove a sua honestidade intelectual; tendo revelado, ao longo da sua carreira, especial zelo com as questões deontológicas. Sendo íntima de Sócrates, humaniza a figura do político, combate as distorções inerentes ao exercício do poder e contrabalança a onda de paranóia que nasce do descalabro do PSD. E, last but not least, com o recurso ao bom-senso consegue desarmar as imbecilidades à sua volta. Foi assim neste programa, onde perguntas básicas chegavam para exibir a inanidade dos discursos dos seus parceiros de pseudo-debate.

Bónus – Luís Salgado Matos, convidado para comentar o negócio da CGD com Manuel Fino, é indescritível e inimputável. Confundia-se com as paredes da casa.

Arnaut, sexy motherfucker

António Arnaut tem 73 anos. Vista de fora, a sua vida tem sido admirável. Um exemplo de cidadania, coragem política, generosidade intelectual. Em 1983 abandona as lides partidárias, guardando o titânico rótulo de Pai do Serviço Nacional de Saúde. Andou mais de 20 anos desaparecido dos holofotes políticos, até que renasceu para os jornalistas em 2007. Discordava da reforma na Saúde, em especial, e achava que o PS estava a ser empurrado para a direita, em geral. Foi ficando a maldizer a governação desde aí, aparecendo colado a Alegre e outros notáveis elementos da quinta coluna socialista. Isto, sem necessidade de outros detalhes, quer dizer uma coisinha que até o Zé Manel da SONAE vai admitir sem ter de gastar um editorial: este mação dum cabrão tem malhado forte e feio no patife do Sócrates.

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Currespondência

No dia 17 de Fevereiro, recebemos cá na casa um email que reza assim:

Companheiro(a),

Segundo uma análise do Expresso aos valores das sondagens do PSD e dos seus líderes desde 2005, a actual liderança é, segundo o Expresso, a pior desde 2005.
Curiosamente, esta liderança que tanto criticou e exasperou a anterior liderança tem que engolir as palavras do Expresso que mostram que Luís Filipe Menezes nunca teve valores negativos na apreciação da sua pessoa.

Convém relembrar que durante a presidência de Luís Filipe Menezes ainda não se ouvia falar de crise, Portugal presidiu, durante 6 meses, à União Europeia, os professores ainda não tinham realizado duas mega-manifestações, não havia o caso Freeport. Agora, com todo o descontentamento que existe na sociedade portuguesa, o PSD não consegue subir na opinião dos portugueses. E para cúmulo, temos que ouvir o Miguel Portas, do Bloco de Esquerda, afirmar que as hipóteses do PSD ganhar as eleições são iguais às do BE.

É caso para reflectir e alguns fazerem um “mea culpa”.

Saudações Sociais Democratas.
A Causa!

Ontem recebemos um email assinado por D. Duarte de Bragança; cuja qualidade política, intelectual e literária pode ser aferida, com grande economia de caracteres, recorrendo ao seguinte excerto:

Para ultrapassarmos as dificuldades, precisamos de todos os nossos
recursos humanos em direcção a uma economia mais “real”, mais
sustentada, mais equitativa, uma economia em que respirem todas as
regiões a um mesmo “pulmão”.

E hoje recebemos esta coisa:

Curso de Astrologia em Lisboa
Dias 3 e 10 de Fevereiro, das 20H às 00H00

Ainda se aceitam inscrições

Um aprofundamento da teoria dos Arquétipos de Carl Gustav Jung, bem como das dinâmicas entre o consciente e o inconsciente – Sombra, Animah, Animus, Self, Individuação, Imago Dei – é desenvolvido ao longo do curso.

O Novo Ser, em incubação em todos nós hoje, é fruto não apenas da evolução psicológica e psicoafectiva, o amadurecimento integral das diferentes partes do ser, tal como descrito nos 12 trabalhos de Hércules e na tradição astrológica, mas principalmente fruto da Graça operando de dentro para fora, de cima para baixo, em contínua NEOGÉNESE libertadora.

As funções hoje conscientes – correspondendo aos planetas pessoais – tornam-se gradualmente subconscientes e o foco do Ser Consciente transfere-se gradualmente para o nível intuitivo e, em certos casos, para o nível espiritual – níveis regidos por planetas suprapessoais ou mesmo por corpos celestes ainda por revelar no nosso sistema estelar.

Este novo ser – o ser gnóstico – encontra-se representado pelo centro do Zodíaco, o centro do mapa astrológico, pelo 13º signo, o Unicórnio, o Atman.

