O Aspirina B está em condições de confirmar que hoje não haverá novo aumento do preço dos combustíveis até à hora de almoço. Também sabemos da existência de condições favoráveis para a manutenção dos preços durante o período da refeição, conhecida a apetência de operadores e especuladores para a comezaina alarve e demorada. A partir das 15h, mais coisa menos coisa, a situação volta à imprevisibilidade usual, podendo acontecer um ou dois novos aumentos ainda antes da hora de jantar. Assim, recomenda-se à população que tenha de viajar de automóvel, em especial no caso de longas distâncias, para se despacharem e saírem já de casa.
Arquivo mensal: Maio 2008
O maior mistério da televisão portuguesa
Não há nada mais misterioso na televisão portuguesa do que a presença de Luís Delgado a botar opinião. Quem é que o convida? Quem é que não se importa? Quem é que finge não ver a miséria intelectual da figura? Foda-se, mas quem é o imbecil, ou grupo de imbecis, que o convida?!… O Luís Delgado é o Pôncio Monteiro do comentário político, um monumento à vacuidade bovina e monocromática.
Como ele próprio afirma na peça, há muita sinuisidade na origem deste mistério.
Poema do centenário
Ainda reinavam os príncipes e os reis
Ainda sorriam as princesas e rainhas
Naquele ano de mil novecentos e seis
Tu Sporting sabias bem ao que vinhas
Vinhas do Campo Grande e de Belas
Para chegar à Europa e a todo o Mundo
Para dar ao Desporto as novas estrelas
Fazendo ouvir o teu grito tão profundo
Dum leão que saltou dos emblemas
Para correr nas pistas e nos relvados
A derrotar opositores e problemas
Que ficam vencidos e ultrapassados
Mesmo nos campeonatos pequeninos
Ouve-se na cabina uma suave melodia
É a música já eterna dos cinco violinos
Não morreu e nasce de novo a cada dia
Continuar a lerPoema do centenário
in-tempestivos
Conversas antigas onde se continua a conversar em Maio de 2008:
«As mulheres são todas parvas» ou a apoteose do equívoco, de 24 de Fevereiro de 2008
Ibéria Según Don José , de 16 de Julho de 2007
Coisas infelizes numa revista chamada Happy, de 10 de Março de 2007
Um new look para o empresário português?, de 9 de Agosto de 2006
Portugal tem as centrais nucleares mais seguras do mundo…, de 20 de Março de 2006
Vinte Linhas 260
Vidas de Sal – fotografias em Rio Maior
Álvaro Carvalheiro, Eduardo Mourato e Tiago Barata são os autores das 44 fotografias em exposição na Casa da Cultura «João Ferreira da Maia» em Rio Maior. A exposição pode ser vista até ao dia 31 de Maio no seguinte horário: aos sábados das 9 às 13h; de segunda a sexta-feira das 10 às 12,30h e das 14 às 18,30h. O edifício fica situado em pleno centro histórico de Rio Maior, perto da Igreja da Misericórdia. Poderia a exposição chamar-se «Cronologia da Paciência» pois nos vem mostrar 44 imagens das tarefas dos salineiros, os pacientes e obscuros administradores do trabalho do sol e do tempo sobre a água salgada. Há nestas fotos das salinas de Rio Maior, Tavira, Castro Marim e Figueira da Foz, o registo sensível do cansaço dos salineiros, o modo como as suas mãos sábias dividem os diversos tipos de sal, as casas e os armazéns com as suas tão especiais fechaduras com chaves de madeira, os seus rodos, baldes, pás e picotas. E também o insólito de um casal de noivos que quis celebrar o seu casamento numa paisagem de sal – quem sabe se à procura de uma inspiração de perenidade (que o sal sempre teve ao longo do tempo) contra as ameaças do terrível efémero que, também nas relações humanas, corrói o tempo que nos é dado viver. Esta belíssima exposição de Álvaro Carvalheiro, Eduardo Mourato e Tiago Barata vale a pena para quem não conhece as salinas (é uma descoberta) mas também para quem já conhece (é uma memória revisitada). Funciona, na sucessão das suas 44 imagens de rigor e de emoção, como um reencontro feliz para quem viveu perto de um tempo em que tudo na vida de todos os dias era mais simples e mais puro porque não era preciso pagar um preço nem pelos beijos nem pelas lágrimas.