© André Louro de Almeida

Alguns, mais apressados, não relacionarão estes três emails, sendo incapazes de estabelecer nexos e proximidades em matérias aparentemente tão díspares. Não sabem o que perdem.

Vinte Linhas 326

«Colchetes de ouro» não é de Alfredo Marceneiro

Durante umas horas valentes este Blog foi um espojadouro. A propósito da «balada do coletinho» e dos seus dois versos iniciais o Nik deu o mote com a frase infeliz «prefiro a letra do Marceneiro» e o Gandaenjôo atirou-se ao chão, rebolou-se e levantou pó com aquela da «falta de respeito pelo Alfredo Marceneiro». O Nik ficou-se pela ignorância mas o outro foi agressivo. Parecia um solípede nervoso, deitando espuma pela boca e expelindo pelas narinas um som aflitivo e desorientado. Deixei que o pó assentasse e fui confirmar ao livro sobre a vida do Alfredo Marceneiro (que me foi oferecido pelo seu neto Vítor Duarte) aquilo que já sabia. O autor dos versos conhecidos como «Colchetes de ouro» é o poeta Henrique Rego a quem muitos chamavam o príncipe dos poetas do fado. Príncipe porque o rei dos poetas do fado era, para muitos, Linhares Barbosa. A importância da amizade entre Alfredo Marceneiro e Henrique Rego era tanta que há um capítulo especial na Fotobiografia do primeiro sobre os versos do segundo. A moral da história é esta: não se deve acreditar em tudo o que aparece na Net. Só porque o Nik escreveu não pode o outro atirar-se para a frente e dar este espectáculo triste. Parecido com isto só a história da Alice Vieira que foi a uma escola e quando ouviu um aluno a dizer que ia ler um texto sobre ela não percebeu como era possível o miúdo dizer que ela tinha nascido em Braga, era invisual, tinha sido mãe solteira e outras mentiras. Afinal o miúdo tinha ido à Internet e copiado a biografia da primeira Alice Vieira que lhe apareceu. E nem mesmo o facto de estar à frente da escritora o impediu de dizer aqueles disparates copiados na Net. E a professora não fez nada…

O apagão de Marcelo

O folclórico (ensaio de) movimento que pretende colocar Marcelo Rebelo de Sousa na campanha das Europeias consagra o PS como o motor da política nacional; e Sócrates – e restante equipa de apoio, não esquecer, aspecto espantosamente ainda não tratado pelos publicistas – como um estratega de mão-cheia. O nome de Vital Moreira surpreendeu e, o que importa bem mais, assustou pelo acerto. É daquelas escolhas que tornam evidente o que estava completamente esquecido. É agora evidente que Vital transporta credibilidade pessoal, excelência intelectual e utilidade política para um combate que está revalorizado pelo calendário eleitoral português e contexto internacional de crise. E evidente é que alguns sociais-democratas entraram em modo de clonagem do adversário, querendo exibir anéis e pratas na esperança louca de que ninguém repare no solar em ruínas.

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Um livro por semana 109

«Portuguesas com história» de Anabela Natário

Acaba de sair o mais recente volume desta série, dedicado às mulheres portuguesas do século XX. Ao todo são seis volumes, com início no século X. No campo das letras e das artes as biografias são as seguintes: Fernanda de Castro, Vieira da Silva, Helena Sá e Costa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Beatriz Costa, Maria Judite de Carvalho, Natália Correia, Maluda e Luísa Neto Jorge. Por uma questão de critério ou de espaço outros nomes poderiam figurar (Maria Ondina Braga, Maria Archer, Natércia Freire) mas o importante é sublinhar o facto de haver nestes volumes o «outro lado» da história. A começar pela questão das mentalidades e do papel que a sociedade portuguesa exige que a mulher desempenhe – muito à volta da cozinha, das crianças e da religião. Nesse aspecto concreto é curioso verificar as palavras de Natália Correia sobre o tema «filhos», ela afinal uma mulher que se casou quatro vezes: «A minha maternidade é universal e não biológica». Outras figuras da vida portuguesa como (por exemplo) Virgínia Moura e Catarina Eufémia (acção política), Amália Rodrigues e Cândida Branca Flor (música), Irmã Lúcia (vidente de Fátima), Vera Lagoa (jornalista) ou D. Branca (banqueira do povo), são também biografadas neste volume num total de 30 personalidades da vida portuguesa do século XX. Um olhar bem diferente sobre o tempo português.

(Editora: Círculo de Leitores, Grafismo: António Diogo, Foto sobrecapa: óleo de Amélia de Sousa)

Vinte Linhas 324

O papagaio de Salazar

Agora que se fala muito de Salazar e que há até um filme a passar na TV embora o Salazar namoradeiro que aparece não seja o que me interessa (a mim interessa-me o Salazar do Aljube, de Caxias, de Peniche e do Tarrafal), descobri no alfarrabista «Telles da Silva» o livro de Norberto Lopes sobre a imprensa em Portugal. Chama-se «Visado pela Censura» e foi publicado pela editora «Aster». A história conta-se em breves palavras. No dia 11 de Junho de 1926, na sequência do 28 de Maio, Oliveira Salazar chegou a Lisboa para tomar conta da pasta das Finanças. Norberto Lopes estava no «Diário de Lisboa» e foi à estação de Entrecampos onde entrou no comboio e manteve com o novo ministro uma conversa até ao Rossio mas as respostas foram zero: «Não posso ainda dizer-lhe. Não trago programa. Não tenho ideias a priori sobre aquilo que vou fazer. Sobre a questão dos tabacos por enquanto nada posso dizer-lhe. Ainda é cedo para falar.» Perante a insistência de que havia milhões de portugueses ansiosas pelas suas respostas, Salazar apenas disse: «Os senhores jornalistas são terríveis».

O grande jornalista Norberto Lopes recorda então a célebre anedota do papagaio que um dia foi pedido a um brasileiro que trouxesse para um amigo. Em vez de um daqueles sem papas na língua, o bicho era verde e oiro, parecia ser um palrador de primeira ordem mas nada dizia. «Então o papagaio não fala?» – perguntavam os vizinhos. E logo o dono respondia: «O papagaio não fala, não; mas pensa».

E foi esta anedota inofensiva que o Diário de Lisboa publicou na sua edição do dia 12 de Junho de 1926. Talvez porque a Censura ainda não estava bem oleada.

Vinte Linhas 323

Soube agora que no passado dia 15-11-2008 o jornal ABC no seu suplemento «Las artes y las letras» publicou este poema traduzido por Vicente Aráguas e com uma nota biográfica de Amália Iglésias. Penso que é uma curiosidade para todos nós leitores do «aspirinab» esta revelação. Trata-se de um excelente e bem diversificado suplemento cultural e ter lá uma página é uma coisa agradável que merece ser compartilhada com todos nós.

ATÉ ESSE MOMENTO

Lembrarás então o pai aqui sentado

A máquina de escrever no chão

Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos

Farás promessas que não vais cumprir

E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho

Iluminado pela luz do teu olhar

À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado

Um gelado presente do indicativo

E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio

Será talvez a memória das noites

O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir

Nos desenhos (nos cadernos escolares)

Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado

Não como pai mas como anónima pessoa

Surpresa a esperar no céu do Outono

Terás nas tuas mãos um retrato

O voo das aves por cima da casa

Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos

Num momento ou talvez num lugar

Na tua idade como um portão aberto

Bifes do Rabo de Peixe

Há muitas razões para ir aos Açores, a São Miguel, a Ribeira Grande, a Ponta Delgada, a Rabo de Peixe e a Santana, por esta exactíssima ordenação trajecto-administrativo-geográfica. Mas poucas tão grandes como os bifes da Associação Agrícola de São Miguel. O tour de force responde ao tautológico nome Bife de Lombo “à Associação”, sendo um agregado proteico capaz de saciar 3 pessoas por prato, ainda sobrando duas batatinhas para o dia seguinte. E o supremo encanto do opíparo e singelo repasto está nesta actual loucura de se ter transformado a milenar ingestão de um bife numa aventura reservada a atletas de alta competição com atestado médico e seguro contra todas as ementas. Pois que se reaja, que alguém pegue no garfo e faca e lute contra a apagada e vil tristeza das dietas, contra a tirania do dieteticamente correcto, contra a ignominiosa opressão hipocondríaca. Ide ao Açores, gastai o vosso dinheirinho em disparates e luxos, enchei o pessoal da Associação Agrícola de euros, elogios e abraços (enfim, isto dos abraços já é opcional). E dizei com orgulho que conseguiram comer aquela montanha de carne – apesar da corrupção dos governantes africanos, do imperialismo americano, do Freeport, daquele gajo do PSD que está à frente da CGD e dos malditos judeus.