Vinte Linhas 261
Crónica de Ouro do Futebol Português – A selecção
Percorrer as 224 páginas deste livro do Círculo de Leitores organizado por Joaquim Vieira com textos de António Tadeia, Bruno Prata, João Querido Manha e Joel Neto, percorrer as suas belíssimas fotografias, muitas delas raras e antigas, é um grande prazer mas também é um sofrimento. Ao lado da luz do ouro a sombra da tristeza está sempre presente. Sempre quer dizer desde 1921 quando nasceu «a equipa de todos nós». A selecção nacional de futebol corporiza o próprio país na sua propensão para o abismo entre «o oito e o oitenta». Em 1928 nos Jogos Olímpicos de Amesterdão os portugueses ganharam às melhores equipas (Chile e Jugoslávia) e perderam com a mais fraca: o Egipto. Os egípcios perderam nos dois jogos da fase final estrondosamente por 6-0 com a Argentina e por 11-3 com a Itália. Em 1966 no Campeonato do Mundo os portugueses ganharam brilhantemente às melhores equipas (Hungria, Bulgária, Brasil e Coreia do Norte) e perderam com a mais fraca: a Inglaterra que só foi campeã graças a uma artimanha de organização e aos favores dos árbitros da final, um suíço e um soviético. A artimanha organizativa consistiu em obrigar os portugueses que estavam instalados em Manchester (e que tinha sido os vencedores do seu grupo só com vitórias) a deslocarem-se para o barulho de Londres num hotel sem condições para uma equipa de futebol quando a Inglaterra tinha ficado em segundo lugar na sua série. Em 2004 no Campeonato da Europa os portugueses ganharam às melhores equipas (Rússia, Espanha, Inglaterra e Holanda) e perderam com a mais fraca: a Grécia, a equipa que apresentou o futebol mais pobre, mais defensivo e mais feio. A sombra da tristeza lado a lado com a luz do ouro.
Para um retrato de Paulinho
Quando nasceu foi-lhe negado todo o carinho
Foi a paixão pelo seu Sporting que o fez falar
Antes soltava pequenos sons mas devagarinho
Hoje ele sabe qual o seu espaço e o seu lugar
Conhece os cantos, balneários e corredores
Todos sabemos que o Paulinho é diferente
Passa sempre o Natal na casa dos jogadores
E é tratado como se fosse mais um parente
Quando nasceu foi-lhe negado todo o carinho
Depois encheu de jogadores a parede imensa
Hoje o grande exemplo de vida do Paulinho
Está nas páginas mais coloridas da imprensa
Da sua vida já percorrida em forte trajectória
Há mais um exemplo a retirar para todos nós
Toda a esperança legítima faz uma memória
Toda a força para lutar e vencer faz uma voz
Sócrates fuma, mas não trava

[toca na imagem para fumar o resto do pacote]
Sócrates fuma e corre, e não trava para dar atenção aos cães que ladram. Acelerou até à Venezuela na tentativa de fazer excelentes negócios, e, de caminho, proteger a comunidade portuguesa, a qual vive numa situação volátil e imprevisível. A josémanuelfernandização da blogosfera exultou com a filha-de-putice da notícia sobre o tabaco durante o voo. Os moralistas saíram à rua de braço dado com os ressabiados, todos com archotes na mão. E assim se confirma que não há fumo sem fogo: a área de neurónios queimados em Portugal é incomensurável, a verdadeira tragédia nacional.
ontem foram as cerejas, hoje bom vento de frente, é só coisas benfazejas a alegrar a vida à gente
À distância de vários quarteirões, em zona urbana, nada nos chega no meio do barulho. A igreja fica num núcleo desenhado por Cristino da Silva sem fazer parte desta arquitectura. É pena. Trata-se duma daquelas igrejas que não convidam o rezador relutante: luzes fluorescentes, excessivas, e arestas finas nos detalhes das superfícies polidas. Não há recortes sombrios, sequer penumbras, nem gradações cromáticas a simularem uma glória luminosa mais clara que o branco.
O padre é um velho rijo que ensinou teologia. Esteve em missões diplomáticas, operações de algum risco ou melindre, e cobranças de promessas terrenas da igreja, relativas à ética de freis-tomás proverbiais. Conversador compulsivo que mistura a cada passo o espírito com a matéria, o sagrado com o pragmático, quase evidencia para o ouvinte distraído das suas dúvidas a existência natural de Deus. Baptizou o meu filho mais novo e por pouco não conseguiu atrair toda a família para as suas homilias.
Era de lá, hoje, que vinha o som. Devem ter usado amplificadores, mas o vento terá ajudado a trazê-lo até à minha janela. Numa tonalidade ancestral, como a melopeia dos amoladores, ou as toadas dos nómadas do deserto a medir as distâncias percorridas, ouço cânticos religiosos. A voz de homem sobe e curva, inflecte e sobe mais um pouco, pausa e declina, mais e mais grave.
As últimas palavras sobressaíram, estranha nitidez. Foi talvez milagre de Fátima a lembrar a primavera. Uma voz de homem ter vindo cantar aos meus ouvidos, baixinho. E a acabar por dizer, no fim de tudo, o nosso amor.
A varanda de Pilatos
(o caso very-light 12 anos depois)
Vinha Rui Mendes em festa
Num bilhete que ele trazia
Uma gente que não presta
Deu-lhe a morte nesse dia
A varanda de Pilatos
É na Praça da Alegria
Visto isso mais os actos
Ninguém faz da noite dia
Ninguém faz a obrigação
Todos fogem dos sarilhos
Há que saber dar a mão
Às mãos frias dos filhos
Ninguém faz o seu dever
Ninguém segue o preceito
As lágrimas duma mulher
Não cabem dentro do peito
Por duas vezes negada
A razão de uma sentença
Eles fingem que não é nada
E dormem na indiferença
Continuar a lerA varanda de Pilatos
PSD – Partido Sem Direcção

Até agora, não há nada que interesse nas eleições para o PSD. A inanidade é tal que chega a ser indiferente o resultado, cada um dos candidatos apostado em provar que nada percebe da realidade que lhe entra pelos olhos; por não ser esta transformada, nos seus neurónios, em projectos políticos relevantes para o País. Há fenómenos assim, onde a imbecilidade é tão frequente num dado grupo que nenhum dos envolvidos tem a distância suficiente para a conseguir detectar.
Entretanto, Portugal transforma-se. Completamente indiferente ao que acontece no PSD, um partido que acabou em 1995.
Fitna – III
Em Fitna – II, apareceu uma ligação para este poste. Trata-se de nova contextualização do filme de Wilders, agora a partir dessa estupidez chamada Schism. Mas o que mais importa está ao lado, lá na página. Estamos no meio de um dos vários movimentos que procuram introduzir racionalidade na religião e cultura islâmicas. A vitalidade destes grupos e personalidades parecerá chocante àqueles que permanecem apavorados — e, portanto, enlouquecidos — pelo terror islamita. Mas é verdade: afinal, há muitos que arriscam combater a patologia e a maldade apenas com palavras de paz. A sua coragem rivaliza com a sua lucidez.
O comentário de robito, o último ao tempo em que escrevo, é lapidar. Porque expressa, sumária e simplicissimamente, uma visão democrática e secular sobre o fenómeno religioso; naquilo que se constitui como exemplo de uma posição que representa o actual paradigma civilizacional, onde as religiões têm de se circunscrever à esfera individual e submeter ao primado da liberdade. Só por ele, vale a viagem.