Lembretes

– Marcelo Rebelo de Sousa na RTP, Vasco Pulido Valente na TVI e José Pacheco Pereira na SIC fazem o pleno no cerco televisivo a Sócrates. Como podem dizer e mostrar o que quiserem, e quando quiserem, vamos admitir que valem pelo que está à vista. Na imprensa, Sol, Expresso, Público e Correio da Manhã, idem, com equipas de dezenas de jornalistas e publicistas em regime de permanente campanha. Nesta paisagem há muita poeira no ar, cães raivosos e a imagem duma caravana já a desaparecer na curva.

– Se o PS encontrar um bom candidato presidencial (por exemplo, uma mulher; a coisa é tão simples quanto isso), Cavaco não será reeleito. Quem apregoa a necessidade de falar verdade, patrocinando campanhas contra o Governo, e depois mantém a confiança política em Dias Loureiro, para além de se deixar humilhar por Jardim, merece ser recambiado.

– Os professores deixaram as palhaçadas. O bigodes amochou. Os Magalhães são um sucesso. A escola portuguesa está muito melhor. Se a guerra civil no ensino acabar, temos muitas razões para ter esperança num futuro de riqueza humana e económica.

– Nenhum partido tem propostas para a reforma do sistema de Justiça. E não há novos partidos na calha. Entretanto, a legitimidade moral da corrupção está entranhada em todas as classes sociais, independentemente da escolaridade e da actividade profissional. De resto, o fenómeno não é nenhum exclusivo nacional, bem pelo contrário. Estão reunidas, pois, as condições para o aparecimento de uma nova geração de portugueses cuja sede de justiça seja a prova mesma da sua inteligência.

– 2009 já só tem 10 meses para dar cabo desta merda toda.

Febre laranja

À medida que Ferreira Leite continua a falar de improviso, vai aumentando a minha admiração e agrado. É um aumento proporcional à enormidade do que vai dizendo. A última é a da febre, onde é impossível resistir à sua fragilidade. Apetece abraçá-la e dizer Pronto, pronto… Já passou, vai lá para o quarto brincar… A senhora não tem a mínima vocação para o cargo e para a inerente responsabilidade, e por isso ressalta ainda mais admirável a coragem e o sacrifício que exibe. É agora óbvio que ela nunca desejou estar nesta posição, só a tendo aceitado por amor ao partido e genuína indignação com o destrambelhamento de Menezes, a ameaça de Santana e o vazio de Passos Coelho.

As qualidades intelectuais, técnicas e políticas que se dizia possuir não desapareceram, vamos acreditar sem dificuldade. Estão é sujeitas ao Princípio de Peter, devendo ser recolocadas no seu devido lugar na primeira oportunidade. A Manela dá uma excelente terceira linha, falando desbocadamente em reuniões internas e aparecendo perante os jornalistas com uma pose hierática e a fluência verbal das pitonisas. Só que agora já sabemos do que a casa gasta, e o totem foi derrubado. Pelo que a senhora tem de encontrar outra carreira, e eu proponho a via da política-espectáculo, onde facilmente arrumaria em popularidade com o Pulido Valente, Pacheco Pereira e Rebelo de Sousa. Porque na Manela há uma fúria destruidora que só uma fêmea consegue apropriadamente representar. É a pulsão genesíaca que tanto pode criar a luz como instaurar o caos, e isto com segundos de diferença. É assim que devemos entender a referência à interrupção da democracia, essa imagem radical que em poucas palavras une a melhor das intenções com o pior dos propósitos. Ou o tau-tau aos deputados, num responso tão sincero como pífio. Ou agora a febre, falhando por completo a razoabilidade e sensatez do que estava em causa, mas transmitindo essa alucinação maternal que faz do Estado e do Governo um assunto de moral doméstica para vizinho não poder botar defeito.

Obviamente, a chefia do PSD é vítima dos males próprios, ninguém na Comissão Política ajudando a senhora nem querendo saber do que lhe acontece. Depois dá nisto: a postura de atacar o Governo, e Sócrates, a propósito de tudo e de nada surge como verdadeira patologia mental. Todos os outros partidos da oposição fazem o mesmo, todos são uma fraude cívica, sim, mas tal decadência generalizada bem que poderia ter sido aproveitada pelo PSD para se regenerar. Portugal teria ficado a ganhar com a existência de uma alternativa ao PS, e com a existência de um terreno de unidade nacional para as grandes reformas.

Também pode acontecer que o PSD seja incapaz de encontrar cura para a febre laranja. Neste momento, não se conhece nenhum remédio. E o delírio vai aumentando.