Academia
(poema – autógrafo para Domingos Matos)
Muitas vezes vou cedo chego primeiro
Com a fábrica de sonhos inda fechada
Ainda a relva tem a água do nevoeiro
Ainda a terra tem a frescura da geada
Chego cedo para ter tempo e perceber
A voz da terra que sobe com lentidão
Para respirar a sua postura de mulher
Em sementeiras de ternura e de paixão
Muitas vezes vou cedo chego primeiro
Aqui tudo tem mais peso, mais verdade
Nesta terra nascida dum gesto pioneiro
Secar pântanos para fazer uma herdade
Aqui se fazem as melhores sementeiras
De tudo o que é grande e é mais puro
A escola não tem muros ou fronteiras
Os alunos conjugam verbos no futuro
Valupi passeia na PARQ
A revista PARQ ainda só vai no quarto número. A estultícia da sua juventude explica o fenómeno: estreia de Valupi fora da blogosfera, e até em papel. A ocasião (singular) é relativa ao Festival OFFF, o qual começou hoje.
Quem sabe, pode ser que descubram um excelente veículo editorial, a revista, e conheçam um pouco mais da vanguarda digital, o festival. Ou, pelo menos, que apreciem a ideia brilhante, que os amigos da PARQ tiveram, para usar a Internet na promoção da revista: basta entrar no website e ficamos a vê-la, as páginas a passar, mas sem nada se ver afinal, mesmo que tudo esteja à mostra. Tão simples, tão inteligente, tão chato não ter sido eu a ter essa ideia.
Pixelated
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Nick Gray* assina a peça. E um imbecil qualquer assassina-a sem piedade, com o seu tag imbecil. Um caso em que o pixelated é fodido pelo pixilated.
[clientes que gostam desta obra também se deleitaram com esta]
* Graças à investigação da Susana, impõe-se correcção.
Fernando Ferreira
Desenhas devagar um quadro no relvado
Com toda a geometria que te fôr precisa
Para levar o som da tua voz a todo o lado
E a bola a entrar tão veloz na outra baliza
No corpo da equipa tu és um forte pulmão
Não tens anidrido mas sim oxigénio puro
Nos teus pés nasce um projecto de canção
Escrita na pauta para ser cantada no futuro
Chamar canção à festa não é nada exagerado
Nos abraços de cada golo nasce uma melodia
Que chega ao meu ouvido onde estou sentado
Que toca quem ouve o resultado na telefonia
Se esta equipa fôr um comboio de passageiros
Tu só podes ser o seu mais activo maquinista
Que não quer ver comboios lentos e ronceiros
Nesta planície onde os sonhos estão ali à vista
poesia esférica
Já lhe chamam, no éter, o poeta do futebol. O nosso José do Carmo Francisco é uma espécie de arquivo falante do futebol português e faz gala disso. Autor de um livro com um título maravilhoso, Os Guarda-redes Morrem ao Domingo, jornalista desportivo, peca por uma certíssima parcialidade no respeito ao amor clubístico: o Sporting.
Aqui no Aspirina tem-nos deliciado com os seus poemas: insólitos na métrica e na temática. Cobre, sem dúvida, um nicho de mercado com muita cache e cachet. Ali abaixo o entusiasmo foi grande. Compareceram machos fadistas e a desgarrada é viciante. Contagia, e não fiquei imune. Deixo agora, aqui, o meu agradecimento pela animação que tem gerado.
A view of HAL 9000’s central core in the Discovery
Paulo Teixeira
Nos juniores tu eras sempre o capitão
Depois na equipa B tinhas a braçadeira
Hoje sei que jogas futebol em Portimão
Porque leio A BOLA de segunda-feira
Corri o país para escrever no meu jornal
Fazia as crónicas e a notícia pequenina
Eras tu que me falavas sempre no final
Mas em nome de toda a equipa leonina
Foste o melhor em campo várias vezes
Tal como já tinhas sido vestido de leão
Em Santarém nos Sub-21 portugueses
Fazias toda a ala direita dessa selecção
Ainda hoje não percebo este mistério
Que te afastou para longe de Alvalade
Tu continuas a jogar e sempre a sério
A encher os teus domingos de verdade
Gargalhai-vos
Como seria a vidinha se começássemos o dia a rir uns com os outros? Seria uma bebedeira de inteligência. É que isto de rir é assunto sério.